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ODES DE HAFIZ
I
Cuidado, ó copeiro! Passe a taça, convide os convidados a beber, pois, veja bem, o amor nos pareceu, a princípio, algo fácil, mas depois quantas dificuldades surgiram!
Graças a esse perfume delicioso que o zéfiro exala dessa bela cabeleira, dessas madeixas impregnadas de almíscar, onduladas em todas as direções, todos os corações se enchem de sangue!
Molhe de vinho o tapete de oração, se for o dono da taverna quem te convida a isso, pois quem segue uma estrada não ignora nem o seu caminho, nem o estado das etapas que percorre.
De que alegria, de que repouso querem que eu desfrute nesta morada da minha amada, quando a cada instante os sinos da caravana me convidam a me preparar para a partida!
A noite é profunda, o perigo das ondas e dos redemoinhos da vida é iminente. Que ideia podem ter do nosso estado lamentável aqueles que, aliviados de tudo, repousam à beira deste mar?
Todos os meus atos realizados por minha própria vontade me levaram ao descrédito. Oh! Como poderia ter permanecido oculto esse segredo do meu coração que, neste momento, era o tema de todas as conversas?
Queres desfrutar da presença divina, ó Hafiz? Não te afastes nem por um instante da presença da tua amada. Assim que teus olhares a encontrarem, renuncia ao mundo, abandona-o para segui-la.
II
Se esta bela turca de Shiraz vier a satisfazer os desejos do meu coração, eu lhe farei uma oferta, pelo simples amor de sua negra pomba-de-pele de Samarcanda e de Bokhara.
Traga, ó copeiro! Traga o restante do nosso vinho, pois não encontrarás no Paraíso nem esta margem de Roukn Abad nem os jardins de Goulguecht ou de Mousalla.
Ai de mim! Semelhantes aos turcos devastadores que saqueiam e destroem a mesa de um banquete, essas belas de olhar doce, essas pérolas de beleza cujos encantos inflamam todos os corações, destruíram o descanso de que o meu desfrutava.
Na plenitude de sua beleza, nossa amiga não se preocupa com nosso amor incompleto. Um rosto bonito, que necessidade pode ter de tez, de cor, de uma sarda ou de penugem nascente na bochecha?
Eu sabia muito bem que, ao ver essa beleza cada dia mais resplandecente de José, o amor finalmente levantaria o véu sob o qual se escondia a virtude de Zuleika.
Repete, ó copeiro, repete-nos teus refrões que falam do vinho e da dança: um pouco menos de zelo em buscar os mistérios da criação; pois, veja bem, ninguém até agora, pela ciência, resolveu esse enigma e ninguém o resolverá.
Escuta bem este conselho, ó minha alma! Escuta-o, pois os jovens favorecidos pelo céu preferem, à própria vida, os conselhos de um velho sábio.
Tu me repreendeste, estou encantado, que Deus te recompense, fizeste bem, pois palavras impregnadas de amargura convêm aos lábios de rubi de onde brota a doçura.
