6 Epílogo
TOLKIEN, J. R. R.; FLIEGER, Verlyn; ANDERSON, Douglas A. Tolkien on fairy-stories. Expanded ed., with commentary and notes ed. London: HarperCollins, 2008.
Resumo com os tópicos essenciais por seções do ensaio
1. A alegria escolhida como marca ou selo do verdadeiro conto de fadas, ou romance, merece consideração mais detida.
2. Todo escritor que faz um mundo secundário, todo subcriador, deseja em alguma medida ser um criador real ou espera estar bebendo da realidade, que a qualidade peculiar de seu mundo, se não todos os detalhes, derive da Realidade ou nela flua, e se alcança de fato a consistência interna da realidade, mal se concebe como isso seria possível sem que a obra participasse de algum modo da realidade, de modo que a alegria peculiar da Fantasia bem-sucedida se explica como súbito vislumbre da realidade ou verdade subjacente, não só consolo para a tristeza do mundo, mas satisfação e resposta à pergunta sobre se aquilo é verdade, cuja primeira resposta, correta e suficiente para o artista, é que o é dentro do pequeno mundo bem construído, mas na eucatástrofe se vê numa breve visão que a resposta pode ser maior, um eco ou clarão distante do evangelium no mundo real, tema sério e perigoso, presunçoso de tocar, e que, se por graça tiver alguma validade, será apenas uma faceta de uma verdade incalculavelmente rica, finita só porque é finita a capacidade do Homem para quem isso se fez.
3. Abordando a História Cristã por essa direção, há muito se nutre o sentimento jubiloso de que Deus redimiu os homens, criaturas criadoras corrompidas, de modo condizente com esse e outros aspectos de sua estranha natureza, pois os Evangelhos contêm um conto de fadas, ou uma história de tipo maior que abarca toda a essência dos contos de fadas, com maravilhas peculiarmente artísticas, belas e comoventes, míticas em seu significado perfeito e autossuficiente, entre elas a maior e mais completa eucatástrofe concebível, mas essa história entrou na História e no mundo primário, elevando o desejo e a aspiração da subcriação à plenitude da Criação, sendo o Nascimento de Cristo a eucatástrofe da história humana e a Ressurreição a eucatástrofe da história da Encarnação, história que começa e termina em alegria, possui por excelência a consistência interna da realidade, é a que os homens mais desejariam verdadeira e a que mais céticos aceitaram como tal por seus próprios méritos, pois sua Arte tem o tom supremamente convincente da Arte Primária, a Criação, e rejeitá-la leva à tristeza ou à ira.
4. Não é difícil imaginar a excitação e a alegria de descobrir que um conto de fadas especialmente belo fosse primariamente verdadeiro, sua narrativa fosse história, sem perder seu significado mítico ou alegórico, alegria da mesma qualidade, se não do mesmo grau, que a da reviravolta num conto, que tem o próprio sabor da verdade primária e aponta para a frente ou para trás rumo à Grande Eucatástrofe, sendo a alegria cristã, o Gloria, do mesmo tipo, mas eminentemente, e infinitamente se a capacidade humana não fosse finita, elevada e jubilosa, porque essa história é suprema e verdadeira, a Arte foi verificada, Deus é Senhor de anjos, de homens e de elfos, e Lenda e História se encontraram e fundiram.
5. No reino de Deus a presença do maior não rebaixa o pequeno, o Homem redimido continua homem, e história e fantasia prosseguem e devem prosseguir, pois o Evangelium não aboliu as lendas, mas as santificou, sobretudo o final feliz, e o cristão ainda deve trabalhar com mente e corpo, sofrer, esperar e morrer, mas pode agora perceber que todas as suas inclinações e faculdades têm um propósito redimível, e tamanha é a generosidade recebida que talvez possa ousar supor que pela Fantasia auxilia de fato no desabrochar e no enriquecimento múltiplo da criação, podendo todos os contos tornar-se verdadeiros e, redimidos ao fim, ser tão semelhantes e dessemelhantes das formas que lhes são dadas quanto o Homem finalmente redimido será semelhante e dessemelhante do homem decaído que se conhece.
