3 Crianças
TOLKIEN, J. R. R.; FLIEGER, Verlyn; ANDERSON, Douglas A. Tolkien on fairy-stories. Expanded ed., with commentary and notes ed. London: HarperCollins, 2008.
Resumo com os tópicos essenciais por seções do ensaio
1. Chega-se à última e mais importante das três questões, a dos valores e funções atuais dos contos de fadas, e à suposição comum de que as crianças são seu público natural, como mostram resenhistas que gracejam sobre livros para crianças de seis a sessenta anos, ao passo que ninguém anuncia um automóvel como brinquedo para bebês de dezessete a setenta, o que seria mais apropriado, cabendo perguntar se há conexão essencial entre crianças e contos de fadas e se merece comentário um adulto que os leia como histórias, e não que os estude como curiosidades.
2. Entre os que não julgam os contos de fadas perniciosos, prevalece a opinião de que há uma ligação natural entre a mente infantil e esses contos, como entre o corpo infantil e o leite, erro de falso sentimentalismo cometido sobretudo por quem, por razões privadas como a falta de filhos, vê as crianças como raça à parte, e não como membros normais, embora imaturos, de uma família e da família humana.
3. A associação entre crianças e contos de fadas é acidente da história doméstica, pois no mundo letrado moderno esses contos foram relegados ao quarto das crianças como móveis velhos ao quarto de brinquedos, por desinteresse dos adultos e não por escolha infantil, já que as crianças como classe não gostam mais deles nem os entendem melhor que os adultos, aceitando-os pelo apetite de quem cresce, e só algumas crianças e alguns adultos têm gosto especial por eles, gosto que não é exclusivo nem dominante, raramente surge muito cedo sem estímulo artificial e, se inato, cresce com a idade.
4. É verdade que recentemente os contos de fadas passaram a ser escritos ou adaptados para crianças, como também música, poesia, romances, história e manuais científicos, processo perigoso mesmo quando necessário, salvo do desastre apenas porque artes e ciências não foram relegadas por inteiro ao berçário, ao contrário dos contos de fadas, que, banidos e afastados da arte adulta plena, acabariam arruinados, como de fato o foram na medida desse banimento, à semelhança de uma bela mesa, um bom quadro ou um microscópio deixados esquecidos numa sala de aula.
5. O valor dos contos de fadas não se encontra, pois, considerando as crianças em particular, sendo suas coletâneas por natureza sótãos e depósitos de trastes, quartos de brinquedos só por costume temporário e local, com conteúdo desordenado e gasto, mistura de épocas, propósitos e gostos, entre os quais às vezes surge uma obra de arte antiga de virtude permanente, pouco danificada, que só a estupidez guardaria ali.
6. Os Livros de Fadas de Andrew Lang lembram menos depósitos que bancas de bazar, montadas por alguém com espanador e bom olho para o que ainda tem valor, subprodutos de seu estudo adulto de mitologia e folclore, porém apresentados como livros para crianças, e algumas das razões que ele deu para isso merecem exame.
7. A introdução ao primeiro volume fala das crianças para quem as histórias são contadas, representantes da juventude do homem, fiéis a seus primeiros amores, com o gume intacto da crença e apetite fresco por maravilhas, e afirma que a grande pergunta infantil é se aquilo é verdade.
8. Crença e apetite por maravilhas parecem aí tratados como idênticos ou próximos, mas são radicalmente diferentes, e se Lang usava crença no sentido comum de crer que algo existe ou pode ocorrer no mundo real, suas palavras, despidas de sentimento, implicam que quem conta maravilhas às crianças explora sua credulidade e inexperiência em distinguir fato de ficção em casos particulares, embora essa distinção seja fundamental à mente sã e aos próprios contos de fadas.
9. As crianças são capazes de crença literária quando a arte do narrador é boa o bastante, estado mal descrito como suspensão voluntária da descrença, pois o que ocorre é que o narrador se mostra um subcriador bem-sucedido, fazendo um Mundo Secundário em que a mente entra e no qual o narrado é verdadeiro por conformar-se às leis daquele mundo, crendo-se nele enquanto se está dentro, até que a descrença surge, o encanto se rompe, a arte falha e se volta ao Mundo Primário para olhar de fora o pequeno mundo abortado, restando a quem é obrigado a ficar suspender ou sufocar a descrença, substituto e subterfúgio usado em jogos, no faz de conta ou diante de obras de arte que falharam.
