GAUVAIN E A BUSCA TERRESTRE
VISEUX, Dominique. L'initiation chevaleresque dans la légende arthurienne. Paris: Dervy-Livres, 1980
“Integridade moral e respeitabilidade não são senão água transportada em uma cesta, ou o vento que um homem heroico gostaria de agarrar em seu punho.” Lalla.
O personagem de Gauvain tem na literatura Arturiana um lugar muito característico que o situa a meio caminho entre o herói e o “ponto de referência” (ou o modelo) da cavalaria. Vimos ao abordar o estudo do Lancelot-Graal, que este último aspecto era particularmente desenvolvido nele, o último combate de Lancelot contra Gauvain sendo a este respeito muito significativo. Esta situação se reproduzirá, como veremos mais adiante, na história de Yvain, assim como na do Cavaleiro da Carreta, e é precisamente esta concordância que nos leva a pensar que o mesmo acontecia com o Perceval.
No entanto, antes de abordar a Aventura de Gauvain em Perceval e assim trazer, na medida do possível, algum esclarecimento sobre suas relações recíprocas, não é inútil cercar mais os contornos deste semi-herói pela exposição de certas aventuras que lhe pertencem.
A primeira que observaremos, provavelmente de fonte muito arcaica, é a seguinte: no curso de sua errância, Gauvain cruza um dia uma Dama que ele omite de saudar. Esta, ultrajada por este esquecimento, lhe lança um feitiço, desejando que ele se pareça com o primeiro cavaleiro que ele encontrar. Ele cruza então o anão de Estrangore, outrora filho de Rei e que havia recebido esta forma pelos malefícios de uma encantadora. É, aliás, provável que é em seguida a uma aventura análoga que ele fará o voto de saudar e de respeitar as Damas.
A explicação de uma tal aventura não apresenta dificuldades: recusando-se a saudar em Si mesmo o Si ou o “Senhor”, o ser se metamorfoseia pouco a pouco em um personagem disforme e feio, e esta “feiura moral” não é outra coisa senão o produto da Natureza maléfica que lança sobre o Herói seus laços e seus encantamentos. A saudação, que, ela mesma é um rito, encontra aqui sua razão profunda.
O simbolismo da feiura e da deformidade parece, aliás, bastante característico do personagem em questão, e a entrevista de Gauvain no castelo do Graal relatada por certos contadores apresenta sobre este ponto um interesse notável.
Como para a maioria dos cavaleiros, acontece um dia de Gauvain penetrar acidentalmente no castelo do Graal. Querendo se aproximar da mesa onde se encontravam Damas e cavaleiros, ele é subitamente repelido por um anão armado de um bastão. Ele então vira as costas para a mesa para caçar o aborto quando uma grande claridade invade o cômodo e paralisa seu gesto. Gauvain fica assim petrificado e privado do espetáculo do banquete, mas pode, no entanto, seguir no rosto do Anão que se transfigura pouco a pouco, a emoção que percorre a grande sala. Quando a luz diminui, o rosto do Anão se torna tão feio quanto antes e Gauvain pode então constatar que a sala está vazia.
Como se pode notar, este episódio apresenta uma certa semelhança com o precedente, notadamente na identificação de Gauvain com o Anão. No caso presente, é claro que Gauvain não pode se aproximar da mesa do Graal porque “o Anão que ele carrega em eu”, tornando-o disforme e feio, o impede de participar do banquete cósmico. Assim o Herói não pode contemplar o Graal senão indiretamente, ou seja, pelo reflexo deste sobre sua própria feiura interior que ela mesma se transfigura sob o efeito da graça divina. A sala que se esvazia imediatamente depois, mostra bem o aspecto efêmero desta graça e Gauvain se reencontra muito rapidamente face ao seu próprio nada.
Mas o Herói não se atém a isso. Ele decide passar a noite no castelo e se deita. Na noite, ele vê se aproximar de sua cama um velho tocador de harpa (que só pode ser Merlin) carregando em seu pescoço duas serpentes que o mordem cruelmente. Quando o velho desapareceu, é a vez de uma grande Serpente fazer sua aparição, dando nascimento, diante de Gauvain perplexo, a uma multidão de filhotes que imediatamente se levantam contra o monstro para o devorar. Uma luta começa entre o grande réptil e sua prole para terminar quando este último, tendo-os todos reabsorvido, morre por sua vez de suas feridas.
