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VIAGEM NOTURNA

MGAM

V — VIAGEM NOTURNA E ASCENSÃO DE MUHAMMAD

A Árvore foi protegida e guardada para que seus frutos pudessem ser colhidos e suas flores descobertas, sendo esses frutos o fim desejado, avançados diante dAquele que os produziu e levados até a presença de Sua proximidade, enquanto se procissionava ao redor deles diante do Comensal de Sua presença, dizendo-se: “ó orfão da família de Abu Talib, ergue-te pois aquele que pede (talib) o faz por tua causa e aquele que é pedido (mutalib) se faz humilde por ti.”

1. GABRIEL, GUIA ESPIRITUAL DE MUHAMMAD

Deus enviou-lhe imediatamente o mais distinto dos servidores de Seu Reino — Gabriel — e, quando este se avançou para chegar até ele, encontrou-o dormindo, estendido em sua cama; e Muhammad, nessa atitude, lhe disse: “Ó Gabriel! Para onde (ila ayna) (vamos-nos).”

  • Gabriel respondeu: “Ó Muhammad! O Onde foi retirado do Entre (al-bayna). Em verdade, eu não conheço a circunstância (não cronológica, nem espacial) do Onde, mas sou o Mensageiro da Primordialidade (qidam) enviado a ti e escolhido dentre todos os servidores, pois: 'Nós descemos apenas pelo Mandamento de teu Senhor'” (Corão XIX, 65).

2. RAZÕES DA VIAGEM CÓSMICA: ACABAMENTO E ENOBRECIMENTO DOS SERES NA HIERARQUIA CÓSMICA

Muhammad perguntou-lhe: “Ó Gabriel! Que se quer de mim?” e ele respondeu: “Tu és o desejado da Vontade divina (irada) e o fim projetado do Querer criador (mashi'a); ora, tudo é querido por tua causa, ao passo que tu, és querido por causa dEle, e tu és o escolhido o melhor (mukhtar) do Universo.”

  • “Tu és a transparência acabada da Taça do Amor, a pérola nacarada depositada na châsse da manifestação (sadfa). Tu és o fruto dessa Árvore, o sol dos conhecimentos, a lua cheia das graças sutis.”
  • “A morada circular não foi estendida senão para exaltar teu lugar. A beleza das coisas não foi disposta senão em vista de tua chegada, a Taça do Amor não foi avançada límpida senão para que te desalteres dela.”
  • “Ergue-te pois, pois as mesas estão desdobradas em tua honra, os seres do Pléroma supremo se comunicam a boa nova de tua vinda entre eles, os Querubins exultam de felicidade à tua chegada para eles.”
  • “A nobreza de tua espiritualidade os atingiu de modo que participam necessariamente daquela que é dispensada em tua corporeidade. Enobrece pois o mundo da Realeza celeste como enobreceste aquele do Reino, e enobrece igualmente o cume do céu percorrendo-o com teus dois pés como o enobreceste por eles a superfície da terra.”
  • Muhammad disse então: “Ó Gabriel! O Muito-Generoso me chama, o que vai Ele fazer de mim?” e ele respondeu: “Te perdoar teus pecados anteriores e posteriores” (Corão XLVIII, 2). Muhammad disse: “Isso me concerne em particular, mas o que é das pessoas a meu encargo e de meus jovens filhos, pois o pior dos homens não é aquele que come só?” Gabriel respondeu: “Teu Senhor te acordará sem nenhuma dúvida e tu serás satisfeito” (Corão XCIII, 5).

3. BOURAQ, MONTARIA CÓSMICA PREPARADA PARA A VIAGEM

Gabriel aproximou al-Bouraq (o palefrói chamado “o Relâmpago”) para que Muhammad o montasse, e Muhammad lhe disse: “Mon atrativo irresistível é minha montaria, meu temor protetor piedoso é meu viatique, minha noite é meu guia! Não tenho outro assento além dela para aceder a Ele. Não tenho sinal dEle senão por ela.”

