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folktale:graal:buescu:1.4

1.4 Robert de Boron

Maria Gabriela Carvalhão Buescu. Perceval e Galaaz, Cavaleiros do Graal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1991

1. Por volta do ano 1200, um pouco depois da composição de Perceval por Chrétien de Troyes, surge um grupo de textos em torno do nome de Robert de Boron, convencionado como o ciclo de Boron, admitindo geralmente os arturianistas ser ele originário da Borgonha, embora Jean Marx sustente que viveu na Grã-Bretanha, e compõe ele uma trilogia de contos do Graal chamada Li Livres dou Graal, cuja grande inovação, segundo Jean Marx, está em apresentar uma tradição pagã já enquadrada no Cristianismo, tendo tomado contato com as tradições das abadias de Fécamp e de Glastonbury e apresentando uma versão não só cristã mas eclesiástica da lenda do Graal, ligada a José de Arimateia e ao primeiro apostolado cristão na Grã-Bretanha, sendo o Graal identificado com a taça da Ceia e com o vaso onde foi recolhido o sangue do Cristo crucificado.

2. Rodrigues Lapa já assumira posição definida e concordante com as posições mais recentes, afirmando que por volta de 1200 se operou em França, na região de Champagne, vasta refundição da novelística bretã, subordinada agora a um fito sistematicamente religioso, cujo autor, feito primeiramente em verso, foi um cavaleiro francês de Montbéliard, Robert de Boron, em ligação com os meios britânicos, sendo ele quem dará feição cristianizada à lenda do Graal, que, no entanto, adquirirá sua mais marcada feição mística com o chamado Ciclo da Vulgata, a que adiante se fará referência.

3. Nessa refundição substancial e cristianizada da lenda, lembra Rodrigues Lapa, foi sem dúvida indispensável o papel representado pelo poderoso mosteiro de Glastonbury, na região de Gales, aliás identificado por alguns com Avalon.

4. A trilogia de Boron inclui o Joseph ou Le roman de l'Estoire dou Graal, primeira parte em que se narra a história propriamente dita do Graal, taça em que José de Arimateia recolhera o sangue de Cristo e que teria sido usada na Última Ceia, e o Livre de Merlin, segunda parte da qual apenas subsistem 502 versos e a propósito da qual Pierre le Gentil alega parecer interrompida a meio do discurso, usando Boron como principais fontes a Historia Regum Britanniae e a Vita Merlini de Geoffrey of Monmouth e aludindo às profecias do mago Merlin da corte do rei Artur.

5. A terceira e mais importante parte da trilogia é o chamado Didot-Perceval, em que são narradas as aventuras de Perceval até conseguir atingir o Graal e a subsequente destruição de Artur e de seu reino, estando essa parte relatada em prosa, ao contrário das duas primeiras, escritas originalmente em verso e depois refundidas também em prosa.

6. Em vários passos de Joseph existem diferenças e semelhanças com o poema de Chrétien, e, segundo Le Gentil, não se pode ter certeza de que Boron conhecesse a obra de Chrétien, referindo-se esse estudioso, a título de exemplo, ao mesmo centro de interesse, o Graal, embora em ambos os textos tivesse diferentes funções, pois, tanto num como noutro, o Graal constitui um vaso sagrado guardado na Bretanha, mas, enquanto para Robert de Boron o vaso contém o sangue precioso de Cristo, para Chrétien é o receptáculo da Sagrada Hóstia que fornecia o alimento necessário ao rei doente e o mantinha vivo, além de que Robert de Boron não menciona a lança e não fornece qualquer indício de que o terceiro guardião do Graal seja um cavaleiro da Távola Redonda de nome Perceval, dizendo Pierre Le Gentil a esse respeito que, se de fato Robert conhecia o poema de Chrétien, deve tê-lo achado insatisfatório e se sentido obrigado a fazer mudanças drásticas.

7. Le Gentil acrescenta, à laia de questão, o que poderia ter dado a Robert a ideia de ligar a evangelização da Bretanha à transferência do Graal para o Ocidente, referindo-se à parte controversa existente em torno das fontes que serviram de base ao Joseph de Robert de Boron, alegando que os monges de Glastonbury provavelmente nem teriam ouvido, nessa época, falar do Graal ou da missão evangelizadora levada a cabo por José de Arimateia.

8. Quanto à segunda parte, o Merlin, como já é sabido, sobreviveu apenas como fragmento e, contrariamente ao que acontece na primeira parte, não contém em si contradições.

9. Essas duas partes são seguidas de uma terceira, o denominado Didot-Perceval, assim chamado em virtude de o nome do possuidor do primeiro manuscrito ser Didot, e, ainda segundo Le Gentil, o problema da autoria do Didot-Perceval é bastante complicado, tendo numerosos especialistas se debruçado sobre o assunto, considerando Brugger e Roach a questão de forma simplificada e propondo uma teoria equacionável nos termos de que, como o texto se encontra precedido pelo Joseph em prosa e o Merlin em prosa e estes mantêm entre si laços estreitos, então também o Didot-Perceval deveria ter a mesma origem, compreendendo esse texto, homogêneo na sua essência, duas composições distintas, o Perceval e a Mort Artu, de modo que todos esses textos teriam sido concebidos por Robert de Boron sob a forma de uma tetralogia, compreendendo além do Joseph e do Merlin um Perceval e uma Mort Artu, também em verso.

10. Quanto à possível data de redação dessa tetralogia, mais concretamente de sua prosificação, situar-se-ia entre 1190 e 1212, ou seja, pouco depois da composição em verso do Joseph, datado possivelmente de 1200.

11. Embora Le Gentil insista em dar-lhe o nome de tetralogia por distinguir, como visto, no Didot-Perceval duas composições, o Perceval e a Mort Artu, considera-se geralmente o conjunto dos textos de Robert de Boron como uma trilogia, aglutinando os referidos dois textos no chamado Didot-Perceval.

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