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Dança Macabra

MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969

Cap. XII — A gênese e a expansão da Dança Macabra

  • A Dança Macabra, também chamada Dança da Morte ou, mais precisamente, Dança dos Mortos, constitui um tema central a ser examinado em sua origem histórica, nas figuras e versos que a compõem e em sua evolução ao longo do tempo.
    • O problema filológico da origem do termo macabro é deliberadamente deixado de lado, remetendo-se a fontes como o Dicionario Critico Etimologico de la Lengua Castellana, de J. Corominas, e o estudo Danse Macabre, de Robert Eisler.
  • A origem da Dança Macabra remonta a um passado longínquo, e a árvore genealógica de suas figuras sinistras e respectivos dizeres já foi traçada por outros estudiosos, tendo tudo principiado pela meditação sobre a morte e sobre o que se é depois dela — um esqueleto.
    • Leonard P. Kurtz, em The Dance of Death and the Macabre Spirit in European Literature (Nova Iorque, 1934), p. 185, apresenta uma árvore genealógica em forma, com extensa bibliografia.
    • Helmut Rosenfeld, em Der mittelalterliche Totentanz (Munster/Colônia, 1954), p. 307, oferece uma árvore genealógica mais completa.
    • O estudo Danse Macabre, de Robert Eisler, aparece no tomo 6 de Traditio (Nova Iorque, 1948), pp. 187-225.
  • Tal pensamento sobre a morte atravessa com enorme continuidade a literatura medieval ibérica e europeia, refletindo-se no Horto do Esposo, na Tragedia de la Insigne Reina Dona Isabel e nos poetas castelhanos ao morrer a Idade Média, especialmente nas coplas de Jorge Manrique, bem como na literatura ascética de todos os tempos e nos ecos de gênio que ela provocou.
    • As reflexões de Hamlet no cemitério nascem desse mesmo pensamento, assim como La Vida es Sueno e El Gran Teatro del Mundo, de Calderón de la Barca.
    • Alguns dos versos mais poderosos de Gil Vicente provêm do mesmo pensamento sobre a morte.
    • Anna Krause publicou Jorge Manrique and the Cult of Death in the Cuatrocientos, em California Studies, t. 1 (1937), pp. 79-176.
    • Vittorio Borghini publicou Giorgio Manrique. La sua poesia e i suoi tempi (Gênova, 1952).
    • José Luís Martínez publicou El concepto de la muerte en la poesia española del siglo XV, em Nuestra Música, t. 3 (México, 1949), pp. 55-101.
  • A semente longínqua da Dança Macabra — o pensamento da morte — amadureceu e formulou-se dramaticamente nos epitáfios, sermões, lendas e diálogos em que um ou mais mortos, quando não a própria Morte, se dirigiam aos vivos para lembrá-los de que também haveriam de morrer.
    • Essa formulação essencial aparece em dois versos do epitáfio do abade Pedro de Solignac (falecido em 1262): “Vos qui transitis, me cernere quaeso velitis. / Quod vos sentitis, nos sensimus. Ivimus, itis.” — tradução: Vós, que passais, olhai para mim! O que vós sentis, nós o sentimos. Passamos e vós estais passando.
    • O verbo passar no segundo verso refere-se ao tempo e não ao espaço.
  • No sepulcro do autor das Barcas — Gil Vicente — a mesma advertência aos vivos se encontra, por baixo de uma caveira e de alguns ossos.
    • Os versos do sepulcro dizem: “Perguntame quem fuy eu, / atenta bem pera mi, / porque tal fuy coma ti / e tal has de ser comeu.”
  • Na padieira da Capela dos Ossos, em São Francisco de Évora, lê-se o dístico macabro: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.”
    • Para comparação, citam-se estes versos de Baudouin de Condé: “… voiiés quel sommes, / Tel serés vous et tel, comme ore / estes, fumes…” — tradução: vede o que somos; tal sereis vós e tal, como agora sois, fostes.
  • Recuando a Helinando, no final do século XII, e a seus versos da Morte, encontra-se o gérmen vigoroso e fecundo da Dança da Morte, que na segunda metade do século XIII se desenvolverá e traduzirá no Dit des trois Morts et des trois Vifs, tema versado por diferentes autores franceses dando origem a várias poesias.
    • F. Wulf e E. Walberg publicaram Les Vers de la Mort, par Helinant, moine de Froidmont, publiés d'apres tous les manuscrits connus (Paris, 1905).
    • As poesias derivadas do tema incluem: Ce sont li troi mort et li troi vif que Baudouins de Condé fist; Chi coumenche li troi mort et li troi vif ke maistres Nicholes de Margival fist; Ch'est des trois mors et des trois vis; Cy commence le dit des trois mors et des trois vis.
    • Essas poesias foram editadas por Stefan Glixelli em Les Cinq Poemes des Trois Morts et des Trois Vifs (Paris, 1914), com introdução, notas e glossário.
  • A lenda dos três vivos e dos três mortos passou às miniaturas dos manuscritos, aos quadrinhos gravados nos Livros de Horas e à ornamentação das igrejas, como nas Horae de Genouilhac — três cavaleiros que andam à caça e de repente se sentem perseguidos por três esqueletos: um com uma lança, outro com um caixão às costas e o terceiro com a pá do coveiro.
    • Entre as Horas impressas citam-se as Heures a lusage de Romme (Paris, 1494), por Filipe Pigouchet, de que existe exemplar na Biblioteca Pública de Évora.
    • Também são mencionadas as horas de Simon Vostre (Paris, 1489) e as de Thielman Kerver (Paris, 1525), com a frase latina sobre os cavaleiros: Mors inevitabilis est et hora incerta — a morte é inevitável e a hora incerta.
