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Jornada extática

LECOUTEUX, Claude. Witches, werewolves, and fairies: shapeshifters and astral doubles in the middle ages. Tradução: Clare Frock. Rochester: Inner Traditions, 2003.

Êxtase e visões no mundo cristão medieval

  • Escritos da antiguidade mencionam pessoas que, por carisma ou doença, saem de si mesmas e veem ou aprendem o que permanece oculto para os mortais comuns, sendo chamadas de extáticas (do grego ekstasis, “extraviamento do espírito”).
    • Os clérigos definem a visão que não ocorre em sonho (in somnis) como a viagem da alma para o outro mundo, uma peregrinação didática cujo objetivo principal era revelar ao escolhido a correção do dogma cristão e o destino que aguarda o homem no além.
    • No início da Idade Média, as visões não eram estritamente reservadas aos eclesiásticos, havendo testemunhos de camponeses analfabetos, embora a Igreja gradualmente as tenha cooptado e reivindicado um monopólio sobre elas.
    • Quando um clérigo servia apenas como escriba dessas visões, e elas não eram produtos diretos da cultura eclesiástica, pode-se discernir neles outra atitude, outra cultura, outro conceito de vida e morte.

Condições e duração da visão

  • Beda, o Venerável (morto em 735), considerado por Jacques Le Goff como “o fundador das visões medievais”, relata em sua “História Eclesiástica” as visões de Fursy (monge irlandês morto por volta de 650) e de Drythelm, que ocorrem no contexto de doença.
    • Beda afirma que Drythelm morreu uma noite e voltou à vida na manhã seguinte, quando contou o que lhe havia acontecido.
    • Gregório Magno (morto em 604) refere-se ao caso de Estêvão, um cidadão romano cuja doença o levou às portas da morte, mas cuja “alma” retornou ao seu corpo.
    • Gregório de Tours (538–594) escreve sobre Salvi, Bispo de Albi: “Tendo sido tomado por uma febre alta, ele parecia morto; foi lavado, vestido e colocado em uma maca, e foi vigiado a noite toda; pela manhã, ele começou a se mover e, alguns dias depois, contou sua visão.”
    • Alberico de Settefratti, que entrou no mosteiro de Monte Cassino por volta de 1211–1213 aos dez anos de idade, teve uma visão enquanto estava em coma induzido por doença por nove dias e nove noites.
    • Raramente pessoas com boa saúde recebem visões, como a mãe de Guiberto de Nogent (1055–1125), que estava deitada à beira de um rio, descansando, quando cochilou: “Pareceu-lhe então que sua alma saía de seu corpo de maneira perceptível” (sua ipsius anima de corpore sensibiliter sibi visa est egredi).
    • O caso do irlandês Tondale (Visio Tnugdali, por volta de 1148) é notável: enquanto sentado à mesa, Tondale exclamou que se sentia morrer (ego morior) e, após essas palavras, desabou, “sem vida, como se seu espírito tivesse partido”, permanecendo sem vida da décima hora de quarta-feira até a décima hora de sábado, quando “seu espírito retornou”.
    • Os textos sugerem duas maneiras de permitir que a alma deixe o corpo: involuntariamente (doença) ou através de práticas de ascetismo (jejum, privação de sono, disciplina, exposição ao frio) para eliminar os laços que unem a alma e o corpo.
    • A lista de visionários ascéticos é muito longa, incluindo Ansgar de Brême (morto em 865) e Sibyllina Biscossi da Pavis (1287–1367).
    • O corpo deve estar em estado crítico para que a alma se torne livre, como acontece durante catalepsia, letargia ou coma tão profundo que as testemunhas ficam convencidas de que a morte ocorreu.
    • Quando Siagrio descreve o êxtase de Orm (1125), ele especifica que o corpo subitamente se tornou frio e rígido e parecia exatamente um cadáver (subito corpus frigidum et inflecibile et simillimum mortuo efficiebatur).
    • Quando a alma ou espírito deixa o corpo, a duração pode variar de “o período de tempo que passa entre o primeiro e o terceiro Agnus Dei da Missa” a cinco semanas (como no caso de Njal, por volta do ano 1000).

