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7 Graal como vaso

JUNG, Emma; FRANZ, Marie-Luise von. The Grail legend. London: Hodder & Stoughton, 1971.

O símbolo central da lenda: o Graal como vaso

1. No domínio materno do inconsciente, que é o reino do Graal, Perceval encontra não a mãe pessoal, mas a mãe sub specie aeternitatis, a imagem primordial da mãe, o vaso maravilhoso, símbolo tão evidente do feminino e, como aquilo que recebe, contém e sustenta, do materno em particular, tratado em detalhe por Jung em Símbolos da Transformação, e que, despojado do pessoal e visto como objeto, representa não uma realidade humana, mas uma ideia, uma imagem primordial de significado universal presente em inúmeros mitos, lendas e contos de fadas.

2. O significado simbólico do vaso remonta aos tempos mais antigos e constitui uma concepção arquetípica, uma das primeiras manifestações da cultura dotada de caráter mágico e numinoso, como na lenda contada por Heródoto sobre Targilau, ancestral dos citas, em cuja presença caem do céu quatro objetos, um arado, um jugo, um machado e uma taça, que ardem em fogo quando os dois filhos mais velhos tentam tomá-los, mas se apagam diante do mais novo, que os leva para casa e é reconhecido rei de toda a nação, quatro objetos que distinguem o herói cultural e possuem qualidade numinosa.

3. A frequente atribuição ao vaso do poder de dar ou manter a vida compreende-se pela extrema importância que teve para o homem primitivo possuir um receptáculo para transportar ou guardar a água, substância vital por excelência, e, sendo os arquétipos, segundo Jung, predisposições inatas ao comportamento humano em certas situações de vida e à apreensão de seu sentido, a imagem do vaso pode corresponder a um padrão, possibilidade inerente à psique de encontrar ou produzir um vaso e descobrir seus usos.

4. Em quase todas as mitologias existe um vaso miraculoso que ora dispensa juventude e vida, ora possui poder de cura, ora contém força inspiradora e sabedoria, como o caldeirão de hidromel do nórdico Ymir, e frequentemente, sobretudo como panela de cozinha, opera transformações, atributo pelo qual alcançou excepcional renome como vas Hermetis da alquimia.

5. Lendas celtas apresentam vasos mais ou menos próximos da história do Graal, como o caldeirão de Dagda, um dos quatro tesouros dos semidivinos Tuatha Dé Danann, capaz de alimentar um exército sem se esvaziar, o caldeirão mágico de Bran, em que os mortos ressuscitavam perdendo apenas a fala, o de Caridwen, com bebida de sabedoria e inspiração semelhante ao nórdico Sinnreger, o de Tyrnog, que não cozinhava a carne do covarde mas cozia de imediato a do bravo, e o cesto de Gwyddno Garanhir, um dos treze tesouros da ilha da Bretanha, que, recebendo alimento para um homem, continha sustento para cem, para J. Rhys o paralelo mais próximo do Graal, espécie de cesto ou arca cujo nome significa também medida e se aparenta ao córnico muis, mesa, ao irlandês mias, travessa em que jazia a cabeça de João Batista, e ao latim mensa, sentido estreitamente ligado ao do Graal, cesto que teria desaparecido com Merlim ao retirar-se em sua casa de vidro na ilha de Bardsey, enquanto para Loomis o modelo original do Graal seria um corno da abundância irlandês, por confusão entre cor, corno, e cors, corpo.

6. Um poema do bardo galês Taliesin, o Preiddeu Annwn, Os Despojos do Mundo Subterrâneo, descreve a viagem de Artur a Annwn e o roubo de um vaso em muitos aspectos sugestivo do Graal, o caldeirão do mundo inferior em Caer Pedryvan, que gira quatro vezes, aquecido pelo sopro de nove donzelas, com borda circundada de pérolas, que não cozinha carne para o covarde nem para o perjuro, contra quem se ergue uma espada reluzente, junto à porta do qual ardia a lâmpada quando Artur empreendeu a esplêndida aventura de que apenas sete retornaram.

7. A borda guarnecida de pérolas lembra o Graal cravejado de pedras, também cuidado por jovens mulheres, e esse vaso tampouco permitia aos indignos participar de seus efeitos benditos.