    • Os cavaleiros declaram: “Estamos em glória e honra, / repletos de todos os bens e ventura, / ao mundo pomos o nosso coração / nele tomando nosso prazer.”
    • Os mortos respondem com firmeza: “Bem estivemos outrora em ventura / como vós estais agora, / mas vireis à nossa dança, / como somos agora.”
  • Nesse núcleo reside a essência da Dança da Morte ou, nesse caso, da Dança dos Mortos, em que cada morto se alarga em considerações sobre o futuro dos vivos destinados a descer ao sepulcro.
    • Na Grande Danse Macabre de 1491, uma personagem que age como ator chama a atenção do público para a visão dos três mortos — com sudários, desfigurados, ressequidos e de órbitas vazias — e passa a filosofar num tom que evoca o de Hamlet ao abrir-se a cova para Ofélia.
    • Os versos do ator indagam se esses três eram outrora duques, barões, condes ou reis, papas, abades, cardeais ou cônegos, o mais nobre dos três, se foram corcundas, cegos ou tortos, se foram prefeitos ou capitães — pois tiveram rostos humanos, foram sepultados na terra, onde os vermes os desfiguraram, até não restar mais que os ossos, o que deveria causar grande espanto a grandes e pequenos universalmente.
  • Um ano antes — em 1490 — imprimia-se em Paris a Chorea ab eximio Macabro versibus alemanicis edita et a Petro Desrey Trecacio quodam oratore nuper emendata, obra que traz, antes da dança propriamente dita, uma gravura com quatro mortos — e não três — cada um com um instrumento musical: gaita de foles, órgão portátil, harpa, e pífaro com tambor.
    • Cada um dos quatro mortos fala em versos latinos sobre a vida lábil e a morte que a todos leva e de tudo nos arranca.
    • A Dança Macabra impressa por Guyot Marchant em 1485 já trazia esses quatro mortos.
    • Depois serão vistas as relações entre a lenda dos três vivos e dos três mortos e as duas donzelas que, na Dança General de la Muerte, antecedem o papa e as outras personagens.
  • Antes de passar ao Vado mori, cita-se um poemazinho de 46 estrofes em latim rimado do século XII, que não está em forma de diálogo mas de sermão, e em que os três vivos contemplam fixamente um único morto.
    • Os versos latinos do poema dizem: “Cum apertam sepulturam / Viri tres aspicerent, / Ac orrobilem figuram / Intus esse cernerent…” — tradução: Quando três homens avistaram a sepultura aberta e perceberam que havia dentro uma figura horrível…
    • Algo semelhante aparece em Les Belles Heures de Jean de France Duc de Berry, no ofício de defuntos, numa miniatura que abrange metade da página: pás de coveiro, uma caveira, ossos e dois cadáveres ressequidos dentro da sepultura aberta, e três veneráveis anciãos voltados para a cova com o pensamento fito na morte.
  • Outro elemento a considerar na gestação da Dança Macabra é a poesia Vado mori — vou morrer — em que diferentes vozes declaram sua iminente morte: o aleijado, a criança, o adolescente de corpo agradável, o jovem de sangue nas veias, o homem feito e de bela estatura, o velho alquebrado, o pobre mendigo, o rico de bens mal adquiridos, o faminto, o crápula, o homem de vida pura, o sifilítico, o humilde, o orgulhoso, o covarde, o invejoso, o conde, o duque, o rei, o bispo, o papa.
    • Os versos latinos do Vado mori incluem estrofes como: “Vado mori, mori, naturae cedo, recedo, / Ut pereunt, abeunt cetera, vado mori.” — tradução: Vou morrer, cedo e recuo à natureza, como tudo perece e passa, vou morrer.
    • E ainda: “Vado mori regis clarus diademate, legis / Custos et iustos transeo, vado mori.” — tradução: Vou morrer, eu, rei ilustre de diadema resplandecente, guardião da lei e do justo, vou morrer.
    • E: “Vado mori papa vel satrapa nomen et omen, / Hoc leve sive breve desero, vado mori.” — tradução: Vou morrer, eu, papa ou sátrapa de nome e fama, abandono este encargo leve ou breve, vou morrer.
  • Todos — ricos e pobres, novos e velhos, com saúde ou sem ela, gente baixa, condes, duques, reis, bispos e papas — entram pela porta da morte, e todos podem repetir as palavras do bispo: Tristis adest hora, nec mora — chegou a hora triste e sem dilação.
    • Para reis, papas, prelados, cavaleiros, atletas, médicos, poderosos, professores de lógica, novos e velhos, ricos, juízes, fidalgos, gente formosa, pessoas inteligentes ou parvas, a morte é sempre igual.
  • É impossível acompanhar a evolução do núcleo primitivo até as posteriores danças da morte, evolução cheia de meandros e novas incidências, mas convém acentuar a existência de uma elegia cujo primeiro verso abre também por Vado mori e representa uma aproximação maior da Dança Macabra, embora dentro do monólogo.
    • Os versos da elegia dizem: “Vado mori: mors certa quidem nil certius illa, / hora fit incerta, vel mora: vado mori.” — tradução: Vou morrer: a morte é certa, nada mais certo que ela, mas a hora é incerta, ou o adiamento: vou morrer.
    • As personagens começam a desfilar e a dizer Vado mori, pois nada resiste à morte nem a pode afastar: rex, papa, praesul, miles, pugiles, medicus, magnus, logicus, juvenis, senior, dives, judex, pauper, genitus de sanguine nobiliori, pulcher visu, sapiens, stultus, todos afirmam que vão morrer.
