RENÚNCIA
IBN ARABI. La Vie merveilleuse de Dhû-l-Nûn l’Égyptien. Roger Deladrière. Paris: Sindbad, 1988.
Sa’îd ibn ’Uthmân relatou estas palavras de Dhû-l-Nûn, o Egípcio:
“Há três sinais de renúncia: a limitação das esperanças (qasr al-amal), o amor pela pobreza e a capacidade de abrir mão das coisas com paciência.”
Também segundo Sa’îd, Dhû-l-Nûn disse:
“A renúncia gera a sabedoria (hikma).”
Yûsuf ibn al-Husayn narrou o seguinte:
“Um homem de Basra foi até Dhû-l-Nûn e lhe perguntou: 'Quando minha busca pela renúncia estará correta?' Ele respondeu: 'Quando renunciares a ti mesmo e fugires de tudo que te distrai de Deus, pois tudo que te afasta d’Ele pertence a este mundo.'”
Yûsuf acrescentou: “Levei essas palavras a Tâhir al-Maqdisî, e ele concluiu: 'Isso está de acordo com as palavras dos mensageiros divinos reveladas nas Escrituras.'”
Isrâfîl relatou: “Ouvi Dhû-l-Nûn dizer: 'Só retornam aqueles que ainda estão no caminho. Se tivessem chegado a Deus, não teriam voltado. Renuncia, pois, a este mundo, e verás a Realidade maravilhosa (Ajab)!'”
Comentário:
Ouvi o mestre Abû Ya'qûb al-Kûmî, enquanto estávamos reunidos em sua presença na mesquita al-'Adabbâs, em Sevilha, dizer:
“Aquele que retorna só o faz porque não alcançou o topo da encosta. Se lá tivesse chegado, descobrindo o que ali existe, não teria voltado. O topo da encosta é o conhecimento da Realidade (al-Haqîqa). Os 'homens de Deus' (rijâl Allâh) descem do outro lado, de modo que nenhum olho os vê mais — exceto se forem mensageiros divinos, encarregados de um depósito (amâna) que lhes foi confiado.”
Abû Muhammad ’Abd Allâh ibn Sahl (transmissor não identificado) narrou:
“Ouvi Dhû-l-Nûn, o Egípcio, responder às minhas perguntas da seguinte forma:
— Quando minha renúncia será o ápice de meu escrúpulo piedoso (wara')?
— Quando fizeres do dever uma lição para ti, e quando cada ato de obediência for uma fonte de compreensão.
— Quando meu desprezo por este mundo será concreto?
— Quando o vires como algo que inspira temor, sem mais te importares com o que abandonaste, e quando o Outro Mundo for para ti um refúgio seguro — pois só lá encontrarás verdadeira segurança.
— Quando a morte me será agradável?
— Quando deres as costas a esta vida e só tiveres olhos para a vida futura.
— Quando estarei livre dos desejos terrenos?
— Quando teu coração habitar no Malakût e vagar livremente (ou: 'se misturar') nos segredos do Jabarût.
— Quando meu conhecimento será firme (ou: 'sereno')?
— Quando toda ligação com este mundo te for penosa e sentires alegria intensa mesmo nas provações que Deus te enviar.
— Quando sentirei a feiura desta vida passageira?
— Quando souberes que seus adornos são pura corrupção (ou: 'a corrupção de toda fonte') e que suas belezas só conduzem à aflição.
— Quando o alimento mais frugal me bastará?
— Quando compreenderes que os desejos são um perigo mortal e que a doçura dos prazeres se esvai rapidamente.
— E quando se alcança o fim (ou: 'quando nos contentamos com o que resta no fim')?
— Quando os vãos ornamentos desta vida forem insignificantes para ti e o temor pela vida futura for tua constante lembrança.'”
Yûsuf ibn al-Husayn também transmitiu esta frase de Dhû-l-Nûn:
“Os ascetas (zuhhâd, 'os que renunciam') são os reis do Outro Mundo, e, entre os que conhecem a Deus, eles são os verdadeiros pobres.”
