HERMENÊUTICA
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12. FÉ E INTERPRETAÇÃO RACIONAL
A fé é definida como uma luz divina lançada no coração, não como resultado de provas racionais, e constitui um conhecimento evidente por si mesmo que exige a aceitação incondicional das mensagens proféticas, diferenciando-se do conhecimento adquirido por demonstrações lógicas.
- A palavra fé (iman) deriva da raiz que significa segurança, sendo o ato de sentir-se seguro quanto ao conhecimento recebido sobre Deus e comprometer-se a praticá-lo, frequentemente usada como sinônimo de tasdiq, que é atestar ou reconhecer a veracidade de alguém.
- A fé é uma luz que Deus lança no coração de quem Ele quer, não pertencendo à prova em si mesma, como exemplificado pela reação dos descrentes no versículo 27:14 do Alcorão: “Eles os negaram, embora suas almas os reconhecessem, injusta e arrogantemente”.
- A diferença entre conhecimento e fé é que a fé exige atribuir uma verdade a Deus, enquanto o conhecimento da mesma verdade não exige sua atribuição a ninguém, sendo a felicidade encontrada na fé, como na história de Jesus e Iblis.
- A fé original (al-iman al-asli) é a natureza primordial (fitra) com a qual Deus criou a humanidade, testemunhando a unicidade de Deus no Pacto, e toda criança nasce de acordo com esse Pacto, embora o esquecimento ocorra ao cair no mundo natural.
- A prescrição da Lei é um meio pelo qual Deus testa a veracidade da fé, pois a pessoa de fé alega possuir certas crenças e Deus a testa através da adoração prescrita, para estabelecer o argumento a favor ou contra ela.
- O envio de profetas é uma provação, pois Deus envia mensageiros da própria espécie dos homens, o que é mais irritante para suas almas, gerando inveja e servindo como um julgamento baseado no conhecimento prévio de Deus sobre eles.
- A luz da fé é mais excelente que a luz do conhecimento sem fé, embora quando a fé se atualiza junto com o conhecimento, a luz desse conhecimento, nascida da luz da fé, é superior, fazendo com que Deus eleve os fiéis que receberam conhecimento em graus.
- A atestação a um mensageiro não ocorre por provas racionais, mas por uma automanifestação divina no nome “Luz”, e quando a dimensão interior da pessoa se colore com essa luz, ela atesta o mensageiro, ao passo que outros, mesmo sabendo racionalmente a verdade, negam por orgulho.
- A salvação pode vir apenas pelo conhecimento da declaração da unicidade de Deus (tawhid) mesmo sem fé, mas a fé tem como objetos os relatos trazidos pelos mensageiros, sendo um seguimento puro de autoridade que aceita os relatos com ou sem conhecimento.
- Aqueles que conheciam o tawhid por provas racionais e não associavam nada a Deus, embora não tivessem fé em uma Lei e nunca tivessem feito o bem, serão tirados do Fogo pelo “Misericordiosíssimo dos misericordiosos”, pois o Fogo não pode aceitar eternamente alguém que declara a unicidade de Deus.
- Iblis sabe que Deus é Um, mas foi o primeiro a instituir o costume da associação (shirk), portanto deve suportar o castigo daqueles que associam e nunca deixará o Fogo, ao contrário do que se poderia pensar sobre seu conhecimento da unicidade.
Interpretação
Interpretação (ta’wil) é vista como uma operação mental que submete a revelação ao julgamento da razão, enfraquecendo a fé e resultando em múltiplos deuses fabricados pela razão, em contraste com a submissão dos fiéis que possuem fé e insight.
- A palavra ta’wil significa literalmente retornar à origem e, por extensão, descobrir, explicar e interpretar, sendo usada por muitos muçulmanos como sinônimo de comentário (tafsir), mas frequentemente designa um tipo de interpretação mais mística e esotérica.
- As ciências são de dois tipos: as concedidas (mawhub), que resultam do temor a Deus (taqwa), e as adquiridas (muktasab), que vêm do esforço e do ijtihad, sendo os primeiros aqueles que levantam o Livro e o segundo aqueles de moderação que interpretam.
- Os que interpretam os relatos revelados têm fé em sua própria interpretação, não nos relatos, e não podem escapar de suas próprias limitações, enquanto os que têm fé “mediante insight” são os muçulmanos que se entregaram (taslim) e não se permitem entrar na interpretação.