    • Hellmut Rosenfeld, em Der mittelalterliche Totentanz (Munster/Colônia, 1954), pp. 323-325, documenta esse conjunto.
  • Ainda em forma de monólogo, existe uma Dança Macabra em latim, datada de 1350 segundo Hellmut Rosenfeld, em dísticos sóbrios onde já aparecem as figuras clássicas de outras composições futuras: o papa, o imperador, a imperatriz, o rei, o cardeal, o patriarca, o arcebispo, o duque, o bispo, o conde, o abade, o cavaleiro, o jurista, o cônego, o médico, o fidalgo, o mercador, a freira, o mendigo, o cozinheiro, o camponês, o menino de berço, a mãe.
    • Esse monólogo latino é denominado pelos alemães der lateinische Wurzburger Totentanztext.
    • Não aparecem a Morte nem nenhum morto no monólogo; surgem apenas vivos, embora prestes a partir deste mundo.
    • O Miles exclama: “Strenuus in armis deduxi gaudia carnis. / Contra iura mea ducor in ista chorea.” — tradução: Valente nas armas, deleitei-me nos prazeres da carne. Contra meu direito sou conduzido a esta dança.
    • Só entram as personagens apontadas, além de um doutor no início a pregar sobre o destino que a todos espera, e outro doutor no fim a exortar os homens ao arrependimento.
    • Pense-se nas Barcas de Gil Vicente, sobretudo na terceira, onde aparecem o papa, o imperador, o rei, o cardeal, o arcebispo, o duque, o bispo e o conde.
  • A Dança Macabra andava estreitamente unida aos sermões da morte, e por isso mesmo nas pinturas a fresco e em outros lugares vemo-la precedida, muitas vezes, de um quadro representando o púlpito com um pregador.
    • Pelos meados do século XIV, em alemão, já existia uma Dança dos Mortos: Der toten tanz.
    • Nessa dança alemã já se tem o diálogo em que, além do morto, entram igualmente o papa, o imperador, a imperatriz, o rei, o cardeal, o patriarca, o arcebispo, o duque, o bispo, o conde, o abade, o cavaleiro, o jurista, e por aí adiante, até acabar na criança e na mãe.
    • Hellmut Rosenfeld documenta esse corpus em Der mittelalterliche Totentanz (Munster/Colônia, 1954), pp. 308-318.
  • Trata-se mais de Dança dos Mortos do que de Dança da Morte: o vivo fala com o morto, o presente com o futuro, o que cada um de nós é com o que há de ser, o corpo vivo com o esqueleto ressequido lado a lado — e a Morte personificada ainda está um pouco longe, pois cada personagem fala consigo mesma.
    • O conde fala com o conde. O papa fala com o papa. O homem se desdobra em dois tempos: antes e depois de morrer.
    • Por essa razão, numa das figuras que depois apareceram na Dança Macabra, o louco e o morto, de mãos dadas, vestem de modo idêntico, à maneira dos bobos cheios de guizos.
  • Por volta de 1375, Jean Lefèvre escreveu estes versos no Respit de mort: “Je fis de Macabre la danse, / Qui tout gent maine a sa trace / e a la fosse les adresse.” — tradução: Eu fiz a dança de Macabre, que conduz toda gente ao seu rastro e ao sepulcro os dirige.
    • Esses versos, embora um tanto obscuros, demonstram que os leitores de então já conheciam a palavra macabre.
    • Os versos da Dança da Morte — tanto os de Paris, como os de Lubeck e os de La Dança General de la Muerte — participam de elementos comuns, de modo que tais versos já existiriam antes de 1424, data em que, no cemitério dos Inocentes, em Paris, foi pintado o fresco da Dança Macabra e a letra respectiva.
    • James M. Clark, em The Dance of Death in the Middle Ages and the Renaissance (Glasgow, 1950), p. 91, documenta esses dados.
    • Leonard P. Kurtz, em The Dance of Death and the Macabre Spirit in European Literature (Nova Iorque, 1934), pp. 71-72, transcreve a data de um apógrafo da poesia Le Respit de Mort e atribui a Jean Lefèvre uma Dance Macabré.
    • Hellmut Rosenfeld coloca uma Danse de macabré no ano de 1375.
  • Não cabe acompanhar a marcha da Dança Macabra — letra e figuras — pelos caminhos da arte nem fazer um estudo comparativo do conteúdo de cada uma das versões, sendo impossível registrar as várias formas desse ser vivo, sempre o mesmo e sempre novo, ora numa língua ora noutra, às vezes em cânones apertados, outras vezes abrindo caminho pela literatura e adaptando-se a vários gêneros.
    • Dos 16 manuscritos com a Dance Macabré, um deles traz só miniaturas e outro miniaturas e texto poético.
    • O manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris lat. 14904, bem conservado, contém La dance macabre prout est apud S. Innocentum.
    • O manuscrito fr. 25550, da mesma biblioteca, referindo-se igualmente à letra e não às pinturas, traz: Dictamina choreae machabre prout sunt apud innocentes Parisiis — tradução: Ditames da dança macabra tal como existem junto aos Inocentes de Paris.
    • Leonard P. Kurtz apresenta capítulos sugestivos em matéria de literatura e arte: Manuscripts of the Dance Macabré (pp. 25-41); Incunabula of the Dance Macabré (pp. 42-69); Mural Frescoes and Paintings in France (pp. 70-92); e nas pp. 178-189: Evolution of the Dances of Death.
    • James M. Clark, em The Dance of Death in the Middle Ages and the Renaissance (Glasgow, 1950), pp. 114-188, nomeia todas as personagens de uma multidão de Danças Macabras, pintadas ou simplesmente escritas.