Estas duas aparições são notáveis em mais de um ponto. Em primeiro lugar, o velho tocador de harpa que carrega ao redor do pescoço duas serpentes que o mordem, é mais uma vez um reflexo de Gauvain ele mesmo e se Merlin simboliza geralmente o homem primordial decaído, as duas serpentes que o acompanham remetem inevitavelmente ao simbolismo do caduceu ao qual faltaria no caso presente o Eixo, gerador de ordem e de síntese. Esta lacuna se revela, aliás, no fato de que as duas serpentes estão em oposição, pois elas se batem e mordem aquele que as carrega e isto mostra o quanto Gauvain ainda está de pleno pé no reino da dualidade.
A segunda aparição remete como a primeira a um mito cosmogônico que já evocamos e que desenvolve simbolicamente as duas fases do processo cósmico, criação e reintegração. A Serpente que avança para Gauvain encarna aqui o dragão primordial, aquele que está na origem do mundo e que retém as potencialidades do Universo. Estas últimas tomam o aspecto de jovens serpentes cuja nascimento constitui para o monstro original um sacrifício e uma divisão, e nos encontramos aqui em uma situação exatamente semelhante àquela que faz Prajapati, o homem cósmico, sacrificado e desmembrado, dizer: “Como posso retomar estes seres em eu? Como posso me tornar novamente o Si de todos estes seres?” A luta que começa então diante de Gauvain não é outra coisa senão o aspecto da manifestação na dualidade cósmica e que vê seu cumprimento na morte dos “seres fragmentários” que, por um sacrifício análogo, reintegram a origem das coisas. Esta restituição da multiplicidade na unidade primordial se vê inevitavelmente sancionada pela morte da Serpente original, pois é desta forma que o Ser reintegra o Não-Ser como já havia mostrado o último combate de Arthur e de Mordret.
O espetáculo que acaba de se oferecer a Gauvain é muito revelador do grau atingido pelo Herói e fala, além das palavras, ao intelecto puro. Mas Gauvain é um herói diurno, ou seja, fundamentalmente incompleto, e uma outra entrevista no castelo do Graal, relatada em “Perceval o Galês”, confirma bem esta lacuna: depois de ter combatido um gigante e obtido em retorno uma espada, Gauvain é admitido no Castelo do Graal onde ele vê, em um estado semi-extático, um Rei ferido em seu trono e perfurado por uma lança. Pouco depois, ele deve lutar em um jogo de xadrez com um adversário invisível que possui peões de ouro, enquanto os seus são de prata. Batido por três vezes e tomado de raiva, ele quebra o jogo e adormece vencido pelo sono. Naturalmente, na manhã seguinte, ele encontra o castelo vazio.
Enquanto Herói solar, Gauvain pode muito bem ganhar o combate contra o gigante, imagem do Titã primordial e obter em retorno a arma do conhecimento, assim como a visão de seu objetivo último: a restauração do Rei ferido. Mas a partida de xadrez (que é atribuída a Perceval na lenda de Peredur) põe bem em evidência o obstáculo que constitui seu pensamento dualista: Gauvain, encarnação da alma individual à qual se liga o simbolismo lunar da prata, recusa-se a se submeter à autoridade “solar” do Si, Senhor supremo, cujo símbolo é o ouro. Negligenciando este novo chamado do Si à submissão, o Herói recai nos laços da Avidya-Maya e adormece. Como mostramos no episódio de Gorneman lutando contra os quarenta cavaleiros, o Herói diurno é mais uma vez vencido pelo aspecto noturno de sua natureza que ele não controla e que se manifesta aqui na chegada do sono.
Um dos maiores desenvolvimentos que o ciclo Arturiano consagra a Gauvain e que se encontra intercalado na Aventura de Perceval, é, como já constatamos, privado de seu desfecho. Apesar desta lacuna, podemos extrair do que resta conhecido, os caracteres maiores desta busca paralela.
Depois de ter denunciado publicamente o silêncio de Perceval no castelo do Graal, Cundrie faz saber à assembleia dos cavaleiros que o “Castelo Orgulhoso” (o castelo da Maravilha, em Wolfram) retém uma Dama prisioneira e que aquele que a libertar poderá cingir “a Espada com estranhos apegos”. Gauvain se propõe então para a Aventura quando o cavaleiro Guingambresil intervém, o acusa de ter traiçoeiramente matado seu pai e o provoca em combate singular em um prazo de quarenta dias. Gauvain aceita o desafio negando o crime e toma imediatamente a estrada para se dirigir ao local dito. Chegado ao castelo de Guingambresil, ele se hospeda com a irmã deste último que ele requer de amor. Esta não se recusa, mas sobrevem um cavaleiro que os surpreende juntos e reconhece em Gauvain o assassino do Rei, pai de Guingambresil. Imediatamente, ele amotina a cidade contra Gauvain que se refugia com a Donzela, em uma torre. Gauvain defende o acesso, armado de Escalibor e protegido por um tabuleiro de xadrez em vez de escudo enquanto a Donzela lança sobre a multidão as peças de xadrez. Chega enfim Guingambresil que põe um termo ao motim e faz Gauvain prometer, para satisfazer todo mundo, de trazer de volta “a lança que sangra” e que deve, de acordo com uma previsão, destruir o reino de Nogres. Assim o combate contra Guingambresil é adiado para um ano.
