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Italo Calvino

Cavaleiros do Graal

CALVINO, Italo. Mundo escrito e não escrito. São Paulo: Companhia Digital, 2014.

O final do ciclo arturiano apresenta duas mãos que simbolizam os dois aspectos das lendas do ciclo bretão: a simbologia cristã e o paganismo druídico.

  • Quando o rei Artur está prestes a morrer, ordena que sua espada mágica Excalibur seja lançada ao fundo de um lago, para que nenhuma mão indigna se aposse dela.
  • O fiel Girflet não tem coragem de fazer isso com a espada real: por duas vezes finge lançá-la no lago, mas na verdade a esconde e joga na água antes a própria espada e, depois, a bainha.
  • Finalmente Girflet se decide a obedecer, mas, antes que a espada toque a água, do lago emerge uma mão, um braço (mas o corpo a que pertencem não se mostra), e a mão agarra a espada pela empunhadura, brandindo-a no ar e desaparecendo no fundo das águas.
  • No final da “Demanda do Santo Graal” também aparece uma mão sem que se veja a quem pertence, mas esta desce do céu para agarrar o Graal e levá-lo consigo para as nuvens.

A definição de aventura e o contexto do romance medieval

  • Segundo a definição de Leo Spitzer, “a aventura é uma situação singular, extraordinária, imprevista, que vem de fora do homem, que ‘acontece’ e precisa ser superada por ele com coragem e argúcia, numa vitória que representa uma prova moral de si mesmo”.
  • No romance medieval de cavalaria o termo “aventura” aparece reiteradamente e às vezes com significados mais amplos, extrapolando da experiência individual para se tornarem situação excepcional de um lugar, ou de um objeto, ou de uma série de fenômenos.
  • “Após a morte do rei Uther Pendragon, pai do bom rei Artur, os homens valorosos foram deserdados, empobrecidos, arruinados injustamente, suas terras devastadas…”

As origens históricas e o simbolismo da Távola Redonda

  • A poesia épica se nutre mais do páthos da derrota que do páthos da vitória, o que confirmaria as hipóteses sobre as remotas origens históricas das lendas acerca do rei Artur.
  • Quanto às origens da Távola Redonda como objeto, tanto a tradição galesa quanto a irlandesa e a bretã afirmam que Artur a mandou construir para que nenhum de seus barões pudesse vangloriar-se de um posto mais privilegiado que os outros, um símbolo de igualdade.
  • As tradições cristãs fixam em doze o número de lugares, mais um vacante: a Távola Redonda como réplica da mesa da Última Ceia e da primeira mesa eucarística de José de Arimateia.
  • O círculo também é símbolo de totalidade cósmica, ligado ao culto solar (e lunar), sendo característico não apenas dos objetos mágicos, mas também da arquitetura na civilização céltica primitiva.

A obra de Chrétien de Troyes e o Percival

  • A fortuna do ciclo romanesco se inicia com um poeta do século XII: Chrétien de Troyes, sendo difícil encontrar no mercado boas edições do texto original porque o francês medieval só é lido por especialistas.
  • Acaba de sair em italiano uma boa tradução em prosa de Angela Bianchini de dois romances de Chrétien e de vários outros textos do ciclo bretão no volume “Romanzi medievali d’amore e d’avventura” (Garzanti), cujo prefácio de Leo Spitzer provém do trabalho para essa edição.
  • A obra-prima de Chrétien é o “Percival”, em que o personagem infantil é traçado com humor surpreendente nos diálogos e no comportamento, na ingenuidade selvagem que o torna invencível, cujo desenvolvimento é seguido por meio de um autêntico percurso iniciático.
  • A literatura cavaleiresca nasce e morre com dois casos de loucura sublime: Percival e Dom Quixote.
  • Percival toma tudo ao pé da letra: primeiro os conselhos da mãe; depois, os do bravo homem que o arma como cavaleiro, sendo ao mesmo tempo um desajeitado e uma força da natureza, mas também um puro, um iluminado.

O mistério do Graal e as interpretações

  • A visita de Percival ao castelo do Rei Pescador é cheia de mistérios, e o romance incompleto não explica nada, gerando toda uma biblioteca de “continuações” em várias línguas.
  • A continuação mais elaborada é a versão mística de Robert de Boron, em que o graal se torna o Santo Graal, o cálice em que Jesus bebeu na Última Ceia e no qual seu sangue foi recolhido por José de Arimateia.
  • É provável que a simbologia do graal também remonte a rituais celtas referentes ao ciclo da vegetação e da fecundidade, como muitos estudiosos modernos interpretaram, sendo a ferida do Rei Pescador textualmente “no meio das pernas”.
  • O falecido pai de Percival sofrera uma ferida semelhante à do Rei Pescador, e depois Percival encontra uma prima que lhe revela uma relação de parentesco com aquela dinastia infeliz.

A interpretação de Jacques Roubaud e a conclusão

  • Apenas em anos recentes um poeta, que é também matemático, Jacques Roubaud, conseguiu formular uma proposta de árvore genealógica que associa Percival ao Rei Pescador, revelando uma hipótese inédita de explicação do segredo.
  • No centro de tudo há um incesto, aliás, uma série de incestos, filho-mãe e pai-filha (ao passo que um incesto irmão-irmã está na origem dos problemas familiares do rei Artur).
  • O livro de Roubaud (“Graal Fiction”, Gallimard, 1978) é tão cheio de imaginação e erudição, com ideias que vão da interpretação de um adivinho galês, em que caçadores (nobreza guerreira derrotada) são sucedidos por pescadores (guerrilha popular), à do graal como livro.
  • A ideia central é que, por intermédio de Bleddri, ou Blaise, bardo galês do século XI, a cultura celta encontra o caminho de sua sobrevivência inserindo-se no berço da poesia provençal, do amor cortês, do idealismo cavaleiresco.
  • Carregada desse fermento subversivo, a “matéria de Bretanha” chega até Dante, para quem o romance de adultério na corte do rei Artur é o que move os olhos e empalidece os rostos de Paolo e Francesca, até o beijo das bocas trêmulas que decide os destinos da literatura ocidental.
16/05/2026 19:45
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