  • Por volta de 1450, na capela de Nossa Senhora de Kermaria, a 28 quilômetros de Saint-Brieuc, surge de novo a Dança dos Mortos ou Dança Macabra, reproduzindo mais ou menos a letra e as figuras do cemitério dos Santos Inocentes, de Paris, e o mesmo aconteceu em outros países.
    • As personagens da capela de Kermaria são: o papa, o imperador, o cardeal, o rei, o patriarca, o condestável, o arcebispo, o cavaleiro, o bispo, o escudeiro, o abade, o bailio, o astrólogo, o burguês ou habitante da cidade, o cartuxo, o aguazil, o monge, o usurário acompanhado de um pobre, o enamorado, o menestrel, o lavrador ou homem do campo, o frade franciscano, o menino — cuja figura desapareceu mas de cujos versos resta ainda a primeira palavra: Petit…
    • Émile Mâle publicou L'Art Religieux de la Fin du Moyen Age en France, t. 3 (Paris, 1925), pp. 347-389, tratando das Danças da Morte, pinturas murais, etc.
    • Félix Soleil publicou Les Heures Gothiques et la littérature pieuse aux XV et XVI siecles (Ruão, 1882), pp. 69-81, 120-129, 281-287, sobre o mesmo assunto, sendo as pp. 281-287 e as estampas XXIII, XXIV, XXV, XXVI, XXVII e XXVIII dedicadas à capela de Kermaria e às pinturas que representam a Dança Macabra.
  • Dificilmente se pode imaginar a influência desses frescos nas figurinhas das Danças Macabras dos manuscritos e livros impressos.
    • Ao todo, 23 quadros com o enunciado correspondente dos letreiros em caracteres góticos de 4 centímetros.
    • Como não havia lugar para mais, o pintor suprimiu o cônego, o mercador, o médico, o advogado, o cura, o clérigo e o ermita, os quais vinham na Dança dos Inocentes.
  • Nessa fase, tem-se ainda, em rigor, a Dança dos Mortos e não a Dança da Morte, ao contrário da versão espanhola e da terceira Barca de Gil Vicente, em que a frase se repete tantas vezes quantas as personagens a que ela tem de responder: Dice la muerte… — tradução: Diz a morte… — enquanto no fresco de Kermaria é o morto que fala: Le mort — o morto.
    • Hellmut Rosenfeld documenta esse aspecto em Der mittelalterliche Totentanz (Munster/Colônia, 1954), pp. 308-318.
    • A distância ainda é grande em relação às Bilder des Todes, de Hans Holbein, onde o morrer de cada indivíduo se concretiza na personagem da Morte a acompanhar, de ampulheta na mão, os homens de todos os estados e categorias para os despojar de tudo e levá-los ao sepulcro, embora o morto fale quase sempre como se fosse a própria Morte.
  • Importa conhecer as Danças Macabras e composições afins em castelhano e catalão, a fim de verificar se nelas se enraízam as Barcas de Gil Vicente.
    • Dom Henrique III de Aragão morreu em 1406. Então o jerônimo Fray Miguel ou Fray Migir escreveu uma poesia em que o defunto, no lugar da Morte, avisa a todas as classes e estados — desde o papa e imperadores à gente mais humilde — que ele, rei de Aragão, tudo perdeu e já não é senhor de coisa nenhuma.
    • Os versos do defunto convocam: “Al grande Padre santo é los cardenales, / Arçobispos, obispos é arcedianos, / E á los patriarchas é colegyales, / Decanes, cabildos é otros cercanos; / A frayles é monges, á los hermitanos, / A sabios letrados, doctores agudos, / Poetas, maestros, tan bien á los rrudos, / A rrycos, á pobres, á henfermos é sanos…” — tradução: Ao grande Pai santo e aos cardeais, arcebispos, bispos e arcedianos, e aos patriarcas e colegiados, deões, cabidos e outros próximos; a frades e monges, aos eremitas, a sábios letrados, doutores agudos, poetas, mestres, bem assim aos rudes, a ricos, a pobres, a enfermos e sãos…
    • O poema consta do Cancionero de Juan Alfonso de Baena (séc. XV), ed. por P. J. Pidal (Buenos Aires, 1949), n.º 38.
  • Aconteceu o mesmo aos grandes do mundo antigo e moderno — Júlio César, Constantino, Alexandre, Aquiles, Amadis, Lançarote do Lago e muitos outros — a todos levou a Morte.
    • O pensamento central das Danças Macabras e seu impulso inicial é um morto ou a própria Morte a apontar para um ataúde e para a fragilidade da vida, dirigindo-se a todos sem exceção, desde o papa até à gente humilde.
  • Muitas são as poesias sobre a efemeridade das coisas e dos homens, mas elas se aproximam menos da estrutura essencial da Dança Macabra, embora se possa admitir a sua marca mal disfarçada.
    • Ferrant Sánchez Calavera, na primeira metade do século XV, perguntava: “Qué se fisieron los Emperadores, / Papas é Reyes, grandes Perlados, / Duques é Condes, cavalleros famados, / Los rricos, los fuertes é los sabidores…” — tradução: Que se fizeram os Imperadores, Papas e Reis, grandes Prelados, Duques e Condes, cavaleiros famosos, os ricos, os fortes e os sábios?
    • E respondia: “Todos aquestos que aqui son nonbrados, / Los unos son fechos çenisa é nada; / Los otros son huesos la carne quitada / E son deramados por los fonsados…” — tradução: Todos estes que aqui são nomeados, uns são feitos cinza e nada; outros são ossos despidos da carne e dispersos pelas fossas…
    • O franciscano Diego de Valência, que poetava em 1406, dirige-se à Morte afirmando igualmente o seu poder destrutor e sem misericórdia: “Dyme, Muerte, por qué fuerte / Es á todos tu memoria?…” — tradução: Diz-me, Morte, por que é tão forte para todos a tua memória?
