METAFÍSICA DE QŪNAWĪ
Dagli, Caner K. Ibn al-ʻArabi and Islamic intellectual culture: from mysticism to philosophy. London New York (N.Y.): Routledge, 2016.
A metafísica de Ṣadr al-Dīn al-Qūnawī, um dos principais discípulos de Ibn al-‘Arabī, é apresentada como um desenvolvimento sistemático e pedagógico dos ensinamentos do mestre, integrando elementos da filosofia peripatética e estabelecendo as bases para a escola akbariana posterior, com ênfase na relação entre a unicidade da existência (wujūd) e a multiplicidade aparente das criaturas.
- Qūnawī, falecido em 1274, foi o mais notável expositor metafísico entre os discípulos de Ibn al-‘Arabī, tendo assumido a formação de discípulos após a morte do mestre em 1240, incluindo ‘Aff al-Dīn al-Tilimsānī.
- Sua obra inclui comentários como o *Kitāb al-Fukūk* sobre o *Fuṣūṣ al-ḥikam*, *I‘jāz al-bayān* sobre a abertura do Alcorão, e sua principal obra metafísica, *Miftāḥ al-ghayb*, além de uma correspondência filosófica com Naṣīr al-Dīn al-Ṭūsī.
- Qūnawī era praticante do tasawwuf e profundamente conhecedor das ideias dos falāsifah, sendo uma figura chave para determinar o legado dos escritos de Ibn al-‘Arabī para o resto do mundo islâmico.
- A correspondência com Ṭūsī é importante porque Qūnawī era um canal para o ensino de Ibn al-‘Arabī e Ṭūsī um reavivador da filosofia peripatética, trocando cartas cordiais sobre questões como a natureza do Um, emanação, substância, atributo, forma, matéria e quididade.
A Correspondência Filosófica com Ṭūsī
A troca de cartas entre Qūnawī e Ṭūsī aborda questões filosóficas centrais, especialmente a realidade da existência e como ela é predicada de Deus e das coisas simultaneamente, revelando diferenças e pontos de contato entre a visão sufista e a peripatética.
- Qūnawī reduz todos os objetos da experiência a “realidades não acopladas” (haqā’iq mujarradah), ou essências, que são então combinadas com uma única existência indivisível, uma doutrina que seria articulada posteriormente como muitas quididades (māhiyyāt) e uma única existência (wujūd).
- As realidades, quando consideradas despidas da existência e da conexão entre si, tornam-se vazias de nome, qualidade, atributo, forma e determinação, sendo que a afirmação de um nome ou atributo só pode se tornar fato através da aplicação do estatuto da existência a elas.
- Em sua carta, Qūnawī pergunta se o conceito de existência, sendo um conceito único, é necessariamente um acidente da quididade de uma coisa, não é um acidente, ou não é nenhuma das duas opções, levantando problemas sobre a existência necessária de Deus e a existência contingente.
- Ṭūsī responde distinguindo entre predicação unívoca e equívoca, afirmando que a existência é deste último tipo, aplicando-se ao Necessário como algo que subsiste por si mesmo sem ser acidente de uma quididade, e ao contingente como acidente de uma quididade.
- Ṭūsī argumenta que a “existência compartilhada geral” é uma entidade meramente mental, pois uma coisa concreta não pode ocorrer em múltiplas coisas, sendo predicada apenas na inteligência, ao passo que a existência concreta de Deus é desconhecida em sua essência e realidade.
- Qūnawī rebate que a hierarquia e variação encontradas entre as manifestações da realidade se devem à própria entidade manifestadora, não a uma multiplicidade ou divisão da realidade em si, pois para ele não há multiplicidade real, apenas uma ilusão criada pelas “entificações” (ta‘ayyunāt) da existência.
- A identificação do Real como Uno ou como fonte de todos os existentes só pode ocorrer com relação ao Seu ser identificado no âmbito da intelecção cósmica (al-ta‘aqqul al-kawīn), a qual nunca está livre das características de limitação e multiplicidade que influenciam a intelecção.
- Quando um “homem de realização” (Sufi) diz que a realidade do Real é desconhecida, mas o conhecimento (ma‘rifah) dEle é atingido, não quer dizer que o Real tenha uma realidade além de Sua existência, mas que, quando a intelecção é considerada desengajada da multiplicidade, Ele é não qualificado por qualquer entificação.
- Para os Akbarianos como Qūnawī, o mistério da existência não se limita a Deus, mas permeia tudo o que se diz existir, pois há apenas uma existência por trás da aparência de muitas coisas, ao passo que para Ṭūsī o mistério reside apenas na existência concreta de Deus, separada das coisas.
O Tratamento Filosófico de Wujūd e Conceitos Relacionados
Qūnawī emprega o termo wujūd (existência/ser) em dois sentidos principais: como a Realidade Suprema (a unicidade do ser) e como a manifestação e autodisclosure de Deus no reino da criação, oscilando entre esses usos mesmo em uma única página de sua obra.
- Em *Miftāḥ al-ghayb*, Qūnawī afirma que o assunto da metafísica (al-‘ilm al-ilāhī) é o wujūd, e que os princípios da investigação são compostos de concepções (taṣawwur) e assentimentos (taṣdīq), alinhando-se à abordagem dos falāsifah, embora o restante da obra não siga estritamente esse método.
