4 Fantasia
TOLKIEN, J. R. R.; FLIEGER, Verlyn; ANDERSON, Douglas A. Tolkien on fairy-stories. Expanded ed., with commentary and notes ed. London: HarperCollins, 2008.
Resumo com os tópicos essenciais por seções do ensaio
1. A mente humana forma imagens de coisas ausentes, faculdade naturalmente chamada Imaginação, mas em linguagem técnica recente se tem considerado a Imaginação algo superior à mera produção de imagens, atribuída à Fantasia em sua forma reduzida e depreciativa, Fancy, tentando-se restringir, ou antes aplicar mal, o termo Imaginação ao poder de dar às criações ideais a consistência interna da realidade.
2. Essa distinção verbal é filologicamente inadequada e a análise imprecisa, pois o poder de formar imagens deve chamar-se Imaginação, a percepção da imagem, o domínio de suas implicações e o controle necessários à boa expressão variam em vivacidade e força apenas por grau, e a realização da expressão que confere ou parece conferir a consistência interna da realidade, induzindo a Crença Secundária, é outro aspecto que exige outro nome, Arte, elo operativo entre Imaginação e Subcriação, sendo preciso ainda uma palavra que abarque a Arte subcriativa e uma qualidade de estranheza e maravilha na Expressão, derivada da Imagem e essencial ao conto de fadas, papel atribuído, com a liberdade de Humpty-Dumpty, à palavra Fantasia, que une o antigo sentido de Imaginação às noções derivadas de irrealidade, de dessemelhança com o Mundo Primário e de liberdade em relação ao fato observado, isto é, ao fantástico, conexão etimológica bem-vinda, recusando-se apenas o tom depreciativo, já que retratar coisas ausentes do mundo primário é virtude e não vício e a Fantasia, nesse sentido, é forma não inferior, mas superior de Arte, a mais pura e, quando realizada, a mais potente.
3. A Fantasia parte da vantagem da estranheza que prende a atenção, mas essa vantagem se voltou contra ela e contribuiu para seu descrédito, pois muitos não gostam de ser detidos nem de que se mexa no Mundo Primário ou nos pequenos vislumbres que dele conhecem, e por isso confundem, com estupidez e até malícia, a Fantasia com o Sonho, em que não há Arte, e com os distúrbios mentais, em que nem sequer há controle, a ilusão e a alucinação.
4. Além desse erro ou malícia nascido do desconforto, a confusão provém de uma desvantagem essencial da Fantasia, a dificuldade de realizá-la, pois quanto mais as imagens e os rearranjos do material primário diferem do arranjo real do Mundo Primário, mais difícil se torna produzir a consistência interna da realidade, mais fácil com material sóbrio, de modo que a Fantasia muitas vezes permanece subdesenvolvida, usada com frivolidade ou apenas como decoração, meramente fantasiosa, e qualquer herdeiro do artifício fantástico da linguagem pode dizer o sol verde e muitos podem imaginá-lo, o que não basta, embora já seja mais potente que muitos esboços ou transcrições da vida louvados pela crítica.
5. Fazer um Mundo Secundário em que o sol verde seja crível e imponha Crença Secundária exige trabalho, reflexão e uma habilidade especial, espécie de ofício élfico, raramente tentado, mas que, quando tentado e de algum modo alcançado, resulta numa rara conquista da Arte, a arte narrativa em seu modo primário e mais potente.
6. Na arte humana a Fantasia cabe melhor às palavras, à verdadeira literatura, pois na pintura a apresentação visível da imagem fantástica é tecnicamente fácil demais e a mão tende a ultrapassar e até derrubar a mente, gerando tolice ou morbidez, e é infortúnio que o Drama, arte fundamentalmente distinta da Literatura, seja considerado junto dela ou como ramo dela, infortúnio que inclui a depreciação da Fantasia, devida em parte ao gosto de críticos que exaltam as formas que preferem, numa crítica excessivamente dramática num país dono de Shakespeare, quando o Drama é por natureza hostil à Fantasia, que mesmo em sua forma mais simples quase nunca triunfa quando visível e audivelmente encenada, já que formas fantásticas não se falsificam e homens fantasiados de animais falantes alcançam bufonaria ou mímica, mas não Fantasia, como ilustra o fracasso da pantomima, tanto pior quanto mais próxima do conto de fadas dramatizado e tolerável apenas quando reduzida a armação para farsa sem exigir crença de ninguém, em parte porque o drama precisa de mecanismos para representar Fantasia e Magia, como numa pantomima infantil do Gato de Botas em que a transformação do ogro em rato, se bem-sucedida mecanicamente, teria aterrorizado ou sido mero ilusionismo e, feita com engenhosa iluminação, levou a descrença não a ser suspensa, mas enforcada, arrastada e esquartejada.
7. Em Macbeth lido, as bruxas são toleráveis, com função narrativa e algum indício de significado sombrio, embora vulgarizadas, mas no palco se tornam quase intoleráveis, e o argumento de que, com a mentalidade da época de caça às bruxas, se veria diferente apenas concede o ponto, pois significa que elas deixariam de ser Fantasia ao serem tidas por possíveis no Mundo Primário, sendo dissolver-se ou degradar-se o destino provável da Fantasia nas mãos de um dramaturgo, até de Shakespeare, que nessa ocasião deveria ter escrito uma história, se tivesse habilidade ou paciência para essa arte.
