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Autos vicentinos, tempo e morte

MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969

CAP. XIII — O TEMPO E A MORTE NOS AUTOS VICENTINOS

No cemitério, Hamlet interroga o mistério da vida e da morte de modo sarcástico e sombrio, diante das caveiras desenterradas pelos coveiros.

  • A caveira já teve uma língua e podia cantar, enquanto outra pode ter pertencido a um político, cortesão ou senhor qualquer.
  • A enxada do coveiro revela que a face descarnada pertence agora a Dona Bicheza, numa excelente revolução para quem tem olhos de ver.
  • Outra caveira pode ser de um jurista, cujos distinguos e subtilezas não lhe garantem mais do que o comprimento e a largura de uns palmos de terra.
  • A caveira do bobo do rei Yorick, que outrora o levava às cavalitas com imensa graça, agora revolve o estômago, pois suas chufas, cantigas e rompantes de alegria não estão mais ali.
  • Alexandre Magno, debaixo da terra, pode cheirar da mesma forma e seu pó talvez esteja tapando o furo de uma barrica.
  • A resposta magnífica e dominadora de um coveiro ao outro é que o coveiro constrói com maior solidez, pois as casas que ele faz duram até o Dia do Juízo.

Toda essa filosofia necrótica entronca nos sermões da Idade Média, nos textos literários das Danças Macabras e nas gravuras de livros como os Livros de Horas de Simon Vostre e as Bilder des Todes de Hans Holbein.

  • A Dança Macabra enraizou-se na Península Ibérica por meio de La Danza de la Muerte, da poesia de Fr. Diego de Valência e do Razonamiento que faze Johan de Mena con la Muerte.
  • O espírito de nivelação de todos os homens perante a Morte toda-poderosa está presente nessas obras, com maiúscula inicial por se tratar da pessoa principal da Dança Macabra.

Gravuras dos Livros de Horas, alguns destinados especialmente a Espanha e Portugal, estavam ao alcance de Gil Vicente, como as Horas de nossa senhora segundo costume romaão de 1500 e uma gravura do Flos Sanctorum de 1513.

  • Perante a morte, os homens curvam-se como um canavial vergado pelo vento implacável dessa força que tem nas mãos descarnadas o destino imprevisto, mas fatal.
  • Em Gil Vicente, a Morte ceifa a pastora menina que contava chegar à velhice: Porque era moça cuydey / que da velhice gouvira.

Nas duas primeiras viagens das barcas, a figura trágica da Morte e sua gadanha sem misericórdia não aparecem no palco, mas são descobertas na terceira viagem, mais sóbria e ajustada ao teor das Danças Macabras.

  • Na terceira viagem, a Morte aparece em seu esplendor sombrio, ceifando indiferentemente da criancinha anônima ao papa.

Auto de Mofina Mendes e a inversão dos valores

Mofina Mendes representa o sonho de todos os homens, a construção de castelos no ar que se desfaz como o pote de azeite que cai ao chão.

  • Após perder os rebanhos e ser despedida com um pote de azeite, ela sonha comprar ovos de pata, criar patinhos e ficar rica, mas o pote cai e o sonho se desfaz.
  • O comentário final de Mofina Mendes revela a filosofia do caso: por mais que a sorte a rejeite, todo o humano deleite, como o pote de azeite, há de dar consigo em terra.

No Auto do Pastoril, os homens dormem em cama de flores feita de prazer sonhado, num esquecimento de que hão de morrer e de que existe o mundo espiritual.

  • A Virgem Maria manda acender a vela da esperança do mundo espiritual, enquanto São José se mostra céptico, pois os homens preferem as sombras irreais das riquezas e honras.
  • A Prudência exclama que não há precisão de candeia, pois ali está o Menino Deus como luz, fartura e grandeza: onde elle estiver / estaa a corte do ceo.
  • O reino das sombras irreais é batido pela divina luz, os pastores despertam e um deles convida Barba Triste a ver os prazeres que nem eu nem tu nunca viste.
  • Às riquezas mundanas prefere-se a pobreza de Cristo e ao dormir em prazer sonhado contrapõe-se o velar em prazer acordado, a visão do mundo sobrenatural.

