User Tools

Site Tools


islamismo:ibn-arabi:lory:cecq:realizacao-espiritual

REALIZAÇÃO ESPIRITUAL

CECQ

V. A REALIZAÇÃO ESPIRITUAL

1. Desvelamento e ascensão

À “descida” (nuzul) dos graus de existência corresponde de forma exatamente inversa a “ascensão” (uruj) do Sufi em busca de sua identidade profunda — ascensão que não consiste em uma transformação progressiva do homem sob o efeito de uma força espiritual que lhe seria exterior, mas na atualização do que já é sua verdade profunda.

  • Ao nível de sua face interior — ou seja, sua essência — o Sufi é Ele (Huwa), é a Verdade (al-Haqq); não tem de se tornar isso, mas de atualizar o que já é sua verdade profunda, pelos progressos do Conhecimento nele.
  • Essas etapas da realização não são propriamente graus a transpor nem crescimento quantitativo da compreensão das realidades metafísicas — procedem por desvelamentos, “epifanias” (tajalliyyat) que iluminam e elucida do interior o que estava presente mas velado pelas trevas da ignorância.
  • O Sufi descobre qual é seu Nome divino, qual é seu “Senhor”, segundo o célebre hadith: “Aquele que se conhece a si mesmo conhece seu Senhor” — e esse desvelamento lhe permitirá descobrir em seguida sua Verdade no nível universal, ou seja, a Verdade do Universo que em definitivo ele mesmo é.
  • O modelo perfeito da realização espiritual sufi é representado pela ascensão celeste (miraj) do Profeta tal como evocada no Alcorão (LIII, 1-18): Qashani interpreta Muhammad como sujeito dos versículos 7 e 8 — Muhammad estava “no horizonte superior”, na estação do Espírito onde se encontra Gabriel, e em seguida ultrapassou essa estação “pela extinção na Unidade”, onde Deus mesmo, sem o intermediário de Gabriel, revelou a Seu servidor o que lhe revelou.
  • Gabriel teria revelado que nessa ocasião “se eu me tivesse aproximado de um dedo, teria sido consumido pelos fogos da Essência divina” — o que sublinha o eminente grau espiritual do homem, único ser dotado de uma natureza que sintetiza todos os Atributos divinos, coroamento e “califa” de toda a criação.
  • A realização espiritual sufi equivale, em definitivo, a descobrir-se a si mesmo e, a partir daí, descobrir a Unidade universal manifestada em toda coisa — esse é o sentido profundo do termo tawhid, a verdadeira “via reta” (as-sirat al-mustaqim).

2. Morte voluntária e vida verdadeira

Essa via comporta sempre um aspecto negativo — o despojamento dos atributos “psíquicos” (sifat nafsiyya) e a supressão de toda tendência egocêntrica — e um aspecto positivo: a assunção dos Atributos divinos e a identificação progressiva à realidade profunda do ser.

  • O aspecto negativo é chamado por Qashani de morte voluntária ou extinção (fana'), que pode se situar em três níveis.
  • A extinção ao nível dos Atos: “O primeiro grau da unificação é a unificação dos atos (…) Ele visa a remoção do primeiro dos três véus — que são os véus dos Atos, dos Atributos e da Essência — pela clara epifania dos Atos. Com efeito, sob esses três aspectos, todas as criaturas estão inteiramente veladas pelo mundo manifestado.”
  • A extinção ao nível dos Atributos, pelo despojamento de suas próprias qualidades para assumir os Atributos divinos: “pelo dom dos Atributos divinos compensando a abolição de seus atributos humanos, e pelo fato de fazê-lo subsistir em Sua Essência, e de lhe dar a existência verdadeira no momento da extinção.”
  • A extinção ao nível da Essência, pela supressão total de todo traço de egoidade (ana'iyya) em si.
  • Essa morte voluntária é oposta à morte de fato que constitui, no nível espiritual, a ignorância: “Aqueles que temem morrer da morte da ignorância, que receiam a ruptura com a vida verdadeira e a queda nos abismos da natureza inferior.”
  • O novo estado do Sufi após a extinção é chamado “segundo nascimento” — estado que se identifica à permanência em Deus (baqa) e que é “a existência verdadeira dada” (al-wujud al-mawub al-haqqani): “Do mesmo modo que o corpo, no nascimento material, é concebido no útero da mãe pela ação do esperma do pai, o coração, no nascimento verdadeiro, é concebido no útero da predisposição da alma pelo sopro (nafha) do cheikh ou do instrutor. É a esse nascimento que Jesus aludiu ao dizer: 'Aquele que não nasceu duas vezes não entrará no Reino (malakut) dos Céus'” (João, III, 3).