  • “Mas como um fraco animal poderá transportar aquele que suporta o peso de Seu Amor e a carga dos pontos de ancoragem imutáveis de Seu Conhecimento e dos segredos de Seu Depósito de Confiança (amana) que nem os céus, nem a terra, nem as montanhas puderam portar?”
  • “Como serás capaz de me indicar o caminho enquanto és tomado de estupefação diante do Lotus do Limite (sidrat al-muntaha) e que eu chegue ao termo da Presença que não tem confins? Ó Gabriel! Como te situas em relação a mim enquanto que 'tenho um instante em que nenhum outro além de meu Senhor pode me conter'? Ó Gabriel! meu Bem-Amado sendo 'sem que nenhuma coisa Lhe seja semelhante'” (Corão XLII, 11).
  • “Minha proximidade dEle é semelhante à distância medindo dois arcos (de círculo) e ainda mais perto” (Corão LIII, 9).
  • A disposição do instante apareceu subitamente a Gabriel que disse: “Ó Muhammad! Fui feito vir a ti para ser o servidor de tua suserania (dawla) e aquele que te acompanha em tua sequência (hashi). Coloquei esta montaria a teu serviço a fim de que tua insigne nobreza possa aparecer com evidência.”
  • “Os seres do Pléroma supremo estão em tua expectativa, os Jardins paradisíacos abriram suas portas, ornado seus canteiros, paramentado seus hóspedes e filtrado seu néctar, todos na alegria de tua precelência, na regozijo de tua parusia. Esta noite é tua noite, a suserania é tua suserania. Eu, desde que fui criado, estou na expectativa desta noite. O poder de intercessão foi dado a ti em favor dos seres na necessidade.”

4. MIGUEL, O ARCANJO, SEGUNDO COMPANHÃO DE MUHAMMAD NESSA VIAGEM

Após ter sido acompanhado por esse guia benevolente, Muhammad pediu a assistência de um outro, e então Miguel veio a seu encontro nessa via e lhe disse: “Para onde vais? A via está condenada, as portas impedem de aceder a Ele. Não se chega a Ele em momentos precisos, nem O encontramos em lugares confinados.”

  • Muhammad respondeu: “Por que então te manténs nessa estação?” e ele retomou: “Minha função é medir a amplitude dos oceanos, fazer cair as águas de chuva e dirigi-las em todas as regiões para que eu saiba até onde suas águas salobras se estendem e qual é a importância da espuma rejeitada por suas ondas. Não conheço confins à Unidade divina, nem número à Sua Singularidade.”

5. ISRAFIL, OUTRO COMPANHÃO DE MUHAMMAD NESSA VIAGEM

Muhammad disse então: “Onde está Israfil?” — “Aquele lá, respondeu-se-lhe, penetrou no lugar onde a ciência do Escrito divino é dada, Escrito desdobrado perfeitamente e cuja face (impressa) é a Tábua brilhante preservada (lawh mahfuzh). Ele transcreve o que é confirmado ou infirmado.”

  • “À maneira como a ciência é dada aos jovens, ele recita (o que lê sobre essa tábua): 'Ora, isso é a norma decretada do Muito-Inacessível, do Onisciente'” (Corão XXXVI, 38).
  • “Durante o tempo em que Deus prodiga a Ciência, esse Anjo não levanta a cabeça por pudor para Aquele que lha comunica, seu olhar sendo incapaz do menor piscar de olhos, seu coração no impedimento de meditar. Essa disposição que é a sua perdura até o Dia em que soprará na trompa.”

6. REALIDADE DO TRONO DIVINO

Muhammad disse então: “Vamos questionar o Trono ('arsh)! Peçamos-lhe a guia e a transcrição do que ele sabe rogando-lhe que nos dite (sua ciência).” Quando o Trono ouviu o que se queria dele, uma grande emoção o fez tremer e ele disse: “Pueda que tua língua não faça menção disso e teu coração não dê novidade. É um segredo sobre o qual nenhum véu pode se descobrir, um guardador protetor aquém do qual nenhuma porta se abre, uma questão que não receberá nenhuma resposta.”