- Qūnawī menciona a frase waḥdat al-wujūd para distinguir entre a unidade que um homem percebe em si mesmo (uma multiplicidade) e a unidade pertencente à realidade da existência, que é a realidade de Deus e, portanto, verdadeiramente una, estando mais preocupado com wujūd al-ḥaqq (a existência do Real/existência verdadeira).
- A existência, no que diz respeito ao Real, é idêntica à Sua própria essência (dhātihi), enquanto para tudo o mais é extrínseca (zā’id) à sua realidade (ḥaqīqah), sendo estas realidades chamadas de “identidades imutáveis” (‘ayn thābitah) ou quididades (māhiyyāt) no conhecimento de Deus.
- A diferença percebida entre várias existências e a única existência decorre da diferenciação das realidades receptoras no ser (kawniyyah), e não de uma diferenciação da própria existência, pois há apenas uma existência que se manifesta devido à diferenciação das realidades dos receptáculos.
A Realidade Una: Exemplos da Obra de Qūnawī
Qūnawī utiliza termos como “existência”, “luz” (nūr) e “misericórdia” (raḥmah) para se referir à Realidade Suprema, que é una, mas se manifesta de múltiplas formas, e cujo conhecimento exige uma linguagem aproximativa e pedagógica, não correspondendo exatamente a como as coisas são.
- Deus é “a existência pura (al-wujūd al-mahd) na qual não há distinção”, e Ele é verdadeiramente uno, sendo a multiplicidade inconcebível em relação a Ele, embora o termo “unidade” seja usado para afirmar incomparabilidade e magnificação, não como comumente concebido por mentes veladas.
- A existência una atribuída às coisas contingentes criadas não é, na realidade, diferente da verdadeira existência oculta, exceto por atribuição e ficção, sendo o uso do termo wujūd uma aproximação e um recurso pedagógico, não porque corresponda a como as coisas realmente são.
- A “luz verdadeira” (al-nūr al-ḥaqīqī) tem um nível que é parceiro da existência pura absoluta, sendo que nem a existência, nem o conhecimento, nem a luz se diferenciam entre si em sua unidade e absolvição, pois não há multiplicidade entre eles na presença da Unidade-Essencial.
- A misericórdia (raḥmah) é o mesmo que a existência, e o nome al-Raḥmān (O Todo-Misericordioso) é o nome para a forma da Existência Divina com respeito à Sua manifestação em si mesma e por si mesma, sendo a “Respiração do Todo-Misericordioso” (nafas al-Raḥmān) um tema metafísico central.
- Os conceitos de “espalhamento-por-todo” (inbisāṭ) e “fluir-através” (sarayān) descrevem o processo pelo qual a existência é concedida às coisas potencialmente existentes (identidades imutáveis), referindo-se à realidade una na medida em que ela é a própria existência das muitas existências.
- Todas as coisas percebidas pelas faculdades intelectual, mental, imaginativa e sensorial são realidades simples e não acopladas (mujarrad) que são vestidas com a existência una individual, manifestando-se a si mesmas, embora algumas sejam dependentes de outras em termos de manifestação, determinação e abrangência.
Wujūd como Significante da Ordem Criada
Qūnawī também utiliza wujūd e conceitos derivados, como “existenciação” (ījād), para se referir simplesmente ao estatuto de uma coisa existir na ordem criada, em oposição a estar no conhecimento de Deus ou em estado de não-manifestação.
- O termo “existenciação” (ījād) aparece frequentemente nos escritos de Qūnawī e sempre carrega o sentido de manifestação das identidades imutáveis do conhecimento de Deus para o mundo da criação, sendo frequentemente encontrado junto com “manifestação” (ẓuhūr, izhār) e seus derivados.
- O adjetivo “existencial” (wujūdī), como em “emanação existencial” (al-fayḍ al-wujūdī), não deriva diretamente do sentido mais profundo de wujūd, mas sim significa “manifestado” ou “concreto”, sendo associado a autodisclosure, desdobramento, manifestação, forma e luz.
- Há uma distinção central na metafísica akbariana entre “existência de conhecimento” (al-wujūd al-‘ilmī), que se refere ao conhecimento de Deus e às identidades imutáveis, e “existência concreta” (al-wujūd al-‘aynī), que se refere a essas identidades após serem trazidas para fora do conhecimento de Deus.
- O termo mawjūd (existente) nunca é usado para se referir a Deus na escola akbariana, indicando sempre a existência particular de alguma coisa, enquanto Deus é referido como “a existência pura” ou “o Real”.
Conclusão sobre a Metafísica de Qūnawī
Embora wujūd e a expressão waḥdat al-wujūd sejam importantes para Qūnawī, ele não tenta construir um sistema baseado no wujūd, utilizando antes um conjunto de termos como luz e misericórdia para discutir a realidade última, e reconhecendo a imprecisão necessária de sua terminologia.
- Qūnawī emprega wujūd de forma ambígua e admite que sua terminologia é, por necessidade, imprecisa e incapaz de capturar as realidades das quais fala, estando mais preocupado com wujūd al-ḥaqq do que com uma doutrina de waḥdat al-wujūd a ser defendida.
- Embora estivesse em diálogo com representantes da falsafah, seus escritos não representaram uma aproximação maior à linguagem da falsafah do que a de seu mestre Ibn al-‘Arabī, sendo seus ensinamentos continuados por discípulos como al-Farghānī e, posteriormente, por Kāshānī e Qayṣarī.