3. As etapas da realização espiritual

Qashani evoca as três etapas principais, as três “estações” que correspondem à sua cosmologia espiritual — apenas de modo elíptico, sem estender-se sobre as “estações” (maqamat), os “estados” (ahwal) e as “moradas” (manazil) como fizeram muitos outros Sufis.

  • O primeiro nível da ascensão sufi em direção à Unidade é a unificação ao nível dos Atos (tawhid al-af'al), chamada “estação da entrega a Deus” (at-tawakkul): “A condição da autenticidade da entrega a Deus é o desaparecimento (fana) dos restos dos atos e das forças — sede dóceis a conduzir como o morto.”
  • A fé correspondente a esse nível é chamada “ciência da certeza” ('ilm al-yaqin) e pode ser partilhada pelo comum dos crentes; o Sufi permanece duplamente velado — em relação aos Atributos e em relação à Essência.
  • Qashani adverte contra o perigo de permanecer nessa estação e considerá-la o cume da realização espiritual — pois essa é a origem da maioria das heresias e dos fanatismos que consistem em absolutizar uma fraca percepção da Verdade e excluir os que não estão no mesmo nível, em particular os que atingiram um nível espiritual superior.
  • A segunda etapa é a unificação ao nível dos Atributos (tawhid as-sifat), chamada estação do “contentamento” (rida), referida aos versículos LXXXIX, 27-28: “Ó alma apaziguada! Retorna a teu Senhor, satisfeita e agradada” — o Sufi não atribui mais nenhuma qualidade a outro que não Deus: como Moisés diante do Faraó, que “mudou sua cólera, no momento da extinção dos Atributos, para a Cólera divina e a Violência senhorial, e formou uma serpente que devorava o que encontrava.”
  • A fé correspondente a esse nível é o “olho da certeza” ('ayn al-yaqin), que “não tem mais de ser considerada como fé no sentido estrito do termo, é certeza, como a que resulta da visão direta ('iyan) de um objeto” — é a “estação do coração” (maqam al-qalb), onde o coração, órgão da percepção espiritual, se acha liberto de toda influência das tendências materiais da alma e habitado pela luz permanente da Sakina.
  • “O dinheiro é a causa do aparecimento da alma e da predominância de suas qualidades; é o suporte de suas forças, a matéria de suas paixões, como disse o Profeta: 'O dinheiro é a matéria das paixões.'” — daí a necessidade do desprendimento em relação ao dinheiro como condição da purificação da alma.
  • Nessa estação começa a verdadeira contemplação (mushahada); o Sufi reintegrou a “natureza primordial” (al-fitra) que lhe havia sido atribuída ao nível do mundo do Malakut pelas disposições da Tábua do Destino — mas permanece ainda velado em relação à Essência.
  • O terceiro e último grau da ascensão é a unificação ao nível da Essência (tawhid adh-dhat), cujo modelo é o miraj do Profeta, comportando um tríplice movimento.
  • Primeiro, o Sufi atinge o “horizonte superior”, a estação de Gabriel chamada “estação do espírito” — onde permanece, contudo, um resto de dualidade entre a divindade e seu adorante ainda consciente de sua egoidade: “Esta união é a união da existência, não a união da Unidade na qual não há nem coração nem servidor em razão da extinção de tudo na Unidade.”
  • Em seguida, “aproxima-se e fica suspenso” na extinção completa na Essência divina, chamada “extinção da extinção”, “união da união”, onde não permanece mais o menor traço de dualidade.
  • Por fim, o Sufi retorna ao estado de permanência (baqa) ao nível do “jujubeiro do limite” — a mesma “estação do espírito”, mas onde não está mais velado em relação à Essência divina; adquiriu a “verdade da certeza” (haqq al-yaqin) e contempla a Essência divina pela mais perfeita das contemplações (shuhud): “A piedade é a piedade dos Unitarianos que contemplaram a União nos detalhes da multiplicidade e não foram velados pela União em relação ao múltiplo.”
  • Essa última experiência é objeto de comentários breves e alusivos em Qashani, pois não é possível descrever uma experiência espiritual inefável de outro modo que por via apofática — ela mesma limitada e enganosa, já que a Verdade essencial está além da negação como da afirmação.
islamismo/ibn-arabi/lory/cecq/realizacao-espiritual.txt · Last modified: by 127.0.0.1