8. Convém um breve exame dos significados da palavra graal, das formas que o vaso assume e das peculiaridades que lhe são atribuídas nas diversas histórias.

9. O cronista Helinando remonta a palavra ao latim gradale ou gradalis, prato ou travessa funda, e o dicionário etimológico de F. Diez registra o francês antigo greal e grasal, o provençal grazal e o catalão antigo gresal, vaso, taça ou tigela de madeira, barro ou metal, termos ainda usados no sul da França para diversos recipientes, como o francês grassale, bacia, e o dialetal grasal, enquanto R. Bezzola o equipara a garalis, citando um testamento imperial de 873 que menciona garales de prata com duas colheres, P. Borel o deriva de grais, porque tais vasos seriam de barro cozido, ou grès, e Diez, considerando isso improvável, prefere derivá-lo de crater, no latim medieval cratus, de onde viriam cratalis, o provençal grazal e o francês graal, opinião recentemente partilhada por H. e R. Kahane e C. Gossen.

10. A discutível derivação de Borel a partir de grès, pedra, segue uma associação de ideias mitológicas, pois em Wolfram o Graal é uma pedra vinda do céu, lapsit exiliis, entendida como lapis elixir ou lapis exilis, pedra pequena, inferior e discreta, e grès liga-se a grêle, granizo, e grésil, geada, pedra redonda e branca vinda do céu que lembra o maná e a hóstia trazida ao Graal a cada Sexta-feira Santa para renovar seu poder nutritivo, enquanto grêle corresponde também a exilis por significar magro e fino, e outra interpretação, citada por Helinando como popular, deriva graal ou greal de gratus, agradável, e gratia, graça, favor, recompensa, como o francês agréable de gré, desejo, sentido repetidamente atestado nas próprias obras, como no José de Arimateia de Robert de Boron, que diz chamar-se com razão Graal porque ninguém o vê sem que lhe agrade.

11. No Perceval de Didot, o vaso é chamado Graal porque agrada aos homens de valor, na Estoire du Saint Graal do ciclo do Lancelot-Graal Nascien declara completos todos os seus pensamentos por ver aquilo que está em todas as coisas, e no poema Merlin todos chamam Graal o vaso do qual recebem essa graça.

12. Apesar da avaliação depreciativa dessa derivação, dita popular por Helinando e trocadilho por Nutt, ela convém bastante, pois o Graal é objeto de desejo e dele procedem efeitos de graça, caráter de desejo particularmente claro em Wolfram, em que, da hóstia depositada pela pomba sobre a pedra a cada Sexta-feira Santa, esta extrai todo bom aroma de bebida e alimento da terra, semelhante à perfeição do Paraíso, e cada um encontra diante do Graal o que deseja, alimento quente ou frio, pratos novos ou antigos, carne doméstica ou de caça, e em sua taça qualquer bebida que nomeie, suco de amora, vinho ou sinopel vermelho, tudo pelo poder do Graal, de quem a nobre companhia era hóspede.

13. O Graal é assim uma verdadeira mesinha mágica que se põe sozinha, um corno da abundância, objeto ou vaso de desejos que aparece nos contos de fadas como panela, cesto, taça ou toalha, e a ligação de gratum, gratia e graça com a relíquia cristã é evidente e condiz com sua concepção como relíquia, enquanto outra derivação, certamente incorreta, equipara san greal a sang real, sangue real, isto é, o sangue de Cristo que o Graal conteria.

14. Outra explicação, defendida por P. Paris, entre outros, atribui o nome à inclusão original da história num gradual, livro litúrgico que continha o hino assim chamado, embora a derivação evidente e bem atestada de gradale, travessa, pudesse bastar, não fosse próprio da natureza do vaso suscitar continuamente novas associações de sentido, o que se reflete na linguagem, em que palavras se apresentam como aparentadas ou pertinentes e, mesmo sem prova científica, indicam de modo satisfatório para o sentimento a ambiguidade do objeto e iluminam suas múltiplas facetas, sinal de que se trata não de mero vaso, mas de símbolo.