- Muitos eruditos interpretaram a Lei para ganhar favor com aqueles no poder, e um sultão relatou ao autor que nenhuma coisa feia acontece sem a decisão legal de um jurista, amaldiçoando aqueles que fornecem decisões que eles mesmos não acreditam.
Os Pensadores Racionais
Os pensadores racionais, incluindo filósofos, mu’tazilitas e asha’ritas, são criticados principalmente por sua dependência da reflexão, que mina tudo o que dizem, pois o julgamento da reflexão nunca é preservado do erro e os erros no conhecimento das coisas divinas são mais frequentes do que os acertos.
- A reflexão é totalmente proibida pelo autor, pois torna seu herdeiro herdeiro do engano e da falta de sinceridade, e não há nada cujo conhecimento não possa ser alcançado através do desvelamento e da experiência direta (wujud).
- Os sábios (hukama) são aqueles que conhecem Deus e todas as coisas, e o significado de “filósofo” é amante da sabedoria (sophia), e todo homem inteligente ama a sabedoria, mas os filósofos são culpados por julgarem através da consideração com base em sua reflexão corrupta, opondo-se aos relatos dos mensageiros.
- Os muçulmanos como os mu’tazilitas e asha’ritas já haviam sido alcançados pelo Islã e começaram a defendê-lo, acertando na raiz e errando em alguns ramos, pois interpretam o Islã de acordo com o que lhes é dado por sua reflexão e provas racionais.
- As entidades imutáveis (a’yan thabita) são afirmadas pelo autor nas palavras de Deus “Eu era um Tesouro”, que é a posição apoiada pelos mu’tazilitas, e estas entidades estão no Barzakh Supremo, que é o terceiro objeto de conhecimento entre o Ser Ilimitado e o nada ilimitado.
- O Barzakh é como a linha divisória entre existência e não-existência, não sendo nem existente nem inexistente, e o autor se maravilha com os asha’ritas que rejeitam aqueles que dizem que o inexistente é uma coisa no estado de sua inexistência, possuindo primeiro uma entidade imutável à qual a existência é adicionada.
Atos de Deus e Atos do Homem
Os atos pertencem tanto a Deus quanto ao servo, dependendo da perspectiva, pois o servo é criado à forma divina e adquire os traços dos nomes de Deus, tornando seus atos seus e de Deus simultaneamente, numa relação que é uma versão do princípio “Ele/não Ele”.
- Os mu’tazilitas declararam a unicidade (tawhid) dos atos dos servos nos servos, atribuindo os atos aos servos de acordo com a razão, enquanto os asha’ritas declararam a unicidade dos atos de todas as coisas possíveis em Deus, ambos sendo defensores do tawhid.
- Deus revelou ao autor através de um desvelamento visual (kashf hasari) que Ele cria as coisas junto (ind) às causas secundárias, não por meio delas, e que elas vêm a ser por Seu comando, e que Ele cria apenas o que conhece, e conhece apenas o objeto de conhecimento como ele realmente é.
- O fato de o homem ter sido criado na Forma exige que a existência do ato lhe pertença, confirmado por ser ele o destinatário da Lei, e a percepção sensorial testemunha isso, mas o fato de tudo retornar a Deus não diminui essa atribuição.
- Os gnósticos entre o Povo de Allah veem que não há poder temporalmente originado (qudra) que tenha qualquer efeito sobre algo, e o que ocorre é que um nome divino prescreve a Lei para outro nome divino, dirigindo-se a ele no locus de um servo criado.
- A automanifestação (tajalli) nos atos é uma relação que é a manifestação das coisas criadas a partir da Essência da qual elas vêm a ser, e Deus fixou sua ocorrência nas crenças de um grupo e não permitiu que outro grupo a aceitasse.
- A prova mais forte da atribuição do ato ao servo e da automanifestação nele é o fato de que Deus criou o homem sobre Sua própria forma, e se o ato fosse separado do servo, não seria mais correto que ele estivesse sobre essa forma, nem poderia assumir os traços dos nomes divinos.
- A cortesia (adab) exige que apenas os atos bons e belos sejam atribuídos a Deus, enquanto os atos maus e feios devem ser atribuídos aos servos, como exemplificado pelas palavras de Abraão “Ele me cura” (alcorão 26:80) mas “Quando estou doente” (26:80), não atribuindo a doença a Deus.
