DÎVÂN
A águia ferida (fábula).
Uma águia, de um rochedo, tomou um dia o seu voo; para alcançar sua presa, desdobrou as asas; orgulhosa de as ver tão firmes, dizia: «Sob a minha asa hoje sustento o universo! Com o meu olhar penetrante, quando chego ao zênite, percebo um fio de cabelo, ainda que esteja no fundo dos mares. Que um mosquitinho se agite no topo de um fio de erva, meu olhar surpreenderá esse humilde movimento. Quem poderia, como eu, percorrer o vasto mundo? O grifo, a fênix seriam capazes disso?» Um bom arqueiro, de súbito, desde sua emboscada, contra a águia lançou a flecha do destino. Esse engenho mortífero cravou-se em sua asa, expulsou-a do céu para cair sobre a terra. A pobre, palpitante, estendida como um peixe, reabriu os olhos, lançou seus olhares em todas as direções. Surpreendeu-se de que um ferro na ponta de um pedaço de madeira fosse causa desse impulso rápido, impetuoso e cortante. Mas, observando melhor, viu sua própria pena. Então exclamou: «Por que, pois, me queixaria? Aquilo de que sou ferida veio de mim mesma.» Ó príncipe! vê-se a aventura da águia: era orgulhosa. Renuncia ao orgulho!
O plátano e a abóbora (fábula).
Não se ouviu contar que um pé de abóbora cresceu sob um plátano e, durante vinte dias, aumentou envolvendo-se no tronco dessa árvore. A abóbora perguntou: «Quantos dias tens?» A árvore respondeu: «Tenho mais de trinta anos.» Rindo, a abóbora disse: «Eu te superei em vinte dias; dize-me então por que és tão lento. — Hoje, não é», replicou o plátano, «o momento de resolver essa questão entre nós; mas amanhã, quando sobre nós cair o vento de outono, então se verá bem quem resiste e quem se dobra.»
Vaidade deste mundo.
Este mundo inferior, como um falcão, tem a asa veloz e persegue; fora dessa caça, que faz ele, este mundo inferior, como um falcão?… O comércio deste mundo inferior é incompatível, pois é princípio de opróbrio, tem por fundamento a ignomínia. Seu comércio, aos olhos de um homem inteligente e razoável, é a contemplação de um muro rico em desenhos e pinturas. Este mundo comporta-se como um insensato, um ébrio; de uma extremidade à outra, é mau, cheio de imperfeições e vícios. Sem dúvida, entre os humanos, exceto para o ébrio e os vadios, não há lugar nem audiência à porta desse ébrio… Por que se deixou seduzir pelos diversos atos do tempo? O cérebro encheu-se, pois, de um vapor que o corrompeu? Se este mundo inferior apresenta um buquê de flores, saiba-se bem que é um punhado de espinhos, de modo algum um buquê de flores. Quando oferece frutos, não têm cor nem perfume reais; as vestes que se veem são tecidas sem urdidura nem trama. E o rosto da esperança será manchado pela poeira do desespero se se supõe que esta morada é durável. Não há coragem de voltar-se para este mundo inferior, pois parece mais perverso que uma serpente pressionada pela fome; e todos aqueles que, entre os sábios, aprenderam qual é sua natureza não ousam seguir junto com essa terrível serpente. Não se tenha esperança alguma de ser guiado por este mundo inferior: é um diabo. Nada se espere de bom fruto dele: assim como o plátano, não dará. A parte que o Tempo reserva não é senão a fuga dos dias. Contente-se com a medida dos dias que forem contados. A vida preciosa é uma dívida contraída perante Deus; essa dívida permanece, e o estado é miserável, pois é apenas ao preço da vida que se poderá pagar essa dívida, ainda que se fosse rico e de mão generosa. Todos são, como um rebanho, destinados ao lobo da morte, quer se esteja gordo, quer seco e débil… E considere-se que, se por esse lobo se sente tristeza e dor, muitos outros o sentem igualmente. Ó aquele que se deixou seduzir por dinheiro, poder e juventude, não há razão para gloriar-se dessas três coisas. Envaidecer-se de sua beleza, de seu dinheiro convém às mulheres; a glória é, para todos, saber, julgamento, dignidade. Mas quando alguém olha de cima e severamente, que importa que possua bens e domínios? Somente por si se dá glória e honra à própria linhagem e casa, ainda que outros se honrem da nobreza de seus pais. O verdadeiro cavaleiro é aquele que toma a eloquência por montaria; não se torna cavaleiro por montar um cavalo. A poesia é como uma árvore célebre, cujas flores e frutos seriam, aos olhos da razão, sutileza e sentido oculto.
