User Tools

Site Tools


islamismo:ibn-arabi:austin:ibn-arabi

IBN ARABI

RABW

A VIDA E A OBRA DE MUHYI AL-DIN IBN AL-ARABI

A biografia de Muhyi al-Din ibn al-‘Arabi é apresentada desde seu nascimento na Múrcia, na Espanha, em 1165, até sua morte em Damasco em 1240, abrangendo sua educação, viagens e produção literária.

  • Nasceu em uma família influente e religiosa da Espanha muçulmana, mudando-se para Sevilha quando tinha oito anos, onde iniciou seus estudos formais em exegese do Alcorão, tradições proféticas, gramática árabe e lei islâmica.
  • Ainda jovem, antes da iniciação formal aos vinte anos, já convivia com sufis e alcançou considerável percepção espiritual, como demonstrado em um encontro aos dezessete anos com o filósofo Averróis, organizado por seu pai.
  • Na ocasião, ao ser perguntado se a iluminação mística concordava com o pensamento especulativo, Ibn al-‘Arabi respondeu: “Sim e Não. Entre o Sim e o Não os espíritos voam para além da matéria, e os pescoços se destacam de seus corpos.”
  • Teve mestres espirituais importantes, incluindo duas mulheres idosas, Shams de Marchena e, especialmente, Fatima de Córdova, a quem serviu por vários anos e que lhe disse: “Sou sua mãe espiritual e a luz de sua mãe terrena.”
  • Deixou a Espanha na década de 1190, viajando pelo Norte da África, onde estudou obras sufis e compôs poemas que, misteriosamente, foram recitados por um estranho em Sevilha no mesmo dia em que foram criados na Tunísia.
  • Em Fez, demonstrou conhecimento da ciência dos números e letras ao calcular o valor numérico das letras da frase “vitória manifesta”, encontrando o ano 591 da Hégira (1194 d.C.) para uma vitória militar, conforme um homem de Deus lhe ensinou.
  • Teve uma experiência de ausência de espaço em Fez e, em outra ocasião, encontrou o “Polo espiritual” da época, aprendendo ali sobre o “Selo da Santidade Muhammadiana”, tendo depois uma visão que revelou que ele próprio era esse Selo.
  • Deixou o Norte da África devido à ameaça de perseguição dos governantes almóadas, que suspeitavam que as ordens sufis fomentavam resistência, sendo o conselho geral dos xeques ter o mínimo possível de contato com os governantes.
  • Em 1198, esteve presente nos ritos fúnebres do filósofo Averróis, cujo corpo foi trazido de Marraquexe para Córdova.
  • Em 1200, partiu para o Oriente, fixando residência em Meca, onde uma jovem chamada Nizam, filha de um notável persa, inspirou sua coleção de poemas místicos de amor O Intérprete dos Desejos, sendo ela descrita como uma “sábia entre os sábios dos Lugares Sagrados”.
  • Em Meca, teve duas experiências importantes: a visão do “Eterno Jovem”, que representa a coincidência dos opostos (coincidentia oppositorum), posteriormente estudada por C. G. Jung; e a visão que confirmou que ele era o Selo da Santidade Muhammadiana.
  • Em 1204, deixou Meca para Bagdá e depois Mossul, onde escreveu suas Revelações de Mossul sobre o significado esotérico da ablução e da oração, sendo iniciado pela terceira vez.
  • Ao chegar ao Cairo em 1206, suas ideias foram denunciadas pelos doutos da lei, ameaçando sua vida, sendo salvo pela intercessão oportuna de um amigo na Tunísia que escreveu uma carta de recomendação ao governante egípcio al-Malik al-Adil.
  • Em 1210, chegou a Konya, onde foi recebido com honra pelo governante Kay Kaus; ali, seu discípulo local Sadr al-Din al-Qunawi tornou-se a figura-chave para sua influência dominante em todo o sufismo posterior, ajudando a sintetizar o sufismo oriental e andaluz.
  • Em 1212, Kay Kaus o consultou sobre o tratamento de súditos cristãos, e Ibn al-‘Arabi aconselhou impor todo o rigor da lei islâmica, ilustrando que os sufis reconhecem a necessidade da lei e da doutrina para a comunidade, mesmo que a transcendam em sua busca interior.
  • A partir de 1223, estabeleceu-se em Damasco até sua morte em 1240, onde terminou suas obras monumentais As Revelações de Meca e escreveu Os Engastes das Sabedorias como uma sinopse de seus ensinamentos.
  • Casou-se três vezes e teve três filhos; sua produção literária é imensa, listando ele próprio 251 títulos, embora poucos estejam traduzidos; a tradução de Os Engastes das Sabedorias para o inglês foi a primeira completa, sendo as anteriores parciais.
  • Afirmou que seus escritos não resultavam de um propósito definido, mas de “lampejos de inspiração divina” que quase o subjugavam, sendo compelido a escrevê-los no papel; escreveu Os Engastes das Sabedorias após uma visitação do Apóstolo de Deus em sonho, que lhe entregou o livro e ordenou: “Este é o livro dos enganastes das sabedorias; tome-o e leve-o aos homens para que se beneficiem dele.”

SEU CONTEXTO HISTÓRICO E ESPIRITUAL

A contextualização histórica e espiritual de Ibn al-‘Arabi mostra que ele representa um ponto culminante da expressão intelectual islâmica e um elo essencial entre a espiritualidade islâmica do Ocidente e a do mundo oriental.

  • Sua vida ocorreu no final de uma grande fase do desenvolvimento islâmico, pois dezoito anos após sua morte, as invasões mongóis desferiram um golpe terrível na civilização islâmica no Oriente, tornando sua obra uma fonte inestimável de inspiração espiritual para gerações posteriores menos seguras.
  • O elo entre o Ocidente e o Oriente foi forjado quando ele passou a segunda metade de sua vida no mundo islâmico oriental, particularmente em Konya (casa futura de Jalal al-Din Rumi), por meio do encontro com seu devotado discípulo Sadr al-Din al-Qunawi, que mais tarde se tornou mestre espiritual de Qutb al-Din al-Shirazi e Fakhr al-Din al-‘Iraqi e amigo próximo de Jalal al-Din Rumi.
  • Sua influência também se espalhou para além do Islã, tendo Asin Palacios buscado mostrar, em seu livro controvertido Islã e a Divina Comédia, que certos elementos na obra de Dante indicam a influência de Ibn al-‘Arabi, ainda que de segunda mão.
  • O místico alemão Meister Eckhart ensinou uma forma de teologia mística cristã que, em certos aspectos, assemelha-se notavelmente aos ensinamentos monistas de Ibn al-‘Arabi, tendo também entrado em conflito com as autoridades religiosas de seu tempo.
islamismo/ibn-arabi/austin/ibn-arabi.txt · Last modified: by 127.0.0.1