8. Razão mais importante que a insuficiência dos efeitos de palco é que o Drama já tenta, por natureza, uma magia substituta ou falsa, a apresentação visível e audível de homens imaginários numa história, imitação da varinha do mago, e introduzir nesse mundo secundário quase mágico mais uma fantasia ou magia exige um mundo interno ou terciário, um mundo a mais, talvez não impossível mas jamais visto com êxito e certamente não o modo próprio do Drama, cujos instrumentos naturais de arte e ilusão são pessoas que andam e falam.
9. Justamente porque no Drama personagens e cenas não são imaginados, mas vistos, ele é arte fundamentalmente diferente da narrativa, ainda que use material semelhante, e quem prefere o Drama à Literatura ou forma suas teorias críticas a partir dele tende a compreender mal a criação pura de histórias e a restringi-la aos limites do palco, preferindo, por exemplo, personagens, mesmo os mais baixos e enfadonhos, às coisas, já que muito pouco das árvores enquanto árvores cabe numa peça.
10. O drama feérico, as peças que segundo abundantes registros os elfos apresentaram aos homens, produz Fantasia com realismo e imediatez além de qualquer mecanismo humano, levando o homem além da Crença Secundária, a ponto de se sentir corporalmente dentro do Mundo Secundário, experiência semelhante ao Sonho e por vezes com ele confundida, em que a poção forte demais de viver diretamente um Mundo Secundário faz conceder-lhe Crença Primária e cair em ilusão, intencional ou não da parte dos elfos, que não se iludem e praticam ali uma Arte distinta da feitiçaria ou da Magia propriamente dita, sem viver nela, embora possam dedicar-lhe mais tempo que os artistas humanos, já que o Mundo Primário, a Realidade, é o mesmo para elfos e homens, ainda que valorizado e percebido de modo diferente.
11. Esse ofício élfico requer um nome, mas todas as palavras aplicadas a ele foram turvadas, e Magia, embora à mão, deve reservar-se às operações do Mago, sendo Arte o processo humano que produz incidentalmente a Crença Secundária, também usado pelos elfos com mais habilidade, enquanto seu ofício mais potente e especificamente élfico se chama Encantamento, que produz um Mundo Secundário em que criador e espectador entram para satisfação de seus sentidos e que, em sua pureza, é artístico em desejo e propósito, ao passo que a Magia produz ou pretende produzir uma alteração no Mundo Primário, seja praticada por fada ou mortal, não sendo arte, mas técnica, cujo desejo é o poder neste mundo, o domínio de coisas e vontades.
12. A Fantasia aspira ao Encantamento élfico e, quando bem-sucedida, dele se aproxima mais que qualquer outra arte humana, e no coração de muitas histórias humanas sobre elfos jaz o desejo de uma arte subcriativa viva e realizada, interiormente oposta, apesar da semelhança exterior, à cobiça de poder egocêntrico própria do mero Mago, desejo de que os elfos, em sua parte melhor mas ainda perigosa, são em grande medida feitos e com quem se aprende o anseio central da Fantasia humana, mesmo sendo eles apenas produto da Fantasia, desejo criativo enganado tanto pelos artifícios inocentes e desajeitados do dramaturgo quanto pelas fraudes malévolas dos magos, insaciável e por isso imperecível neste mundo, e que, incorrupto, não busca ilusão, enfeitiçamento ou dominação, mas enriquecimento partilhado, parceiros no fazer e no deleite, não escravos.
13. A muitos a Fantasia, arte subcriativa que prega peças ao mundo, combina substantivos e redistribui adjetivos, pareceu suspeita, ilegítima ou ao menos tolice infantil própria de povos ou pessoas jovens, e em defesa de sua legitimidade basta lembrar uma carta em versos dirigida a quem tinha mito e conto de fadas por mentiras, embora fosse gentil e confuso o bastante para chamar a criação de contos de soprar uma mentira através da prata, afirmando que o homem, ainda que afastado e desgraçado, não está de todo perdido nem destronado, conservando os farrapos de sua antiga senhoria como subcriador, luz refratada pela qual um Branco único se fragmenta em muitas cores combinadas em formas vivas que passam de mente em mente, de modo que encher o mundo de elfos e duendes, construir deuses e suas casas de treva e luz e semear dragões foi e continua sendo direito humano, bem ou mal usado, pois se cria ainda segundo a lei pela qual se foi criado.
14. A Fantasia é atividade humana natural que não destrói nem ofende a Razão, nem embota o apetite pela verdade científica ou turva sua percepção, ao contrário, quanto mais aguda e clara a razão, melhor a fantasia produzida, e se os homens chegassem a não querer conhecer ou não poder perceber a verdade, a Fantasia definharia até sua cura ou, persistindo esse estado, que não parece impossível, pereceria convertida em Ilusão Mórbida.
15. A Fantasia criativa funda-se no duro reconhecimento de que as coisas são assim no mundo tal como aparece sob o sol, reconhecimento do fato sem escravidão a ele, assim como sobre a lógica se fundou o nonsense dos contos e rimas de Lewis Carroll, e se os homens não distinguissem rãs de homens não teriam surgido contos de reis-sapos.
16. A Fantasia pode ser levada ao excesso, mal feita, posta a serviço do mal e até iludir as mentes de onde veio, como qualquer coisa humana neste mundo decaído, em que os homens imaginaram não só elfos mas deuses e os adoraram, inclusive os mais deformados pelo mal de seus autores, e fizeram falsos deuses de outros materiais, noções, bandeiras, dinheiro, e até de ciências e teorias sociais e econômicas que exigiram sacrifícios humanos, mas o abuso não anula o uso, e a Fantasia permanece direito humano, pelo qual se cria na própria medida e em modo derivado, porque se foi criado, e criado à imagem e semelhança de um Criador.
