Philip Lewis
LEWIS, Philip. Visual Turns in the Writings of Charles Perrault. Stanford: Stanford University Press, 1996.
Introdução
1. A articulação entre a atuação de Charles Perrault na organização das artes sob Luís XIV e sua consagração como contista permite reconhecer uma continuidade intelectual fundada na formação de compromissos, mediante os quais conceitos radicais de outros escritores são atenuados, recuperados e reapropriados, configurando um modo de pensar presente tanto em suas reflexões sobre o “século esplêndido”, decisivas para situá-lo entre os fundadores da história literária francesa moderna, quanto na composição dos contos.
2. A investigação de narrativas como Pele de Asno, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e Barba Azul, acompanhada de comparações com O Pequeno Polegar, Riquet do Topete e O Gato de Botas, exige análises narratológicas e comparativas que não pressuponham os resultados, permitindo verificar se suas estruturas e significações efetivamente reelaboram compromissos conceituais semelhantes aos encontrados na produção não ficcional de Perrault.
3. O rigor e a consistência metodológicos não asseguram por si sós a validade da interpretação, pois os próprios modelos narratológicos podem incorporar uma preferência pelo equilíbrio social e, portanto, pelo compromisso, tornando necessário avaliar conjuntamente a pertinência das leituras, sua coerência, sua capacidade explicativa e a plausibilidade histórica da continuidade entre os diferentes setores da obra.
4. A incerteza sobre a autoria dos contos em prosa torna delicada a associação entre continuidade intelectual e trajetória individual, mas a hipótese de colaboração entre Charles Perrault e seu filho Pierre, sob influência predominante do pai na escolha, elaboração, revisão e publicação das histórias, oferece uma base suficiente para considerar a carreira de Charles um contexto interpretativo relevante.
5. A compreensão do lugar de Perrault na história cultural e literária do século XVII pode partir de suas estratégias argumentativas e de seu manejo de conceitos, especialmente no Paralelo dos antigos e dos modernos, distinguindo essa abordagem intelectual da interpretação psicobiográfica de Marc Soriano, centrada em princípios inconscientes de duplicação e emparelhamento relacionados à configuração familiar.
6. A interpretação de Louis Marin relaciona os contos aos horizontes semióticos, políticos e teológicos de sua época, investigando as cumplicidades entre representação racionalista e exercício do poder por meio de análises estruturais e releituras minuciosas, enquanto uma perspectiva derivada da própria produção de Perrault procura reconhecer continuidades internas de pensamento, estabelecendo entre essas orientações uma tensão produtiva, sem exclusão ou superioridade necessária de uma sobre a outra.
7. A história cultural desenvolvida por Jack Zipes, em diálogo com Norbert Elias, situa os contos nos processos modernos de educação, aculturação e estabilização familiar e social, atribuindo a Perrault uma posição inaugural na transformação de tradições orais difusas em escrita refinada capaz de mediar relações entre elites políticas e culturais e camadas populares.
8. A compreensão histórica dos contos de Perrault e de suas contemporâneas exige reconstruir suas relações com formas diversas de cultura popular, como canções, teatro, vidas de santos, narrativas de acontecimentos, publicações de ampla circulação, imagens e rituais, reconhecendo, conforme a investigação de Catherine Velay-Vallantin sobre Barba Azul, que personagens e motivos se constituem por intercâmbios prolongados entre autores, textos e públicos.
9. A leitura dos contos a partir de uma perspectiva interna à obra de Perrault pode incorporar as descobertas da história cultural sem substituir seu próprio eixo de investigação, fazendo a coerência interpretativa depender tanto da análise textual quanto do reconhecimento das numerosas camadas históricas e sociais sedimentadas nas narrativas.