- Os lutadores (mujahidun) são aqueles que não se tornam delimitados, vacilando nos atos, e viram que Deus disse “Vós não lançastes quando lançastes” (alcorão 8:17), negando e depois afirmando exatamente o que negou, colocando a afirmação entre duas negações, num lugar de perplexidade (hayra).
13. CONHECENDO A AUTOMANIFESTAÇÃO DE DEUS
A automanifestação divina (tajalli) é tanto ontológica quanto epistemológica, manifestando-se como existência e como conhecimento, e os verdadeiros conhecedores (muhaqqiqun) são o Povo do Desvelamento e da Experiência Direta (ahl al-kashf wa’l-wujud), pois encontraram Deus tanto no cosmos quanto em si mesmos.
- No contexto sufi, wujud é “encontrar o Real (al-haqq) no êxtase (wajd)”, e o êxtase é um acontecimento inesperado que aniquila a pessoa de testemunhar a si mesma e aos presentes, e o encontro do Real no êxtase é diverso entre os que encontram devido à propriedade dos nomes divinos e da preparação criada.
- A existência/experiência direta (wujud) deriva da fala de Deus e da escuta (sama’) do cosmos, e todo sama’ sem um êxtase que possua wujud não é verdadeiramente um sama’, pois o cosmos não pode ter existência sem a Fala de Deus e a escuta do cosmos.
- A luz (nur) é tanto o Ser de Deus quanto o meio pelo qual toda percepção ocorre, e as trevas (zulma) são o impossível, enquanto a criação é o Barzakh entre a Luz e as trevas, e a luz “designada” para a coisa possível nada mais é do que o wujud do Real.
- As faculdades dos sentidos, imaginação, memória, razão e reflexão são todas luz, pois quando se percebem sons, essa luz se chama “audição”, quando se percebem visões, chama-se “visão”, e todo objeto de percepção deve ter uma relação com a luz para ganhar a preparação de ser percebido.
- A visão de Deus será experimentada pelos fiéis face a face, mas a razão duvida disso, enquanto os profetas e amigos não têm conhecimento de Deus derivado da reflexão, mas possuem a “abertura do desvelamento” através do Real.
- O objeto da visão (mar’i), que é o Real, é luz, e aquilo através do qual o percebedor O percebe é luz, de modo que a luz se inclui na luz, e nada O vê senão Ele, pois a pessoa, em respeito à sua entidade, é idêntica à sombra, não à luz.
As Luzes da Automanifestação
As automanifestações são luzes que se manifestam em formas sempre novas e nunca se repetem, e a Essência de Deus nunca é manifestada, apenas o que não é a Essência, de modo que o véu está perpetuamente abaixado e o ser humano percebe apenas o véu, não o que está velado.
- A automanifestação da Essência é unanimemente declarada impossível pelo Povo das Realidades, enquanto a automanifestação em loci de manifestação (mazahir), seja na forma de crenças ou de conceitos racionais, é um fato e são pontes sobre as quais o homem “atravessa” (ya’buru) através do conhecimento.
- As luzes são de dois tipos: uma luz sem raios, dentro da qual ocorre a automanifestação sem raios, que o observador percebe com clareza e lucidez extremas, e uma luz radiante, que tira a visão, como nas palavras do Profeta “Ele é uma luz; como poderia vê-Lo?”
- Deus manifesta a incapacidade das faculdades racionais através da automanifestação sem raios, que torna manifesta a potência dos olhos e os prefere sobre as faculdades racionais, e manifesta a incapacidade dos olhos através de Sua automanifestação em luz radiante, preferindo as faculdades racionais.
- As ciências das automanifestações são aquelas sobre as quais Deus ordenou ao Seu Profeta que buscasse aumento (alcorão 20:114), e são as ciências das experiências diretas (dhawq), sendo o conhecimento de Deus a ciência de nível mais alto, e a maneira mais elevada para o conhecimento de Deus é o conhecimento das automanifestações.
- Quando Deus Se manifesta ao homem, Ele Se manifesta à dimensão manifesta (zahir) da alma, e a percepção ocorre através da sensação numa forma dentro do barzakh da imaginalização, resultando em aumento nas ciências relacionadas às decisões da Lei, ou nas ciências da lógica ou da gramática, dependendo da especialização da pessoa.
