IBLIS
RNPS
Por mais estranho que possa parecer, Hallaj, que encontrou seu modelo de vida santa em Jesus Cristo, celebra como expoentes da verdadeira doutrina mística da Unidade Divina não apenas o Faraó, mas especialmente Iblis, o Diabolus maometano. O Alcorão, como você deve se lembrar, conta em vários lugares como Deus ordenou que os anjos adorassem Adão e como Iblis — seu nome na época era 'Azazil — recusou, dizendo: “Sou mais excelente do que ele: Tu me criaste do fogo e a ele do barro”; então Deus o amaldiçoou e o lançou no inferno. Do ponto de vista unitarista, adorar Adão, mesmo que ele seja considerado a imagem divina, é idolatria, e Hallaj não foi o primeiro defensor do Diabo no Islã. De acordo com ele, se Iblis desobedeceu à ordem divina, foi apenas porque não reconheceria nenhum objeto de adoração, exceto o Deus Único. Quando Deus o ameaçou com o castigo eterno, Iblis perguntou: “Não me contemplarás enquanto estiveres me castigando? “Deus respondeu: “Sim”. “Então”, disse Iblis, “o fato de Tu me contemplares tirará de mim a consciência do castigo. Faze-me como quiseres!” E em outro diálogo, Iblis, ao ser repreendido por Moisés por sua desobediência, responde: “Não foi uma ordem, foi uma provação”, ou seja, um teste de sua devoção a Deus. Assim, Hallaj pode fazer Iblis dizer: “Ao me recusar a obedecer a Ti, Te glorifiquei” (juhudi laka taqdis), e pode declarar que Iblis e o Faraó são seus “amigos e professores”.
“Se vocês não reconhecem Deus”, diz ele, “pelo menos reconheçam Seus sinais. Sou este sinal, sou a Verdade Criativa (Ana l'Haqq), porque por meio da Verdade sou uma verdade eternamente. Meus amigos e professores são Iblis e o Faraó. Iblis foi ameaçado com o fogo do inferno, mas não se retratou. O Faraó foi afogado no mar, mas não se retratou, pois não reconhecia nada entre ele e Deus. E eu, embora seja morto e crucificado, e embora minhas mãos e pés sejam cortados, não me retrato!”
Mas Hallaj, observe-se, embora elogie o auto-sacrifício (futuwwat) demonstrado por Iblis ao defender a Unidade Divina, condena-o por desobedecer à ordem Divina. Iblis justificou sua desobediência com o argumento de que sabia que ela estava predestinada. Deus ordenou que ele adorasse Adão, mas quis que ele recusasse; caso contrário, ele deveria ter obedecido, pois Deus não quer nada que não aconteça. Hallaj, por outro lado, insiste que a obediência é um dever sagrado. A ordem (amr) é eterna, enquanto a vontade (mashiyyat) e a presciência de Deus com relação a ela, se será obedecida ou desobedecida, é criada e, portanto, subordinada. Deus deseja tanto o bem quanto o mal, mas ordena apenas o bem. Ele nos ordena a fazer uma coisa e sabe que não podemos fazê-la; quer que pequemos, mas não quer que pequemos por nossa própria culpa. Hallaj, como diz Massignon, compreendeu profundamente a amargura do dilema, que afirma em um verso citado por Ibn Khallikan:
Deus o lançou ao mar, com os braços amarrados atrás das costas,
E lhe disse: “Cuidado, cuidado, para não ser molhado pela água!”
Essa poderia ser a palavra final de Iblis, que, fingindo ter lido o segredo da Providência Divina, se desesperou. Hallaj, no entanto, sabia que a essência de Deus é o Amor, e que a essência do Amor é sofrer sem pedir motivos. Cabe ao verdadeiro santo voltar-se para Deus em humilde adoração e esforçar-se de todo o coração para cumprir a ordem divina, não importando o custo do sofrimento para si mesmo. Esta, aparentemente, era a essência do ensinamento religioso de Hallaj, pelo que podemos julgar pelos testemunhos preservados por seus discípulos.
