OS CEGOS E A PERGUNTA SOBRE O ELEFANTE
Havia uma grande cidade no país de Ghūr, na qual todos os habitantes eram cegos. Certo rei passou próximo a esse lugar, trazendo seu exército e acampando na planície. Possuía um elefante grande e magnífico, destinado a manifestar sua pompa, suscitar temor e servir no combate. Surgiu entre o povo o desejo de ver esse elefante extraordinário, e alguns cegos, como insensatos, dirigiram-se a ele, cada qual apressando-se para descobrir sua forma e figura. Chegaram e, privados da visão, tateavam com as mãos; cada um, ao tocar um membro, obteve uma noção parcial; cada um formou uma concepção de um objeto impossível e acreditou plenamente que sua imaginação era verdadeira. Quando retornaram à cidade, os demais se reuniram em torno deles, todos aguardando, tão desviados e iludidos estavam. Interrogaram-nos acerca do aspecto e da forma do elefante, e todos escutavam o que diziam. Um perguntou àquele que tocara a orelha do elefante; respondeu: é um objeto enorme e formidável, largo, áspero e estendido, como um tapete. Outro, cuja mão havia tocado a tromba, disse: conheci-o; é reto e oco no meio como um tubo, coisa terrível e instrumento de destruição. Aquele que apalpou as pernas espessas e duras afirmou: tal como o concebo, sua forma é reta como um pilar talhado. Cada um percebera apenas uma parte, e todos haviam visto de maneira errônea. Nenhuma inteligência conheceu o todo; o conhecimento jamais é companheiro dos cegos; todos, como insensatos enganados, imaginavam absurdos.
Os homens não conhecem a essência divina; nesse domínio, os filósofos não podem penetrar.
Sobre a alegoria acima.
Um fala do «pé», outro da «mão», ultrapassando todos os limites com suas palavras insensatas; outro ainda fala de «dedos», de «mudança de lugar» e de «descida», e de sua vinda como encarnação. Outro considera, em sua ciência, o «estabelecimento», o «trono» e o «divã», e, em sua loucura, fala de «Ele se sentou» e «Ele se deitou», fazendo de sua insensatez um ornamento que prende ao pescoço. «Seu rosto», diz um; «seus pés», diz outro; e ninguém lhe diz: «Onde está teu objeto?» De toda essa conversação nasce a controvérsia, e dela resulta o que ocorreu no caso dos cegos e do elefante.
Exaltado seja o nome Daquele que está isento de «o que» e de «como»! os fígados dos profetas tornaram-se sangue. A razão fica paralisada por essa palavra, e as ciências dos sábios se recolhem. Todos vieram reconhecer sua fraqueza; ai daquele que persiste em sua loucura! Dize: trata-se de uma alegoria; não dependais dela e fugi das concepções insensatas. O texto do Alcorão — nele se crê integralmente; e as tradições — são aceitas em sua totalidade.