  • “Quem sou eu no intervalo (al-bayna) (no qual me encontro) para que eu saiba a seu respeito onde (Ele está)? Sou somente criado de dois termos (compondo o imperativo 'sê!') (K e N). Anteriormente (bi-l-asm), me encontrava sem traço de determinação e sem essência diferenciada.”
  • “Como aquele que estava nesse instante não existente e ausente saberia chegar à visão dAquele que jamais cessou de ser existente, 'que não engendra ponto nem é engendrado?'” (cf. Corão CXII, 3).
  • “Ele me precedeu estabelecendo Sua Assise homogênea (istiwa') (sobre mim) e me constranjeu investindo-me da Regência (istila'), pois se Ele não tivesse estabelecido Sua assise homogênea eu não teria sido guiado: 'Ele estabeleceu em seguida Sua Assise homogênea em direção ao Céu que não era senão fumaça' (Corão XLI, 11) 'e estabeleceu Sua Assise homogênea sobre o Trono' (Corão LVIII, 4) a fim de fundar a prova evidente (burhan).”
  • “Eu e ath-Thara (a terra profundamente úmida) somos, tendo em conta o limite, igualmente próximos dEle: Não engloba o que Ele contém e não conheço o que Ele encerra, mas permaneço um de Seus servidores. Ora, não cabe a cada servidor senão o que ele se propõe.”
  • O Trono disse ainda: “Em outra parte, vou te fazer parte de meu caso e te confiar meu abatimento. Juro pela sublimidade de Sua Potência inacessível e pela força de Sua Toda-Potência determinante: é Ele que me criou e que me engoliu nos Oceanos de Sua Unidade. Nos desertos de Sua Eternidade sem fim, Ele me tornou perplexo. Às vezes, Ele surge dos levantes de Sua Eternidade sem fim me confortando e às vezes Ele me abaixa à mais baixa etapa de Sua Proximidade me procurando a intimidade.”
  • “Ele se recobre do véu de Sua Potência inacessível me deixando na solidão árida ou bem Ele se entretém intimamente comigo na conversação confidencial relevando de Sua Benevolente compenetração me colmando de emoção pura. Ele se dá às vezes a mim pelas taças de Seu Amor me embriagando. Cada vez que procuro a doçura de minha impetuosa embriaguez, a linguagem de Sua Unidade me diz: 'Não Me verás'” (Corão VII, 143).
  • “Após ter superado minha emoção estática (wajd) por Ele, diz-se-me: 'Ó amante perdido! eis uma beleza que tornamos fosca e uma excelência que tornamos velada. Somente pode pois contemplá-Lo um bem-amado (habib) que escolhemos e um orfão que criamos.'”
  • Ouviu-se então: “Glória a Aquele que fez viajar de noite Seu servo” (Corão XVII, 1). “Faz pois parada na Via da Ascensão progressiva de Muhammad em direção a Nós e de sua chegada diante de Nós, talvez vejas aquele que Nos vê e que obterás o benefício da contemplação daquele que não olhou outro senão Nós.”

7. AS QUATRO PRIMEIRAS MONTARIAS CELESTES DURANTE A ASCENSÃO DE MUHAMMAD

Muhammad avançou então seu primeiro palefrói, a montaria Bouraq “o Relâmpago”, que o conduziu (de La Meca) até o Templo santo (de Jerusalém); avançou em seguida sua segunda montaria, ou seja, seu meio de ascensão gradual até o Céu mais baixo; depois seu terceiro correio: as asas dos Anjos, de céu em céu e assim por diante até o sétimo céu; e por fim seu quarto correio: a asa de Gabriel — sobre ele a paz — até o Lotus do Limite, lugar onde ele ficou para trás.

  • Muhammad lhe disse: “Ó Gabriel! Esta noite, não somos nós teus hóspedes? Como pois aquele que convida ficaria atrás de seu convidado? É aqui que o amigo íntimo deve deixar seu amigo íntimo?”
  • Gabriel respondeu: “Ó Muhammad! Tu és o convidado do Muito-Generoso e o chamado do Primordial; se eu avançasse agora do comprimento de uma ponta de dedo, seria consumido: 'Nenhum dentre nós que não tenha uma estação conhecida'” (Corão XXXVII, 164).
  • Gabriel acrescentou: “Ó Muhammad! cela devendo ser, não tens alguma necessidade (a exprimir)?” — “Sim! disse ele. Quando te farão chegar ao limite junto ao Bem-Amado lá onde não há mais confins, dir-se-te-á: 'Aqui tu te encontras e aqui Eu Me encontro.' Lembra-te portanto de mim junto a meu Senhor.”

8. QUINTA MONTARIA CELESTE: RAFRAF, ATÉ O TRONO DIVINO

Gabriel — sobre ele a paz — deu-lhe então um vigoroso impulso para que atravessasse setenta mil véus de luz, e foi nesse instante que a quinta montaria o encontrou, aquela que se chama Rafraf “o tapete desdobrado como o pássaro em voo”, feito de luz verde e cuja envergadura cobre a distância situada entre o Oriente e o Ocidente.

