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Contexto
STRUBEL, Armand. Guillaume de Lorris, Jean de Meun, Le roman de la rose. Paris: Presses universitaires de France, 1984.
O contexto do Romance da Rosa
- O Romance da Rosa representa o ápice temático e técnico de uma longa evolução da busca amorosa em forma de sonho alegórico, na qual um sujeito sonhador encontra várias personificações.
- Os elementos comparativos do poema pertencem ao registro lírico e novelesco, denominado “cortês” pela crítica.
- Os valores e conceitos comparados remetem à ideologia subjacente a essa literatura cortês.
- A combinação dos materiais segue um método de exposição redescoberto no século XII, mas praticado desde a Antiguidade e mantido vivo pela exegese bíblica em toda a Idade Média.
- O texto de Jean de Meun é composto, em grande parte, por discursos didáticos que integram uma soma de conhecimentos representativa da organização do saber em meados do século XIII.
O Romance da Rosa e a fin’amor
- No século XII, desenvolveu-se nos países de língua occitana uma poesia amorosa e um imaginário que impregnaram a literatura medieval até seu fim, constituindo um fenômeno de civilização, estética e ética.
- A erótica dos trovadores foi transmitida a toda a França e depois à Europa.
- Na época de Guillaume de Lorris, a “cortesia” era um modelo de indivíduo e sociedade bem constituído e dominante, resumindo a ideologia e suas manifestações literárias.
- Os fatores desencadeantes desse ideal incluem a evolução das estruturas feudais, a originalidade do Sul, a virada econômica do final do século XI, a emancipação da mulher nobre e a abertura para o Oriente com as Cruzadas.
- Nasceu assim um ideal de vida cortês, opondo “cortês” a “vilão”, que submete os valores guerreiros à excelência do amor.
- Sob a forma da fin’amor, surgiu um código de conduta e expressão descrito por metáforas de lei, religião e rito, envolvendo “serviço de amor” e a dama inacessível como centro de todo valor.
- A relação entre os sexos era vivida como plenitude da vida e harmonia com o universo, mas também como escola de renúncia, com a dama sempre distante.
- Uma dialética sutil se constrói entre a ousadia da confissão e a timidez, entre o desejo sempre adiado e os obstáculos, entre a loucura e a sabedoria.
- Uma retórica da eufemia e da hipérbole, do sofrimento e da alegria se enxerta nessa trama, presente em Chrétien de Troyes ou nas repetições do grande canto cortês.
- No final do século XII, surge uma tendência à teorização em debates e tratados como o “De Amore” de André, o Capelão.
- O sujeito, o enredo, os atores e as referências ideológicas de Guillaume de Lorris pertencem inteiramente a esse imaginário da fin’amor.
- A obra inclui a metáfora da iniciação amorosa, o vergel de Deduit, as lições de Amor e o papel-chave de conceitos como a generosidade.
- É contra essa representação do mundo que Jean de Meun fabrica seu próprio mito.
A alegoria, modo de pensar e de expressar
- Esse universo mental é encenado por uma técnica de escrita baseada no duplo sentido sistemático e em uma relação indireta com a verdade, por meio da ficção do sonho.
- A retórica, desde Quintiliano, catalogou as figuras da “alegoria” e esboçou uma descrição da personificação (prosopopeia).
- Desde a época alexandrina e judaica, existe uma tradição de leitura de textos como letra e sentido oculto, transformada em doutrina pela patrística.
- A exegese bíblica constitui um modelo sofisticado de teoria do sentido e prática da interpretação, recuperada pela literatura alegórica em língua vulgar.
- Apesar do anátema dos teólogos, os autores proclamam a dignidade de sua empresa e encontram na alegoria a saída do dilema da ficção literária como “mentira verdadeira”.
- A Antiguidade Tardia descobriu a alegria como procedimento gerador de um texto inteiro com Prudêncio e Martianus Capella.
- No século XIII, poetas influenciados pela Escola de Chartres retomaram essa técnica de composição em suas obras em latim.
- Os primeiros textos em língua vulgar foram ainda paráfrases bíblicas, mas os temas logo se tornaram independentes.
- No início do século XIII, poemas tomaram como argumento uma descrição ou narração para ser lida como metáfora de um sentido segundo.
- Distinguiram-se dois tipos de montagem: o descritivo e o narrativo (viagem ou combate como metáfora de iniciação ou conversão).
- A escrita alegórica conserva sua dupla orientação, herdada de suas origens retóricas e teológicas.
- A primeira orientação é a criação de um texto a partir de uma metáfora que se desenvolve em redes de figuras subordinadas ao sentido inicial.
- A segunda orientação é a reinterprestação de um texto existente como codificação de um sentido oculto (alegorese), praticada por Bestiários e Moralizações.
- Guillaume de Lorris oferece um exemplo acabado da primeira corrente, enquanto Jean de Meun se inspira em grande parte na segunda.
O saber dos clérigos
- A continuação de Jean de Meun abunda em referências eruditas teológicas, filosóficas e científicas, testemunhando a cultura de um clérigo no início do período escolástico.
- A cultura é primeiramente uma herança, na qual a tradição desempenha um papel tão essencial quanto na criação literária.
- Os caminhos do conhecimento são três: a autoridade, a razão (dedução) e a experiência.
- A autoridade por excelência é a Bíblia, mas os “autores” pagãos também são muito valorizados.
- O índice da edição Lecoy revela um repertório de poetas latinos e gregos, filósofos, cientistas e autores árabes.
- A função dessas autoridades é fornecer a citação que estabelece a verdade e a universalidade de uma afirmação.
- Os comentários misóginos de Jean de Meun se justificam pela invocação da tradição dos “conhecedores da mulher”.
- A relação com a tradição é dialética, pois os “modernos”, como anões sobre ombros de gigantes, contribuem para o advento da verdade pressentida pelos Antigos.
- Pelo método do “integumentum”, a “fábula” dos poetas e filósofos é recuperada em um sentido cristão.
- Esse saber é organizado em uma hierarquia, traduzida pela ordem de ensino das disciplinas do trivium e do quadrivium.
- A “gramática”, arte do comentário de texto, é o fundamento desse saber.
- A personagem Razão dá ao Amante uma lição de gramática, e Jean de Meun usa amplamente a glosa, exercício principal da “leitura comentada”.
- A teologia é o ponto de chegada dessa hierarquia do conhecimento.
- Jean de Meun se faz o vulgarizador dessa ciência ainda compreensível como uma totalidade, cujo pano de fundo filosófico é a representação antiga do universo adaptada à doutrina cristã.
- O discurso da Natureza oferece um quadro completo dessa ciência: quatro elementos, esferas, microcosmo e macrocosmo, papéis respectivos da Natureza e de Deus.
- As referências desse pensamento são platônicas, sendo o “Timeu” o texto-chave.
- O século XIII viu a penetração de um aristotelismo, trazido pelos Árabes, que forneceu um modelo de raciocínio lógico e curiosidade pela física.
- Jean de Meun deve a esse novo clima intelectual um vocabulário, um gosto pela dialética e seus conhecimentos científicos.
- O Romance da Rosa não é o manifesto de uma corrente de pensamento ou escola, mas representa um cruzamento de ideologias e uma obra poética onde o saber se submete a uma outra finalidade, a literária.
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