- A automanifestação também ocorre através do nome Manifesto à dimensão não manifesta (batin) da alma, e então a percepção ocorre através do “insight” (basira) no mundo das realidades e significados desvinculados dos substratos, sendo estas as ciências divinas, as ciências dos mistérios e das coisas não manifestas.
Nomeando a Percepção da Luz
O desvelamento (kashf) é o termo mais geral para a percepção da automanifestação divina, e quando essa percepção é considerada primariamente em relação à fonte, chama-se automanifestação, e quando é considerada primariamente em relação ao percebedor, chama-se desvelamento, ocorrendo normalmente sob uma forma visionária dentro do mundo imaginal.
- O termo “experiência direta” (dhawq) é frequentemente usado como sinônimo de desvelamento, e qualquer conhecimento não derivado da experiência direta não é o conhecimento do Povo de Allah, pois o conhecimento da experiência direta dado por cada coisa existente não pode ser dado por nenhuma outra coisa existente.
- A experiência direta é o início da automanifestação, e se permanece por dois instantes ou mais, torna-se “beber” (shurb), e a “saciedade” (riyy) é o estágio final do beber em cada estação (maqam).
- O desvelamento e a experiência direta são distinguidos pelo autor ao dizer que o desvelamento é algo que se vê fora de si mesmo, enquanto a experiência direta é a própria experiência interior, como no caso de se obter ciências da experiência direta específica dos mensageiros, que para o receptor são um desvelamento.
- As experiências diretas dos mensageiros são específicas dos mensageiros, as dos profetas são específicas dos profetas, e as dos amigos (awliya) são específicas dos amigos, embora um mensageiro possa ter todas as três, pois é amigo, profeta e mensageiro ao mesmo tempo.
- A abertura (fath) ocorre quando Deus ilumina o coração, permitindo-lhe ver o mundo invisível (ghayb), e se luzes dispersas aparecerem ao buscador com trevas intercaladas e sem subsistência, esse é um dos primeiros sinais de aceitação e abertura.
- O mundo invisível é percebido pelo olho do insight (basira), enquanto o mundo visível é percebido pela visão (basar), e a visão nada percebe do mundo visível exceto trevas até que os obstáculos sejam removidos e as luzes se espalhem sobre os objetos sensoriais.
- O desvelamento só ocorre através de uma luz equivalente à luz da visão, pois quando a luz é mais forte do que a luz da visão, o homem a percebe, mas não percebe através dela, como no caso em que o véu de Deus é luz.
- A abertura do desvelamento (fath al-mukashafa) traz o conhecimento do Real através das coisas, pois o Real é conhecido nas coisas, e as coisas são como cortinas sobre o Real, e quando são levantadas, ocorre o desvelamento.
- Se alguém testemunha a criação, não verá o Real, e se testemunha o Real, não verá a criação, testemunhando-se a criação no Real ou o Real na criação, num testemunho através do conhecimento, pois um é o invólucro e o outro o envolto.
Testemunho e Visão
O testemunho (shuhud, mushahada) é sinônimo de desvelamento e refere-se à visão da automanifestação, podendo ser dividido em testemunhar a criação no Real, testemunhar o Real na criação, e testemunhar o Real sem a criação, que é a realidade da certeza (yaqin) sem qualquer dúvida.
- A testemunha (shahid) é o traço que o testemunho (mushahada) deixa no coração do testemunhador (mushahid), sendo a subsistência das formas dos loci de testemunho (mashahid) na alma do testemunhador, e através dela o testemunhador experimenta o deleite (na’im).
- O testemunho é precedido pelo conhecimento do testemunhado, um conhecimento chamado “crença” (aqida), enquanto a visão (ru’ya) não é precedida pelo conhecimento do objeto da visão, portanto no testemunho ocorre admissão e negação, mas na visão só há admissão, nunca negação.
- Na visão, Deus Se manifesta no além na forma de uma marca (‘alama) pela qual o reconhecem, e eles admitem apenas a marca, não a Ele, reconhecendo-O apenas como limitado (mahsur), não reconhecendo o Real.
