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REVELAÇÃO DO VELADO

Kashf al-Mahjūb. ‘The Revelation of the Veiled’. AN EARLY PERSIAN TREATISE ON SUFISM. ‘Ali b. ‘Uthmān al-Jullābī al-Hujwīrī. Translated by REYNOLD A. NICHOLSON. Gibb Memorial Trust. 1911

Introdução

  • A totalidade da humanidade se encontra velada ante a sutileza da verdade espiritual, com exceção dos santos de Deus e de Seus amigos escolhidos, e por isso este livro — intitulado A Revelação do Mistério — se dedica a ser uma elucidação do Caminho da Verdade, uma explicação de ditos místicos e uma elevação do véu da mortalidade.
    • Ali ibn Uthman ibn Ali al-Jullabi al-Ghazanwi al-Hujwiri é o autor da obra.
    • O desvelamento em sua essência é a destruição do objeto velado, assim como o véu destrói a revelação — tal como aquele que está próximo não suporta estar longe, e aquele que está longe não suporta estar perto.
    • Existem dois véus: o véu do encobrimento, que jamais pode ser removido, e o véu do obscurecimento, que é rapidamente removido.
    • O véu de essência — o do encobrimento — jamais é removido, pois a essência não admite alteração; já o véu de atributos — o do obscurecimento — pode ser removido, pois a alteração dos atributos é possível.
    • Junayd disse: “O rayn pertence à classe das coisas permanentes e o ghayn à classe das coisas transitórias.”
    • O Profeta disse: “Cada um encontra fácil aquilo para o qual foi criado.”
    • A obra foi composta para aqueles cujos corações estão infectados pelo véu do obscurecimento, mas nos quais a substância da luz da Verdade ainda existe.
  • Duas considerações levaram o autor a inscrever seu nome no início do livro — uma particular e outra geral — sendo a geral motivada pela experiência de ter sua autoria usurpada por desconhecedores da ciência tratada.
    • Um indivíduo tomou emprestado os trabalhos poéticos do autor, dos quais não havia outra cópia, reteve o manuscrito em sua posse, fez circular a obra e suprimiu o nome que encabeçava o texto.
    • O autor também compôs outro livro, intitulado A Via da Religião, sobre o método do Sufismo; um pretendente superficial apagou seu nome da página de título e fez-se passar pelo autor perante o público.
    • A consideração particular sustenta que quando se sabe que o autor de um livro domina a ciência que trata, o juízo sobre os méritos da obra é mais justo e a disposição para lê-la e memorizá-la é maior.
  • Pedir a bênção de Deus significa confiar todos os próprios assuntos a Ele e ser preservado das diversas formas de contaminação, conforme o ensinamento do Profeta, que instruía seus seguidores a pedir a bênção assim como lhes ensinava o Alcorão.
    • Quando um homem reconhece que seu bem-estar não depende de seu próprio esforço e previdência, mas que todo bem e todo mal que lhe acontece é decretado por Deus, não lhe resta senão entregar-se ao Destino e implorar a Deus que o livre da maldade de sua própria alma.
  • Nenhuma bênção provém de coisa alguma em que o interesse egoísta tenha parte — se o homem egoísta logra seu propósito, isso o conduz à perdição, pois a realização de um propósito egoísta é a chave do Inferno; se fracassa, terá ainda assim removido de seu coração os meios de alcançar a salvação.
    • Deus disse no Alcorão: “Aquele que refreia sua alma da luxúria, o Paraíso será certamente sua morada.”
    • As pessoas agem por motivos egoístas quando desejam qualquer coisa que não seja agradar a Deus e escapar do castigo Divino.
  • A intenção firme e incondicional de levar a cabo um empreendimento é o que distingue o crente, pois o Profeta disse: “A intenção do crente é melhor que seu desempenho.”
    • Grande é o poder da intenção, pela qual um homem avança de uma categoria a outra sem nenhuma mudança exterior — quem suporta a fome sem ter a intenção de jejuar não recebe recompensa alguma no outro mundo; mas quem forma em seu coração a intenção de jejuar torna-se um dos favoritos de Deus.
    • Um viajante que permanece por um tempo numa cidade não se torna residente até ter formado a intenção de residir ali.
    • Uma boa intenção é, portanto, preliminar ao cumprimento adequado de todo ato.
  • O Sufismo encontra-se, naquele tempo, em estado de obsolescência — todo o povo está ocupado em seguir seus desejos e virou as costas ao caminho da quietude, enquanto os sábios e os que pretendem saber formaram uma concepção do Sufismo completamente contrária a seus princípios fundamentais.
    • Altos e baixos contentam-se com profissões vazias — a conformidade cega tomou o lugar do entusiasmo espiritual.
    • O vulgo diz “Conhecemos a Deus”, e os eleitos, satisfeitos ao sentirem em seus corações um anseio pelo outro mundo, dizem: “Esse desejo é visão e amor ardente.”
    • Os discípulos, negligenciando suas práticas ascéticas, entregam-se a pensamentos ociosos que chamam de “contemplação”.
    • Abu Bakr al-Wasiti disse: “Somos afligidos por um tempo em que não há os deveres religiosos do Islã, nem os costumes do paganismo, nem as virtudes da cavalaria.”
    • Mutanabbi disse no mesmo sentido: “Que Deus amaldiçoe este mundo! Que lugar vil para qualquer cavaleiro pousar! Pois aqui o homem de espírito elevado é sempre atormentado.”
  • O universo é uma morada de mistérios Divinos depositados nas coisas criadas — substâncias, acidentes, elementos, corpos, formas e propriedades são todos véus de mistérios Divinos.
    • Do ponto de vista da Unificação, afirmar que tais véus existem já é politeísmo; neste mundo, porém, tudo se encontra velado, por seu ser, ante a Unificação.
    • O espírito é mantido cativo pela mistura e pela associação com o ser fenomênico.
    • O intelecto mal consegue compreender esses mistérios Divinos, e o espírito mal consegue perceber as maravilhas da proximidade com Deus.
    • O homem, enamorado de seu grosseiro ambiente, permanece afundado na ignorância e na apatia, sem nenhuma tentativa de lançar fora o véu que caiu sobre ele.
    • A alma animal — que o Alcorão descreve como “ordenadora do mal” — é o maior de todos os véus entre Deus e o Homem.
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