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folktale:tolkien:contos-de-fadas:2

2 Origens

TOLKIEN, J. R. R.; FLIEGER, Verlyn; ANDERSON, Douglas A. Tolkien on fairy-stories. Expanded ed., with commentary and notes ed. London: HarperCollins, 2008.

Resumo com os tópicos essenciais por seções do ensaio

1. A pergunta pela origem do elemento feérico conduz ao mesmo problema fundamental, mas muitos de seus componentes, como o coração destacável, os mantos de cisne, os anéis mágicos, as proibições arbitrárias, as madrastas e as próprias fadas, podem ser estudados à parte por folcloristas e antropólogos, que usam as histórias como pedreira de evidências, procedimento legítimo mas que, ao esquecer a natureza da história como coisa contada em sua inteireza, leva a juízos estranhos, como afirmar que narrativas construídas sobre os mesmos motivos são a mesma história, dizendo-se que Beowulf é versão de Dat Erdmänneken, que O Touro Negro de Norroway é A Bela e a Fera ou Eros e Psiquê, ou que a Mastermaid nórdica é a história de Jasão e Medeia.

2. Tais afirmações podem conter, em abreviação indevida, algum elemento de verdade, mas não são verdadeiras no sentido da arte e da literatura, em que importam justamente o colorido, a atmosfera, os detalhes individuais inclassificáveis e sobretudo o sentido geral que dá vida aos ossos não dissecados do enredo, de modo que o Rei Lear de Shakespeare não é a história de Layamon e, no caso extremo de Chapeuzinho Vermelho, pouco importa que as versões em que lenhadores salvam a menina derivem da de Perrault, em que o lobo a devora, sendo profunda a diferença de que uma tem final feliz e a outra não.

3. O fascínio de desembaraçar a história ramificada da Árvore dos Contos é real e afim ao estudo filológico do novelo da Linguagem, mas assim como numa língua importa mais e é mais difícil captar sua qualidade e aptidões num momento vivo do que sua história linear, nos contos de fadas interessa mais considerar o que são, o que se tornaram e que valores os longos processos alquímicos do tempo neles produziram, contentando-se, na imagem de Dasent, com a sopa servida sem exigir ver os ossos do boi de que foi fervida, entendendo-se por sopa a história tal como servida pelo autor ou narrador e por ossos suas fontes ou materiais, sem com isso proibir a crítica da sopa enquanto sopa, ainda que Dasent desse a essas palavras outro sentido, ligado às especulações iniciais da Filologia Comparada.

4. A questão das origens, a menos importante das três, merece só breves observações, pois os contos de fadas são antiquíssimos e universais onde houver linguagem, e o debate entre invenção independente, herança de ancestral comum e difusão a partir de centros, como quase todo debate, tende à simplificação excessiva, sendo a história dos contos provavelmente mais complexa que a história física da humanidade e tão complexa quanto a da linguagem, um tecido em que os três fatores atuaram e que só os elfos poderiam desfazer, destacando-se a invenção como o mais fundamental e misterioso, já que difusão e herança apenas deslocam no espaço ou no tempo o problema e remetem, ao fim, a um inventor ancestral, enquanto supor invenções independentes só multiplica o inventor sem esclarecer seu dom.

5. A filologia foi destronada desse tribunal, e a ideia de Max Müller da mitologia como doença da linguagem pode ser abandonada sem pesar, pois seria mais verdadeiro dizer que as línguas modernas são doença da mitologia, mas a linguagem não pode ser descartada, já que mente encarnada, língua e conto são coevos, e a mente capaz de abstrair o verde da relva inventou no adjetivo um encantamento mais potente que qualquer feitiço da Feéria, pois quem concebeu leve, pesado, cinza, amarelo, imóvel e veloz concebeu também a magia que torna leve o pesado, faz do chumbo cinza ouro amarelo e da rocha imóvel água corrente, adquirindo num plano um poder de encantador e o desejo de exercê-lo no mundo exterior, poder que pode servir ao horror ou à beleza, mas no qual, sob o nome de fantasia, se faz forma nova, começa a Feéria e o homem se torna subcriador.

6. Poder essencial da Feéria é tornar imediatamente efetivas pela vontade as visões da fantasia, nem todas belas ou sadias, sobretudo as do homem decaído, que manchou com sua própria mancha os elfos detentores desse poder, e esse aspecto da mitologia, a subcriação, mais que a representação ou a interpretação simbólica das belezas e terrores do mundo, é pouco considerado, talvez por ser visto antes na Feéria que no Olimpo, na mitologia baixa e não na alta, questão que, independentemente dos debates sobre conto popular e mito, exige atenção em qualquer exame das origens.