- A visão pode ser mais elevada que o testemunho, mas ambos são modos de conhecimento adquiridos por outra coisa que não a Essência de Deus, e a própria Essência nunca é conhecida, pois nada se sustenta diante do Real em respeito à Sua Essência e ao Seu Ser.
Percebendo o Véu
A automanifestação nunca se repete (la yatakarrar al-tajalli) e a água assume a cor do seu recipiente, princípio que explica toda a diversidade e multiplicidade, incluindo as diferenças entre religiões e crenças, e que faz com que o gnóstico nunca veja Deus diretamente, mas apenas o véu, que é a própria forma da automanifestação.
- Quando dois gnósticos se reúnem numa única presença de testemunho, eles não se reúnem em existência (wujud), mesmo que se reúnam no testemunho, pois a presença não abraça dois de modo que algo mais possa ser testemunhado junto com ela, e o testemunhador nem mesmo testemunha a si mesmo nessa Presença.
- Se eles são reunidos por uma única estação (maqam), a propriedade da automanifestação é uma em respeito à manifestação, mas é diversa na experiência direta (dhawq) por causa de sua diversidade em entidades, pois um gnóstico não é o outro nem na forma natural nem na espiritual.
- O Real nunca Se manifesta a Suas criaturas exceto dentro de uma forma, e Suas formas são diversas em cada automanifestação, pois Ele nunca Se manifesta numa única forma duas vezes nem numa única forma a dois indivíduos, e em tudo isso Ele é Deus.
- Tudo isso, na verdade, é imaginação (khayal), pois nunca tem fixidez num único estado, e “as pessoas estão dormindo”, e quando morrem, despertam deste sonho dentro de um sonho, nunca cessando de ser sonhadores nem de sofrer variação constante dentro de si mesmas.
14. COMPREENDENDO O ALCORÃO
O conhecimento adquirido pelo desvelamento é superior ao conhecimento adquirido pelo esforço intelectual e pela investigação racional, pois a razão é limitada em sua capacidade de perceber a automanifestação de Deus em todas as coisas, negando a semelhança e interpretando os relatos revelados que se referem a ela.
- Deus proibiu refletir sobre a Essência divina, e os possuidores de desvelamento testemunham a mão direita de Deus, Sua mão, Suas duas mãos, o olho e os olhos atribuídos a Ele, o pé, o rosto e atributos como alegria, espanto, riso e autotransmutação de forma em forma.
- O Deus adorado pelos fiéis e pelo povo do testemunho não é o mesmo que o adorado pelas pessoas que refletem sobre a Essência de Deus, pois eles desobedeceram a Deus e ao Seu Mensageiro ao refletir sobre a Essência de Deus, transgredindo o nível da fala (kalam) e da consideração racional.
- O conhecimento da declaração da unicidade de Deus (tawhid) não é algo ontológico (amr wajid), mas meramente uma relação, e as relações não podem ser vistas através do desvelamento, pois o desvelamento é uma visão, e a visão só se conecta ao seu objeto através das qualidades (kayfiyya) que o objeto possui.
- A afirmação da existência de Deus é evidente por si mesma (danna) para a razão, devido ao fato de que a preponderância foi dada a uma das duas propriedades da coisa possível, e a “morte” mencionada no Alcorão (6:122) é a ignorância da existência de Deus, enquanto a “vida” é a admissão da existência de Deus.
- A luz que é dada (alcorão 6:122) é o conhecimento da declaração da unicidade de Deus, e é este conhecimento que estabelece a eminência e a felicidade, enquanto o conhecimento da existência de Deus é evidente por si mesmo para a faculdade racional.
- O conhecimento do tawhid de Allah é um conhecimento de provas reflexivas, não um conhecimento de testemunho desvelado, e nunca pode ser adquirido através da experiência direta (dhawq), pois a essência (dhat) não pode ser conhecida de forma alguma.
Razão versus Desvelamento
A pessoa “iletrada” (ummi) é aquela que não emprega sua consideração reflexiva nem seu julgamento racional para extrair os significados e mistérios que o Alcorão contém, e quando o coração está seguro da consideração reflexiva, torna-se receptivo à abertura divina da maneira mais perfeita e sem demora, sendo provido de conhecimento dado por Deus (ladunni).