Observações lexicais sobre o que deixa o corpo

  • A análise de aproximadamente cem visões destaca que, nos exempla (narrativas edificantes), a fuga da entidade que habita o corpo é expressa de poucas maneiras, como “ele foi levado ao tribunal de Deus, de Cristo” (raptus fuit ad iudicium) ou “caiu em êxtase” (factus est in exthasi).
    • O termo “anima” está ausente nos textos mais antigos analisados, e na visão política e secular de Carlos, o Gordo (por volta de 889–890), uma voz diz: “Carlos, seu espírito (esprit) vai deixá-lo em um momento, e uma visão revelará a você o justo julgamento de Deus e alguns presságios sobre você, mas seu espírito voltará para você depois de muito tempo.”
    • Diz-se de São Fursy (visão provavelmente por volta de 633) que sua alma saiu de seu corpo desde a noite até o canto do galo, e “anima” está presente nas visões que tomam a forma de um diálogo entre a alma e um anjo.
    • Sob pressão dos teólogos, houve uma especialização de termos: a alma (muito mais do que o espírito) foi percebida como sendo reservada para peregrinações extáticas (viagens para o outro mundo), o que implica uma ruptura com as tradições pré-cristãs, onde o conceito de alma era estranho.
    • Um monge inglês do século XIII, escritor da “Visão de Thurkill”, usa “alma” uma única vez em relação ao rapto ou êxtase, quando São Julien aparece a Thurkill e diz: “Apenas sua alma me acompanhará” (sola enim anima tua mecum abibit).
    • Em “Godeschalcus” (relato da visão do camponês de Holstein Godeschalc, de 12 a 15 de dezembro de 1190), o escritor usa “animus” uma vez e “anima” para designar aquilo que deixa o corpo (“a alma saiu do invólucro corporal” – de vase corporis anima effusa est).

A visão de Godeschalc

  • Godeschalc, um camponês da paróquia de Neumünster (Holstein), teve febre, parou de comer e foi para a cama; de domingo a quarta-feira, perdeu a consciência, seu rosto estava pálido, sua língua ficou quieta, seu pulso diminuiu, seus pensamentos pararam e todo o seu corpo parecia estar sem alma.
    • Na quarta-feira, sua alma “deixou o vaso corporal”, como o próprio doente disse, “para ver o invisível e ouvir o indizível”.
    • Diferentemente de São Paulo, Godeschalc não duvida por um momento que sua alma se separou de seu corpo por toda a duração da visão (cinco dias) e tem certeza de que estava morto durante esse mesmo período.
    • O clérigo nota que Deus permitiu um certo movimento no corpo (a boca do extático tremia – os solum palpitavit) para garantir que o extático não fosse enterrado antes que a alma retornasse.
    • A “Visio Godeschalci” (mais concisa) afirma que Godeschalc ficou doente por sete dias; no oitavo, foi tirado da luz do mundo e cinco dias depois voltou ao seu corpo (ad corpus redit).
    • Godeschalc trouxe de sua viagem “provas (argumenta) que poderiam facilmente persuadir até mesmo pagãos a acreditar em suas palavras”: seus pés foram rasgados por espinhos e ouriços da terra que ele deve ter viajado; seu lado esquerdo foi queimado; e suas dores de cabeça foram atribuídas aos vapores fétidos do inferno.
    • O autor de “Godeschalcus” afirma: “A ressurreição de uma pessoa morta não é impossível nem nova, e não há nada notável sobre o espírito ir e voltar” (ire spiritum et redire), mas se recusa a especular se a experiência ocorreu “no corpo ou fora do corpo” (in corpore an extra corpus raptus).

O problema das provas físicas

  • Ferimentos no corpo que poderiam servir como prova definitiva da verdade dos fenômenos visionários gradualmente tenderam a se tornar uma constante nesse tipo de relato.
    • Em “A Lenda Dourada”, Jacques de Voragine (1225–1298) relata que Mestre Silo de Paris recebeu a visita de um de seus alunos que havia morrido dias antes e agora sofria as dores do inferno; o fantasma usava uma capa forrada de fogo, e uma gota de suor caiu dele e perfurou a mão de Silo (manum perforavit).
    • Nos relatos de visões que são fenômenos inversos (uma pessoa viva é transportada para o outro mundo), ferimentos são raros, ao contrário dos relatos de aparições de mortos.
    • Guiberto de Nogent relata que uma companheira de uma mulher falecida em um mosteiro viu em sonho a morta queimando no inferno; uma faísca do fogo do inferno atingiu seu olho, acordando-a, e “a evidência real de sua ferida veio confirmar a autenticidade de sua visão” (veritati visionis verax congrueret testimonium laesionis).
    • De sua jornada extática, Fursy trouxe queimaduras em sua mandíbula e ombro; em 1104, um monge no mosteiro de Fly teve uma visão durante a qual um demônio jogou uma pedra nele, acertando-o em cheio no peito, causando sofrimento por quarenta dias.
    • Em 1197, Rannveig, concubina de um padre, caiu em sua casa e permaneceu inconsciente até a noite; quando voltou a si, contou a visão de ter sido ferida ao cruzar os campos de lava do outro mundo, e seu corpo mostrou vestígios dessas queimaduras.
    • Os clérigos raramente notavam os ferimentos que um indivíduo trazia de uma viagem extática porque a alma é incorpórea para os cristãos e, portanto, não pode ser marcada de forma alguma.
    • Orígenes (nascido em Alexandria em 185, morto em Tiro em 154), em seu tratado “A Ressurreição”, afirma que por natureza as almas são espirituais, mas quando deixam seu corpo terreno, assumem outro corpo sutil, uma forma exatamente como o corpo que abandonaram (como uma espécie de bainha ou recipiente), o que se aplica maravilhosamente bem ao Duplo.