Neste momento, o conto retorna a Perceval pela última vez, relatando seu encontro com o eremita, depois retoma a Aventura de Gauvain. Este último persegue agora dois objetivos: a libertação do Castelo Orgulhoso e a Busca da “lança que sangra”. As aventuras que se seguem são particularmente complexas e ricas em reviravoltas. Gauvain encontra em sua estrada uma Donzela chorando sobre um cavaleiro ferido e promete voltar em breve para cuidar deste último. Mais longe, ele avista uma Dama que se admira na água. Ele cai imediatamente sob seu feitiço e quer levá-la. Esta lhe comanda para ir buscar seu cavalo. Gauvain encontra então um grande número de pessoas que o advertem para se desconfiar da Dama, pois ele perderá a cabeça por ela. Esta última carrega, de fato, o nome significativo de “a Orgulhosa de Nogres”. Quando Gauvain lhe relata seu cavalo, esta lhe proíbe de a tocar e o trata como um servo. Ela só tem um desejo: ultrajar Gauvain, e este último suporta tudo, por amor por ela. Juntos, eles retornam para perto do cavaleiro ferido que Gauvain empreende cuidar. Intervém então o escudeiro do cavaleiro, feio e arrogante, levando um cavalo muito triste. Enquanto isso, o ferido reconhece em Gauvain o justiceiro que o havia castigado outrora, se apodera de seu cavalo e foge com sua companheira. Gauvain é então forçado a se apossar do cavalo lamentável do escudeiro e o monta sob os sarcasmos da Orgulhosa que se regozija diante da vergonha do Herói. Mais longe, Gauvain é assaltado por um cavaleiro que monta seu próprio cavalo. Ele consegue derrubá-lo e retomando seu bem, entrega seu prisioneiro a um barqueiro que o acolhe em sua casa. Este último lhe indica então um castelo onde muitas Damas, expulsas de suas terras, esperam, prisioneiras, a chegada de um cavaleiro cujo coração é sem defeito e que as libertará deste encantamento. Gauvain decide tentar a provação. Na grande sala, encontra-se o Leito Maravilhoso sobre o qual ele pretende se deitar. Imediatamente, jatos de flechas e de pedras o assaltam e ferem o Herói. Aparece em seguida um leão monstruoso e o combate começa. Gauvain corta a cabeça do monstro, e a partir de então os encantamentos desaparecem. O Herói é então festejado e cuidado pelas Damas do castelo, mas um pouco mais longe, ele avista a Orgulhosa na companhia de um cavaleiro. Gauvain combate o cavaleiro, mas a Orgulhosa ainda o oprime com sarcasmos e o arrasta para o Vau Perigoso que ele deve atravessar em um salto de cavalo. O golpe é falho e Gauvain cai na água com sua montaria. Chegando, no entanto, na outra margem, ele encontra um antigo amante da Orgulhosa e agora seu inimigo. Este último lhe diz o nome do cavaleiro que ele acaba de vencer: o Orgulhoso da Passagem para a Via Estreita. Enfim, depois de ter acusado Gauvain do assassinato de seu pai, ele desafia o Herói em combate singular em um prazo de sete dias. Gauvain repassa o Vau Perigoso desta vez sem dificuldades e reencontra a Orgulhosa que subitamente deixou sua arrogância. Ela confessa a Gauvain que o “Cavaleiro da Outra Margem” havia outrora matado seu Senhor para se casar com ela à força. Esta havia fugido e tomado por companheiro o Orgulhoso da Passagem para a Via Estreita que Gauvain acaba de vencer. Ambos retornam então ao castelo da Maravilha de onde o Herói envia um escudeiro para convocar a corte de Arthur.
