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Pranto vicentino
MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969
ROMANCE
- A composição “Romance aa morte del Rey Dom Manoel” é de maior amplitude e estrutura bem literária, na qual Gil Vicente resume prantos de várias pessoas e ergue o leitor à contemplação da morte e da efemeridade das coisas terrenas levadas pelo rio do tempo.
- Quem deseja longa vida deseja ver-se enganar, pois lhe chamam vida, mas não é vida senão no modo de falar; no triste acabar se começa o desengano, não se sabe quem vai desejar que dure a vida de engano.
- Riqueza, grande poder, alta senhoria, bonança ou alegria logo deixam de ser o que eram e o que seriam; a vida é vã e vazia, ocupada em presunção; aprende com discrição porque, cada hora do dia, o mundo te dá lição.
- Indaga quem viu as alegrias daquelas naves tão belas, belas e poderosas velas, agora há tão poucos dias, para ir o Infante nelas.
- Manda buscar o senhor delas, rei que o mundo mandou, verás que tal se tornou e vereis como te velas da vida que o enganou.
- Vela-te, vida, na vida, não sejas morte na morte; guia-te por este norte de tão súbita partida de um rei tão são e tão forte: deram-lhe a terra por corte, dos cortesãos apartado, e um lençol por reinado, porque o mundo desta sorte desengana o enganado.
- Trata-se da sabedoria da vida que morre para desenganar os homens; a existência mundana revela-se como ilusão que o tempo faz e desfaz.
- Chama-se vida, mas tal nomenclatura é um modo de falar; riqueza, poder, alta senhoria, contentamento, tudo logo deixa de ser, para não ser.
- Uma hora que se escoa equivale a uma lição; a vida transitória é outra lição ainda maior.
- D. Manuel era um rei poderoso, cheio de saúde e mandava no mundo; ei-lo que parte de repente; agora tem por corte a cova do sepulcro e por reinado a mortalha; assim o mundo desengana o enganado.
- O mundo, diz Gil Vicente; o mundo e o tempo, acrescenta-se, porque é o tempo que põe o véu nas coisas e é ele que o tira, deixando ver o cadáver de tudo.
- O “romance” abre com os prantos da infanta (que arranca os louros cabelos) e da rainha viúva ao desamparo, além das queixas dos nobres e a notícia do lamento do príncipe herdeiro, que Gil Vicente não traslada em verso.
- Faz-se pranto em Lisboa, dia de santa Luzia, por el-rei dom Manuel que se finou nesse dia.
- Choram duques, mestres, condes, cada um quem mais podia; os fidalgos e donzelas muito tristes em perfeita competição.
- Os Infantes davam gritos, a Infanta se carpia; seus cabelos, fios de ouro, arrancava e destruía; seus olhos maravilhosos pareciam fontes de água.
- Bem merecem ser escritas as lástimas que dizia: paço tão desamparado derribado merecia, pois a sua fortaleza se tornou em terra fria.
- Dizia “oo minha senhora madre, Rainha dona Maria, quem a vós levou primeiro muito grande bem vos queria, pois que vos livrou da pena que passamos neste dia”; e outras mágoas que, de tristes, contar não as ousaria.
- Há enorme autenticidade na fuga da infanta para a recordação da rainha morta (a outra era madrasta), como se não tivesse outro amparo senão essa imagem querida e antiga.
- O príncipe suspirava noite e dia.
- A rainha Dona Leonor, “com rouca voz dolorosa / estas palavras dezia”, lamentando a sua triste sina de viúva e estrangeira, casada há tão pouco tempo e agora sozinha e sem marido.
- Dizia: “Oo Reyna desemparada, que haré sin compañía, pues que en esta triste vida sola una vida tenia, y pues que me la llevo la muerte, para que quiero la mía?”
- “Oo sin ventura, casada tres años no mas avía, quien tan presto fue beuda triste, pera que nascía, niña sola en tierra agena, huerfana sin alegría.”
- “Se húa vez acordava, otras sete esmorecía, assi pedia a deos morte, como quem pede alegría.”