10. O verdadeiro entusiasta do críquete vive o estado encantado da Crença Secundária, enquanto quem assiste a uma partida sem esse entusiasmo fica no nível inferior, alcançando certa suspensão voluntária da descrença apenas amparado por outro motivo que afaste o tédio, como uma preferência heráldica pelo azul-escuro em vez do claro, estado algo cansado, surrado ou sentimental, que pende para o adulto e é frequentemente o dos adultos diante de um conto de fadas, sustentados por lembranças da infância ou por noções do que ela deveria ser e julgando que deveriam gostar da história, quando, se de fato gostassem, não precisariam suspender a descrença, mas creriam nesse sentido.
11. Se Lang quisesse dizer algo assim, haveria verdade em suas palavras, e pode-se argumentar que o encanto opera mais facilmente com crianças, embora a aparência disso seja muitas vezes ilusão adulta produzida pela humildade infantil, pela falta de experiência crítica e de vocabulário e pela voracidade própria do crescimento, que faz as crianças gostarem ou tentarem gostar do que recebem, esconderem o desagrado que não sabem explicar e apreciarem indiscriminadamente muitas coisas sem analisar os planos de sua crença, sendo duvidoso que a poção do conto de fadas eficaz perca potência com goles repetidos.
12. As crianças de fato perguntam se a história é verdadeira, pergunta que não deve ser respondida com leviandade e que, no entanto, raramente indica crença intacta ou desejo dela, nascendo antes do desejo de saber com que tipo de literatura estão lidando, já que seu pouco conhecimento do mundo as impede de distinguir de pronto o fantástico, o estranho, o absurdo e o meramente adulto, classes que elas reconhecem e de que podem gostar alternadamente, com fronteiras flutuantes que também confundem os adultos, como mostram a criança que crê em ogros no condado vizinho, os adultos que creem em coisas semelhantes sobre outros países e os poucos capazes de imaginar outro planeta povoado por algo além de monstros de iniquidade.
13. Às crianças a quem Lang se dirigia, nascidas por volta da época do Livro Verde das Fadas, ele atribuía o gosto de seus ancestrais nus de milênios atrás e a preferência pelos contos de fadas sobre história, poesia, geografia ou aritmética, mas pouco se sabe desses ancestrais além de que certamente não eram nus, e os contos atuais, por antigos que sejam alguns de seus elementos, não são os deles, de modo que, se os temos porque eles os tinham, provavelmente também temos história, geografia, poesia e aritmética porque eles igualmente gostavam dessas coisas, na medida em que as alcançavam e ainda não haviam separado os ramos de seu interesse geral por tudo.
14. Quanto às crianças de hoje, a descrição de Lang não corresponde às memórias próprias nem à experiência com crianças, e se ele não errou sobre as que conheceu, as crianças diferem muito, mesmo dentro da Grã-Bretanha, sendo ilusórias as generalizações que as tratam como classe, pois não havia desejo especial de crer, mas de saber, a crença dependia da maneira de apresentar as histórias e de seu tom, e o prazer nunca dependeu de crer que tais coisas pudessem ocorrer ou tivessem ocorrido na vida real, já que os contos de fadas tratam não da possibilidade, mas da desejabilidade, e triunfam quando despertam o desejo, satisfazendo-o e aguçando-o insuportavelmente, desejo que não se voltava aos sonhos de Alice nem aos tesouros e piratas de A Ilha do Tesouro, um pouco mais aos índios com seus arcos, línguas estranhas e florestas, mais ainda à terra de Merlin e Artur e acima de tudo ao Norte sem nome de Sigurd e do príncipe dos dragões, nunca tomado por animal da mesma ordem do cavalo, porque trazia a marca da Feéria e habitava um Outro-mundo, cuja criação ou vislumbre, a Fantasia, constitui o coração do desejo feérico, de modo que se desejavam dragões profundamente, não na vizinhança segura onde se lia em paz, mas num mundo mais rico e belo a qualquer custo de perigo, porque o coração é duro ainda que o corpo seja mole.
15. Por importante que o elemento feérico se revele nas primeiras leituras, o gosto por contos de fadas não dominava a infância, despertando só depois dos dias de berçário e dos anos, poucos mas longos, entre aprender a ler e ir à escola, tempo menos feliz ou dourado que triste e conturbado, em que se gostava tanto ou mais de história, astronomia, botânica, gramática e etimologia, concordando-se com as crianças generalizadas de Lang apenas por acidente, como na insensibilidade à poesia, descoberta muito depois no latim e no grego, enquanto o verdadeiro gosto pelos contos de fadas foi despertado pela filologia no limiar da idade adulta e avivado plenamente pela guerra.
