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MORA

MORA, Fernando. Ibn ’Arabi: vida y enseñanzas del gran místico andalusí. 1. ed ed. Barcelona: Ed. Kairós, 2011.

Ibn Arabi: Apresentação Geral

Ibn Arabi de Múrcia é, sem dúvida, um dos maiores autores, pensadores, visionários e contemplativos de projeção universal que a Espanha produziu, embora sua enorme e importante obra tenha sido praticamente ignorada, até muito recentemente, em sua terra natal.

  • Estudiosos contemporâneos como Henry Corbin, Mircea Eliade e René Guénon consideram Ibn Arabi um dos mais ilustres representantes da chamada Filosofia Perene ou Tradição Unânime
  • Mircea Eliade o descreve como um dos gênios mais profundos do sufismo e da história da espiritualidade; Henry Corbin o classifica categoricamente como um dos maiores teósofos e visionários de todos os tempos
  • No contexto cultural islâmico, recebeu títulos laudatórios como “o maior dos mestres” ou Magister Maximus (al-Shaykh al-Akbar), defensor da religião (Muhyiddin), selo dos santos muhammadanos, guia do mundo, sultão dos sábios e o alquímico “enxofre vermelho”
  • Seus detratores chegaram a chamá-lo de destruidor da religião, ateu e inimigo de Deus; Menéndez Pelayo subsume toda a filosofia mística hebraica e muçulmana — e, portanto, o pensamento de Ibn Arabi — sob o duvidoso rótulo de “panteísmo semítico”
  • O sacerdote aragonês Miguel Asín Palacios — discípulo de Menéndez Pelayo — foi quem começou a resgatar Ibn Arabi das catacumbas da história cultural espanhola; apesar do trabalho commendável, chegou à conclusão chocante de que o Shaykh al-Akbar sofria de epilepsia grave, amplamente responsável por suas experiências espirituais — e sustentou que ele recebeu influências cristãs, pois, em sua opinião, fenômenos espirituais genuínos não poderiam ocorrer fora da Igreja Católica
  • O título da obra pioneira de Asín Palacios, El Islam cristianizado, ecoa, ainda que inconscientemente, a universalidade de uma mensagem que transcende as diferenças religiosas superficiais

A Espiritualidade Ibérica e o Fator Islâmico

A história religiosa e cultural da Península Ibérica não pode ser compreendida sem reconhecer a influência determinante do fator islâmico — e também do hebraico — na gênese da espiritualidade peninsular.

  • A Península Ibérica não foi apenas reservatório da espiritualidade cristã, com representantes da envergadura de Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e Miguel de Molinos, mas também abrigou figuras distintas da história religiosa muçulmana: Ibn Masarra de Córdoba, Ibn al-Arif de Almería e Abu Madyan de Sevilha, entre muitos outros
  • Gigantes da filosofia e mística hebraica como Maimônides de Córdoba, Abraham Abulafia de Aragão e Moisés de Leão merecem igual reconhecimento
  • Quando o imperador Carlos I afirmou que o melhor idioma para falar com Deus era o castelhano, esqueceu completamente que, pelo mesmo raciocínio, no país se poderia conversar com Deus em hebraico e árabe com igual fluência, pois os místicos judeus e muçulmanos alcançaram alturas espirituais idênticas, senão superiores, às dos místicos católicos

A Figura e a Obra de Ibn Arabi

Ibn Arabi foi simultaneamente viajante do desconhecido, cartógrafo espiritual genuíno, contemplativo consumado e conhecedor direto da profundidade divina insondável — homem renascentista avant-la-lettre que dominava campos de conhecimento muito díspares, todos convergindo para um único objetivo: o conhecimento divino.

  • Seu pensamento foi comparado ao do alemão Meister Eckhart e ao de Nicolau de Cusa; há estudos que abordam as semelhanças entre sua doutrina e o Taoísmo
  • É autor de mais de trezentos e cinquenta obras reconhecidas, embora cerca de oitocentas lhe sejam atribuídas; sua produção literária é colossal e foi traduzida de forma muito fragmentária tanto para o espanhol quanto para outras línguas ocidentais
  • A obra enciclopédica As Iluminações da Meca compõe-se de quinhentos e sessenta capítulos e ocupa vários milhares de páginas; a ela se atribuiu erroneamente a versão sufi de um texto iogue-tântrico intitulado Amratkund, e também o pequeno opúsculo conhecido como O Tratado sobre a Unidade — que Michel Chodkiewicz, especialista na obra akbari, demonstrou pertencer a um seguidor chamado Awhad al-Din Balyanī (m. 1288)
  • Sua produção poética — sobre a qual paira, no contexto literário ocidental, um espesso véu de esquecimento por falta de boas traduções e edições críticas — merece menção especial; a exceção é a coleção de poemas intitulada O Intérprete dos Desejos, que foi objeto de várias versões em diferentes línguas europeias
  • O Taj Mahal, o famoso mausoléu da Índia, foi construído segundo os planos do paraíso que aparecem nas Iluminações da Meca
  • A obra biográfica A Busca do Enxofre Vermelho, de Claude Addas — filha do professor Michel Chodkiewicz —, é fonte essencial que corrige algumas imprecisões, não menos graves por serem repetidas, relativas à biografia de Ibn Arabi; igualmente indispensável é a coleção hagiográfica Vidas de Santos Andaluzes: A “Epístola da Santidade”

Os Eixos Principais do Pensamento Akbari

O discurso meandroso de Ibn Arabi não se deixa sistematizar facilmente, nem resumir; ele não pode ser constrangido ao molde de ideias preestabelecidas e é exuberante demais para ser confinado às categorias filosóficas e teológicas habituais.