O corpo e o espírito.
Ó corpo, abjeto e sinistro, nenhum companheiro neste mundo inferior é mais nocivo. E foi tomado como amigo! Foi crido que não havia outro amigo sobre a terra e o mar. Contudo, manifestou-se a inimizade e foram armadas ciladas quando não havia sinal nem anúncio dessas redes. Tendo encontrado despreocupação e confiança, fez-se escravo por seus artifícios pérfidos. Não fosse a misericórdia e a graça do Senhor, teria recaído a astúcia, atormentando por todos os lados. Agora que se reconhece ser o pior inimigo, mesmo o açúcar oferecido não poderia ser digerido. Comer e dormir, eis a obra do corpo desprovido de razão! Para o espírito, a sabedoria vale mais que comer e dormir. O homem sensato não ignora que um asno também dorme e come; assim, o homem razoável envergonha-se de comportar-se como um asno. Não se permanecerá sempre com o corpo neste mundo, porque Deus chamará para outra morada, um dia. Aqui embaixo, talento e virtudes constituem o verdadeiro trabalho do homem, não o comer e o dormir; portanto, estes pertencem ao corpo, mas a sabedoria e o conhecimento pertencem ao espírito. Inúmeras criaturas antes já deixaram este mundo; ainda que se demore nele, conte-se como já morto. Creia-se que um dia, como um pássaro, se fugirá tomando voo para o céu, cúpula sublime, sobre as asas da oração.
In medio virtus.
Quando uma empresa é fácil, ainda assim se tema a desventura, pois o céu torna rapidamente penoso um trabalho que parecia fácil. O céu em movimento incessante, quando se enfurece, expulsa de seu palácio César e de seu festim o grande Khan. No céu não há salvação contra o eclipse tenebroso, nem mesmo para o sol brilhante e a lua luminosa. E das coisas deste mundo inferior, o que é vil e de baixo preço, deve-se considerar que o céu o tornará oneroso. Permaneça-se no justo meio; não se busque o perfeito: a lua só atinge a plenitude para em seguida decrescer. Para melhorar o estado, não se opere a própria perdição; para obter coral ou pérola, não se venda tolamente a alma. Quando a autoridade do diabo se torna visível, constata-se que a ordem divina não permanece na natureza. Se o néctar deste mundo inferior embriagou os humanos, deixe-se isso, como o homem sóbrio que se mantém afastado dos ébrios. Veja-se como esses pobres humanos, sob o efeito das astúcias do mundo, destroem a própria plumagem para obter as penas do pavão; dizem-se servidores de Deus todo-poderoso; contudo, segundo a crença geral, são o povo de Satanás… Para cada um, o corpo é como um laço; este mundo inferior é uma prisão; não se imagine, pois, que se deva permanecer nele. De ciência e de boas obras, a alma é indigente e nua; faça-se esforço para a ciência; revista-se essa alma fraca e nua… Mostrando seu poder criador, Deus cumulou de benefícios; por palavras e atos, rendam-se graças por isso. Este mundo é semelhante a um solo cujas sementes são as palavras e cujo agricultor é a alma: é preciso que esse agricultor semeie com ardor; portanto, o que foi dito deve ser tomado como parábola; a parábola é agradável aos inteligentes. Contudo, não se faz esforço, enquanto se está na primavera, para reunir um pouco de pão em previsão do inverno. Pode-se comparar o coração ao registro da razão; a palavra seria o título; faça-se todo esforço para colocar um título digno no registro.
