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SOBRE O MITO E O CONTO
FAIVRE, Antoine. Les contes de Grimm: mythe et initiation. Paris: Lettres modernes, 1979.
- Na edição de 1819-1822 em três volumes, os irmãos Grimm precisaram seu propósito em um prefácio e em uma introdução intitulada “Significação como tradição” — Bedeutung als Ueberlieferung —, na qual observam que ninguém conhece os autores dos contos, que aparecem por toda parte como tradições, modificando-se exteriormente mas mantendo obstinadamente seu conteúdo próprio ao longo dos séculos.
- As semelhanças entre contos de países diferentes, sem que se possa falar de influência, sugerem uma época comum anterior à separação dos povos — mas ao se buscar essa origem, ela se afasta cada vez mais no passado e permanece insondavelmente oculta.
- Os irmãos Grimm não veem o conteúdo dos contos como produto de um arbítrio da imaginação, mas reconhecem nele “um fundamento, uma significação, um núcleo”.
- A formulação central da introdução: “São ali, conservadas na vida, ideias sobre o divino e o espiritual: aqui tomam forma corpórea uma crença antiga e seu ensinamento, que se encontram imersos no elemento narrativo ligado ao desenvolvimento da história de um povo.”
- A intenção e a consciência não participam desse processo — tudo resulta da natureza da tradição; quanto mais o elemento narrativo predomina, mais o que é importante se oculta.
- Os irmãos Grimm citam na introdução: “Convém reconhecer aqui mitos alemães antigos, perdidos, nos quais se acreditou, mas que perduram sob essa forma. Aquele para quem a natureza dos mitos não é estranha sabe que em todos os povos eles foram frequentemente apresentados sob forma de contos, e que muitas vezes, devido ao espírito próprio de certas épocas, não se podia apreendê-los de outra maneira.”
- Os irmãos Grimm propõem comparar o mito de Perseu a vários KHM, vendo em Perseu um reflexo de Siegfried — ambos expostos às ondas ao nascer e destinados a empreendimentos perigosos —, e identificam correspondências precisas entre elementos míticos gregos e germânicos.
- Perseu enfrenta a Górgona; Siegfried enfrenta Hafner.
- O capacete invisível de Aides, personagem da mitologia grega, corresponde ao capacete de Aegir da tradição nórdica e ao capuz que torna invisível da tradição germânica.
- Os efeitos da cabeça da Medusa são comparáveis aos do corpo revestido de chifre de Siegfried.
- As maçãs de ouro colhidas por Perseu no jardim de Atlas correspondem ao tesouro obtido por Siegfried.
- Andrômeda, retida por um monstro sobre uma rocha e libertada por Perseu, é comparada a Chriemhilde libertada do Drachenstein por Siegfried — “tão infinita é a renovação das ideias vivas”.
- Em trecho intitulado “Traços de crenças pagãs”, os autores observam que o instinto poético obscureceu os mitos mas que sua significação ainda aparece aqui e ali, e identificam como sinal de antiguidade dessas origens o fato de que nos contos toda a natureza é animada.
- Segundo os antigos povos pagãos, o sol, a lua e as estrelas são habitados por uma natureza espiritual e podem conceder dons e auxílio quando rogados.
- O cavalo Falada fala nos contos; os corvos fazem predições como os de Odin — atributos de poderes superiores análogos aos do paganismo.
- A mistura do humano e do animal, corrente no paganismo, aparece no simbolismo das jovens transformadas em cisnes, lembrando o canto de Wölund e os Nibelungen.
- Elementos como a faculdade de tomar formas diversas, a oposição do Bem e do Mal, o preto e o branco, a descida ao mundo subterrâneo, o tesouro dispensador de benefícios materiais e espirituais, a árvore e a água da vida — tudo isso se encontra na mitologia germânica.
- Os contos em que três irmãos são postos à prova e o mais jovem se mostra o mais capaz são comparados pelos irmãos Grimm ao relato de Heródoto sobre os filhos de Targitaus e às três Trimurti, entre as quais Deus repartiu o mundo de tal modo que apenas um obtenha o poder supremo — preservando a ideia de um deus único.