  • Muhammad montou-a até que atingiu o Trono que a reteve por suas franjas e chamou pela linguagem do estado espontâneo: “Ó Muhammad! Até quando beberás do puro néctar de teu instante preservado de sua turbação?”
  • “Às vezes teu Bem-Amado está tomado de uma ardente inclinação por ti e desce até o céu mais baixo e às vezes Ele procissiona ao redor de ti montado no Comensal de Sua Presença e te porta sobre o Rafraf de Sua Bondade: 'Glória a Aquele que fez viajar Seu servo de noite'” (Corão XVII, 1).
  • “Às vezes, Ele te faz contemplar a Beleza de Sua Unidade: 'O coração não desnaturou o que ele viu'” (Corão LIII, 11); “às vezes, Ele te faz contemplar a Beleza de Sua Impenetrabilidade: 'A vista não desviou, nem ultrapassou os limites'” (Corão LIII, 17).
  • “Às vezes, Ele te faz penetrar a sublimidade dos segredos de Seu Reino celeste: 'Revelou a Seu servo o que Ele revelou'” (Corão LIII, 10); “e às vezes, Ele te aproxima muito perto da Presença de Sua proximidade: 'Ele se encontrou à distância medindo dois arcos (de círculo) e ainda mais perto'” (Corão LIII, 9).
  • O Trono disse: “Ó Muhammad! Eis um momento em que se está alterado, afligido e perplexo. Não sei que orientação tomar. Ele me tornou a criatura a mais magnífica de modo que sou aquela que possui o temor o mais grande e o mais intenso.”
  • “Ó Muhammad! Ele me criou e desde que O fez, fui abalado por um temor reverencial sob o efeito de Sua Majestade. Escreveu sobre minha verticalidade (qa'ima): Nenhum deus além de Deus (La ilaha illa-Llah). Diante do temor engendrado por Seu Nome, minha respiração e minha vibração aumentaram. Mas quando Ele escreveu sobre mim: Muhammad é o Mensageiro de Deus (Muhammad Rasul Allah), minha agitação encontrou o repouso e meu pavor se acalmou.”
  • “Teu nome trouxe a segurança a meu coração, tranquilizou meu segredo, encantou meu terror. Teu nome agiu sobre mim por sua influência benéfica. O que advirá quando a beleza de teu olhar me alcançar. Ó Muhammad! Tu és o Enviado, 'misericórdia para os seres do Universo'” (Corão XXI, 107).
  • “Devo pois ter uma parte predeterminada nessa noite que consiste em que tu atestes em meu favor que sou isento do Fogo com o qual as gentes de falsidade me põem em relação. Pois se Seu Nome é o Todo-Misericordioso e Sua Assise homogênea, Sua Qualidade que, sob seus dois aspectos intrínseco e extrínseco, está ligada à Sua Essência — como Ele está unido a mim ou separado de mim, enquanto que eu não procedo dEle, nem Ele de mim?”
  • “Por Sua Potência inacessível, não sou suficientemente próximo dEle para ser unido, nem suficientemente afastado dEle para ser separado, nem capaz de O suportar, nem totalizador ao ponto de O englobar, nem capaz de Lhe encontrar qualquer similitude. Além disso, Ele me existenciou de Sua Misericórdia por pura graça e favor.”
  • Muhammad respondeu — sobre ele a Graça e a Paz — sob a linguagem do estado: “Ó Trono! Sou-te devedor mas minha preocupação atual me desvia de ti. Não venhas pois turbar minha pureza transparente e não venhas me perturbar em meu retiro solitário. Não é este o instante de considerar teu embaraço nem o lugar para responder a teu endereço!” E não deixou escapar nenhum piscar de olho, nem recitou nenhuma letra dos sinais traçados que lhe tinham sido revelados: “E a vista não desviou” (Corão LIII, 17).

9. SEXTA MONTARIA CELESTE: AT-TA'YID ATÉ A PROXIMIDADE DIVINA

Foi então que a sexta montaria se avançou: al-Ta'yid (a confirmação), e embora Muhammad não visse ninguém, uma voz do alto lhe disse: “Teu Guardião vigilante está diante de ti. Eis-te a ti e a teu Senhor!” e ele respondeu: “Permaneço perplexo. Não conheço o que falo e não sei o que faço pois algo mais doce que o mel caiu sobre meus lábios, mais refrescante que a neve, mais untuoso que a manteiga e de uma deliciosa fragrância mais perfumada que o almíscar. Ora isso me permitiu ser mais sábio que todos os Profetas e Enviados reunidos.”