  • Nessa poesia de Diego de Valência fala-se diretamente à Morte, que, porém, silenciosa domadora dos vivos, cala-se e nada responde, lembrando o tom das introduções poéticas à Dança da Morte ou as considerações do pregador.
    • Chega-se então ao Razonamiento que faze Johan de Mena con la Muerte, também atribuído por um compilador a Diego Palomeque, no Cancionero de Palacio — a Morte ergue-se não só como personagem principal mas também fala de si e de suas vítimas: tantos quantos os homens que vêm a este mundo.
    • A Morte responde: “Son tristezas e pesares, / llantos, bozes doloridas; / en posadas mal guarnidas / entran sordos, ciegos, mudos, / donde olvidan los sesudos / fueros, leyes e partidas.” — tradução: São tristezas e pesares, prantos, vozes dolorosas; em pousadas mal providas entram surdos, cegos, mudos, onde os sensatos esquecem foros, leis e partidos.
    • E quando interrogada sobre o que oferece a seus convidados, responde: “De tierra sendas braçadas, / a todos tengo contentos; / desta guisa en mil cuentos / de ombres tengo aposentados, / sabios, rudos, esforçados, / pobladores de cimientos.” — tradução: Braçadas de terra, a todos tenho satisfeitos; desta guisa em mil relatos tenho alojados homens, sábios, rudes, corajosos, habitadores de fundações.
    • El Cancionero del Palacio foi editado por F. Vendrell de Millás (Barcelona, 1945), n.º 137.
  • Ouve-se o pregador de La Dança General de la Muerte a resumila antes de ela passar.
    • O pregador declara: “Señores honrrados, la sancta escriptura / Demuestra e dice que todo homme nado / Gostará la muerte maguer sea dura, / Ca trujo al mundo un solo bocado: / Ca papa, o rey, o obispo sagrado, / Cardenal, o duque e conde excelente, / El emperador con toda su gente / Que son en el mundo de morir han forçado.” — tradução: Senhores honrados, a sagrada escritura demonstra e diz que todo homem nascido provará a morte por mais dura que seja, pois ao mundo trouxe um só bocado: o papa, ou rei, ou bispo sagrado, cardeal, ou duque e conde excelente, o imperador com toda a sua gente que estão no mundo forçados a morrer.
    • Os versos latinos da Chorea Macabri proclamam: “Est commune mori, mors nulli parcit honori, / Mors fera, mors nequam, mors nulli parcit et equam / Cunctis dat legem, tollit cum paupere regem; / Ergo time quisquis celsos ascendis honores.” — tradução: É comum morrer, a morte a ninguém poupa por honra, a morte feroz, a morte ímpia, a morte a ninguém poupa e igualmente dá a lei a todos, leva com o pobre o rei; portanto, teme, quem quer que ascendas a altas honras.
  • O núcleo central da Dança Macabra, em que se apresenta a Morte à espera de todas as classes e estados, aflora também na literatura inglesa, sentindo-se que uma ideia comum fazia recolher a consciência da Europa ocidental, em prospecção atormentada do fatal destino que espera todos os homens.
    • Carleton Brown publicou Religious Lyrics of the XVth Century (Oxford, 1939), n.º 154: The Mirror of Mortality.
  • Limitando-se à Península Ibérica, onde mais do que em nenhuma parte se enraizava Gil Vicente, passa-se a analisar a Dança General de la Muerte, de que resta unicamente o manuscrito do Escorial.
    • Trata-se de uma versão do século XV, cuja perfeição das formas métricas revela menos antiguidade do que a Revelacion de un hermitano.
    • É versão do francês, e também adaptação e enriquecimento: as mais antigas danças de la muerte são indubitavelmente traduções do francês, mais ou menos livres, acomodadas de algum modo aos costumes nacionais mediante a intercalação de personagens populares fora de Espanha desconhecidos, como el Rabi e el Alfaqui que na Dança castelhana se encontram.
    • Acentua-se esse ponto da introdução de novas personagens porque Gil Vicente fez o mesmo.
    • José Simón Díaz publicou Bibliografia de la Literatura Hispanica, t. 3 (Madrid, 1933), n.ºs 3224-3228, sobre as edições do manuscrito.
    • Menéndez Pelayo publicou Antologia de Poetas Liricos Castellanos, t. 1 (Santander, 1944), p. 337.
  • La Dança General de la Muerte abre por uma introdução em prosa a explicar a Dança Macabra, e a Morte ordena a todos os estados do mundo que venham ter com ela, queiram ou não queiram.
    • A Morte declara logo de entrada: “Yo so la muerte cierta a todas criaturas / Que son e serán en el mundo durante, / Demando e digo: o homne, por qué curas / De vida tan breve en punto pasante? / Pues non hay tan fuerte nin recio gigante / Que deste mi arco se pueda anparar, / Conviene que mueras cuando lo tirar / Con esta mi frecha cruel traspasante.” — tradução: Sou eu a morte certa a todas as criaturas que são e serão no mundo enquanto ele durar. Pergunto e digo: ó homem, por que te preocupas com uma vida tão breve e que passa num instante? Pois não há gigante tão forte e robusto que se possa amparar do meu arco, convém que morras quando eu o disparar com esta minha flecha cruel e traspassante.
