NEGRO E ESPELHO
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Um negro, parente dos demônios, semelhante a uma nuvem sombria, com lábios azuis e grossos como um jarro de índigo, e a tez como carvão que não se acendeu, o rosto como uma bandeja de madeira totalmente enegrecida pelo fogo, a boca permanecendo aberta como a boca de um cadáver, boca que nunca se fecha como a porta da desgraça, esse negro encontrou na estrada um espelho sujo de poeira; com o pó de sua roupa, limpou-o esfregando-o contra o manto. Quando voltou o olhar para a superfície desse espelho, viu ali sua aparência tal como acabaram de ouvir. Sobre esse espelho bem limpo, ele cuspiu e o jogou com a mão no chão, desprezando-o. “Enquanto não se conheceu o teu valor”, disse-lhe ele, “não te jogaram assim na estrada. A baixeza do teu valor, aos olhos das pessoas, vem simplesmente da feiura do teu aspecto; se a tua natureza fosse pura como a minha, como ficarias no chão e na lama? Pois do mal e do bem que se ligam um ao outro, tudo tem a sua parte de acordo com o que vale. “Como ele mal havia olhado para o próprio rosto, culpou o espelho, e não a si mesmo. O espelho, sendo todo luz e pureza, mostrou-lhe os defeitos que desfiguravam seu rosto. Ora, sendo seu rosto assim tão negro, não sei que culpa cometeu esse espelho. Ó Djâmi! Por parte do céu — essa cúpula clara como um espelho — tudo o que se revela a ti, seja em paz ou em guerra, causando tua calma ou teu tormento, é a imagem de tua ação, se olhares de perto. (Djâmi)