Auto da Feira e a inversão dos valores

Mercúrio, o Tempo e um anjo anunciam a inversão dos valores na feira das virtudes, onde se deve trocar os vestidos pelas samarras pobres dos primeiros bispos.

  • A feira é a Igreja de Deus destroçada pela mentira, e a salvação não está no dinheiro, mas dentro de cada um, no reino do espírito.
  • Marta Dias é convidada a comprar consciência, de que visiteis vossa alma.

Duas mundividências opostas em luta permanente

Há duas mundividências opostas e em luta permanente: a do efêmero e a do permanente, da matéria e do espírito, do que entra pelos sentidos e do que se crê pela fé, do temporal e do eterno.

  • A vida humana é um durar precário entre coisas precárias, uma sombra caminhante a quem pesam e imobilizam as belas sombras deste mundo.
  • Peregrino do Céu, o homem pode ficar parado por dentro na marcha espiritual, mas o tempo o leva como uma árvore arrastada pela cheia larga de um grande rio.
  • Cada vez mais perto da morte e cada vez mais longe de Deus, como duas paralelas de velocidade desigual e oposta, sobre as quais é impossível caminhar sem desastre.

Auto da Alma: peregrinação e tempo religioso versus tempo mundanal

A ideia de peregrinação, de tempo religioso (ir avançando para Deus) e de tempo mundanal (ir avançando só na idade exterior) desenvolve-se no Auto da Alma, em que Gil Vicente se refere à triste carreyra / desta vida.

  • O homem terrestre está a caminho da morte, na humana transitória / natureza, que vive hoje e amanhã talvez já esteja num caixão.
  • Trata-se de um caminho temporal e, por outro lado, celestial: carreyra da glória.
  • Deus colocou à beira da estrada uma pousada com mantimentos, uma mesa iluminada e uma estalajadeira carinhosa, a Igreja.
  • A alma é planta soes e caminheyra que, ainda que esteja, vai para donde veio, sendo sua pátria verdadeira ser herdeyra da glória que consegue, anday prestes.

Não se pode dormir nem ficar parado um ponto sequer, pois o tempo é a morte que está chegando e o fim se aproxima.

  • A ideia fixa de não poder dormir e de ter de caminhar sempre vem do Auto de Mofina Mendes (acordai, pastores!), atravessa o Auto da Feira e se espraia no Auto da Alma: acordar e a caminho, que a jornada / muito em breve he fenecida.
  • À linha contínua do tempo deve ajustar-se a linha contínua do avanço interior para Deus.

O demônio contrapõe à ideia do tempo que se escoa rapidamente a ideia do tempo lento, inculcando à alma o amor das coisas terrenas para prendê-la, declarando que esta vida, e não outra, é o paraíso.

  • O anjo da guarda exclama para a alma seduzida pelas sombras: como vindes pera a glória / devagar! Não vos tome a morte agora!
  • O pensamento da morte é a chicotada que empurra os homens para a frente, pois riquezas e honras são terra, carga inútil que se descarrega / ao porto da sepultura.
  • S. Agostinho recomenda à alma peregrina que feche os olhos corporaes, para se libertar do que a prende a este mundo.

Sumário da História de Deus e as figuras do Tempo e da Morte

O Tempo e a Morte são duas figuras principais no Sumário da História de Deus, onde o Tempo, como nas figuras de Holbein, empurra as pessoas para o sepulcro.

  • O Tempo desfaz a vida como um sonho, na ampulheta implacável, dando aos homens a compreensão plena da curteza de seus dias: Nada são os meus dias.
  • Pergunta-se: Por que tão depressa me derrocaste / de cabeça, tu, que me plasmaste com as tuas mãos?
  • A Morte pergunta ironicamente ao rei: Que é feito de Vossa Alteza? E a resposta é: Nada, para este mundo.
  • O imperador confessa que a vida é curta e enganosa: curta, cega, triste e amarga; deixei os meus anos contigo, vida de enganos, e tu entregaste-me os danos e voltaste-me a cara.
  • Como vento forte a soprar em direção única, o tempo arrasta os homens para a morte terrivelmente depressa, forçando-os a largar tudo e a partir para a undiscover'd country from whose bourn no traveller returns.

Nas Danças Macabras, o menino chora e quase todas as personagens protestam contra a Morte esquelética e o Tempo de ampulheta vazia, surpreendidas pela trágica brevidade da vida.

