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GRAAL

GRAAL E ALQUIMIA

Ao longo desta fenda que é talhada na rocha.

Se fosse preciso escolher um nome carregado de mistério, nimbado de sacralidade, no coração do mundo medieval, este seria o de Graal, coração luminoso deste mundo.

Conhece-se o tema “inventado” — no sentido etimológico do termo, ou seja, re-encontrado — por Chretien de Troyes por volta de 1190: seu herói, um jovem galês que ainda não tem nome, perdido em um território deserto, em um caminho que não leva a lugar nenhum, encontra um misterioso rei Pescador que o hospedará em seu castelo. Lá assiste à procissão do Graal: carrega-se uma lança cuja ponta — fenômeno surpreendente! — sangra, depois um vaso de onde emana uma claridade sobrenatural… O Graal!

Y. Bonnefoy resume assim o problema suscitado pela dimensão mágica deste nome: “Um graal é um vaso ou antes um grande prato oco. A palavra é atestada sob uma forma ou outra em vários dialetos franceses. Mas um graal não é o Graal. Para além do enigma de uma palavra que parece, coisa curiosa, ter intrigado os contemporâneos de Chretien, já que alguns tentarão justificá-la por etimologias fantasistas, há o enigma deste objeto percebido por um instante em um castelo desconhecido”.

O Perceval ou o Conto do Graal de Chretien de Troyes permaneceu inacabado. Inacabado? Aqui intervém a feliz intuição de Jacques Ribard: “Como não ficar chocado com o fato de que três das obras principais de nossa literatura medieval — três buscas espirituais evidentes —, A Carreta, O Conto do Graal e O Romance da Rosa de Guillaume de Lorris, estão assim todas as três inacabadas ou supostamente como tal?”. Estes romances seriam de fato voluntariamente inacabados porque um silêncio é aposto ao fim da obra e, então, como diz J. Ribard, “talvez os autores tiveram que se resolver a se calar diante do inexprimível”. Mas: “Não é antes que a busca não tem, não pode ter, um fim? (…) Que estes romances são bem acabados, na medida mesma em que não têm fim” . O fim da obra permaneceria então “em suspenso” no invisível! O que equivale a dizer que estes romances seriam analogicamente semelhantes à famosa espada quebrada, tão hierática, tão fascinante, quanto o próprio Graal, ao ponto de, desde a Primeira Continuação, ela tomará lugar na procissão do vaso de luz. Mas sem dúvida que esta lâmina transeccionada reflete como um espelho simbólico o Rei Pescador, homem quebrado pelo meio já que paralisado das pernas. Então, tanto quanto de fazer as perguntas fatídicas — por que a lança sangra? Qual é o serviço do Graal? — ressoldar a espada é fazer com que o rei aleijado se levante e caminhe.

É preciso restabelecer a junção entre o visível e o invisível, entre a Terra e o Céu, entre o corpo e a alma. Mas, paradoxalmente, o que é fratura entre dois mundos pode se tornar sinal, chamado… Este vazio aspira… E o ser predestinado descobre que esta fratura entre Terra e Céu é justamente a Via… Em algum lugar na terra — ou seja, em nosso ser terrestre — a fratura deixou um rastro, falha na densidade do mundo… Perceval a encontrou e seu nome revela esta descoberta. Não é ele que furou o Segredo do Vale? como lembra J. Marx e isso porque soube obedecer ao conselho do misterioso Pescador: “Subi então ao longo desta fenda que é talhada na rocha e, quando tiverdes chegado lá em cima, vereis diante de vós, em um vale, uma casa onde habito”… No rochedo, símbolo da densidade e da pesantez do mundo, uma fenda se abre e sobe: tal é a Via!

Continuadores de Chretien de Troyes se apresentaram, então, colocando novos marcos na Busca. Uma Primeira Continuação encena não Perceval o Galês, mas o célebre sobrinho do rei Arthur, figura exemplar da cavalaria, Monsenhor Gauvain, lançado também, ao acaso de aventuras, em Busca do Graal, ou antes da enigmática lança que sangra. A Segunda Continuação é atribuída a Wauchier (ou Gautier) de Denain, doravante designado como “pseudo-Wauchier” por causa das dúvidas que suscita a identidade real deste narrador. Seu relato, objeto do presente estudo, nos permite reencontrar Perceval depois de sua passagem pelo sábio eremita, seu tio. Ele cavalga perdido em uma floresta — este labirinto vegetal, cenário da errância — até o momento em que o mundo mágico do Graal, por um emissário, lhe indica uma Via. Para ele começa então uma longa jornada: ele vai de aventuras maravilhosas a aventuras aterrorizantes… Enquanto, em sua estrada, castelos abrem sua porta sobre os mistérios que eles escondem… Castelos? Antes templos iniciáticos! Pois é bem de uma iniciação que se trata… De iniciação e de alquimia. Sem dúvida não é por acaso que, em uma das três obras citadas por J. Ribard, O Romance da Rosa, encontram-se as seguintes linhas: “é uma coisa bem conhecida, a Alquimia é uma arte verdadeira; quem a usasse sabiamente faria maravilhas, pois seja qual for o caso das espécies, os corpos particulares, submetidos a preparações inteligentes são mutáveis de tantas maneiras que eles podem mudar entre eles de natureza por diversas elaborações (…) Pois os mestres alquimistas fazem nascer o ouro fino da prata (…) e do ouro fino fazem pedras preciosas claras e muito notáveis” . Da mesma forma, e mais próximo no tempo e pelo tema do assunto que nos ocupará, descobre-se em A Busca do Santo Graal esta imagem que resume todo o processo alquímico e que diz que Jesus-Cristo, cheio de bondade para com os valentes que aspiram à cavalaria celestial do Graal, “lhes promete ouro em vez de chumbo”.