15. Segundo W. Hertz em Die Sage von Parzival und dem Gral, a palavra Graal mudou de sentido com o tempo, aparecendo em cantos religiosos e Minnelieder como designação do valor supremo, com Maria comparada ao Graal, Deus chamado o Graal mais alto, a amada descrita como Graal do coração por Reinmar von Zweter e a mulher pura como Graal a ser conquistado, e assumindo progressivamente o sentido de banquete e divertimento, como no jogo de torneio sobre Frau Feie apresentado em Magdeburgo por volta de 1280, com um acampamento chamado der Gral, na grande festa popular de Brunswick realizada a cada sete anos até 1481, no verbo grålen, gritar ruidosamente, e no alto-alemão quinhentista gralisieren ou kralisieren, fazer alegre algazarra, com o substantivo Krales e a expressão ir ao Grals para designar ir a uma festa, tornando-se o Graal também lugar de prazer na poesia religiosa, como numa antiga oração de Bremen em que as onze mil virgens dançam no Graal celeste diante da Virgem Maria.

16. Pouco a pouco a palavra assumiu um matiz mais duvidoso, como quando o cronista holandês Veldenaer, no fim do século XV, registra que o Cavaleiro do Cisne, Lohengrin, viria do Graal, antes tido como Paraíso terrestre, mas na verdade lugar pecaminoso em que se entra e de onde se sai por altas aventuras e boa sorte, ou quando um cronista de Halberstadt o faz vir da montanha onde Vênus vive no Graal, à semelhança da lenda da montanha de Santa Bárbara perto de Pozzuoli, onde homens e mulheres enfeitiçados dançariam e se entregariam à luxúria até o Juízo Final, e no século XVI lenda e palavra desapareceram do uso popular alemão, registrando o dicionário de Frisch de 1741 apenas um antigo jogo representado com danças e gritos, o que justifica a afirmação de F. Locke de que o símbolo do Graal é uma imagem arquetípica de significado polivalente.

17. Assim como a palavra é ambígua e cambiante, também o Graal e os acontecimentos a ele ligados variam, com uma proliferação de fantasia incansável em novas combinações, semelhante à profusão de ornamentos, flores, animais, santos e monstros das catedrais góticas, diversidade de estilos e modificações que atestam uma vida psíquica própria do material, irredutível a um padrão fixo, e em Chrétien aparece como um graal, não o Graal, designação de um tipo de vaso, de ouro puro, cravejado de pedras e de luz tão intensa que ofusca as velas.

18. Não se diz claramente em Chrétien que o Graal fornece alimento, apenas que passa descoberto a cada prato diante dos comensais, enquanto em outras versões alimenta os presentes e, na visita de Gauvain ao castelo, chamado le riche Graal, circula pela mesa servindo comida sem ser carregado por ninguém.

19. Nas continuações posteriores dos romances de Perceval e na maioria das outras obras, o Graal é expressamente o vaso usado por Cristo na Última Ceia, depois em posse de José de Arimateia, e também nas versões de inclinação mais religiosa fornece alimento, nutrindo e consolando milagrosamente José na prisão e depois em suas peregrinações com a família.

20. Na Queste del Saint Graal, o Graal surge maravilhosamente em Pentecostes, quando Artur se senta à ceia com seus cavaleiros, após um trovão e um raio de luz brilhante, coberto de veludo branco, sem que ninguém o carregue, enchendo a sala de agradável fragrância e servindo a cada um, ao circular pela mesa, o alimento que deseja.

21. Em Diu Crône de Heinrich von dem Türlin, o Graal é um relicário com um pedaço de pão, do qual um terço é oferecido ao Rei do Graal, e menciona-se ainda um toblier, provavelmente um copo, com três gotas de sangue, alusão inequívoca ao sacramento eucarístico, que se torna explícita nas obras declaradamente religiosas, em que o Graal, chamado le Saint Vaissel, é o vaso da missa, cálice ou cibório, e o serviço do Graal a própria missa, e em Chrétien Perceval sabe pelo eremita que o Graal contém a hóstia que alimenta o velho rei, pois do vaso com o sangue de Cristo ao cálice da missa há apenas um pequeno passo.