7. Dominou certa vez a visão de que tudo derivava de mitos da natureza, sendo os deuses olímpicos personificações do sol, da aurora e da noite e suas histórias alegorias dos grandes processos naturais, depois localizadas e humanizadas pela epopeia, pela lenda heroica e pela saga em heróis ancestrais, e por fim encolhidas em contos populares, Märchen, contos de fadas e histórias de berçário.

8. Isso parece ser a verdade quase de cabeça para baixo, pois quanto mais o chamado mito da natureza se aproxima de seu suposto arquétipo, menos interessante e menos capaz de iluminar o mundo ele é, e se nada corresponde aos deuses além de objetos astronômicos ou meteorológicos, estes só podem receber significado pessoal e glória por dom de uma pessoa, do homem, já que a personalidade só deriva de pessoa, de modo que os deuses tomam da natureza a cor e a beleza, mas recebem do homem sua personalidade e, por meio dele, o lampejo de divindade vindo do mundo invisível, sem distinção fundamental entre mitologias alta e baixa, cujos povos vivem a mesma vida, como reis e camponeses no mundo mortal.

9. Mesmo no caso aparentemente claro de Thórr, cujo nome é Trovão e cujo martelo Mjöllnir se interpreta como raio, há um caráter marcado, irascível, pouco esperto, de barba ruiva e força desmedida, semelhante aos lavradores nórdicos que o amavam, que não se encontra no trovão, e não faz sentido perguntar o que veio primeiro, a alegoria do trovão nas montanhas ou o fazendeiro colérico, sendo mais razoável supor que o fazendeiro surgiu no exato momento em que o Trovão ganhou voz e rosto e que havia um ribombo distante nas colinas sempre que um contador de histórias ouvia um fazendeiro enfurecido.

10. Thórr pertence à alta aristocracia da mitologia, mas a história que dele se conta na Thrymskvitha da Edda Antiga é simplesmente um conto de fadas, antigo para padrões nórdicos e sem razão para ser tido por tardio por ser de tipo popular e pouco digno, e recuando no tempo o conto poderia mudar ou ceder lugar a outros, mas sempre haveria um conto de fadas enquanto houvesse Thórr, e quando ele cessasse restaria apenas o trovão, que nenhum ouvido humano ainda ouvira.

11. Algo verdadeiramente mais alto às vezes se entrevê na mitologia, a Divindade, o direito ao poder distinto de sua posse, o culto devido, ou seja, a religião, e Andrew Lang, ainda elogiado por isso, sustentou que mitologia e religião em sentido estrito são coisas distintas que se emaranharam inextricavelmente, sendo a mitologia em si quase desprovida de significado religioso.

12. Essas coisas de fato se emaranharam, ou talvez, separadas há muito, venham tateando lentamente rumo à refusão através de um labirinto de erros, e os próprios contos de fadas têm três faces, a Mística voltada ao Sobrenatural, a Mágica voltada à Natureza e o Espelho de desprezo e piedade voltado ao Homem, sendo essencial à Feéria a do meio, enquanto as outras aparecem em grau variável conforme o narrador, podendo o conto servir de espelho do homem e, com mais dificuldade, de veículo do Mistério, como tentou George MacDonald, com êxito em A Chave de Ouro e com êxito parcial em Lilith.

13. Voltando à sopa, o Caldeirão da História sempre ferveu e a ele se acrescentam continuamente novos pedaços, finos ou grosseiros, de modo que o fato de uma história semelhante à da Pastora de Gansos de Grimm ser contada no século XIII sobre Berta Pés-Grandes, mãe de Carlos Magno, nada prova sobre se a história descia do Olimpo ou de Asgard ou subia, nem que seja falsa a respeito de Berta, juízo que deve basear-se em elementos que a filosofia do crítico tem por impossíveis na vida real ou em boas evidências históricas contrárias, assim como ninguém desacreditaria que o Arcebispo de Cantuária escorregou numa casca de banana só porque tal tombo se conta de muitos senhores dignos, mas sim se nela um anjo o houvesse prevenido ou se fosse situada entre 1940 e 1945, ponto óbvio mas constantemente negligenciado pelos estudiosos das origens dos contos.

