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Fadas

LECOUTEUX, Claude. Witches, werewolves, and fairies: shapeshifters and astral doubles in the middle ages. Tradução: Clare Frock. Rochester: Inner Traditions, 2003.

A fada como Duplo psíquico nas tradições celtas e germânicas

  • Um aspecto marcante da literatura romana e celta é a presença de fadas que funcionam como destino, protetora feminina, amante e até esposa, enquanto nas tradições escandinavas (exceto traduções de obras francesas) as fadas são inexistentes.
    • No “Lai de Lanval” (Maria da França, por volta de 1170), Lanval se deita na floresta (fronteira entre o mundo sobrenatural e o mundo humano) ao lado de água corrente, e duas jovens donzelas o convidam a seguir até sua senhora, que lhe diz: “É por você que deixei minha terra, e minha terra fica muito, muito longe… pois amo você mais do que qualquer coisa no mundo.”
    • A fada anônima dá a Lanval um dom (riqueza), mas o proíbe de contar a alguém sobre o amor deles, afirmando: “Sempre que desejar minha presença, não há lugar… onde eu não venha até você, pronta para fazer sua vontade; e ninguém me verá, exceto você, e ninguém ouvirá minhas palavras.”
    • Quando Lanval quebra seu juramento, a fada aparece para todos na corte do Rei Artur, salva seu amante da morte e depois parte; Lanval salta no cavalo atrás dela e eles vão para Avalon, uma ilha bela e mágica.
    • A fada anônima se assemelha fortemente ao Duplo/fylgja (o gênio tutelar), e o desaparecimento de Lanval no cavalo da fada é a expressão eufemística de sua morte, que ocorre porque a fada aparece diante da corte do Rei Artur.

A fada como gênio tutelar em Peter von Staufenberg

  • Em “Peter von Staufenberg” (escrito por volta de 1310), a fada diz ao herói: “Meu amigo, tenho esperado por você, e juro que o acompanhei fielmente aonde quer que você fosse desde que montou em seu cavalo. Desde então, tenho cuidado de você nas estradas e caminhos.”
    • A fada declara: “Em assaltos e batalhas, protegi-o incessantemente como a um amigo. Em torneios, vigiei-o bem para garantir que nada lhe acontecesse. Em todas as cortes onde houve justas, protegi-o, generoso cavaleiro, através de seu escudo. Fiz o mesmo na Terra Santa… Na Prússia, guardei-o dos eslavos e dos russos; na Inglaterra e na França, vigiei-o; e na Toscana e na Lombardia, cuidei bem de você.”
    • “Onde quer que seu desejo o levasse, eu estava por perto, invisível… Saiba que sempre o envolvi em minha fiel vigilância.” Esta fada é o gênio tutelar de Peter, sua fortuna, equivalente celta da fylgja nórdica.
    • A fada afirma que pode ir aonde quiser, e Peter só precisa chamá-la (com sua mente, como em Lanval) para que ela apareça.

A fylgja zoomórfica e as fadas animais

  • A fylgja é muito frequentemente zoomórfica, e desde os séculos XII e XIII existe uma relação direta entre fadas e certos animais (javali, corça, veado), que possuem um caráter sobrenatural pronunciado indicado por sua cor (branca) ou por um detalhe anatômico.
    • Esses animais podem se metamorfosear em seres humanos (o cavaleiro em “O Lai de Tyolet”, o Rei Lar em “Wigalois” de Wirnt von Grafenberg), e sua função essencial é levar um cavaleiro até uma fada (tema do animal guia).
    • Em “Partenopeu de Blois” (final do século XII), a fada Mélior jura ao herói ao anoitecer (horário usual para a duplicação na tradição nórdica) que ela criou o javali que levou ao encontro deles.
    • O animal (frequentemente branco) desaparece misteriosamente assim que sua missão é cumprida, no momento em que a fada aparece diante de seu amante escolhido.
    • A fada, compreendida como a forma celta da fylgja (o Duplo espiritual que representa a parte do homem que vive no outro mundo), é o gênio tutelar feminino e o destino que possui exteriores animais.

O pacto entre o mortal e seu Duplo

  • Em “A Saga de Hallfred, o Escaldo Difícil”, a fylgja de Hallfred aparece diante dele pouco antes de sua morte; ele reconhece-a, entende o que deve acontecer e diz: “Declaro todos os laços entre nós agora dissolvidos.”
    • A fylgja se volta para seu filho mais velho e pergunta se ele a quer; diante de sua recusa, ela vai para o filho mais novo, que diz: “Eu aceito você”, e então ela desaparece.
    • A fada/fylgja se dá a conhecer, em vez de se confinar aos sonhos, e se liga a um mortal apenas mediante o consentimento deste, retendo sua natureza de daimôn.
    • A fada faz um pacto com o herói que vincula ambas as partes a honrá-lo porque repousa em acordo recíproco, sendo de pouca importância as formas que esse pacto assume ou suas proibições de ver ou contar.