- A montanha de ouro ou de vidro dos contos populares é identificada como montanha dos deuses dos mitos antigos.
- O céu descrito em Marienkind (n° 3) — soberba casa de ouro com doze portas mais uma décima terceira proibida — lembra o Gladsheim brilhante como o ouro, com seus doze tronos aos quais se acrescenta o de Odin.
- Frau Holle (n° 24), comparável à deusa nórdica Sif, faz pentear os cabelos — isto é, distribui os raios do sol sobre a terra.
- Os autores distinguem contos de origem pagã e contos de conteúdo visivelmente cristão — como Marienkind (n° 3) e A Jovem sem Mãos (n° 31) —, mas em ambos os casos falam de seus contos como de algo sagrado.
- Os irmãos Grimm compartilham com outros pesquisadores da época romântica a tendência a crer numa tradição primordial, citando representantes marcantes dessa corrente: Johann Arnold Kanne, Joseph Görres e Friedrich Creuzer.
- O importante posfácio de Wilhelm Grimm datado de 30 de setembro de 1850 traz novas precisões sobre o propósito dos irmãos e registra a mudança de recepção crítica de seu trabalho ao longo do tempo.
- Wilhelm Grimm escreve: “Tinha-se então um sorriso indulgente quando nos ouviam pretender que estavam contidas ali ideias e visões do mundo cujas origens mergulham na obscuridade da Antiguidade. Agora, já não se põe mais isso em dúvida.”
- O posfácio aborda os contos orientais e suas semelhanças com os contos europeus, e formula observações capitais para compreender o propósito dos dois irmãos.
- A concordância entre contos de povos muito distantes no tempo e no espaço reside em parte na ideia que os subjaz e na representação de certos caracteres, em parte na maneira como os acontecimentos se entrelaçam — e situações tão simples e naturais ressurgem por toda parte, assim como certas ideias se encontram por si mesmas.
- Wilhelm Grimm formula: “Assim, o que é comum assemelha-se a um poço cuja profundidade se ignora mas do qual cada um tira segundo suas necessidades […]. Os mesmos contos não surgem sempre nos lugares mais afastados, assim como uma fonte jorra de novo em lugares muito distantes?”
- A lenda e o conto são comparados ao orvalho refrescante da poesia, que se manifesta — tal como os animais domésticos, os cereais, os instrumentos agrícolas e os utensílios domésticos — em concordância ao mesmo tempo impressionante e independente, tão longe quanto pode alcançar o olhar.
- Wilhelm Grimm identifica nos contos vestígios comuns de uma crença remontando aos tempos mais antigos, que exprime figurativamente a maneira de interpretar as coisas suprassensíveis — e compara esses elementos míticos a pequenos pedaços de uma pedra preciosa estilhaçada espalhados sobre o solo coberto de relva e flores.
- A formulação de Wilhelm Grimm: “Comuns a todos os contos são os vestígios de uma crença remontando aos tempos mais antigos e que exprime figurativamente sua maneira de interpretar as coisas suprassensíveis. Esses elementos míticos assemelham-se aos pequenos pedaços de uma pedra preciosa estilhaçada que estariam espalhados sobre o solo coberto de relva e flores e que só um olhar mais penetrante que os outros pode descobrir.”
- A significação desses elementos perdeu-se há muito tempo, mas ainda se manifesta sensivelmente — e é ela que constitui o teor do conto e que ao mesmo tempo satisfaz o gosto natural pelo maravilhoso.
- Esses pequenos fragmentos nunca são o simples jogo de cores de uma imaginação sem conteúdo.
- Wilhelm Grimm conclui: “Quanto mais remontamos no tempo, mais vemos estender-se o mítico, que parece mesmo ter constituído o fundo único da mais antiga poesia.”
- Essas anotações sobre o fundo mítico se inserem em um longo exposto de religião e literatura comparadas que testemunha a erudição de Wilhelm Grimm.