Aqui para o relato de Chretien de Troyes. É manifesto que as aventuras de Gauvain ainda não estão em seu termo e o desfecho que Wolfram lhes dá pode parecer singularmente rápido. Com efeito, antes da reconciliação geral, Gauvain encontra fortuitamente Parzival, o que permite retomar as aventuras deste último, deixando o papel de Gauvain na sombra. Ora, sabemos pela lenda de Peredur que Gauvain reencontra mais tarde Perceval no castelo do Graal, o que torna muito verossímil esta versão dos fatos, como veremos mais adiante. Por outro lado, um elemento da busca de Gauvain é totalmente negligenciado em Wolfram: Trata-se da promessa feita a Guingambrésil de reencontrar “a lança que sangra” e que deve dar o golpe doloroso ao Reino de Nogres.
É certo que esta primeira aventura no castelo de Guingambrésil provoca no caminho de Gauvain uma digressão muito importante para poder ser ignorada. Para interpretar esta curiosa aventura, é necessário estabelecer uma aproximação com a busca de Perceval. Com efeito, como este último, Gauvain é acusado de um crime que ele acredita não ter cometido, diríamos: que ele cometeu sem o saber. O paralelo se precisa quando se aprende que se trata do assassinato de um Rei cujo filho vem reclamar vingança. Ora, Perceval, era ele mesmo acusado por Cundrie de não ter socorrido o Rei ferido, assim como lhe era reclamada justiça pelo próprio filho deste Rei no fim de sua busca, como nos mostra o desfecho de Peredur. É claro que por esta razão, Gauvain não pode pretender ao conhecimento do Si, encarnado mais uma vez pela Dama do xadrez e que, embora isolado com esta na torre, símbolo da estabilidade do Ser, e protegido pelo tabuleiro de xadrez que mostra aqui a “resolução das oposições” e sua ordenação em complementares, ele não pode se desfazer do assalto das tendências inferiores e primárias do Ser que ameaçam fazer desmoronar a Torre. É dito no conto, com efeito, que todo o povo se empenha em demolir o edifício, apesar do lançamento das peças de xadrez que parece neutralizar temporariamente os efeitos. O confronto entre Gauvain, protegido por sua Dama, e a multidão que o assalta não encontrará, aliás, desta vez nenhuma saída e “o combate será adiado para um ano”. Durante este prazo, Gauvain deverá “buscar a lança que sangra”, o que constitui evidentemente o único remédio para tal situação, tanto mais que é dito que esta Lança deve dar ao Reino de Nogres o golpe doloroso, ou seja, a ferida do Rei e a esterilidade do País, e que se trata bem obviamente de evitar que esta previsão se realize. Estamos, aliás, diante de uma fusão característica do passado com o futuro, pois como sabemos, “o Rei já está morto” e pode-se dizer da mesma forma que o golpe doloroso já foi dado. De fato, isto nos mostra a natureza verdadeiramente metafísica das relações que são expressas aqui e que se marcam pela ausência de temporalidade e a visão simultânea dos fenômenos, características dos mitos cosmogônicos. A alma individual do cavaleiro deve aqui, em sua busca do Si, procurar se libertar de uma situação onde o Rei está ferido para atingir o estado do Rei restaurado e apesar da sucessão temporal inerente à nossa modalidade corporal, pode-se dizer que existe sempre um estado onde o Rei está morto e um outro, simultâneo, onde o Rei está vivo, da mesma forma que coexistem inseparáveis o Si e a manifestação, o Ser decaído e reabsorvido.
A maior parte da busca de Gauvain parece em seguida se concentrar em torno de dois objetivos: o amor de Orgulhosa e a libertação do castelo da Maravilha. Como se pode constatar, Gauvain comete um novo engano ao querer cuidar do cavaleiro ferido que ele encontra, tanto mais que este último é um traidor e este engano se revela notadamente no rapto do cavalo. A aparição de Malcriação que Gauvain se vê forçado a esbofetear por sua insolência, vem confirmar este novo impasse e pode-se dizer que apesar de sua boa vontade, o Herói ainda carece de discernimento. Desperdiçando sua própria energia em querer manter a encarnação mesma de suas tendências inferiores, ele se vê de novo confrontado à feiura do Anão e forçado a cavalgar uma montaria, da qual o menos que se pode dizer, é que ela carece de poder vital. Gauvain se encontra então nesta situação tão particular do ser que quer triunfar da tendência “tamasica” sem o apoio e a influência do Si, e é por isso que sua ação permanece mais ou menos vã. No entanto, uma mudança notória ocorreu no Herói: seu apego a Orgulhosa é inabalável e a sinceridade de sua submissão acabará por lhe revelar a verdadeira natureza do Si. Esta vontade inabalável tem como primeira consequência feliz fazê-lo reencontrar sua montaria de origem, mas é no castelo da Maravilha que ele é levado a fazer suas provas. É, de fato, com a ajuda de um barqueiro, portanto de um “passador”, que ele chegará ao castelo, ou seja, “ao centro de Si mesmo”. A provação do desencantamento é ela mesma centrada no Leito Maravilhoso e sabe-se o quanto o tema do Leito e do Sono é crucial para Gauvain. Com efeito, o Leito Maravilhoso não é daqueles que levam ao sono, mas ao contrário a um estado de vigília além dos estados comuns. Muito curiosamente, aliás, ao simbolismo noturno e “lunar” do Leito, sucede o simbolismo diurno e “solar” do Leão e isto dá a pensar que Gauvain enfim conseguiu desencantar sua própria natureza ao dominar os dois aspectos. No entanto, sua aventura com Orgulhosa está longe de ser terminada e só verá seu termo pela busca da “Outra Margem”. A passagem do Vau Perigoso é a este respeito muito característica, pois é somente depois de ter atingido esta Outra Margem que Gauvain está no termo de sua provação, e se compreende por que a queda no rio só acontece em um único sentido.