- Dizia: “Ilevenme luego, questa tierra ya no es mía; por la mar por donde fuere, algun peligro venía que me matasse a mí sola, salvando la compañía.”
- Levam morto o bom rei, senhores de grande valia, e exclamavam uns para os outros: “oo que triste romaria, que grande amigo perdemos e que doce compañia!”
- Gil Vicente torna ao pensamento de que tudo é efêmero: metem num ataúde o grande senhor do Oriente e ei-lo que deixa os seus paços, a caminho de Belém, no meio de triste pranto.
- D. Manuel “em terra fica enterrado”, por ordem sua, pois bem sabia “que era terra / a mundanal senhoria”, reportando-se ao pensamento litúrgico de quarta-feira de cinzas: lembra-te, homem, que és pó e que em pó te hás-de tornar.
- As preces dos grandes de Portugal a Nossa Senhora pelo rei sepultado são consideradas de extrema beleza, constituindo um gênero diverso de pranto: a súplica chorosa pelos mortos.
- Carlos Magno já pedira a Deus que se apiedasse da alma de Roldão e a pusesse na companhia dos bem-aventurados.
- Em Gil Vicente, essas súplicas atingem muito maior expressão, em intensidade e tamanho, formando um todo evoluído e quase autônomo, embora ainda ligado ao pranto (ou prantos) já mencionado.
- O Duque de Bragança diz: “Senhora, virgem gloriosa, dai-lhe tanta alegria como a nós deixou de cuidados.”
- O Mestre de Santiago suplica: “Senhora dos três reis magos e de todos os senhores, coroa de imperadores, tu que bebeste tantos tragos tristes pelos pecadores, sede propícia ao nosso rei.”
- O Marquês de Vila Real implora: “Senhora, preservada desde o começo, criada antes dos anjos para superiora deles, ponde na glória a alma do rei.”
- O Marquês de Torres exclama: “Senhora, que viste expirar na cruz o Rei do Céu, queirais vós lá amparar este rei que aqui deixamos em tão escuro lugar.”
- O Conde de Marialva fala: “Senhora, nossa advogada, sereis deste rei lembrada, dai-lhe vida porque a vida aqui lograda não é vida.”
- Torna-se, de quando em vez, à filosofia da vida, do tempo e da morte: não neste mundo mas só no outro é que se vive de verdade.
- O bispo de Évora põe em contraste a grandeza real e a pobreza da cova onde o soberano repousa, vestido de terra: “Ca vos fica este senhor, pobremente sepultado […] Hi fica desemparado, co pago que o mundo daa, de terra emparamentado; senhora, tende cuidado delle la.”
- O Conde de Tentúgal diz: “Senhora, abalamos daqui desconsolados e tristes, como quando vós partistes do enterro do Senhor. Dai ao nosso rei o bem eternal.”
- O Conde da Feira foca a vida como viagem e releva a diferença entre a glória do trono e a escuridão do túmulo: “Emperatriz das alturas, sobre os coros enxalçada, pera sempre alomiada, aqui vos fica aas escuras o Rey da gram nomeada. Acabou sua jornada, senhora, muyto emproviso.”
- Numa palavra, viver é andar, ir largando o terreno que se pisa, até largar tudo e para sempre; espaço e tempo vão morrendo para o vivente.
- Parte-se de improviso, na barca da Morte.
- O Conde de Portalegre pede consolação para o povo de Lisboa.
- O Conde de Alcoutim queixa-se da vida breve e ilusória, donde se sai para a terra da escuridão: “Querelome, senhora, a vós, de nossa vida enganosa, que, além de trabalhosa, partese breve de nós pera terra tenebrosa.”
- Pede que a Senhora tenha misericórdia do rei e dê a sua esperança, “até que vamos” deste mundo, porque viver é caminhar sempre, em longa ou curta jornada, abalar a cada momento, e morrer é partir de vez para a terra escura donde não se volta mais.
- O pranto escrito por Gil Vicente, exprimindo os sentimentos da corte por ocasião do finamento de D. Manuel I, é apontado como exemplo de súplica chorosa pelos mortos.
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