Abordamos este tema da presença do hermetismo nos romances do Graal e particularmente no Perceval de Chretien de Troyes, durante a redação de nosso Doutorado em Letras intitulado O Corpo de Luz na literatura arturiana . Na época ainda não tínhamos conhecimento do imponente trabalho de P. Duval, O Pensamento Alquímico e o Conto do Graal. Segundo nós, o autor tem o grande mérito de orientar sua pesquisa não apenas na direção do hermetismo — a este respeito só se pode louvar a excelência de sua demonstração — mas também na do xamanismo. Da mesma forma, e na continuidade de nosso doutorado, pareceu-nos indispensável aproximar certos temas arturianos das tradições nord-europeias (Celtas e Germânicas) anteriores ao Cristianismo. Da mesma forma, tema bem conhecido, que as catedrais se ergueram sobre os locais de cultos pagãos, a literatura do Graal, assim como eminentes pesquisadores o estabeleceram, é toda cheia de reminiscências celtas… mas também germânicas poderia-se acrescentar. As duas civilizações se assemelhavam tanto e é o imenso mérito de G. Dumezil ter mostrado a proximidade dos temas mitológicos entre estes dois ramos indo-europeus. Assim, no presente relato, não se ficará surpreso de ver aparecer no início e sobretudo no final, em um momento solene entre todos, a imagem de um imenso pilar no qual pregos de ouro estão cravados: certamente, trata-se do Eixo do mundo, mas como não pensar no Irminsul ou “Coluna do Céu” evocado por Rodolphe de Fulda, tanto mais que os pregos de ouro estão presentes na religião Escandinava como Reginnaglar (literalmente “pregos dos Poderes”). Dito isto, Jacques Ribard, desde 1972, oferecia à nossa meditação um estudo muito precioso, porque exemplar, O Cavaleiro da Carreta, cujo subtítulo, Ensaio de interpretação simbólica, precisa o conteúdo. Exemplar, de fato, e isso por um rigor não austero, pois a “senefiance” — para retomar uma palavra cara ao autor — de cada imagem-chave do romance de Chretien, aparece tão justamente cercada que ela se destaca como uma iluminura. Precisamos ainda citar o livro muito completo de Paule Le Rider sobre O Cavaleiro no Conto do Graal assim como outra obra várias vezes citada em nossa presente pesquisa, a de P. Gallais, Perceval e a Iniciação.

Desde já digamos que não entra em nosso propósito afirmar peremptoriamente, ou demonstrar, com provas, que (o pseudo) Wauchier de Denain introduziu conscientemente em seu relato toda uma simbologia anterior ao Cristianismo ou ainda que se trata de um tratado de hermetismo. Por outro lado, pareceu-nos essencial descobrir qual “ressonância” simbólica e alquímica emanava destas aventuras de Perceval. Convém precisar que este relato (assim como outros romances arturianos) se impõe como o espelho do clima simbólico do tempo: a arte românica, depois a arte gótica, a ciência heráldica, os escritos de Herrade de Landsberg, de Hildegarde de Bingen ou de Alain de Lille (para citar apenas estes três autores preocupados com a relação existente entre o Homem e o Cosmos) revelam sua unidade de concepção no nível das imagens simbólicas. Descobrir a época de Chretien de Troyes e de seus Continuadores é perceber a onipresença do símbolo. Para um pensamento deste tempo, como para toda civilização tradicional, o mundo não parece coerente senão se ele é significante, constelado de sinais. E o relato de Wauchier não se priva de multiplicar os sinais. Escolhemos, então, deixar estes sinais, ou antes o que eles expressam, nos falarem e chamarem outros sinais. Paralelos se estabelecem com o mundo dos hermetistas mas também com toda uma emblemática vinda de tempos esquecidos ou ignorados na época de Wauchier: silhuetas da idade do bronze e da idade do ferro se justapõem aos personagens do relato, figuras do paganismo surgem entre duas evocações dos evangelhos. Mas nada de contraditório ou de caótico em tudo isso, muito pelo contrário, pois estas duas correntes são incessantemente reconciliadas pela mensagem do hermetismo do qual, mais uma vez, não pretendemos que ele seja para ser lido diretamente no relato de Wauchier, mas paralelamente a este relato.