- O conhecimento dado por Deus é aquele que o iletrado entre o Povo de Allah ganha, enquanto as balanças do pensamento racional e as balanças externas da investigação legal entre os juristas rejeitam grande parte do que foi mencionado, porque a maior parte deste assunto está além do estágio da razão.
- Na história de Moisés e Khadir (alcorão 18:65), há uma forte prova de que Deus juntou (jama’a) para Khadir, no desvelamento, o conhecimento do manifesto e do não manifesto, do julgamento e da sabedoria, da razão e da convenção (wad’), das provas e das ofuscações.
- O conhecedor divino (al-‘alim al-ilahi) dá à visão e a todos os outros sentidos o que lhes é devido em seu julgamento, dá à razão e a todas as outras faculdades espirituais seus julgamentos, e dá às relações divinas e à abertura divina seus julgamentos, sendo este o “insight” (basira) mencionado no Alcorão (12:108).
- O jurista e o pensador reflexivo nunca estarão “mediante insight” em seus julgamentos, pois o jurista pode dar uma decisão hoje e amanhã algo acontece que lhe mostra que estava enganado, e o pensador racional pode ver um adversário que oferece algo que contradiz a prova sobre a qual estava certo.
- A virtude da razão é aceitar (qabul) o desvelamento e a revelação, e a faculdade racional ideal é aquela que aceita de Deus o conhecimento d’Ele que Ele lhe dá e não tenta ir além de suas próprias limitações refletindo sobre Ele.
- O amor por Deus exerce sua propriedade sobre o amante na medida de sua faculdade racional, pois sua razão o delimita, sendo seu grilhão, e a propriedade do amor de Deus entre Suas criaturas não vai além de Seu conhecimento, assim como a propriedade do amor humano por Deus não vai além da razão humana.
- O “cerne” (lubb) da faculdade racional é aquilo que se torna o alimento dos pensadores racionais, e os “possuidores dos cerne” são aqueles que empregam a razão como deveria ser empregada, aceitando tudo o que vem de Deus, em contraste com os “homens das faculdades racionais”, que são o povo da casca (qishr).
O Caráter de Muhammad
O Profeta Muhammad é o maior locus de automanifestação divina e o ser humano mais perfeito, possuindo um caráter que é o próprio Alcorão, pois reúne em si todos os traços de caráter nobre, assim como o Alcorão revelado reúne todo o conhecimento, e sua lei compreende todas as religiões reveladas.
- O nome Alcorão (al-Qur’an) deriva da raiz que significa “reunir” e “colecionar juntos”, e é sinônimo da palavra jam‘ (“reunião”, “abrangência”), sendo o nome Allah o “nome abrangente” (al-ism al-jami‘) de Deus, o homem perfeito é a “coisa criada abrangente” (al-kawn al-jami‘), e o Alcorão é “al-Qur’an” porque reúne todas as escrituras reveladas.
- Muhammad foi o maior locus de automanifestação divina e, portanto, veio a conhecer “o conhecimento dos antigos e dos posteriores”, e foi-lhe dada a “palavra abrangente” (jawami‘ al-kalim), e foi um profeta quando Adão estava entre água e barro, enquanto todos os outros profetas só foram profetas durante o estado de sua profecia.
- O “estandarte do louvor” (liwa al-hamd) é o louvor dos louvores, o louvor mais completo, e o Profeta merece esse estandarte porque louvará seu Senhor pelo Alcorão, que reúne todos os louvores, e não deve ser louvado exceto pelos louvores que Ele estabeleceu na Lei.
- O Profeta Muhammad recebeu as “palavras abrangentes” (jawami‘ al-kalim), portanto sua Lei compreende todas as religiões reveladas (shara’i‘), e ele foi um profeta quando Adão ainda não havia sido criado, de modo que dele ramificam-se as Leis para todos os profetas, que foram enviados por ele para serem seus deputados na terra.
- O caráter do Mensageiro de Deus era o Alcorão, e a assunção dos nomes divinos como seus próprios traços (takhalluq), e se alguém na comunidade do Mensageiro que não o encontrou deseja vê-lo, que olhe para o Alcorão, pois quando olha para ele, não há diferença entre olhar para ele e olhar para o Mensageiro de Deus.