  • No Sumário da História de Deus surge o relógio do Tempo, com a extensão das vidas destinadas a cada um: os homens entram na Terra, agasalha-os o Mundo, e o tempo e o relógio os despediraa.

A vida como pousada e o Mundo como estalajadeiro

Gil Vicente encara a vida como pousada, ao cuidado do Mundo, que é o estalajadeiro designado por Deus para agasalhar Adão e todos os seus descendentes.

  • O Mundo dá folgança e todas as coisas em muita abastança: os peixes que vão pelas carreiras do mar, as aves que andam as vias do ar, ovelhas e bois, e toda a avondança os leixa lograr.
  • O Mundo é um estalajadeiro amigo de dar conselhos, que manda cavar Adão e Eva fiar lã.
  • À maneira de um diretor de cena ou contrarregra, o Mundo vai introduzindo os atores no palco-estalagem, fazendo-os entrar e apresentando-os ao Tempo e aos ouvintes: Ora venha Abel, seu filho carnal; eis Job vem falando; venham os da Lei Escrita; venha o primeyro / glorioso Joannes.

Quando a figura de nosso Redentor entra, o Mundo não faz chamada e cai de joelhos com o Tempo e a Morte, num grande espanto: Também vós passaes, Deos meu, / por esta vida mesquinha…?

  • As personagens entram na pousada da Terra, fazem o que têm a fazer, pagam a estadia entregando o corpo à sepultura, e despejay logo!

Eva, expulsa do Paraíso Terreal, lamenta-se com pungência ao ver os ramos do pomar cobertos de celestes rosas, as doces verduras e as fontes graciosas.

  • Adão a consola, mas ela pressente que, ao pecar, gerou a Morte e a deu à luz, dizendo ao Mundo: vedes ali, senhor, que pari, vedes a minha triste paridura, essa he a filha da mây sem ventura.

Adão contempla a Morte e a define com força nunca descoberta nas Danças Macabras: a nossa parteyra da terra, herdeyra das vidas, senhora dos vermes, guia das partidas, raynha dos prantos, a nunca ouciosa, adella das dores, a emboladeyra dos grandes senhores, cruel regateyra que a todos enlea.

  • Ela herda todas as vidas e as soterra consigo, é a senhora funérea dos vermes sepulcrais, a rainha das lágrimas, a infatigável.

A Morte na terceira viagem das barcas

Na terceira viagem das barcas, o encontro com a Morte arranca imprecações dolorosas: Morte escura, tu nunca trazes consolo! Morte amarga, ninguém pode contigo! Ó guia da escuridão, robadora da idade, veloz ave de rapina, tu chegaste e tudo mudou para mim!

  • O papa fita a Morte triunfante e exclama: oo Eva, porque pariste esta Muerte amara y triste, al pie del arbol vedado. Estaes biva y has parido a todos tus hijos muertos y mataste a tu marido.
  • Grandes e pequenos, ninguém lhe escapa, nem mesmo o Filho de Deus, nem ao Tempo: eu lhes falarey, 1a na derradeyra.

A chamada terrível para o sepulcro

À maneira das Danças Macabras, principia a chamada terrível para o sepulcro e para o empurrão sem misericórdia.

  • Na flor dos anos, Abel ignora ainda a proximidade de seu destino, canta um vilancete (Adoray montanhas…) e discute com o diabo, até que o Tempo corta o diálogo: Despachay, Abel, parti polla fria, que ja vossas horas estam consumidas.
  • Abel espanta-se e protesta contra o Tempo e contra a Morte, porque na prática tudo é um: Oo tempo, tam curtas sam aqui as vidas, senhor agravaisme que ainda crecia, nam ha aqui justiça, leyxayme Morte! Mas a Morte não o deixa e leva-o sem que ele saiba para onde: Lá to dirão!

O Tempo impaciente com os profetas

Abraão, Moisés, David e Isaías entram no palco da vida, louvam a Deus e profetizam a vinda de Cristo, mas o Tempo, possesso de uma pressa enorme, manda-os calar e partir.