22. No Perlesvaus, Artur assiste a um serviço do Graal celebrado por eremitas numa época em que não havia cálice em seu reino, e no mistério da missa o Graal aparece em cinco formas que não podem ser nomeadas senão por quem a graça divina habilita a falar do sacramento, a última das quais um cálice, enquanto o eremita encontra no corporal uma carta declarando ser vontade de Deus que seu corpo fosse consagrado em sua memória naquela taça, e, assim como a veneração do sangue de Cristo tocava reações emocionais profundas e arcaicas, também o símbolo do vaso que o preserva causava impressão igualmente profunda, conforme a concepção arquetípica, enraizada na Antiguidade e no Oriente, de que a substância anímica se conserva num vaso funerário, como entre chefes africanos cujos fluidos cadavéricos, recolhidos num saco de couro e enterrados à parte como especialmente santos, dariam origem ao animal que encarna a alma do rei falecido, ou nos ritos egípcios em que as partes corruptíveis do faraó eram guardadas em quatro vasos canópicos com tampas em forma das cabeças dos quatro filhos de Hórus, agentes da ressurreição de Osíris, ele próprio mais tarde representado como receptáculo de cabeça humana, de modo que o vaso parece conter a substância anímica mágica do deus, sentido que se pode atribuir também ao Graal.

23. O vaso com o sangue de Cristo é um símbolo de surgimento absolutamente espontâneo e motivo principal da história, como se contivesse o resto vivo de Cristo e sua substância anímica, elemento que torna possível uma continuação mística de seu ser, o que não permite descartar uma ligação com o mito de Osíris, sugerida pela Lenda da Abadia de Fécamp, em que Nicodemos raspa com uma faca o sangue seco das feridas de Cristo e o esconde numa luva, depois num pequeno cilindro de chumbo ocultado no tronco de uma figueira, que, diante de uma invasão iminente de Sídon e por ordem divina, ele confia ao mar, sendo levado ao Ocidente e lançado à costa da Normandia perto de Fécamp, onde volta a enraizar-se e a brotar, e onde, pelas influências notáveis emanadas do lugar, se fundam uma igreja e depois um mosteiro, antes mesmo da descoberta do sangue oculto.

24. A semelhança dessa história com a lenda do Graal é notável, não só nos detalhes, mas porque em ambas o vaso com o sangue sagrado permanece longamente oculto e só é notado por seus efeitos estranhos, e a versão de Fécamp lembra claramente o mito de Osíris narrado por Plutarco, cujo caixão chega à costa de Biblos, na Fenícia, terra de origem da figueira, e é envolvido por uma urze que cresce à sua volta, o que torna provável a sobrevivência de traços desse mito na história do Graal ou, ao menos, a manifestação do mesmo arquétipo, e o aspecto do Graal como sepulcro é muito claro em Robert de Boron, pois, enquanto na versão latina do Evangelho de Nicodemos Cristo, aparecendo a José na prisão, o conduz ao túmulo para provar que é o salvador, aqui lhe entrega a taça, sugerindo que o Graal equivale ao sepulcro, ponto em que a história diverge do Evangelho, numa época em que a ideia do Santo Sepulcro comovia profundamente os ânimos e conferia força inflamada às cruzadas, cujo objetivo central era libertá-lo dos pagãos, tarefa literal que gradualmente se tornou também meta interior, como elucidou brilhantemente Helen Adolf, ao mostrar também o Santo Sepulcro como lugar do mistério da ressurreição e por isso especialmente numinoso.

25. Em todas as épocas e terras os túmulos sagrados foram venerados pelos efeitos benéficos emanados dos restos neles sepultados, mas o sepulcro de Cristo difere por ter ficado vazio com a ressurreição e por sua autenticidade incerta, pois, entulhado e ocupado por lugares de culto pagãos, só teria sido encontrado por milagre trezentos anos depois, quando Constantino mandou escavá-lo, e se mesmo assim foi considerado o objeto de devoção mais importante da cristandade, é porque por trás da realidade concreta se ocultava algo maior, um símbolo ou uma ideia ligada ao grande enigma da morte, que sempre ocupou o espírito humano, como atestam as ideias associadas ao túmulo, sua expressão visível e duradoura.