A verdadeira ciência.
Tu que leste muitos livros de ciência e percorreste o mundo inteiro, tu que permaneces sobre a terra e sob a cúpula do céu! que valor tem ainda essa abóbada celeste desde que se recebeu a parte da ciência esotérica? Até quando se gozará dos bens materiais, pelo corpo? Pela alma, aproveitem-se um pouco os benefícios da ciência. O que saboreia o homem que dorme não lhe traz vantagem alguma; o homem desperto percebe o sabor do salutar e do nocivo. O homem que dorme, que sabe do céu e das constelações? sabe por que se foi lançado sobre a terra poeirenta e redonda? Observa a terra negra e o firmamento azulado, ora obscurecidos, ora claros, ora úmidos, ora secos. Reconhece como benefício tudo o que vem da terra, pois tudo o que é feito de terra está em acordo com a terra. Sob essa aparência agradável que se une à pessoa, sob a veste de púrpura e com os cabelos flutuantes, vê-se preservado da sede e da fome, considerando como bem a saciedade e como desventura toda fome. Desperta do doce sono, aquele que dorme há quarenta anos! Considere-se que, de todos os amigos, nenhum permanece neste mundo. Pelo dormir e pelo comer, torna-se companheiro das bestas; e quanto mais se mistura a elas, menos se experimenta aflição. Aquilo que associa, esses quadrúpedes e o homem, Deus não o toma como objeto de ação de graças, pois o verdadeiro bem não é o que as bestas comem, e o verdadeiro império não é o que César conquista. Se se toma um reino conhecendo seu verdadeiro valor, então o homem razoável será distinguido de um asno. Recorde-se que Salomão desapareceu com seu império e recorde-se que Alexandre sofreu a mesma sorte. Hoje, que diferença separa esses dois impérios, este morto e aquele outro morto, e suas riquezas dispersas? Quer seja alegria ou tristeza, aos olhos do sábio tudo passa; o que ainda não veio e o que já passou são o mesmo… Deus não ordenou senão a verdade; seja-se verídico no falar e no pensar; proponha-se a verdade; traga-se a verdade! Do coração abra-se a fechadura; e tome-se o Corão por guia para conhecer o caminho e dirigir-se à porta aberta. Se não se encontra o caminho, não é de admirar, pois também se esteve outrora extraviado, sofrendo muitos danos. Desde a Hégira haviam passado trezentos e noventa e quatro anos quando a mãe depositou neste lugar feito de poeira. E, nada sabendo, cresceu-se à maneira de um vegetal nutrido pela terra escura e pela água que cai gota a gota. Depois, do estado vegetal, passou-se ao estágio animal; e por algum tempo foi-se semelhante a um pequeno pássaro sem asas. No quarto estado, a humanidade imprimiu sua marca quando a palavra teve acesso ao corpo destinado ao sofrimento. Quarenta e dois anos, o céu moveu-se acima da cabeça; foi então que o espírito começou a buscar a Razão. Muitos livros foram lidos; e de um sábio aprenderam-se as leis que regem os movimentos do céu, dos dias, dos três reinos da natureza. Quando se reconheceu o próprio corpo superior a todos os seres, disse-se: «Sem dúvida existe um ser melhor que toda criatura, como entre as aves o falcão, como o camelo entre os animais de carga, ou a palmeira entre as árvores, ou o rubi entre as pedras, ou o Corão entre os livros, ou a Kaaba entre os templos, ou o coração em relação ao corpo, ou o sol entre os astros.» Então, à força de pensar, a alma tornou-se atormentada; sem cessar, o espírito passou de uma meditação a outra.