  • O Tempo ordena: Tendes ja dito, leyxay tudo isso posto por escrito e despejay logo, pagay a pousada, compri com a terra que quer ser pagada, e hos elementos day o spirito, nem faleis mais nada.
  • O Mundo faz intervir a Morte: despej'os, nam fique ninguém.
  • Isaías pretende ainda profetizar da Virgem Sagrada, mas ouve da Morte: Prophetas, no mais manda o Tempo que logo partais, partivos comigo e nam mais demoras.
  • Como Job, também S. João Baptista se resigna a sair ao ver que tudo acabou para ele neste mundo, pois o Tempo diz: vossas horas compridas estam.

A hesitação do Tempo diante de Cristo

Até a chegada de Cristo, o Tempo e a Morte nunca hesitaram, pois os homens lhes pertencem de verdade, mas quando Cristo surge o Tempo hesita.

  • O Tempo percebe que também ele teria as horas contadas e passaria pela porta inexorável e misteriosa da Morte: cedo me despejarás / tem tu o relógio certo.
  • Cristo ressuscita, solta os prisioneiros do Limbo e assi acaba o presente auto, pois o resto da história de Deus no mundo é um simples corolário.
  • Dali em diante, à maneira do Auto de Mofina Mendes, os homens caminhariam ao encontro da Morte levando na mão trêmula a vela da esperança.

O tempo irreversível e a morte como destino inexorável

O tempo irreversível e a morte, nele e por ele, introduzem-se em cada um como destino inexorável: um tempo que nunca dorme e uma morte a erguer-se em qualquer curva da vida como surpresa amarga, porque todos pensam ainda não.

  • Um tempo e uma morte a chegar nos passos discretos dos segundos rápidos, com a vida a esvair-se gota a gota até a ânfora do corpo humano ficar vazia e ser atirada para baixo da terra.
  • Um tempo e uma morte que de tudo desnudam, afora do que espiritualmente cada um é — bom ou mau; nada mais passará para a outra margem antes da ressurreição.

Os símbolos da existência nas três viagens das barcas

Nas três viagens das barcas, as personagens levam consigo símbolos de seu estado e poder, como nas figurinhas das Danças Macabras.

  • O fidalgo leva sua grande rabona; o avarento, a bolsa amaldiçoada; o sapateiro, as formas do ofício; o frade leviano, a espada roloa e o broquel rolão; a alcoviteira, sua tralha de feitiços e a carga das moças que vendia.
  • O judeu leva o bode às costas; o corregedor e o procurador, a papelada dos processos e das manhas jurídicas; o taful, um baralho de cartas; o enforcado, um baraco; o lavrador, uma charrua tão pesada quanto sua vida; a regateira Marta Gil, um canistrel; o pastor, o cacheyro ou cajado; a pastorita ingênua, seu véu branco; o menino, a marmelura ou ramela de que fala o diabo.
  • Os cavaleiros de Cristo ao papa levariam consigo as vestes e insígnias de seu estado, e até o parvo aparece com seu verbalismo meio louco, tudo como sinais para distinguir e caracterizar os atores, símbolos da existência bem ou mal cumprida.

A vida como comédia e a sátira cruel da morte

As grandezas mundanas pertencem ao tempo e à terra, e por isso o diabo diz ao rei que entre no batel sem nenhuma advertência, só com o espírito, limpo da vontade própria, aljeciras, diamantes e safiras.

  • O imperador lamenta-se da glória que ficou no mundo; o bispo pensa no corpo comido pelos vermes; o arcebispo sabe que o dinheiro ficou nos cofres; o cardeal reconhece a vitória humilhante da Morte; o papa declara que mais lhe valera nunca o ter sido.
  • A vida tem seu quê de comédia: terminado o papel, cada um se torna o que de verdade é — pessoa boa ou má perante a justiça de Deus.
  • Daqui deriva a sátira cruel das Danças da Morte e de Gil Vicente perante a nudez humana reduzida a um cadáver ou a um esqueleto descarnado.
  • Suas Majestades o Tempo, a Morte e o Sarcasmo resumem-se na gravura sintética e terrível de alguns Livros de Horas: um grande esqueleto ainda com alguma pele ressequida e, entre as pernas, um bobo com guizos nas vestes e um cetro na mão — um bobo medieval de olhar lúcido e língua desatada, para lembrar aos homens que neste mundo tudo passa e todos morrem.
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