Estes sinais poderiam ser definidos como Forças que tomam Forma… A Força, a Forma: não escreveremos estas palavras senão com uma maiúscula para extraí-las da banalização que lhes impõe a linguagem contemporânea. Outras palavras ainda, veremos, merecem a maiúscula. Tal Presença, pois designando uma entidade ouraniana, assim como Via, pois esta conduz ao Graal, ou seja, à radiância divina. Assim, em imagem introdutiva ao nosso estudo, escolhemos esta passagem do Peredur, a história de Perceval, mas apresentada como um conto bárdico galês. A ação se passa no castelo do Graal e o senhor do lugar, “um homem de cabelos brancos, majestoso” mostra ao herói um objeto: “havia, fixado no chão do salão, um grande grampo de ferro que a mão de um homem de guerra teria mal podido apagar”. “Pega esta espada”, diz o velho a Peredur, “e golpeia o anel de ferro”. Peredur se levantou e golpeou o anel que se quebrou em dois pedaços assim como a espada. “Coloca os dois pedaços juntos e reúne-os”. Peredur os colocou juntos e eles se ressoldaram como antes. Uma nova vez o herói quebrou e reajustou o anel e a espada. Ele tentou pela terceira vez, mas então “os pedaços do anel assim como da espada não puderam ser reajustados.” “Bem, jovem homem”, disse o velho, “já é o suficiente (…) Tu és o primeiro jogador de espada de todo o reino. Tu só tens dois terços de tua força, resta-te a terceira parte a adquirir…” . A capacidade do herói de ressoldar misteriosamente o anel e a espada prova que esta força não procede de um simples potencial muscular: uma Força sobrenatural entra em ação que por duas vezes, quebra e solda, age sobre a estrutura molecular do metal. Esta Força teria sido completa se por três vezes ela tivesse agido.

Enquanto símbolo, o anel está presente em diversas tradições — particularmente em hermetismo — mas sempre com o sentido de uma Força fechada sobre Si que é preciso, por sua vez, romper ou reconstituir conforme se trate de quebrar um confinamento ou de reformar uma totalidade: a alquimia falará de Solve e de Coagula. Quanto à espada quebrada e ressoldada, ela ilustra certamente uma mesma Força com o duplo efeito aplicado não ao princípio de uma totalidade, mas ao de uma axialidade. O anel, a espada e o número três — ritual se é que há — reaparecerão no relato de Wauchier. Poderíamos escolher um outro exemplo: o Lia Fail, ou pedra de soberania que, na tradição irlandesa, solta um grito quando o rei legítimo põe o pé em cima. Lá ainda se trata de uma Força sobrenatural que, para se manifestar, toma Forma.

Estas diferentes noções, complementares umas das outras e indispensáveis à leitura simbólica desta Segunda Continuação, vão ser desenvolvidas sob o título geral de “Forças e Formas” em uma primeira parte. Depois disso, só nos restará seguir Perceval em sua jornada iniciática.

Exceto os trabalhos de M. Eliade, de G. Dumezil ou de J. Markale — muito particularmente seu estudo, A Epopeia Celta da Irlanda — e sobretudo de J. Evola cuja obra intitulada A Tradição Hermética se impôs como nosso guia permanente no domínio alquímico, mesmo que a leitura do Mysterium Conjunctionis de C. G. Jung se revele indispensável na matéria, é às obras daqueles que foram diretamente nossos Mestres universitários que faremos frequentemente apelo. J. Marx antes de tudo, ao qual não podemos render melhor homenagem do que mencionando muitas vezes sua principal obra: A Lenda Arturiana e o Graal. H. Corbin, em seguida, tanto é verdade que sem estas duas noções complementares que são a Luz de Glória e o Mundo Imaginal não pode haver uma justa abordagem do Graal e de seu reino. G. Durand, enfim, sobre os conselhos de quem a presente pesquisa foi empreendida. E é à excelência de seus trabalhos que a conclusão de nossa obra é consagrada, já que não se poderia melhor revelar a arquetipologia desta Segunda Continuação do que apelando às Estruturas Antropológicas do Imaginário .

Nosso interesse pela Segunda Continuação remonta a 1968, data da publicação, transcrita em prosa moderna, por S. Hannedouche sob o título: Perceval e o Graal, as Continuações . No final da obra, uma reflexão era proposta ao leitor sobre a iniciação de Perceval segundo a doutrina antroposófica de Rudolf Steiner. A orientação que damos hoje ao relato será outra… mas não contraditória. Só deve importar, segundo a fórmula de Simone Vierne, “a leitura como iniciação”.

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