Visões e sonhos

  • Toda a literatura medieval está repleta de sonhos, com particularidades e tradições provenientes de Roma, Grécia e Oriente, transmitidas através da Bíblia e do “Comentário ao Sonho de Cipião”, de Macróbio (que viveu por volta de 360–422).
    • Tertuliano (entre 210 e 213) fala dos demônios que traziam sonhos falsos, perturbadores e vis, enquanto Deus traz sonhos reais e proféticos.
    • A distinção entre visões e sonhos foi feita pela cultura cristã da Idade Média, e Pedro Dinzelbacher tentou determinar o que permite a distinção entre visões extáticas e visões oníricas.
    • Os únicos critérios pertinentes são a rigidez cadavérica e a total falta de consciência do extático, bem como sua apatia quando sua alma retorna ao seu corpo.
    • Em todas as culturas, os sonhos são o grande meio de comunicação com o outro mundo, e a prática da incubação (passar uma noite em um santuário esperando um sonho profético) era praticada por pagãos e cristãos.
    • Guiberto de Nogent (1055–1125) conta seus próprios sonhos e os de sua mãe, usando termos como “visio”, “somnium” e “visum” com hesitação, revelando uma linguagem corrigida pelo reflexo de sua cultura cristã.
    • A verdadeira visão, visão extática, implica a viagem da alma para o outro mundo; foi com os “Diálogos” de Gregório Magno que esse reino se tornou aberto aos sonhos.
    • Os sonhos eram suspeitos, em conformidade com Eclesiastes: “Porque na multidão dos sonhos e muitas palavras há também diversas vaidades.”
    • Um hino atribuído a Santo Ambrósio e cantado nas completas pede: “Que os sonhos e fantasias da noite recuem!”
    • O prólogo da “Visão de Thurkill” contém uma longa passagem que esclarece o debate: muitas pessoas tinham dúvidas sobre as visões, e havia “quase tantos zombadores e céticos quanto pessoas convencidas e crédulas”.

Aparições oníricas

  • Em sonhos cristãos e pagãos, o detalhe mais frequente é uma aparição: São Martinho apareceu a Sulpício na hora de sua morte; Guilherme, o prior de Cluny, aparece a Pedro, o Venerável, in somnis (“em um sonho” – De Miraculis II, 25).
    • Deixando de lado toda conotação religiosa, o que resta desses sonhos é que um indivíduo aparece a outro, independentemente de a aparição estar viva ou morta.
    • Não se está mais olhando da perspectiva de uma pessoa que envia seu Duplo para longe (o que a língua nórdica expressa pelo termo hamför), mas sim da chegada do outro lado da cadeia, com o hospedeiro involuntário.
    • Seria fútil insistir em separar visões extáticas de aparições oníricas, pois estes são dois aspectos do mesmo fenômeno.
    • Os clérigos efetuaram uma redução (do número e natureza dos personagens propensos a aparecer em sonhos) e uma especialização (do mundo monástico neste modo de perceber o Divino).
    • As criaturas que povoam o mundo dos sonhos são homens, gênios, às vezes deuses e frequentemente santos, confirmando que o sono é favorável à comunicação com o outro mundo.
    • Para a mentalidade pagã germânica e celta, o homem permanece permanentemente em contato com o lado sobrenatural da realidade através do intermediário de seu Duplo ou Duplos.
    • As visões e viagens extáticas cristãs da Idade Média não devem ser arrancadas do composto pagão que, em parte, as nutriu; se a alma conecta o cristão a Deus, o Duplo conecta o pagão a todo o cosmos, incluindo o outro mundo (o mundo dos mortos, de onde vem todo o conhecimento).
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