  • A morte de qualquer um não importa a hora em que chega — velho ou novo — e o sermão do frade exorta ao arrependimento: não vos fieis na alteza da vossa posição social nem nas riquezas, arrependei-vos e confessai os pecados, fazei o bem, porque o dinheiro de nada vos servirá e ninguém escapa à dança esquiva da Morte.
    • O frade aconselha que se abram os ouvidos para escutar de su charambela un triste cantar — tradução: da sua flauta um triste cantar.
    • A Morte convoca: “A la danza mortal venid los nascidos / Que en el mundo soes de qualquiera estado, / El que no quisiere a la fuerça e amigos / Facerle he venir muy toste parado. / Pues que ya el fraire vos ha pedricado / Que todos bayais a facer penitencia, / El que non quisiere poner diligencia / Por mi non puede ser mas esperado.” — tradução: À dança mortal vinde os nascidos que no mundo sois de qualquer estado; o que não quiser, pela força e com amigos far-lo-ei vir muito depressa. Pois já o frade vos pregou que todos vades fazer penitência; o que não quiser aplicar-se não pode ser mais aguardado por mim.
  • A Morte chama todos os homens para dançar — grandes e pequenos — e antes de todos, mesmo antes do papa e do imperador, faz entrar duas donzelas na dança.
    • A Morte diz das donzelas: “Esta mi danza traye de presente / Estas dos doncellas que vedes fermosas, / Ellas vinieron de muy mala mente / A oir mis canciones, que son dolorosas. / Mas non les valdrán flores e rosas / Nin las conposturas que poner solian, / De mi si pudiessen partir se querrian, / Mas non puede ser, que son mis esposas.” — tradução: Esta minha dança traz presentemente estas duas donzelas que vedes formosas; elas vieram de muito má vontade ouvir as minhas canções, que são dolorosas. Mas não lhes valerão flores e rosas nem os adornos que costumavam usar; de mim, se pudessem, partir-se-iam, mas não pode ser, pois são minhas esposas.
    • A Morte promete às donzelas: “A estas e a todas por las aposturas / Daré fealdad la vida partida, / E desnudedad por las vestiduras, / Por siempre jamas muy triste aborrida; / E por los palacios daré por medida / Sepulcos escuros de dentro fedientes, / E por los manjares gusanos royentes / Que coman de dentro su carne podrida.” — tradução: A estas e a todas pelas elegâncias darei feiura na vida partida, e nudez pelas vestiduras, para sempre muito triste e aborrecida; e pelos palácios darei por medida sepulcros escuros e fedorentos por dentro, e pelos manjares vermes roedores que comam por dentro a sua carne podre.
    • Essas donzelas, esposas da Morte, em breve reduzidas a esqueletos num sepulcro, ocupam aqui o lugar dos três cavaleiros do Dit des Trois Morts et des Trois Vifs, inserto na Grande Danse Macabre de 1491, embora já evoluído.
    • Ou então os 4 músicos esqueléticos da Chorea Macabri de 1490, também eles a recitar versos morais sobre a vida e a morte.
  • Tornando à Dança General de la Muerte, a Morte entra logo em função e chama um a um todos os homens, despachando-os depois com um sermão acusatório — em primeiro lugar, o papa.
    • A Morte diz ao papa: “E porque el santo padre es muy alto señor / Que en todo el mundo non hay su par, / Que desta mi danza será guiador, / Desnude su capa, comience a sotar; / Non es ya tiempo de perdones dar, / Nin de celebrar en grande aparato, / Que yo le daré en breve mal rato: / Danzad, padre santo, sin mas retardar.” — tradução: E porque o santo padre é senhor muito alto, que em todo o mundo não tem par, que desta minha dança será guia, despa sua capa, comece a saltitar; não é já tempo de dar perdões, nem de celebrar em grande aparato, que eu lhe darei em breve mau momento: dançai, padre santo, sem mais tardar.
    • O papa responde: “Ay de mi, triste, que cosa tan fuerte! / A yo que tractava con grand prelacia, / Haber de pasar agora la muerte / E non me valer lo que dar solia. / Beneficios e honrras e grand señoria, / Tove en el mundo pensando vevir, / Pues de ti, Muerte, non puedo fuir, / Valme Ihesucristo e tu virgen Maria.” — tradução: Ai de mim, triste, que coisa tão forte! Eu que tratava com grande prelazia, ter de passar agora a morte e não me valer o que costumava dar. Benefícios e honras e grande senhoria tive no mundo pensando viver; pois de ti, Morte, não posso fugir, valha-me Jesucristo e a tua virgem Maria.
    • A seguir entram o imperador: Danzad imperante con cara apagada! — tradução: Dançai, imperador, com cara apagada!; o cardeal: venga el cardenal! — tradução: venha o cardeal!; o rei: Vos, rey poderoso, venid a danzar! — tradução: Vós, rei poderoso, vinde dançar!; o patriarca; o duque; o arcebispo: Venid, arzobispo, dejad los sermones! — tradução: Vinde, arcebispo, deixai os sermões!
  • A litania de dignidades e estados vai-se alongando como se cada personagem fosse uma coletividade e não um indivíduo — todos os papas, todos os cardeais, todos os reis.