  • O conhecimento — entendido em seu tríplice sentido de conhecimento do cosmos, de si mesmo e de Deus — é o valor mais elevado da doutrina akbari; a tradição sufi sempre considerou o autoconhecimento o requisito indispensável para chegar, na medida do possível, ao conhecimento paradoxal de Deus
  • O amor oferece o contrapeso inevitável: em Ibn Arabi, é tão apaixonado e devoto quanto lúcido e sábio, pois o autêntico amante é também um profundo conhecedor que sabe perfeitamente quem é o sujeito e o objeto último de sua paixão — Deus ou a realidade última; a ignorância a esse respeito leva a toda sorte de idolatrias e fragmenta o amor total em objetos de desejo inexauríveis
  • Ibn Arabi afirma que a mulher é o suporte mais adequado para a contemplação da beleza divina, inserindo-se abertamente na tradição dos chamados Fiéis do Amor, para quem a adoração de Deus, personificada no princípio feminino, constitui um caminho autônomo e completo de sabedoria
  • A incomparabilidade e a similaridade divinas — transcendência e imanência — vinculam-se respectivamente às faculdades da razão e da imaginação; o versículo corânico “Não há nada semelhante a Ele. Ele é o Todo-Vidente, o Todo-Ouvinte” (42:11) expressa essa síntese: a primeira parte proclama a incomparabilidade absoluta de Deus, enquanto a segunda O equipara a qualidades sensíveis como a vista e a audição
  • A imaginação é simultaneamente domínio ontológico autônomo — onde os espíritos se materializam e os corpos se espiritualizam — e instrumento epistemológico adequado que, combinado com a razão, pode equilibrar a visão do mundo; Ibn Arabi também aponta a existência de estados místicos profundos além das formas e imagens, nos quais não só toda visão se dissolve, mas também a consciência do eu se extingue provisoriamente
  • A adoração essencial — culto natural que todos os seres prestam inconscientemente a Deus em sua própria linguagem única e desconhecida — distingue-se da adoração ritual transmitida pelos mensageiros religiosos; apenas o ser humano é capaz de combinar ambos os tipos de adoração

O Ser Humano Perfeito

Toda a doutrina de Ibn Arabi converge em sua concepção do ser humano perfeito, que é, a seu ver, o espelho e o olho de Deus no cosmos — eixo que conecta o céu e a terra, confluência do tempo e da eternidade, e olho compassivo pelo qual o Clementíssimo derrama Suas bênçãos sobre os mundos.

  • O ser humano perfeito reúne realidades contrastantes; boa parte do trabalho espiritual consiste na harmonização dos aspectos aparentemente contraditórios do ser
  • Em consonância com sua natureza universal e sintética, o ser humano perfeito respeita as diferentes religiões e crenças como expressões de uma única verdade
  • Os santos ou “amigos de Deus” — e entre eles os “homens da reprovação” (malamiyya) e os “solitários” (afrad) — encarnam o ápice dessa perfeição; apesar de suas virtudes mais que louváveis, os membros desse grupo seleto ocultam suas profundas experiências espirituais e são frequentemente vistos como pessoas comuns: “Quando estão presentes, ninguém nota sua presença, e quando se vão, ninguém nota sua ausência”

A Questão de Deus e da Linguagem

Os termos “Deus” e “Allah” são completamente intercambiáveis e igualmente abrangentes e inesgotáveis — distinção entre ambos constitui uma aberração, pois os cristãos de língua árabe também dizem “Allah” para designar o que em espanhol se chama “Deus”.

  • Muitos podem acreditar que Deus existe ou não existe, ou que é isto ou aquilo, mas poucos parecem compreender que Ele transcende a existência e a não-existência, que são noções inteiramente humanas e, portanto, condicionadas
  • Se Deus não é limitado — como o Shaykh al-Akbar nos diz — nem mesmo pela ausência de limites, então Ele não existe como objeto material, emocional ou mental, mas pode mostrar-Se como quiser e assumir qualquer forma ou nenhuma; apegar-se a apenas um tipo de revelação ou manifestação divina conduz a uma idolatria perigosa e doentia
  • O Deus referido nas páginas de Ibn Arabi é o Deus dos místicos, da beleza e do amor, mas também o Deus dos filósofos — motor imóvel, pensamento do pensamento, ato puro, coincidentia oppositorum —, o Uno-Ser-Tudo dos antigos sábios helênicos, sem esquecer o Deus do “carvoeiro” e o Deus ignorado de quem acredita não ter um
  • Como a água, a realidade divina sempre adota a forma do recipiente que a contém: para alguns é amor puro, sabedoria e beleza; para outros, uma figura terrível e intransigente; e para muitos, seu “Senhor” — como Ibn Arabi qualificaria — é o poder, o dinheiro, o sexo ou o consumo; todos são reflexos, mais ou menos opacos, de uma verdade incompreensível que, embora constantemente se mostre, jamais é percebida como é
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