O Contexto do Alcorão
O Alcorão é a Fala de Deus, e o conhecimento de Deus abrange todas as coisas, portanto Deus conhece e intenciona todos os sentidos possíveis que podem ser entendidos do texto, de modo que todo sentido suportado por qualquer versículo na Fala de Deus é intencionado por Deus no caso daquele intérprete (muta’awwil).
- A interpretação (ta’wil) não é um termo apropriado para indicar o método de interpretação do autor, pois ele quase invariavelmente usa o termo para se referir a um processo mental que submete a revelação ao julgamento da razão, enquanto os fiéis e os amigos de Deus atravessam (ya‘buruna) levando o sentido externo (zahir) com eles, testemunhando as coisas com “dois olhos”.
- Todo sentido (wajh) que é suportado (ihtimal) por qualquer versículo na Fala de Deus é intencionado (maqsud) por Deus no caso daquele intérprete (muta’awwil), pois Seu conhecimento abrange todos os sentidos, e nenhum homem de conhecimento pode declarar errada uma interpretação que é suportada pelas palavras (lafz).
- O comentário (tafsir) não será “de acordo com sua própria opinião” (ra’y) até que os falantes daquela língua não reconheçam aquele sentido naquela palavra, e aquele que comenta o Alcorão de acordo com sua própria opinião torna-se incrédulo, conforme registrado no Hadith de al-Tirmidhi.
- Os comentários do Povo de Allah são chamados de “alusões” (isharat) para se protegerem do mal dos juristas (fuqaha’) e de suas acusações de incredulidade, pois os juristas não negam “alusões”, enquanto negariam se fossem chamados de “comentários”.
- O Alcorão é o oceano sem costa, pois Aquele a quem é atribuído intenciona todos os significados exigidos pela fala, em contraste com a fala das coisas criadas, e cada versículo revelado tem dois sentidos (wajh): um sentido que veem dentro de si mesmos e um sentido que veem fora de si mesmos.
Conhecimento do Hadith
A autenticidade dos ditos proféticos (hadith) pode ser testada através do desvelamento (kashf), e os amigos de Deus que são “profetas entre os amigos” testemunham o anjo Gabriel lançando o hadith sobre a realidade de Muhammad, permitindo-lhes distinguir hadiths forjados daqueles que são genuínos, mesmo quando as cadeias de transmissão são consideradas sólidas.
- Os profetas entre os amigos (awliya) são indivíduos que Deus coloca dentro de uma de Suas automanifestações, e então Ele faz os loci de manifestação de Muhammad e Gabriel se erguerem diante deles, e o locus de manifestação espiritual (Gabriel) permite-lhes ouvir enquanto se dirige ao locus de manifestação de Muhammad com as decisões da Lei.
- O amigo que possui esse locus de testemunho percebe através de sua faculdade racional todas as decisões da Lei compreendidas naquele discurso, toma essas decisões assim como o locus de manifestação Muhammadano as tomou, e as coloca em prática “mediante uma clara prova de seu Senhor” (alcorão 11:17).
- Há muitos hadiths fracos que não são praticados devido à fraqueza de sua linha de transmissão, mas que são sólidos de fato, pois o falsificador (wadi‘) disse a verdade e não o forjou, e o amigo pode ouvir o Espírito projetando esse mesmo hadith sobre a realidade de Muhammad.
- Há também muitos hadiths que são sólidos por seus transmissores, mas que o possuidor do desvelamento aprende e então pergunta ao Profeta sobre eles, e ele os nega, dizendo “Eu não disse isso nem julguei por isso”, revelando sua fraqueza.
- O amigo compartilha com o profeta em que percebe durante a vigília o que as pessoas comuns percebem durante o sono, e essa é a estação dos amigos (awliya), juntamente com agir pela Resolução (himma) e conhecer sem nenhum professor criado, apenas Deus, que é o conhecimento de Khadir.
- Quando a forma do profeta se manifesta a alguém, ele deve deixar o olho de seu entendimento olhar apenas para o que aquela forma lhe projeta, nada mais, pois Satanás nunca se imaginalizará na forma de nenhum profeta, e tudo o que a forma diz é correto.
- O autor tomou muitas decisões jurídicas (ahkam shar‘iyya) de uma forma como esta, que não havia aprendido com os mestres eruditos nem com os livros, e quando as apresentou a um dos mestres eruditos de seu país, ele relatou que tudo o que o autor lhe relatava havia sido relatado do Profeta no Sahih.
