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RENÚNCIA
POURAFZAL, Haleh; MONTGOMERY, Roger. The spiritual wisdom of Hafez: teachings of the philosopher of love. Rochester (Vt.): Inner traditions, 1998.
- A renúncia ao mistério do caminho místico desperta uma confiança interior na essência natural dos ambientes visível e invisível, ensinando a enxergar a eficiência da natureza como a competência do mistério divino e a confiar na transformação alquímica interior tanto quanto se confia nessa competência — o rendi.
- A confiança no mistério competente é condição para o alinhamento entre o mundo físico e o metafísico.
- O rendi designa esse mistério divino operante na ordem natural, ao qual a renúncia interior se dirige.
- Haféz foi um mestre na arte de alinhar os dois mundos, mantendo contato simultâneo com o ser físico e com seu duplo metafísico, e demonstrou em primeira instância o poder da memória reunida.
- Esse equilíbrio traduz o conceito de biluminosidade — a iluminação simultânea de duas esferas de existência.
- O poema “O Caminho de Ser” captura o arrebatamento do espírito da vida tal como Haféz o concebeu.
- O poema pinta um quadro extraordinário dos deleites terrenos mais desejáveis unidos às mais elevadas qualidades espirituais, evocando a qualidade do abandono — condição que nasce da renúncia ao mistério competente e abre o coração à transformação.
- O primeiro dístico inaugura a cena:
- “Fazer amor, amar a vida, beber vinho rubi, espíritos afins reunidos em comunhão divina.”
- Os versos seguintes celebram os deleites de um grupo de amigos tomados pela bondade do mundo e do espírito em um jardim onde saúde e alegria se entrelaçam, e até os adversários, talvez envolvidos nas partidas de xadrez populares na época, cedem polidamente.
- “Há hóspedes de boa vontade e mordomos bem-educados; os amigos conhecem os segredos e os inimigos se retiram com polidez.”
- Dentro desse cenário, o poeta encontra seu lugar legítimo e convida a todos a partilhar o arrebatamento e o abandono.
- “Um animador habilidoso como o doce Haféz, um mestre que desperta o mundo e conosco janta.”
- “Rejeite esse arrebatamento e viverá sem alegria; se eu não celebrar, o espírito da vida não é meu.”
- O abandono abre o coração ao encontro com amigos e à festa jubilosa, mas também convoca o coração a se unir — ou antes, reunir — com a beleza e a liberdade da ordem natural, pois foi a própria natureza de Shiraz, em suas rouxinóis, rosas e belas paisagens, que constantemente despertou Haféz.
- “Ó flor sorridente, inspira a fonte da minha visão de um rio pleno que nutre meu gosto.”
- A eficiência da natureza é tão significativa quanto sua beleza, sendo o plano de longo prazo e a visão panorâmica de todo ser aquilo que transmite a energia perene do Criador — e enquanto a beleza atrai o coração à comunhão com a natureza, a eficiência faz a mente confiar nessa ordem selvagem, incognoscível, mas plenamente operante.
- Na natureza contempla-se o alfa e o ômega dos próprios seres, das estações e de toda vida.
- “O ninho do pássaro sábio não é feito para durar para sempre; cada primavera verde semeia o outono pardo sem demora.”
- A abertura da mente e do coração à magnificência da beleza natural e à precisão de suas leis cria no observador humano uma sensação de assombro e pequenez que, por sua vez, ameaça a arrogância do ego, o qual pode irromper exigindo reconhecimento imediato.
- Esse processo reativo interior pode assumir a forma do autopiedade — o sentimento de que o fluxo e refluxo da vida existem apenas para varrer esperanças e sonhos.
- Quando isso ocorre, Haféz aconselha a criar uma abertura ainda maior para o caminho da imaginação rendendo-se às emoções sintetizadas de assombro e resistência poderosa — simplesmente largar tudo, não temer nada, confiar que a maravilha testemunhada sustentará o ser, e aceitar que, mesmo que não sustente, houve bênção suficiente na experiência do sagrado.
- “Haféz, sente o verão passar, vê agora o vento do outono começar.”
- “É agridoce, você compreende — cada rosa deve perfurar seu espinho.”
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