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CERVO SELVAGEM
POURAFZAL, Haleh; MONTGOMERY, Roger. The spiritual wisdom of Hafez: teachings of the philosopher of love. Rochester (Vt.): Inner traditions, 1998.
- No fim da vida, Hafez compôs “O Cervo Selvagem”, poema de passagem frequentemente considerado sua obra-prima, no qual convida o leitor a partilhar seus últimos anos, sua alegria e seu anseio eterno diante da colheita magnífica de uma vida.
- O estudioso iraniano Mohammad Ali Islami Nadoushan chama Hafez de “o mestre de transformar o específico em totalidade e a totalidade em específico”.
- Islami Nadoushan escreve: “Se tivéssemos de apontar uma obra que mais do que qualquer outra sintetiza a essência do espírito de Hafez e serve como autobiografia, estaríamos falando de 'O Cervo Selvagem'.”
- O masnavi é uma forma poética narrativa mais longa que o gazal, distinguida pela rima dos dois versos de cada dístico, e a maestria do poeta se manifesta no alinhamento e harmonia de todos os elementos da composição.
- Por meio do retrato minucioso do cervo selvagem, o poeta revela sua visão da natureza transitória da vida.
- Para Hafez, os dois mundos da existência eram percebidos pelos seis sentidos humanos — sendo o sexto a própria alma —, com a poesia como estímulo dessa faculdade superior.
- Esse esquema corresponde ao olho que contempla a beleza do amado, ao ouvido que ouve a música das esferas, à língua que prova a doçura do vinho, à pele que estremece com o toque sensual e ao nariz que se embriaga com o perfume do almíscar.
- Na poesia persa, o Vento do Oeste às vezes carrega essa fragrância de almíscar — o perfume extraído de uma glândula no ventre do cervo.
- O melhor almíscar da época era importado da China, e os persas o usavam nas golas das vestes ou em pequenos recipientes pendurados ao pescoço.
- Ao longo do Divã, dísticos tocantes evocam tanto o cervo quanto essa fragrância interior profunda, como neste verso: “Ó caçador, não mates meu cervo portador de almíscar; / deixa-te mover por esse olho escuro e não o faças presa.”
- O cervo selvagem é o companheiro gêmeo de Hafez — seu duplo — em pensamento, espírito e ação, e nenhum outro animal ou companheiro corresponderia ao conjunto de qualidades que o poeta prezava.
- A expressão em farsi é ham nafas — alguém com quem se está tão intimamente ligado que se parece respirar o mesmo ar espiritual.
- Hafez desenvolve essa alegoria alinhando imagens e palavras à profundidade do misticismo, pintando um retrato imaginativo de seus próprios sentimentos por meio do cervo selvagem.
- Em outro gazal, o poeta expressa a conexão entre humanos e animais pela unidade da compaixão: “Se a fragrância da alegria flui do sangue do meu coração, / não te surpreendas; eu também sinto a dor da bolsa de almíscar do cervo.”
- A presença direta do cervo ressoa com sua imagem ao longo da mitologia da Pérsia e de praticamente todas as culturas antigas.
- Na Índia, a lenda narra que o primeiro sermão do Buda foi proferido no Parque dos Cervos em Benares, onde em uma existência anterior ele havia se encarnado como um cervo dourado para proteger seu rebanho dos caçadores do rei e trazer liberdade a todos os seres sencientes.
- No Irã, o primeiro poema conhecido escrito em língua farsi tratava do cervo selvagem, e a figura do animal percorre a tradição islâmica como símbolo do ser solitário, sábio e perseguido.
- Esse verso, com mais de mil e cem anos, foi composto por Abu Hafs Soghdi: “Veja como o cervo selvagem corre livre no deserto; / ele corre só e sem amigos — como pode ser?”
- Na tradição islâmica, o Imã Reza — o Oitavo Imã —, visitado anualmente por mais de onze milhões de peregrinos xiitas em seu santuário em Mashad, é chamado de “guardião dos cervos”.
- Como Hafez, o Oitavo Imã era um homem de grande erudição e clarividência que passou seus últimos anos sob ataques de políticos e inimigos religiosos, morrendo em terra estrangeira envenenado por uvas oferecidas por um príncipe invejoso.
- Pesquisadores atribuem a conexão entre o imã e o cervo à imagem sintetizada de um ser inteligente, isolado e alvo de golpes mortais.
- O clamor dos peregrinos ao “guardião dos cervos” é um apelo de orientação para os que vivem solitários, como refugiados, presos na rede do medo e da ansiedade.
- Para tornar “O Cervo Selvagem” mais acessível ao leitor moderno, o poema foi dividido em quatro atos distintos — A Busca, Sementes, Vida e Morte, e O Legado —, cada um apresentado em duas versões: uma tradução poética no estilo dos gazais e uma interpretação em prosa.
- No Ato Um — A Busca —, Hafez apresenta o Cervo Selvagem como seu ham nafas, o ápice da intimidade, e inicia um diálogo contemplativo consigo mesmo antes de convidar o leitor a partilhar o panorama de sua busca e a alegria dos frutos maduros de sua vida.
- No Ato Dois — Sementes —, a memória do poeta faz emergir um jovem entusiasta mas inexperiente que confronta as lições da vida; um lavrador experiente lhe diz que é preciso semear para colher, mas o jovem responde que deseja voar em busca do grande mestre Simorgh e encarnar a luz, o calor e a generosidade infinita do Sol.
- No Ato Três — Vida e Morte —, Hafez retrata a caravana passageira da vida — talvez rememorando um ente querido, ou seu cervo guia, ou simplesmente a vida em geral —, e a imagem da caravana evoca uma longa viagem que gera separação e tristeza; o poeta exorta o leitor a deixar fluir as lágrimas na mesma medida em que o rio da vida acelera seu curso, pois essa lágrima de dor — compartilhada por todos — é elemento purificador que facilita a entrada em um estado catártico de entrega e ablução espiritual.
- Nesse ato, Hafez suplica às multidões — que, como muçulmanos, são sinceros buscadores da verdade — que ecoem o nome de Deus e evoquem sua verdadeira essência.
- No Ato Quatro — O Legado —, Hafez aborda a colheita das sementes plantadas; incomodado em seus últimos anos pelos charlatões de Shiraz que desonravam seu nome ou faziam passar poemas alheios como seus, o poeta adverte que é preciso distinguir as vozes verdadeiras das falsas.
- Hafez declara que sua poesia autêntica resistirá ao teste do tempo e evoca noon-ol-ghalam — a mensagem que Deus enviou a Maomé aconselhando o Profeta a não se preocupar com os que temiam que sua oratória inspirada fosse loucura.
- O dístico final constitui o testamento de Hafez à humanidade: a existência temporária na Terra está a apenas um passo da morte, tudo é frágil e tudo é precioso, e é preciso viver o presente e apreciá-lo em sua plenitude.
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