Sobre a mutação repentina de Orgulhosa, nos resta dizer algumas palavras: Orgulhosa é como indicamos uma imagem do Si, um pouco particular, é claro, já que revestida de certa forma de uma segunda natureza que a mascara e deixa mal adivinhar seu verdadeiro rosto. Esta simbologia que já evocamos remete muito claramente ao mito da “megera domada”, ou seja, desencantada, e pode-se explicar assim a ligação que se estabelece entre a Orgulhosa e o castelo da Maravilha que não é outro, em definitiva, senão o “Castelo da Orgulhosa”.
A Dama revelará, após o sucesso de Gauvain na provação do orgulho, a causa deste encantamento voluntário: o cavaleiro traidor da Outra Margem simboliza o ser decaído de seus direitos que perdeu a visão direta do Si após o assassinato original; quanto ao Orgulhoso da Passagem para a Via Estreita, ele encarna, de toda evidência, o guardião da Via que leva ao objetivo supremo, a saber, o próprio orgulho ou o véu da ignorância, proteção natural do Si contra as incursões do eu “não qualificado”. É por isso que depois de ter triunfado do Orgulhoso da Passagem, cabe agora a Gauvain combater o da Outra Margem.
Não conhecemos, infelizmente, o resultado deste último combate que poderia ter nos ensinado muito sobre o desfecho da lenda, pois é possível, senão provável, que ele tivesse colocado Gauvain no caminho da Lança que sangra e no do castelo do Graal. Com efeito, é preciso notar a similitude que se estabelece, de uma maneira que não saberia ser fortuita, entre cada termo das duas aventuras de Gauvain das quais falamos: Guingambresil acusava Gauvain de ser o assassino de seu pai e é precisamente a mesma razão que o cavaleiro da Outra Margem invoca para combater o Herói. De fato, o assassinato do Pai, que é sempre um Rei, simboliza evidentemente o assassinato original, o sacrifício do qual decorre a criação e do qual o sacrificante é aqui Gauvain, o Herói solar que “come os frutos da Vida”. Mas este sacrifício, assim como já sublinhamos, exige em retorno o do sacrificante, desenvolvido no tema da vingança e que identifica desta forma o Pai ao Filho. Na primeira aventura, vimos que o combate contra Guingambresil havia sido adiado. Ora, como reencontramos Gauvain (na lenda de Peredur) no castelo do Graal, impotente para curar o Rei Pescador, seria fácil deduzir que o combate contra o Cavaleiro da Outra Margem havia sido igualmente adiado. É o que Wolfram viu muito bem, substituindo no combate Perceval por Gauvain, e é claro que desta forma Gauvain, não tendo realizado seu próprio sacrifício, não pode trazer de volta a Lança que sangra, nem mesmo restaurar o Rei decaído.
O que falta, no entanto, no relato de Wolfram, é o termo da busca de Gauvain, pois muitos indícios nos levam a supor que este último deveria de toda forma retornar ao castelo do Graal, nem que seja para assistir ao triunfo de Perceval. Como mostramos frequentemente, Gauvain é uma encarnação da natureza individual que pode nos últimos limites de suas possibilidades descobrir o verdadeiro rosto do Si (o que é mostrado no desencantamento de Orgulhosa), mas daí a se unir com a “Suprema Realidade” como Wolfram sugere, há a priori toda a impossibilidade inerente à individualidade puramente humana e às virtudes simplesmente terrestres.
