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DEUS E O MUNDO DA CRIAÇÃO

Miguel Cruz Hernández — História do pensamento no mundo islâmico. Capítulo 39 — O Neoplatonismo místico de Ibn Arabi de Múrcia (1165-1240)

O princípio fundamental da Unidade do Ser adquire em Ibn Arabi os perfis mais definidos dentro do neoplatonismo sufi, tanto mais que a Unidade do Ser era já sinônima, havia séculos, com o conceito alcorânico da Unidade Divina manifestado na fórmula dogmática da Shahada.

  • Deus é a Realidade Absoluta, Princípio universal e transcendente, não condicionado por nada, cuja única essência é sua radical e unitária necessidade de ser.
  • A Unidade Divina pode ser contemplada sob duas perspectivas: como estrita Unidade — al-ahadiyya — e como Unicidade — al-wahidiyya.
  • Como estrita Unidade, Deus não pode ser objeto de nenhuma determinação e seu ser não admite qualificação alguma — não existe nele nenhuma distinção real, material nem formal, nem sequer a distinção nominal de essência e existência.
  • Como Unicidade, ao contrário, é causa da unidade e determinação de tudo o que foi criado.

Considerado em si mesmo, de Deus em sentido estrito nada se pode predicar senão sua unidade e sua unicidade, mas visto a partir do Cosmos é possível atribuir-lhe certos atributos que são possibilidades em relação às coisas criadas.

  • Por via negativa ou por operação analógica, pode-se predicar de Deus a carência das limitações das criaturas, ou as qualidades positivas destas desprovidas de sua quantificação limitativa.
  • O pensamento sufi neoplatonizado considera que os Nomes Divinos têm realidade apofântica em relação ao mundo criado — embora Deus não seja seus nomes, tampouco estes são algo distinto d'Ele.
  • À maneira neoplatônica, os Nomes Divinos são os arquétipos incriados e eternos dos entes concretos, sem que exista entre Deus e seus nomes qualquer tipo de distinção.
  • Ibn Arabi, bom discípulo de Ibn Hazm nesse ponto, considera que apenas as tipificações que Deus quis que conhecêssemos — contidas no Alcorão — constituem o que é possível saber.
  • Os Nomes Divinos constituem as raízes divinas do cosmos, por meio das quais Deus se manifesta no mundo criado, sendo também os caminhos que podem conduzir ao conhecimento da Divindade.
  • Os Nomes Divinos são também “respectivos” — no sentido empregado por Zubiri — em relação ao homem, que os descobre e utiliza, constituindo para este as formas de manifestação dos mistérios da Divindade.
  • As existências concretas existiram sempre como estrita possibilidade não em si mesmas, mas em relação a Deus; em relação ao homem, constituem uma estrita potencialidade.

A Unidade e Unicidade da essência divina quis manifestar-se por um ato radicalmente livre para que, de Tesouro oculto, passasse a ser patrimônio do que por Ela mesma graciosamente foi criado.

  • A criação é um ato voluntário, livre, temporal e unitário, pelo qual Deus cria algo como um eco difuso de seu próprio Ser.
  • Ibn Arabi busca evitar o escolho perigoso do racionalismo extremo das teologias neoplatônicas, onde o tríplice sentido da Excelência, Infinitude e Onipotência divinas acaba por apagar o amor e o sentido paternal de Deus.
  • O neoplatonismo sufi de Ibn Arabi não se manifesta mediante teologia racionalista nem por cosmogonia emanatista, mas por meio de uma autêntica teofania, onde Deus aparece com amoroso anseio de auto-manifestação, de conhecimento e de amor.
  • Para designar o atributo pelo qual Deus cria, Ibn Arabi recorre a um dos mais belos nomes que o Alcorão dá a Deus — o Clemente, al-Rahman — repetido pelos muçulmanos em todas as suas orações.
  • A criação é fruto, antes de tudo, da Clemência e Misericórdia divinas, ou seja, do amor.

A concepção teofânica da criação explica satisfatoriamente a doutrina de Ibn Arabi acerca da renovação permanente da criação, pela qual ser criado significa estar sempre em estado de criação permanente.

  • Deus cria por meio de seus princípios ou arquétipos, mas não de uma vez por todas — sua solicitude sobre as coisas é tão permanente que a projeção dos arquétipos em relação às coisas renova-se constantemente.
  • As coisas criadas jamais possuem uma mera existência refletida que, após a criação, subsista por si mesma.
  • A sucessão indefinida de mundos é congruente com o sistema de Ibn Arabi sem pressupor qualquer intenção panteísta, pois o ato de aniquilação não é antecedente, mas coincide com o ato de recriação.

Ibn Arabi distingue quatro princípios cosmológicos de ordem universal: o Intelecto Primeiro, a Matéria Prima, a Alma Universal e a Natureza Universal.

  • O Intelecto Primeiro — al-Aql al-Awwal — é o modo primário e original da manifestação ad extra da Essência Divina, identificado por Ibn Arabi com o Espírito e também chamado de Pena Suprema, por cuja mediação Deus “escreve” o destino particular de todos os seres concretos; por sua essência imutável é eterno e incriado, mas como princípio do desenvolvimento da criação é criado em relação a Deus.
  • A Matéria Prima — al-Hayula — é o princípio receptáculo ou passivo da manifestação do cosmos; incriada enquanto contraponto do Intelecto Primeiro, e criada enquanto se concretiza na série de entes que compõem o mundo criado.
  • A Alma Universal — al-Nafs al-kulliyya — é a animadora do cosmos tal como se produz na conjunção do Intelecto Primeiro e da Matéria Prima, nela estando inscritos, pela Pena Suprema, os destinos dos seres concretos.
  • A Natureza Universal — al-Tabi'at al-kull — é o próprio ser do cosmos considerado não no ato criador livre de Deus, mas após esse ato, sendo nesse sentido criada.

Os quatro princípios cosmológicos geram quatro categorias entitativas que são quatro níveis distintos — em relação a nós, mas não a partir de Deus — da única e universal Realidade Divina.

  • O mundo do estrito Ser ou Natureza Divina, representado por Deus Criador e Auto-manifestador, que Ibn Arabi denomina Mundo da Luz.
  • O mundo da estrita existência espiritual, ou dos arquétipos.
  • O mundo da existência formalizada e abstraída dos laços materiais, ou seja, das formas em nossa mente.
  • O mundo das formas corporais, ou seja, o dos entes com composição material.
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