26. O culto dos túmulos é uma das mais antigas manifestações da convicção religiosa, presente em quase todos os povos e estágios culturais, com grande importância dos túmulos de santos na China, na Índia e no Tibete e com o túmulo do Profeta como lugar mais santo do islã, e desempenha papel relevante também na superstição popular, que lhe atribui os mais diversos poderes mágicos, e nos contos e lendas, como na versão alemã da Gata Borralheira, em que o túmulo da mãe realiza desejos e da árvore que nele cresce caem belas roupas ou maçãs de ouro, sendo a sepultura vista em geral como morada do morto, de onde ele ou seu espírito continua a agir, assim como os Tuatha Dé Danann se retiraram para os túmulos de onde por vezes aparecem aos homens, e todo altar católico consagrado, por conter relíquias, é também túmulo, frequentemente em forma de sarcófago.

27. Como o vaso, o túmulo tem significado materno, pois a mãe é não só lugar do nascimento, mas também, como Mãe Terra, aquela que recebe de volta os mortos, sendo a imagem primordial da mãe adequada a esse duplo aspecto de vida e morte, ambos presentes no Graal, que dá alimento, bebida e vida e é também morte e sepulcro, mistério do vir a ser e do deixar de ser ligado à imagem materna, o que explica a vinculação dos mistérios centrados nesse processo ao culto de deusas-mães como Deméter e Ísis.

28. O grande mistério da morte e ressurreição do deus é também centro da religião cristã, em que pelo sacrifício de Cristo o fiel tem assegurados a remissão dos pecados, a ressurreição e a vida eterna, segundo a ideia tão antiga quanto a humanidade de que o sacrifício, sobretudo sangrento, produz nova vida, de modo que o poder vivificante do Graal é duplamente condicionado, por seu significado materno e pelo sangue sacrificial que contém, e o destaque do vaso como túmulo, sobretudo de Cristo, deve-se a ter sido o lugar da misteriosa passagem da morte à vida, assim como o cálice eucarístico é o lugar do inefável mistério da transubstanciação, eternamente renovado na missa como o ritmo incessante de vida e morte, ideia do cálice como túmulo de Cristo familiar à Idade Média, como em Honório de Autun, para quem o diácono, ao elevar o cálice, cobri-lo em parte com um pano e depois com o corporal, representa José de Arimateia, que desceu o corpo da cruz, cobriu-lhe o rosto com o sudário, o depôs no túmulo e o fechou com uma pedra, significando o corporal o lençol, o cálice o sepulcro e a patena a pedra que o fechava.

29. Na história, o vaso do Graal é prefiguração do cálice e o serviço do Graal semelhante à missa, mas dela difere porque não ocorre sacrifício, mas outra transformação, já que o vinho não precisa ser transubstanciado por estar o sangue sacrificial já no vaso, nem há claramente um mistério de morte e ressurreição, embora a assunção da responsabilidade pelo Graal por Perceval possa indicar uma renovação do Rei Pescador, que morre após instalar o sucessor, e nesta como na maioria das versões o rei enfermo sara e se transforma inteiramente assim que Perceval faz a pergunta, morrendo três dias depois.

30. Essa interpretação parece superficial, pois a renovação em que o filho ocupa o lugar do pai é natural e conhecida demais para exprimir a transformação do mistério da ressurreição, o que exige examinar outro aspecto do túmulo, não apenas lugar de transformação e ressurreição, mas estado de estar morto ou sepultado, em que a vida desapareceu e está oculta, conduzindo à antiquíssima ideia do tesouro escondido, ingrediente favorito de lendas e contos, imaginado pela crença popular no interior da terra, onde a erva cresce mais viçosa, a neve não se acumula, caiu um meteorito ou o arco-íris toca o chão, tesouro que muda de lugar, cresce, sobe ou desce, só aflora a cada setecentos anos anunciando-se por pequenas chamas azuis, o fogo do tesouro, floresce à noite em momentos propícios, aparece muitas vezes como objeto sem valor e raramente está sem guarda, vigiado por espírito bom ou mau, frequentemente o diabo, ou por almas penadas e homenzinhos cinzentos que o adquiriram de modo duvidoso e devem expiar até sua retirada, reservada a um homem de idade e atributos determinados, morando também nas montanhas do tesouro heróis recolhidos como Barbarossa e Artur, com motivos típicos da terra dos mortos que indicam terem sido originalmente moradas dos mortos, de modo que a crença no tesouro se enraizaria no costume das oferendas funerárias e as primeiras lendas seriam histórias de violação de túmulos, e o Graal é um tesouro desse tipo, que só se manifesta em certo tempo e só um pode encontrar, ideia profundamente enraizada que contribuiu para o eco do chamado à libertação do Santo Sepulcro e que não deve ser descartada como mera fantasia infantil, pois o instinto do caçador de tesouros não visa apenas objetos concretos, e a ideia de estar morto ou sepultado como condição psíquica reflete-se na filosofia, como no Górgias, em que Sócrates cita Eurípides sobre a vida ser talvez morte e a morte vida e um sábio para quem estamos mortos e o corpo é um túmulo, no dito de Heráclito de que vivemos a morte dos imortais e eles a nossa, na doutrina cristã do corpo como prisão, nos sistemas gnósticos da descida e aprisionamento da alma no mundo físico e sobretudo em Mani, para quem, sob influência zoroastriana, todo o mundo material é o túmulo do elemento luminoso nele aprisionado, cuja libertação e reunião ao reino da luz constitui a redenção, ideias gnósticas talvez ligadas às histórias do Graal por meio de cátaros e albigenses.