A hierogamia com o Duplo no xamanismo siberiano

  • Um homem Goldi (tribo mongol da Sibéria oriental) explicou ao etnólogo L. Sternberg como se tornou xamã: “Um dia, eu estava dormindo em minha cama de sofrimento quando um espírito se aproximou de mim. Era uma mulher muito bonita, muito magra… Ela me disse: ‘Eu sou o áyami (espírito protetor) de seus ancestrais, os xamãs. Eu os ensinei a xamanizar; agora eu ensinarei você também.’”
    • O espírito acrescentou: “Eu amo você. Você será meu marido, pois não tenho um agora, e eu serei sua esposa. Eu lhe darei espíritos que o ajudarão na arte de curar. Eu lhe ensinarei esta arte e eu mesma o assistirei… Se você não quiser me obedecer, pior para você! Eu matarei você.”
    • Desde então, ele nunca parou de vir à sua casa; ele se deita com ela como se fosse sua esposa real, mas não têm filhos; às vezes ela aparece como uma mulher velha ou um lobo, para que as pessoas não possam olhar para ela sem ficar aterrorizadas.
    • A mulher sobrenatural (ályami) é comparável em muitos aspectos à fylgja nórdica e às fadas celtas: todas escolhem um humano como amante, assumem sua vida e tornam-se seu gênio protetor.

A união do homem com seu destino no conto lituano

  • No século XIX, J. Basanavic̆us registrou um conto na Lituânia sobre um filho “sem parte na vida” (bedalis) que encontrou o Velho Deus, que o enviou a uma fonte; três pássaros (c三名) pousaram lá, removeram suas penas e foram banhar-se em forma de mulheres.
    • O Velho Deus disse ao jovem: “Você sabe o que é isso? É sua dalis (parte na vida, destino), que veio se banhar.” Ele aconselhou o jovem a roubar as penas da mais jovem das banhistas e não as devolver até que ela prometesse ser sua dalis.
    • O menino sem parte na vida seguiu esse conselho, casou-se com a mulher cisne e eles viveram felizes para sempre.
    • O conto da mulher cisne (bem conhecido dos celtas e dos povos germânicos, encontrado em “O Lai de Graelent” e na lenda de Wieland, o ferreiro) assume sua verdadeira dimensão mítica: o homem está unido ao seu destino, captura-o, torna-o seu e assim recebe boa fortuna e riqueza.

Estrutura comum das lendas da amante fada

  • No outro mundo vivem seres (femininos?) que escolhem ser o gênio tutelar de um indivíduo e acompanhá-lo (como em “Peter von Staufenberg”).
    • O gênio tutelar torna-se o Duplo psíquico (daimôn) de seu protegido e aparece a ele em sonhos (como os sonhos de Gisli).
    • O Duplo representa o destino de seu mortal e possui formas humanas e animais (as fylgjur que aparecem ao inimigo do alter ego em sonhos e os animais guias que são os Duplos das fadas).
    • Através da perda do significado primário desses detalhes ou da psicologização e adaptação em obras literárias, ocorre uma distorção de forma, mas não de conteúdo: o ser sobrenatural (antropomorfizado) escolhe ser o alter ego psíquico de um mortal; estando intimamente ligado ao destino, funde-se com as fadas (sucessoras das Parcas e Nornas); retém sua forma animal, mas a usa apenas para atrair o escolhido a um lugar adequado (onde a água está sempre presente); e se o mortal é separado dela (por transgressão ou quebra de tabu), ele encontra a morte (Lanval desaparece em Avalon, Graelent cruza o rio, Peter von Staufenberg morre três dias após se casar com uma mulher mortal).
    • Nos tempos míticos, houve um hiérosgamos (casamento sagrado) entre um mortal e seu Duplo psíquico, o ser que o acompanha do nascimento à morte, permanece após seu corpo ter morrido e se transfere para outro indivíduo (frequentemente outro membro da família do primeiro mortal).

A união sagrada entre homem e Duplo

  • No relato celta “O Cerco de Druim Damghaire”, Cormac foi caçar lebres, perdeu seus cães e companheiros, entrou em um nevoeiro espesso e caiu em um sono mágico em uma colina até que uma voz o despertou; ele viu uma jovem de beleza encantadora que jurou seu amor a ele e pediu: “Venha comigo!… para que eu possa tê-lo… como meu marido e companheiro de cama.”
    • Na forma de uma lebre, o espírito feminino atrai Cormac para um lugar onde ele adormece (uma colina, a visão celta de uma colina das fadas, ou seja, o outro mundo) e pede que ele seja dela.
    • É o alter ego de Cormac que alcança o outro mundo enquanto seu corpo permanece na colina, o local onde um sono mágico (transliteração de transe ou catalepsia) o deixou deitado, um detalhe importante atestado entre celtas e germânicos no ritual de deitar-se em montes funerários para receber um dom ou revelação (incubação).
    • Em toda essa família de lendas existe o tema da união sagrada (hierogamia) entre o homem e seu Duplo psíquico (daimôn, genius, fylgja), que entre os povos siberianos se traduz na obtenção de poderes supranormais (comunicação com o outro mundo e com os espíritos) e entre os povos do Ocidente medieval como a realização de desejos (riqueza, honras).
    • Por trás desses relatos está o pensamento de que, sozinhos, nada somos; para existir, devemos reunir dois princípios dentro de nós (espiritual e material) e assim nos unir ao nosso Duplo.
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