  • Essas palavras escaparam-lhe então da língua: “As obras vivificantes e as influências bêntas são de Deus, as orações de graças unificantes e os atos excelentes são de Deus (at-tahiyyat al-mubarakât li-l-Lâh, as-salawât at-tayyibât li-l-Lâh).”
  • Respondeu-se-lhe então: “A Paz seja contigo, ó Profeta, a Misericórdia de Deus e Suas influências bêntas (assalâm 'alayka ayyuhâ an-nabî wa rahmatu-l-Lâh wa barakâtuhu).”
  • Muhammad associou seus irmãos, os Profetas, ao favor do qual havia sido gratificado, dizendo: “A Paz sobre nós e sobre os servidores íntegros de Deus” — querendo dizer por “nós”: os Profetas — sobre eles a Graça e a Paz.
  • Por essa razão, perguntou-se a Abu Bakr — que Deus seja satisfeito dele — a noite em que fez a viagem noturna com o Enviado de Deus: “Ele viu bem seu Senhor?” e ele respondeu: “Foi verídico pois eu estava com ele, mantendo-me a seus passos, associado a ele no que dizia.” E como? lhe perguntou-se: “Por sua palavra: A Paz seja sobre nós”, respondeu ele.
  • O coro dos Anjos retomou então: “Testemunho que não há nenhum deus além de Deus e que Muhammad é Seu Mensageiro.”
  • Muhammad disse: “Uma voz me disse: 'Aproxima-te ó Muhammad!' Aproximei-me pois, e depois fiz parada.” E tal é bem a significação da palavra divina — Poderoso e Majestoso seja-Ele — : “Então ele se aproximou mais perto e se encontrou então numa descida suspensiva” (Corão LIII, 8). “Pode-se comentar assim esse versículo: Muhammad se aproximou a pedido e se encontrou em descida suspensiva. Ele se ofereceu a Seu Senhor — Exaltado e Majestoso seja-Ele.”
  • “Disse-se também: Ele se aproximou mais perto pela intercessão e buscou a aproximação de seu Senhor pelo exaudimento.”
  • “Disse-se ainda: Ele se aproximou mais perto pelo serviço divino e buscou a aproximação de seu Senhor pela Misericórdia. Muhammad se aproximou mais perto de seu Senhor do qual a Revelação se encontrou descer suspensa a ele. Ele se aproximou de mais perto pela benevolente compenetração de Deus e se encontrou suspenso a Ele em sua descida por pura clemência e pura misericórdia.”

10. DIÁLOGO COM O SENHOR

Uma voz foi percebida: “Ó Muhammad! Avança.” Ele respondeu: “Ó Senhor! O 'Onde' tendo sido aniquilado, onde poderia bem colocar o pé!” Deus continuou: “Coloca o pé sobre o Pé primordial a fim de que todos saibam que Eu transcendo tempo, lugar e condições de existência, noite e dia, fronteiras e vastas regiões, maneiras e designações. Ó Muhammad, olha!”