31. A ideia do tesouro escondido encontra na alquimia sua elaboração mais ampla e individual, partindo da suposição de que algo precioso, um espírito, está oculto ou preso na substância, a prima materia ou vilis, e de que a arte régia consiste em libertá-lo ou transformá-lo, de modo que estar morto e sepultado, estado incompreensível de existência, é a condição primária e o ponto de partida da obra, ao contrário da visão comum que situa morte e sepultamento no fim da vida, o que indica que a vida trabalhada na obra ou pelo Graal difere da existência física visível, assim como o túmulo vazio de Cristo anunciava uma vida nova e diversamente condicionada, não após a morte, mas a percorrer-se nesta vida, em outro nível.

32. Coisas enterradas ou ocultas podem referir-se simplesmente a algo inconsciente a ser desenterrado como um tesouro trazido à luz, mas o conceito de túmulo vazio aponta mais longe, para algo tão oculto e invisível como se nunca tivesse existido, que não precisa apenas ser descoberto, mas em certa medida vir primeiro a existir, a outra vida, não a natural e corporal, mas a do homem interior que transcende a natureza, a personalidade abrangente que Jung chamou Si-mesmo, representada em sonhos e fantasias modernas como um vazio significativo e numinoso, como num quadro em que um vazio ovalado irradiante forma o centro de um mundo ou de uma mandala de centro vazio, imagem expressa por Mestre Eckhart ao dizer que tudo deve ser perdido e a alma existir num nada desimpedido e que quem quiser chegar a Deus deve vir como nada, ou pela imagem oriental do Deus do Vazio Supremo e da Vida que habita a sala púrpura da cidade de jade, o centro do vazio dos confucianos, pois o nada é condição inescapável da emergência do Si-mesmo, que não está presente desde o início em forma compreensível, mas só se manifesta pelas realizações exteriores e interiores de uma vida vivida até o fim, comparável, segundo Jung, à rede cristalina potencialmente presente numa solução e visível apenas na cristalização, que nem sempre ocorre, de modo que o Si-mesmo, não acabado, existe como potencialidade manifesta apenas num processo específico e não invariavelmente realizado pelo desenvolvimento biológico natural, havendo muitas vidas em que isso não acontece.

33. O Si-mesmo realiza-se na medida em que é vivido na experiência cotidiana, e não quando aparece simbolicamente em sonhos e imagens interiores, nem quando a consciência atinge certo grau de clareza ou uma função psicológica alto grau de diferenciação, pois a consciência, embora importante e preciosa ajuda quando bem utilizada, não é por si o fator determinante, que depende menos de saber, habilidade ou inteligência do que do uso que deles se faz e sobretudo da atitude psíquica diante das circunstâncias da vida e do destino, sendo o Si-mesmo, como veste viva da divindade, tecido como os fios de um padrão a partir das muitas decisões e crises, talvez insignificantes, que nos afetam ao longo da vida em todos os níveis de vida, inteligência e meio, e cuja conversão em manifestação do Si-mesmo depende apenas de nossa resposta, como mostram crianças, mesmo pequenas, cuja atitude diante das dificuldades muitos adultos invejariam, pois aquilo cuja falta sentimos como ausência de alma é alguém que toma posição, responde e se sente comprometido, e sem esse eu superior e responsável não há Si-mesmo, sendo ethos e Si-mesmo interdependentes, razão pela qual a atitude de além do bem e do mal, louvada em muitos círculos desde Nietzsche, é o melhor meio de impedir a emergência do Si-mesmo.