    • A Morte não está com cerimônias e o tom sarcástico das suas palavras amaína poucas vezes: pelo mesmo caminho o condestável! Vinde vós, bispo, a ser meu vassalo. Entrai, cavaleiro armado! Dançai, gordo abade, com a vossa coroa! Chegai-vos, deão, não vos zangueis! Entrai, mercador, na dança das lágrimas! Vós, arcediago, vinde tanger! Dançai, advogado, largai o Digesto! Vós, cônego, deixai o breviário! Aproximai-vos, físico (médico), que estais orgulhoso! Vinde, senhor cura, deixai de batizar. Dance o lavrador que vem do moinho! Vós, monge negro (beneditino), recebei um bom presente! Dançai, usurário, largai a bolsa! Vós, frade menor, obedecei à chamada! Porteiro, vinde ao que está mandado! Ermita, saí da cela! Dançai, contador, depois de dormir! Vós, diácono, vinde ler! Venha o recebedor de rendas e impostos e dance depressa. Vinde, subdiácono alegre e satisfeito! Entre o sacristão e que se deixe de razões! Vinde vós, rabi, cá rezareis à maneira judaica! Vinde, alfaqui, largai os prazeres. Entrai, ermitão, verei o que ides dizer!
  • Acabou a chamada de vários estados e profissões, muitos porém não foram citados, e a Morte declara que a todos os não nomeados manda que venham muito depressa entrar em sua dança sem escusa: os que bem fizeram terão sempre glória, e os que o contrário fizeram terão condenação.
    • Os que hão de passar pela morte declaram: “Pues que asi es que a morir habemos, / De nescesidad sin otro remedio, / Con pura conciencia todos trabajemos / En servir a Dios sin otro comedio. / Ca él es principio, fin e el medio / Por do si le place habremos folgura, / Aun que la muerte con danza muy dura / Nos meta en su corro en cualquier comedio.” — tradução: Pois que assim é que havemos de morrer, de necessidade sem outro remédio, com pura consciência todos trabalhemos em servir a Deus sem outro entremédio. Pois ele é o princípio, o fim e o meio pelo qual, se lhe aprouver, teremos descanso, ainda que a morte com dança muito dura nos meta no seu corro em qualquer momento.
    • A Dança General de la Muerte acaba num ato de contrição e atinge-se, desse modo, a finalidade do sermão inicial e da Dança Macabra.
  • A Dança Macabra constitui uma sátira religiosa e social marcada pela justiça cristã, assim como pelo profundo sentimento do tempo a escoar-se irremediavelmente até deixar os homens desnudos à beira da sepultura — sátira profundamente ortodoxa, apesar de sua severidade com as classes altas e com os eclesiásticos de todos os degraus da hierarquia: apesar de e por isso mesmo.
    • As Danças Macabras eram uma espécie de Dia do Juízo, e o olhar de Deus equivalia à verdadeira norma na avaliação dos homens.
    • Atacar o mundanismo dos prelados, o mau comportamento dos clérigos e frades, as prepotências dos grandes, os vícios de todos — isso era cristianismo até à medula.
  • A Dança Macabra traz o exame de consciência para a luz do dia — exame obrigatório e de fora para dentro, feito pela Morte a todas as classes sociais, exame quase sempre condenatório: Imperador, ides morrer, vós que entesoirastes a tirania! Reverendo cardeal, pensastes chegar a papa, mas nunca o sereis! Rei opressor e inimigo da justiça, vinde cá. Deão avarento que recusastes esmola aos pobres, não continuareis a cantar no coro! Mercador, não penseis mais em negócios da Flandres! Cônego leviano, fazei penitência! Advogado refalsado, os vossos livros não vos livrarão de mim! Médico, não vos salvarão os aforismos de Hipócrates e Galeno! Usurário de má consciência, ides ver já o fogo infernal e lá ficareis com o vosso avô! Frade mendicante e preguiçoso, sois mestre famoso e subtil, mas eu vos levarei a quem está ao par de todas as artimanhas! Guarda da ermida, que tão desmazelado fostes com ela, nunca mais bebereis vinho pela borracha!
    • Esse tom encontra-se também nas Barcas.
  • La Dança General também não falta em certa benevolência com o homem do campo.
    • O lavrador diz: “Como conviene danzar al villano / Que nunca la mano sacó de la reja? / Busca si te place quien danze liviano, / Deja-me, Muerte, con otro trebeja. / Ca yo como tocino e a veces oveja, / E es mi oficio trabajo e afan, / Arando las tierras para sembrar pan, / Por ende non curo de oir tu conseja.” — tradução: Como convém dançar ao vilão que nunca tirou a mão do arado? Busca, se te apraz, quem dance leviano, deixa-me, Morte, com outra brincadeira. Pois eu como toucinho e às vezes ovelha, e é meu ofício trabalho e afã, arando as terras para semear pão, e por isso não me preocupo em ouvir o teu conselho.
    • A Morte responde ao lavrador: “Si vuestro trabajo fue siempre sin arte / Non faciendo furto en la tierra agena, / En la gloria eternal habredes grand parte, / E por el contrario sufriredes pena. / Pero con todo eso poned la melena, / Allegad-vos a mi, yo vos uniré / Lo que a otros fice a vos lo faré: / E vos, monje negro, tomad buen estrena.” — tradução: Se o vosso trabalho foi sempre sem ardil, não fazendo furto na terra alheia, na glória eterna tereis grande parte, e pelo contrário sofrereis pena. Mas com tudo isso ponde a melena, chegai-vos a mim, eu vos unirei; o que a outros fiz, a vós farei: e vós, monge negro, tomai boa estreia.
    • Tal benevolência surge nas outras Danças da Morte, pois o essencial da letra vinha de um tronco comum e a Idade Média sempre teve um olhar simpatizante para a vida meritória dos camponeses.