  • Ele olhou e viu uma luz imensa, e expressou: “O que é essa luz?” Respondeu-se-lhe: “Não é uma luz mas os Jardins de Firdaws que se encontraram corresponder a teus pés quando tu te elevaste por graus; o que está sob teus dois pés lhes servirá de resgate.”
  • “Ó Muhammad! A origem de teu pé primordial põe fim à ilusão a respeito das criaturas. Ó Muhammad! Enquanto permaneceste sob a autoridade do 'Onde', Gabriel foi teu Guia, Bouraq tua montaria. Mas quando o lugar desapareceu e tu te ocultaste às condições de existência, quando o 'Onde' foi excluído e o 'Entre' se retirou do 'Entre' para não deixar subsistir senão 'a distância medindo dois arcos (de círculo)', teu guia, a partir desse instante, sou Eu.”
  • “Ó Muhammad! Abro a porta para ti e para ti Eu levanto o véu. Faço-te ouvir a excelência do Discurso no Mundo do Mistério. Aqui tu reconheces realmente Minha Unidade e, em toda fé, reconhece-a agora no Mundo da Presença atestada por contemplação e visão a descoberto.”
  • Muhammad disse: “Tomo refúgio em Tua indulgência contra Tua sanção.” Respondeu-se-lhe: “Essa súplica que não pode convir validamente àquele que invoca Minha Unidade aplica-se aos desobedientes de tua Comunidade.” Ele acrescentou imediatamente: “Não posso contar os louvores a Teu respeito. Tu és, Tu, como Tu Te louvaste Tu mesmo.” Deus disse: “Ó Muhammad! Quando tua língua se fatigar de se exprimir, Eu te investirei seguramente com a linguagem da Veracidade (Corão XIX, 50 e XXVI, 84), pois: 'Ele não pronuncia com paixão'” (Corão LIII, 3).
  • “E se tua própria visão conseguir ultrapassar a realidade simbolizada, Eu te revestirei certamente com a paramentação de investidura (khil'a) da guia: 'A vista não desviou nem ultrapassou os limites'” (Corão LIII, 17).
  • “Derramarei sobre ti uma luz pela qual olharás Minha Beleza e te darei um ouvido pelo qual ouvirás Minha Palavra. Farei-te conhecer pela linguagem do estado a significação principial de tua ascensão em direção a Mim e a sabedoria que teu olhar em direção a Mim implica.”
  • Foi como se Ele me aconselhasse por alusão: “Ó Muhammad: 'Em verdade, fomos Nós que te enviamos como testemunha anunciando a boa nova e como admoestador'” (Corão XXXIII, 45). “Ora, não é requerido da testemunha conhecer a verdade do que constatou, visto que não pode testemunhar de uma realidade ausente? É por isso que Eu te faço ver Meu Jardim paradisíaco a fim de que constates o que preparei para Meus Santos. Faço-te ver também Meu Fogo infernal a fim de que constates o que reservei a Meus inimigos.”
  • “Faço-te contemplar Minha Majestade e descobrir Minha Beleza a fim de que saibas que em Minha Perfeição Estou além de toda realidade semelhante, análoga, permutável, parecida, alusiva; isento de limite, restrição, número, par, indivíduo, continuidade ou descontinuidade, similitude, associação, sessão, contato, distinção e complexidade.”
  • “Ó Muhammad! Criei Minhas criaturas e as chamei a Mim mas elas estão em desacordo a Meu respeito. Certas fazem de al-'Uzayr Meu filho e professam que Minha Mão agissante está retida por cadeias: tal é a opinião dos Judeus. Outras pretendem que o Messias é Meu filho (cf. Corão IX, 30) e que tenho uma mulher e uma criança (ou o aspecto feminino do casal e um ser engendrado — zawja wa walad). Tal é a doutrina dos Cristãos.”
  • “Certos, idólatras, Me acordam associados, ao passo que outros Me atribuem uma forma: são os antropomorfistas. Certos Me consideram com limites, tais os Analogistas, e outros estimam que Estou desprovido, tais os Agnósticos. Os afiliados de uma outra Escola enfim sustentam que não seria visto na Vida futura, tais os Racionalistas.”
  • “Eis-Me pois (tal como Sou). Abri Minha Porta e levantei Meu Véu para ti. Olha pois, Ó Meu bem-amado! Ó Muhammad! Encontras em Mim algo do que eles põem em relação comigo?” — Foi então que ele O viu segundo a luz pela qual Deus o havia fortalecido e confirmado, sem que houvesse podido nem alcançá-Lo, nem englobá-Lo em Sua Singularidade e Sua Impenetrabilidade; Ele que não está nem numa coisa, nem sobre uma coisa; Ele que não é imutável por uma coisa, nem na necessidade de uma coisa; Ele que não tem nem símbolo (haykal), nem semelhança, nem forma, nem corpo; Ele que não é nem espacial, nem modalizável, nem composto, pois: “nada Lhe é semelhante, Ele é o Ouvinte e o Vidente” (Corão XLII, 9).
  • Assim, quando lhe falou, os lábios reunidos a Ele e Ele O contemplou face a Face, Deus lhe disse: “Ó Meu bem-amado! Ó Muhammad! Essas criaturas devem ter um segredo que não pode ser comunicado e um momento que não pode ser compartilhado, pois: 'Revelou a Seu servo o que Ele revelou'” (Corão LIII, 10), segredo procedendo de um segredo num segredo.“
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