34. Do vazio pode emanar uma fascinação, como de uma forma invisível que anseia por completude e clama por substância, cujo chamado e atração crescente o indivíduo percebe sem saber o que o chama, e a influência emanada do Graal oculto pode ser comparada a esse chamado.

35. O Graal distingue também entre bons e pecadores, pois só os primeiros percebem seus efeitos benéficos, função discriminadora presente também em vasos da mitologia celta, como a taça de Manawyddan, filho de Lir, divindade marinha, que se quebrava a cada mentira, e o vaso de Badurn, de um antigo conto irlandês dos Ordálios, em que a mulher do rei Badurn segue até uma fonte duas mulheres saídas das colinas feéricas com uma corrente de bronze e, em sua morada, vê um maravilhoso ordálio, uma taça de cristal que se partia em três nas mãos de quem dissesse três palavras mentirosas e se reunia quando se diziam três palavras verdadeiras, obtendo-a para que Badurn discernisse a verdade da mentira.

36. O vaso que se desintegra com a mentira e se une com a verdade ilustra como a alma do indivíduo é afetada por suas palavras, pois quem mente engana a si mesmo e se desintegra, enquanto quem diz a verdade cura e integra a alma, o que lembra o vaso cheio de nous, compreensão e consciência, do Corpus Hermeticum, enviado do céu à terra, segundo Hermes ensina a Tat, para que os homens, nele mergulhando, compreendessem para que foram criados, e vasos semelhantes tinham papel nas celebrações gnósticas da Antiguidade tardia, como a taça, provavelmente de uma comunidade órfica, reproduzida por Hans Leisegang em O Mistério da Serpente, em que dezesseis homens e mulheres nus, em atitude de adoração, rodeiam uma serpente enrolada e alada, símbolo do Redentor e Filho de Deus na gnose órfica, que os conduz ao desenvolvimento da consciência, conforme o texto dos peratas segundo o qual ninguém pode salvar-se e ressurgir sem o Filho, a serpente, que trouxe do alto os modelos paternos e reconduz para cima os despertados que reassumiram os traços do Pai, e, segundo os naassenos, para os quais um ser original andrógino devia ser redimido da matéria, chamado pelos gregos corno celeste da lua, a taça de Anacreonte mediava semelhante gnose, pois em êxtase se pedia ao rapaz água e vinho para mergulhar no torpor e no frenesi, enquanto o caneco dizia em mudo silêncio o que se devia tornar.

37. Provavelmente a lenda persa-árabe da taça de Jamshid, na qual se viam todos os mistérios do mundo, e as histórias da taça miraculosa de Salomão remontam a tais fontes gnósticas, assim como a visão de Maomé narrada por Ibn Malik, em que, na noite da ascensão, o Profeta viu sob um dossel uma taça, verde segundo outro manuscrito, de brilho tão penetrante que iluminava os sete céus, cercada por uma oração em letras verdes, e ouviu uma voz declarar que Deus a criara para sua iluminação, e a sobrevivência de tradições gnósticas na Alta Idade Média é provada pelos coffrets gnostiques encontrados na Provença com iniciados nus, objetos de culto que, provavelmente por meio da cultura árabe e sobretudo sabeia, chegaram à Sicília, à Espanha e ao sul da França, de onde poderiam provir influências sobre a lenda do Graal, aparentando-se ao vaso do Corpus Hermeticum a visão do alquimista gnóstico Zósimo de Panópolis, no século III, de um altar cósmico em forma de taça rasa em que homens atormentados eram cozidos e sublimados em estado espiritual, assim como a cratera de Poimandres, em que aconselha sua soror mystica a mergulhar, pia batismal ou piscina de imersão e transformação em ser espiritual, segundo Jung o vas Hermetis da alquimia posterior e útero da renovação espiritual, e na qual Henry e Renée Kahane veem a fonte da ideia do Graal em Wolfram, supondo que o Corpus Hermeticum chegou à Espanha por intermédio dos sabeus e ao conhecimento do misterioso Kyot.

