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NARRATIVAS POPULARES TRADICIONAIS

JOLLES, André. Formas Simples. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1976. (Original alemão: Einfache Formen, 1930)

A obra que melhor elabora teoricamente a categoria das Narrativas Populares Tradicionais como um gênero literário unificado é “Formas Simples” (1930), do germanista holandês André Jolles (1874-1946).

Jolles propõe que mitos, lendas, contos de fadas, fábulas, provérbios, adivinhas e casos (exempla) não são meras modalidades históricas do narrar popular, mas configurações mentais fundamentais (Geistesbeschäftigungen) — formas pré-literárias que antecedem e condicionam a própria literatura erudita .

Diferentemente dos gêneros literários convencionais (épica, lírica, drama), que pressupõem a escrita e a tradição autoral, as “formas simples” emergem diretamente da oralidade primária e correspondem a operações espirituais básicas do ser humano diante do mundo . Cada forma simples não é um conjunto de traços formais, mas uma disposição da linguagem que gera um modo específico de significação.

As principais formas simples e suas operações

Forma Simples Operação mental correspondente
Mito Interrogação sobre a origem e o fundamento das coisas
Lenda Vinculação de um evento a um lugar ou a uma pessoa sagrada
Conto de fadas Resolução estética e moral dos conflitos por meio da justiça imanente ao mundo narrado
Fábula Julgamento moral por analogia com o comportamento animalesco
Provérbio Generalização da experiência em máxima anônima
Adivinha Desafio à razão pela formulação enigmática

A categoria de Jolles é suficientemente ampla para reunir, sem reducionismos, os seguintes gêneros :

  • Contos de fadas (Märchen)
  • Contos populares (rondalles)
  • Lendas (etiológicas, hagiográficas, toponímicas)
  • Fábulas (esópicas ou orientais)
  • Mitos (cosmogônicos ou teogônicos)
  • Casos e anedotas de tradição oral

Enquanto abordagens classificatórias (Aarne-Thompson) ou psicanalíticas (Von Franz) impõem sistemas externos às narrativas, Jolles parte da premissa inversa: as “formas simples” são modos originários de dar sentido ao mundo, que a literatura apenas refina e complexifica. Assim, fábula, lenda e conto de fadas não são “subgêneros” de um guarda-chuva vazio, mas manifestações distintas de faculdades espirituais humanas — o que lhes confere dignidade teórica plena.

A obra influenciou diretamente a etnopoética e os estudos de literatura oral. Autores como Tzvetan Todorov e Gérard Genette dialogaram com Jolles, e sua categoria continua sendo o fundamento teórico mais robusto para a compreensão das narrativas populares como gênero autônomo, não como mero “resto” da literatura canônica.


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