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ABANDONO AO MISTÉRIO

POURAFZAL, Haleh; MONTGOMERY, Roger. The spiritual wisdom of Hafez: teachings of the philosopher of love. Rochester (Vt.): Inner traditions, 1998.

* A renúncia do desejo físico à unidade mais profunda do amor divino desperta uma relaxação interior chamada tranquilidade — estado que carrega o conhecimento de que a condição pessoal mais profunda está ligada ao vasto mundo invisível do espírito muito mais do que ao limitado mundo fenomênico exterior, e que também é conhecido como memória reunida.

  • O rendi encoraja o reconhecimento contínuo da presença de uma tranquilidade que jaz por trás da mente tagarela e além dos síndromes repetitivos de comportamento.
  • Nem o medo nem a raiva podem desatrelar a tranquilidade do ser — ela é o grande mar de consistência dentro do coração.
  • “Quanto a nós, amigos afins, todos moldados de uma mesma argila, nossa frágil paz de espírito deve ser remodelada a cada dia.”
  • Uma das medidas do rendi de Hafez é a consciência do tesouro oculto de conhecimento no fundo do mar de tranquilidade — um conhecimento que, embora recluso no mundo interior, afeta diretamente o modo de ver e compreender a vida exterior, oferecendo liberdade da seriedade das atividades cotidianas.
    • A intoxicação pela via espiritual escolhida coloca em contato com esse conhecimento: na meditação, segue-se a respiração até que as emoções e pensamentos superficiais se aquietem e o mar de tranquilidade apareça.
    • “Uma estrela brilhou e tornou-se a Lua deste encontro; tornou-se amiga e confidente do meu coração temeroso.”
  • A essência da mensagem do conhecimento é que o mar em que se existe atualmente — as águas meditativas da tranquilidade — é um fluxo contínuo, ao passo que o mundo fenomênico é uma imagem momentânea conjurada para desafiar a expansão da capacidade de percepção e resposta.
    • Conjurar o planeta e o corpo e crer que representam os limites da vida não cria verdade.
    • Na profundeza da intoxicação encontra-se a altura do ser — aquela parte de si que não está sujeita à doença e à destruição do mundo exterior.
  • A compreensão de que todos os aspectos da existência física são efêmeros leva a não tomá-los tão a sério — e com o tempo revela-se a futilidade de atrelar a identidade pessoal aos nomes e papéis atribuídos, tornando a ambição e o esforço cômicos como motivações primárias.
    • Em alguns milhares ou talvez milhões de anos, a terra e as casas poderiam estar submersas; os livros teriam se desintegrado em partículas de pó; os nomes desapareceriam dos registros e sons da existência.
    • O planeta é um pequeno ponto giratório na imensidão do cosmos, e os seres humanos são muito pequenos sobre ele — o que convida a questionar por que se luta tão arduamente por vitórias transitórias e recompensas temporárias.
  • Se essa revelação ocorresse no estado mental cotidiano, poderia mergulhar o ser na depressão e na neurose — mas na memória reunida do mar de tranquilidade, essas percepções tornam-se realizações inspiradoras que chegam de modo biluminoso, com o lado positivo do desejo liberado iluminando o lado negativo da impermanência física.
    • Essa renúncia ao mistério convida o mar de tranquilidade a transcender os conceitos mentais de início e fim da existência.
    • A tranquilidade é produto da unidade — da abertura e fechamento biluminosos do próprio coração da existência, de onde os seres humanos fluem e ao qual retornam.
    • “Giro a roda da vida, mas se ela não girar a meu favor, não serei enfraquecido pelos destinos do Céu e da Terra.”
  • Após ser tocado pelo conhecimento da transitoriedade física em meio ao mar maior da existência, percebe-se que as tarefas e tribulações diárias já não são questões de vida ou morte — o peso do cotidiano tende a se dissolver e a ceder o controle que antes exercia sobre a vida.
    • Nas palavras atribuídas a Sócrates por Platão: “A pessoa mais feliz é aquela que se contenta com o mínimo, pois o contentamento é a riqueza da natureza.”
    • Essa liberação também pode ser vivenciada na meditação, quando se alcança a perspectiva mais ampla de que esta vida não é tudo — na maioria das vezes não se recorda a experiência, apenas se percebem seus resultados agradáveis.
  • Para Hafez, trazer essa experiência interior de equilíbrio e tranquilidade ao primeiro plano da consciência cotidiana é o objetivo da jornada lúcida e intencional para a intoxicação — e relaxar um pouco quanto ao que se é oferece mais foco e energia para continuar o caminho do rendi.
    • A estrada rejuvenescedora da tranquilidade corre na direção oposta à da tristeza, mesmo quando se fala da morte.
    • “Em meu túmulo não te sentes sem vinho e músico, para que eu possa despertar da dança dos mortos.”
    • “Segura-me firme esta noite, espírito, embora eu seja velho, para que ao amanhecer eu desperte jovem desse transe.”
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