16. Os contos de fadas não devem ser associados especialmente às crianças, embora o sejam naturalmente, porque crianças são humanas e esses contos são gosto humano natural, ainda que não universal, acidentalmente, porque compõem boa parte da tralha literária guardada nos sótãos da Europa moderna, e antinaturalmente, por um sentimentalismo errôneo sobre a infância que parece crescer à medida que diminui o número de crianças.
17. A era do sentimentalismo infantil produziu alguns livros encantadores do gênero feérico, sobretudo para adultos, mas também um terrível matagal de histórias escritas ou adaptadas à suposta medida da mente infantil, com contos antigos abrandados ou expurgados em vez de reservados e imitações tolas, sem sequer a intriga de Pigwiggen, condescendentes ou, pior de tudo, de riso velado com um olho nos outros adultos presentes, como Lang, que, sem chegar a tanto, sorria para si e olhava por cima das cabeças de seu público infantil para os rostos de outras pessoas inteligentes, em grave prejuízo das Crônicas de Pantouflia.
18. Dasent respondeu com vigor e justiça aos críticos pudicos de suas traduções de contos populares nórdicos, mas cometeu a espantosa tolice de proibir especificamente às crianças a leitura dos dois últimos contos da coletânea, e nem crítica, nem réplica, nem proibição teriam sido necessárias se as crianças não fossem desnecessariamente tidas como leitoras inevitáveis do livro.
19. Há verdade, por sentimental que pareça, em dizer com Lang que quem deseja entrar no Reino da Feéria deve ter coração de criança, posse necessária a toda grande aventura em reinos menores ou muito maiores que a Feéria, mas a humildade e a inocência que isso significa não implicam encantamento nem ternura acríticos, como observou Chesterton ao notar que as crianças que viram O Pássaro Azul de Maeterlinck ficaram insatisfeitas por não haver um Juízo Final que revelasse a fidelidade do cão e a infidelidade do gato, pois as crianças são inocentes e amam a justiça, ao passo que os adultos, maus, preferem naturalmente a misericórdia.
20. Lang era confuso nesse ponto, defendendo a morte do Anão Amarelo pelo Príncipe Ricardo por ter ocorrido em luta justa, espada em punho, quando não é claro que a luta justa seja menos cruel que o julgamento justo nem que trespassar um anão seja mais justo que executar reis perversos e madrastas más, punição que Lang rejeitava ao mandar seus criminosos para aposentadorias generosas, misericórdia sem temperança de justiça, argumento dirigido não às crianças, mas a pais e tutores a quem recomendava seus próprios livros, e são justamente pais e tutores que classificaram os contos de fadas como juvenilia, numa pequena amostra da falsificação de valores daí resultante.
21. Usar criança em bom sentido não deve levar ao sentimentalismo de usar adulto apenas em mau sentido, pois envelhecer não implica tornar-se mais perverso, embora as duas coisas ocorram juntas com frequência, e as crianças devem crescer, não virar Peter Pans, sem perder inocência e assombro, mas seguindo a jornada designada, em que não é melhor viajar esperançoso que chegar, ainda que seja preciso viajar com esperança para chegar, sendo uma das lições dos contos de fadas, se coisas que não pregam ensinam, que perigo, tristeza e a sombra da morte podem conferir dignidade e às vezes sabedoria à juventude imatura, desajeitada e egoísta.
22. Não se deve dividir a humanidade em elóis e morlocks, crianças bonitas, tolamente chamadas de elfos no século XVIII, com seus contos podados, e sombrios morlocks cuidando de máquinas, pois se o conto de fadas vale a leitura merece ser escrito para adultos e lido por eles, que nele porão e dele tirarão mais que as crianças, as quais poderão então, como ramo de uma arte genuína, receber contos adequados à sua medida, assim como boas introduções à poesia, à história e às ciências, embora talvez lhes convenha mais ler o que ultrapassa sua medida do que o que fica aquém, pois seus livros, como suas roupas, devem dar folga e estímulo ao crescimento.
23. Se os adultos devem ler contos de fadas como ramo natural da literatura, sem brincar de criança, fingir escolher para crianças ou recusar-se a crescer, a questão última e mais importante é a de seus valores e funções, residindo o primeiro, quando escritos com arte, no valor que partilham com outras formas literárias, mas oferecendo eles também, em grau ou modo peculiar, Fantasia, Recuperação, Escape e Consolo, coisas de que as crianças em geral precisam menos que os mais velhos e que hoje se costuma considerar nocivas a todos, começando-se o exame pela Fantasia.