38. Na alquimia o vaso é às vezes idêntico ao conteúdo, pois o Rosarium do século XV afirma que uma é a pedra, um o remédio, um o vaso, um o procedimento e uma a disposição, e a Aurora consurgens declara o vaso a aqua permanens, a própria substância arcana, enquanto o Liber quartorum, tradução latina de um texto sabeu, compara o vaso à obra de Deus no vaso da semente divina, que recebeu o barro, o moldou e misturou com água e fogo, alusão, segundo Jung, à criação do homem e também das almas, produzidas a partir das sementes do céu, para cuja captura Deus criou o vas cerebri, o crânio, de modo que o símbolo do vaso se aplica também à alma, como em Cesário de Heisterbach, para quem a alma é substância espiritual de natureza esférica, como o globo da lua ou um vaso de vidro provido de olhos à frente e atrás, que vê todo o universo, relacionando-se assim o vaso ou alma com todo o cosmo e sua criação.

39. A emergência da consciência humana pode ser comparada ao relato da criação no Gênesis, em que no primeiro dia Deus separa a luz das trevas, chamando dia à luz e noite às trevas, o que psicologicamente significa que, no mesmo dia em que a luz da consciência emergiu do caos indiferenciado, surgiu também a noite, o inconsciente, como oposto absoluto e independente da consciência, já que inconsciente é a negação do consciente que pressupõe, razão pela qual crianças pequenas, vivendo num estado crepuscular e onírico do qual despertam progressivamente para uma consciência mais elevada e orientada para o mundo exterior, não têm inconsciente individual por não terem consciência correspondente, e no quarto dia, após a criação do firmamento que separa as águas superiores das inferiores e a reunião destas em mares para que surja a terra seca e a vegetação, Deus cria os luzeiros no firmamento para separar o dia da noite, marcar sinais, estações, dias e anos e iluminar a terra, o maior para governar o dia, o menor para governar a noite, e também as estrelas.

40. A grande luz do dia, o sol, pode ser comparada ao espírito, e a luz menor que governa a noite, à alma, que, após a separação entre a terra, solidez e consciência, e o mar, inconsciente ondulante e flutuante, surgiu como que das águas, aquela que os antigos adoravam como Afrodite nascida da espuma e ainda hoje invocada como Stella Maris, Morgana, nascida do mar, fada hábil em magia e cura que reina no mundo dos contos bretões, o mesmo outro mundo vivido como reino do inconsciente e dos sonhos, a Senhora Alma que os heróis da cavalaria viam e buscavam por trás da mulher real, servindo-a e adorando-a sem saber sempre que o faziam.

41. Conquistar a alma foi, em sentido muito particular, o problema daquela época, pois, segundo a analogia do Gênesis, a alma, luz da noite, só aparece após a criação de um mundo que possa assimilar, estágio alcançado pelo homem ocidental com o surgimento do cristianismo, coincidente com a crescente consciência da alma, à qual a religião cristã atribuiu o valor supremo, e o papel do sofrimento e da Paixão no cristianismo indica, ao contrário de outras religiões, a inclusão e a importância de um elemento feminino, sendo a alma descritível como órgão do sofrimento, sentido em que se pode entender a sentença de Tertuliano de que a alma é naturalmente cristã, processo de realização da alma intensificado na Idade Média tanto na religião quanto no Minnedienst profano, também marcado por caráter acentuadamente religioso, de modo que o processo retornou finalmente ao seu verdadeiro fundamento, a alma.

42. Em harmonia com esse espírito, o belo canto de Adam de Saint-Victor, composto no tempo das histórias do Graal, celebra o vaso eleito, vaso de honra, vaso da graça celeste previsto desde a eternidade, vaso insigne lavrado pela mão da sabedoria.

43. Em sentido especial, a alma é o vaso maravilhoso que constitui a meta da busca e no qual reside o poder vivificante, cujo segredo final jamais pode ser revelado e deve permanecer oculto porque sua essência é mistério, o mesmo mistério ao qual se dedicavam naquela época os alquimistas, que o buscavam na alma na matéria.

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