14. A casca de banana só começa a interessar quando rejeitada pelos historiadores, que diriam ter a anedota se ligado ao Arcebispo como, com boas provas, dizem que o conto da Pastora de Gansos se ligou a Berta, formulação inofensiva para a história comum mas inadequada para a história da criação de narrativas, em que seria mais verdadeiro dizer que o Arcebispo se ligou à casca de banana, que Berta virou a Pastora de Gansos, ou melhor, que ambos foram lançados ao Caldeirão como novos ingredientes, honra considerável, pois nessa sopa havia coisas mais antigas, potentes, belas, cômicas ou terríveis do que eles enquanto meras figuras históricas.

15. Artur, talvez histórico mas pouco importante como tal, também foi posto no Caldeirão, onde ferveu longamente com figuras e artifícios mais antigos da mitologia e da Feéria e outros ossos soltos de história, como a defesa de Alfredo contra os dinamarqueses, até emergir como rei da Feéria, situação semelhante à da corte nórdica dos Scyldingas, os reis-escudo da Dinamarca da antiga tradição inglesa, cujos Hrothgar e família, com marcas históricas muito mais fortes que Artur, aparecem associados a figuras e eventos de contos de fadas, e essas tradições contêm um exemplo singularmente sugestivo de que o elemento feérico não sobe nem desce, mas espera no Caldeirão pelas grandes figuras do Mito e da História e pelos ainda anônimos, lançados ao cozido sem consideração de posição ou precedência.

16. Do grande inimigo de Hrothgar, Froda, rei dos Heathobardos, vem o eco da estranha história de Ingeld, filho de Froda, que se apaixonou por Freawaru, filha de Hrothgar, e com ela se casou desastrosamente, tendo ao fundo da rixa o deus da fertilidade e do trigo Frey, ou Ing, ligado ao lugar sagrado em disputa e aos nomes dos envolvidos, e de quem se conta a paixão à distância por Gerdr, filha do gigante inimigo dos deuses, sem que isso prove serem Ingeld e Freawaru meramente míticos, pois História e Mito se assemelham por serem do mesmo estofo e, se eles não viveram ou não amaram, receberam sua história de homens e mulheres anônimos, lançados ao Caldeirão onde ferve, entre outras coisas, o amor à primeira vista, de que também o deus depende, embora os cozinheiros não mergulhem a concha às cegas, já que importa o que se conta dos deuses, sendo mais provável que um conto de amor se ligue, e até ocorra, numa família histórica devotada ao dourado Frey e aos Vanir do que numa ligada a Odin, o necromante, senhor dos mortos, não admirando que spell signifique tanto história contada quanto fórmula de poder sobre os vivos.

17. Depois de tudo o que a pesquisa comparativa pode fazer, explicando madrastas, ursos e touros encantados, bruxas canibais e tabus de nomes como relíquias de costumes ou crenças antigas, resta o ponto frequentemente esquecido do efeito que essas coisas antigas produzem agora nas histórias tais como são.

18. Antes de tudo, elas são agora antigas e a antiguidade tem apelo próprio, como em O Junípero de Grimm, cuja beleza e horror, com seu início trágico e primoroso, o ensopado canibal, os ossos e o alegre e vingativo pássaro surgido da névoa da árvore, deixaram como sabor principal a distância e um abismo de tempo imensurável, visão que se perderia sem o ensopado e os ossos que versões abrandadas poupam às crianças, sem dano real causado pelo horror no cenário feérico, pois tais histórias produzem um efeito mítico e total, independente do folclore comparado, que não o pode estragar nem explicar, abrindo uma porta para Outro Tempo pela qual se fica, ao menos por um instante, fora do próprio tempo e talvez do Tempo.

19. Considerando como esses elementos antigos se preservaram, conclui-se que foi frequentemente por causa desse efeito literário, sentido muito antes dos Grimm, pois os contos não são matrizes rochosas das quais só um geólogo extrai fósseis, mas permitem que elementos antigos sejam retirados, esquecidos ou trocados com toda facilidade, de modo que o que permanece foi retido ou inserido porque os narradores orais sentiram seu significado literário, e mesmo a proibição derivada de algum tabu sobreviveu pelo grande significado mítico da proibição, conhecido até das histórias de berçário mais gentis, como a de Pedro Coelho, proibido de entrar numa horta, sendo a Porta Trancada uma Tentação eterna.

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