    • Os versos latinos Mors — Agricultor ilustram essa benevolência: “Pauper, dolens, languidus, patiens / Agricultor te mori convenit…” e o agricultor responde: “O quociens te, mors, peroptavi, / In penis cum tantis languescerem…” — tradução: Pobre, sofredor, lânguido, paciente / camponês, convém que morras… e o agricultor: Ó quantas vezes te desejei, ó morte, / a definhar com tantas penas…
  • La Dança General de la Muerte traz duas personagens religiosas a quem trata com relativo respeito, enquanto Gil Vicente, nas Barcas, as omite: são elas o beneditino e o ermita, ao passo que o franciscano se torna, nas Barcas, um frade de São Domingos (segundo parece), e o sudário das suas misérias não tem comparação com o do fraire da Dança General.
    • Menéndez Pelayo documentou essa diferença em Antologia de Poetas Liricos Castellanos, t. 4 (Madrid, 1944), p. 256.
  • Antes de entrar no capítulo à parte sobre a presença da Dança Macabra em Gil Vicente, acentua-se uma vez mais a enorme flexibilidade desse gênero literário, com as respectivas gravuras, e cita-se como último exemplo o que se poderia intitular A Morte, o Livreiro e os Tipógrafos.
    • Trata-se de uma só gravura com dois quadros separados por uma coluna: de um lado, a tipografia sob um teto travejado, com a figura da Morte pegando no compositor pelo braço, enquanto o tipógrafo, sentado em frente da caixa de tipo com o original diante de si, olha para a Morte com ódio; por trás dele, um homem maneja a prensa, larga-a cheio de espanto, pois a Morte puxa-lhe pela mão esquerda; do outro lado da figura da Morte, outro operário para de braço erguido segurando um frasco de tinta, com igual expressão de medo e repugnância.
    • No segundo quadro, o livreiro sentado ao balcão da loja em frente dum livro aberto é preso pela Morte pelo braço, e em vão esboça um movimento de fuga.
    • Por cima do primeiro quadro, estes versos latinos: “Mors resecat, mors omne necat quod carne creatur / Magnificos premit et modicos, cunctis dominatur.” — tradução: A morte suprime, a morte mata tudo o que é carne. Oprime grandes e pequenos, e domina em todos.
    • Por cima do segundo quadro (o do livreiro): “Nobilium tenet imperium, nulli reveretur / Tam ducibus quam principibus communis hebetur.” — tradução: Impera sobre os nobres, a ninguém teme, é comum aos soberanos e aos príncipes.
    • Por baixo de toda a gravura: “Nunc, ubi ius, ubi lex, ubi vox, ubi flos iuvenilis? / Hic nisi pus, nisi fex, nisi terra precio vilis.” — tradução: Onde está agora o direito, a lei, a fala, a flor da juventude? Aqui, só há pus, fezes, terra sem valor.
  • Ao escutar a pergunta sobre onde estão o direito, a lei, a fala, a flor da juventude, ouvem-se as lamentações de Garcia de Resende sobre a morte de Dom Afonso, filho de Dom João, que põe em relevo o contraste entre o príncipe vivo e o príncipe morto — o mais gentil homem das Espanhas ficou desfigurado e a sua formosura em breve se transformaria em terra.
    • Quebraram-se num instante os seus olhos alegres e graciosos, deixaram de ver. A doce boca donde saíam brandas e gostosas palavras fechou-se para nunca mais falar.
    • Garcia de Resende, no estilo das coplas de Manrique e de toda a Idade Média, repete o ubinam sunt pungente a respeito das grandezas que passam: os seus singulares cabelos, que tanto ajudavam sua gentileza, que foi deles, onde estão?
    • Garcia de Resende, Cronica de D. João II (Coimbra, 1798), pp. 196-197 (cap. 132).
  • Na gravura dos tipógrafos e do livreiro, as oitavas em francês correspondentes estão no estilo da restante Dança Macabra, e a Morte diz aos tipógrafos: levantai-vos depressa e entrai na dança — tendes fatalmente de morrer, dai um salto com habilidade, deixai caixas e prensas, é na obra que se conhece o operário!
    • Os tipógrafos respondem: onde nos refugiaremos, pois a Morte anda a espreitar-nos? Imprimimos todos os cursos da sagrada teologia, leis, decretos e poetaria; graças ao nosso trabalho muitos se tornaram grandes letrados e aumentou a instrução.
    • Os tipógrafos tinham consciência do seu papel na marcha do progresso, e num gesto de humildade à altura de quem vai dar contas a Deus, lembram que pouco proveito tiraram dos livros em comparação dos intelectuais: Les vouloirs des gens sont divers — tradução: São diferentes as intenções das pessoas.
    • A Morte manda ao livreiro: Eia, pondes-vos a andar, Mestre Livreiro, e prà frente! Estais a olhar-me de perto. Ora deixai os vossos livros, pois tendes de dançar.
    • O Mestre Livreiro lastima-se de bailar contra a vontade, mas sabe que a Morte o empurra e obriga a seguir adiante: “Mes livres il fault que je laisse / Et ma boutique desormais / Dont je pers toute lyesse.” — tradução: Os meus livros é preciso que deixe, e a minha loja doravante, de onde perco toda a alegria.
    • Tudo isso vem em La grant danse macabre des hommes et des femmes, acabada de imprimir em Lyon, nas oficinas de Matias Huss, a 18 de Fevereiro de 1499, juntamente com o pleito entre a alma e o corpo e uma lamentação da alma condenada.
    • W. Turner Berry e H. Edmund Poole publicaram Annals of Printing (Londres, 1966), pp. 72-73.
  • A gravura da oficina tipográfica representa a mais antiga representação, em livro com gravuras, de uma oficina de tipografia, e à luz desse vasto capítulo pode-se entrar nas relações entre Gil Vicente e as figuras da Dança Macabra, a qual se integra na visão geral do tempo e da morte nos autos vicentinos, onde primeiramente se introduz o leitor.
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