PRAZER E BEM-ESTAR
Distinção entre prazer e bem-estar.
Quando, a partir de seu estado natural, o homem alcança o prazer, ele se torna alegre e repousado; mas quando se encontra aquém do prazer, ele sofre; por exemplo, quando, sendo pobre, faminto e sedento, ganha riqueza, comida, bebida, um confidente e alguém com quem conversar, ele se alegra e se reconforta; mas quando é privado disso, ele volta ao seu estado inicial e, além disso, sofre com isso. Quanto ao bem-estar que se segue ao sofrimento, ele consiste no fato de que o homem, saindo do sofrimento para retornar ao seu estado natural, mantém-se nesse bem-estar; por exemplo, quando passa da saúde para a doença, ele sofre; mas quando se recupera e retorna ao seu estado anterior, não experimenta nem prazer nem sofrimento. E agora, tendo estabelecido essa distinção, falemos dos graus do prazer, como prometemos no início deste discurso.
Os graus do prazer.
É a alma (carnal) que sente o prazer; percebemos nossa alma pela manifestação de sua atividade; essa atividade da alma se manifesta em suas disposições inatas, que se dividem em três categorias, conforme a inclinação e o movimento da alma se voltem para o mundo exterior, para o mundo interior ou para os elementos que circundam o centro do universo. Da mesma forma, a alma, cuja existência se manifesta por meio de sua atividade, apresenta um triplo aspecto: alma vegetativa, que se alimenta e cresce; alma sensível, que se move à sua vontade; alma racional, que possui o discernimento das coisas.
Deus dirige e vigia o que criou.
Essas duas entidades — as disposições inatas e as almas — devem sua preservação à direção divina que se liga a elas, do alto do sétimo céu, que os doutores chamam de trono de Deus. Essa direção divina se manifesta no fato de que cada uma dessas entidades se empenha em manter o que lhe é vantajoso. Por exemplo, para a terra, seu bem consiste em permanecer em posição central, de modo a não se dispersar e a poder receber a energia dos corpos (celestes). A água, da qual depende a beleza da terra, afunda e se detém, após ter se movido e se inclinado para o centro, por uma força que sofreu e que se denomina disposição inata; para a água, o bem consiste em encontrar-se acima da terra para não desaparecer; sua atividade própria é descer de cima para baixo, depois elevar-se no ar na forma de vapor para ser benéfica e para fazer crescer as plantas; é por isso que seu movimento se dirige primeiro para o centro, depois para acima da terra. Se a terra e a água se mantêm nessas condições, é por causa de uma disposição inata que as leva a se manter assim, em consequência do movimento que lhes foi impresso. O mesmo se aplica ao ar, ao fogo, aos céus e aos corpos celestes, todos dotados, por sua natureza particular, de uma tendência que os leva para o lugar que lhes é benéfico; a permanência de sua entidade depende do fato de permanecerem nesse lugar, misturando-se uns aos outros de acordo com seu benefício. Pois, para se manterem em boa ordem, cada um deve se misturar com aquele que lhe corresponde — a terra com a água, o vento com o fogo — para não desaparecer e para alcançar perfeição e durabilidade; depois, devem evitar-se mutuamente, para não perecer e perder sua atividade — assim a água e o fogo, o vento e a terra. Parece, portanto, que o prazer encerra aumento de perfeição e de duração para quem o experimenta, enquanto o sofrimento inflige corrupção, caducidade e prejuízo a quem o suporta.
Os prazeres das criaturas.
Para toda criatura, a manifestação de sua atividade particular, a busca por alimento e a conservação do que lhe é benéfico constituem dons de Deus. A existência de toda criatura depende desses três dons que os doutores denominaram, em conjunto, de “direção divina”. Para o vegetal, que possui o instinto de crescimento, o prazer consiste em absorver uma alimentação uniforme, crescer e gerar seus semelhantes por meio de sementes, frutos etc. Para o animal, dotado de sensibilidade, os prazeres são mais numerosos do que para o vegetal, pois ele se move por si mesmo e à sua vontade, pode conceber, preservar-se e desejar. Quanto ao homem, dotado de linguagem e razão, seus prazeres são mais numerosos do que os dos animais; além disso, são de dois tipos — sensíveis e espirituais. Pelos prazeres sensíveis, ele se assemelha ao animal, também dotado de sentidos, mas por uma ligação reduzida, pois somente o homem conhece a totalidade dos prazeres sensíveis. Que o homem medite sobre os prazeres que o sentido do paladar lhe permite extrair dos alimentos — alimentos diversos, doces ou ácidos — e de seus sabores variados, sabores dos quais ele desfruta de maneira diferente se esses alimentos forem cozidos ou crus ou misturados a outros em estado cru ou cozido; então ele reconhecerá que o prazer sentido pelos animais desprovidos da fala não é senão uma parte indivisível de um todo que esses animais sem linguagem articulada têm em comum com ele apenas o prazer de comer e de acasalar.
Enumeração dos prazeres que são próprios do homem.
Eis os prazeres sensíveis que são especialmente reservados ao homem: ouvir sons agradáveis ou coisas alegres e, além disso, pelo pensamento, antes mesmo de os ter experimentado — por exemplo, a presença de amigos, a morte de inimigos; ou ainda os prazeres causados por belas imagens, por jardins encantadores, pela visão de pessoas belas, pela perfeição de aromas suaves (almíscar, cânfora, ervas aromáticas e frescas), e outros prazeres dos quais o conjunto dos animais não participa, mas que são em muito grande número para o homem. Os prazeres que o homem retira da descoberta de substâncias preciosas — ouro, prata, etc. —, de bens suntuosos, do poder e da autoridade, formam uma segunda categoria. Em seguida, os prazeres que provêm da ciência, prazeres pelos quais o homem realiza a mais sublime de suas energias, são mais nobres e mais numerosos do que os prazeres sensíveis; muito mais! São infinitos porque a alma racional do homem obtém esses prazeres por meio de sua energia natural. Ora, não há dúvida de que essa alma, entidade simples, é infinita. Desde que uma coisa é infinita, sua energia natural também é infinita: adquirir a ciência é um atributo essencial da alma humana; e o homem retira prazer de todo conhecimento que lhe é dado. Ora, com a ajuda desse conhecimento, ele alcança um conhecimento mais elevado que aumenta seu prazer. À medida que ele sobe os degraus da ciência, seu prazer se duplica. Não é possível que a alma humana seja tal que não possa adquirir conhecimento, visto que se define a essência da alma humana dizendo que ela é infinita em si mesma. Como já recordamos ao definirmos a alma e o corpo, tudo o que a alma aprende a ajuda a aprender outra coisa, sem impedi-la. Por outro lado, é impossível que o homem seja feito de tal forma que, um dia, não lhe reste mais nada a aprender; pois a ciência total pertence a Deus e não é admissível que o criado seja igual ao criador. Visto que o homem não está à altura de Deus no que diz respeito ao conhecimento, torna-se evidente que o homem não pode alcançar o conhecimento total e que nunca deixará de aprender. (Zâd-ol-mosâfirîn, ed. Kaviani, Berlim, p. 244 e seguintes)