- Um bom exemplo do modo de proceder dos irmãos Grimm é fornecido pelo trecho da introdução à edição de 1819 que descreve Dorothea Viehmann, camponesa originária da aldeia de Nieder-Zwehrn perto de Cassel, que lhes contou a maioria dos contos do segundo volume.
- A descrição de Viehmann: ainda robusta, pouco além dos cinquenta anos, traços sólidos, inteligentes e agradáveis, olhos grandes, olhar claro e vivo.
- Ela conservava as antigas lendas solidamente na memória — talento que, gostava de dizer, não é dado a todo mundo — e contava com calma, segurança, vivacidade e prazer, primeiro com toda liberdade, depois, se lhe pediam, uma segunda vez lentamente, de modo que se podia escrever à medida.
- Os irmãos Grimm afirmam ter conservado assim muitas coisas de maneira literal, cuja autenticidade não se poderia desconhecer.
- A fidelidade à tradição em pessoas cujo gênero de vida se manteve imutável é descrita como mais inabalável do que os inclinados às mudanças poderiam conceber — e é ela que constitui “uma proximidade penetrante, uma maestria interior” à qual não se chegaria por outros modos de proceder.
- “O fundo narrativo da poesia popular assemelha-se à verdura que, espalhada por toda a natureza em escalas e variações múltiplas, sacia nosso olhar e suaviza nossos sentimentos, sem jamais fatigar.”
- Os irmãos Grimm tinham muito interesse em demonstrar que procediam de maneira científica, mas o manuscrito de Oelenberg — descoberto em 1920 — e os trabalhos posteriores de Heinz Rölleke revelam uma realidade mais matizada quanto às fontes e ao grau de intervenção editorial.
- O manuscrito de Oelenberg permite avaliar em que pequena medida os irmãos Grimm se julgavam autorizados a modificar os relatos ouvidos.
- Heinz Rölleke publicou uma nova edição crítica do manuscrito de Oelenberg que permite seguir minuciosamente o modo como os irmãos Grimm adaptaram os relatos ouvidos, apresentando também boa parte de suas notas e observações até então inéditas.
- Rölleke estabeleceu que Marie Hassenpflug — jovem mulher cujo pai era Presidente do Conselho da Hesse e cuja mãe, de família huguenote, a havia criado no espírito francês — e não a humilde dona de casa Marie Müller, foi quem contou Chapeuzinho Vermelho (n° 26) e A Bela Adormecida (n° 50).
- Dorothea Viehmann teria sido esposa de um burguês alfaiate, também de origem huguenote, sendo o francês a língua de sua juventude.
- Rölleke sustenta que os KHM seriam mais tributários da literatura de expressão francesa do que se admitia — particularmente das coletâneas de Charles Perrault e de Mme d'Aulnoy —, e que quase metade dos KHM não poderia mais ser considerada como proveniente de artesãos e camponeses alemães.
- Rölleke sublinha ainda o esforço de estilização crescente de uma edição a outra, entre 1812 e 1856, visando tornar a coletânea agradável a todos e acessível às crianças — esforço acompanhado de preocupações moralizantes no gosto Biedermeier da época.
- Se os Grimm traduziram à sua maneira os contos que chegaram a seu conhecimento, não os “traíram” por isso — nem que fosse pelo caráter universal de seu conteúdo ou de sua mensagem; os relatos que passaram pelo intermédio de intérpretes franceses não são deformados no que constitui sua especificidade iniciática, pois o próprio do mito é poder passar através de todas as traduções.
- A posição dos irmãos Grimm pode ser resumida em uma dupla proposição que articula tradição indo-europeia e poligênese mítica.
- Primeira proposição: os contos representam, mesmo sob forma impura e alterada, vestígios de muito antigas lendas divinas e heroicas remontando à época indo-europeia, sendo raro que tenham podido passar de um povo a outro.
- Segunda proposição: assim como situações simples podem encontrar-se em todas as épocas e em todos os povos sem contato nem influência, contos de conteúdo bastante semelhante podem desenvolver-se em todos os povos — e nesses contos o mito é o elemento primeiro e originário; quando a crença ou o conteúdo religioso do mito estão em vias de desaparecer, o mito torna-se conto.
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