islamismo:shabistari:roseiral:2
QUESTÃO 2
SHABISTARĪ, Maḥmūd. Gulshan-I Rāz: The Rose Garden of Divine Mysteries. 1st ed ed. Albany: State University of New York Press, 2025.
Questão 2:
Que tipo de pensamento [ou meditação, fikr] é a condição para o caminho?
Por que às vezes é obediência e outras vezes é pecado?
- A questão interroga que tipo de meditação constitui a condição do caminho espiritual e por que ela ora é obediência, ora pecado.
- Fikr pode significar tanto pensamento quanto meditação.
- No caminho sufi, às vezes é necessário usar a atividade mental e às vezes abandoná-la como obstáculo.
Resposta
- Meditar sobre as bênçãos divinas é a condição do caminho, mas meditar sobre a Essência de Deus é pecado puro.
- Ala significa bênçãos ou bondades.
- O verso é tradução quase direta do hadith do Profeta: “Meditai sobre as bênçãos de Deus, mas não meditais sobre a Essência de Deus.”
- Existe também uma versão: “Meditai sobre os Nomes e Atributos de Deus…”
- Pode-se meditar sobre Deus como Beleza, como Amor, como Poder; sobre a caligrafia de um Nome Divino ou sobre música sagrada — mas nada disso é a Essência.
- Vis-à-vis a Essência, só se pode afundar nela; não há nenhuma ordem não existe o “eu e” diante da Essência.
- Não há ordem sufi cujos membros meditem sobre a Essência Divina.
- Meditar sobre a Essência da Verdade Divina é falso — é impossível alcançar o que já foi alcançado.
- Haqq é o Nome Divino “a Verdade” — um Nome de Essência, distinto dos Nomes dos Atos e dos Nomes dos Atributos.
- Tahsil-i hasil significa “alcançar o que já foi alcançado” — pura impossibilidade lógica e metafísica.
- Os sinais de Deus foram iluminados pela Essência, e por isso a Essência nunca pode ser iluminada pelos sinais.
- Ayat (plural de ayah) significa sinais de Deus — esotericamente, tudo no universo e os versículos do Alcorão são sinais de Deus.
- A faculdade humana que tenta meditar sobre a Essência de Deus é ela mesma iluminada por essa Essência.
- A relação vai no sentido inverso: a Essência ilumina os sinais, não os sinais a Essência.
- O mundo inteiro é manifesto pela Luz de Deus — por isso Deus não pode tornar-Se visível por meio do mundo.
- Payda — manifesto — é semelhante ao grego phainomenon.
- Os sufis divergem dos filósofos peripatéticos — como Avicena e São Tomás de Aquino — que acreditam ser possível provar Deus a partir dos sinais do mundo.
- O famoso afresco de Michelangelo em Roma mostra Platão com o dedo apontado para cima e Aristóteles para baixo: Platão afirma que a realidade dos seres está nos arquétipos divinos; Aristóteles, que as formas estão nos próprios seres.
- O sufismo e a filosofia ishraqui alinham-se completamente ao platonismo nessa questão.
- A Luz da Essência Divina não cabe em nenhuma de Suas manifestações, pois a Glória de Sua Majestade é vitoriosa.
- O Alcorão afirma: “Allah, o Um, o Vitorioso” (12:39).
- Se a Luz da Essência Divina se tornasse presente em algum lugar, tudo se despedaçaria no nada.
- O mundo existe porque Deus permitiu que Sua Luz se atenuasse gradualmente.
- É preciso deixar a razão de lado e permanecer com a Verdade — assim como o olho do morcego não suporta a luz do sol.
- O morcego vive em lugares escuros e só sai à noite.
- Usar apenas a razão é como ser um morcego que não suporta a luz do sol.
- Onde a Luz da Verdade é ela mesma a prova, não há lugar para o discurso de Gabriel.
- Dalil é usado no sentido de prova metafísica.
- Existe uma possibilidade de discurso direto entre o homem e Deus que supera até o nível arcanjo — acima do agente da revelação, que é Gabriel.
- Embora o anjo possua proximidade ao Limiar Divino, ele não pode ser contido na estação “Eu estou com Deus”.
- Dargah designa a Presença Divina — palavra persa que significa literalmente “o lugar da porta”, a abertura para a Presença de Deus.
- Durante o miraj do Profeta, ele ascendeu além de todos os anjos e arcanjos.
- Segundo um hadith: “Tenho um tempo com Deus que não compartilho com nenhum anjo próximo nem com nenhum profeta enviado.”
- Sua Luz queimaria a asa do Arcanjo, e queimaria a razão de alto a baixo.
- Durante o miraj, Gabriel disse ao Profeta que não poderia ir mais longe, pois suas asas seriam queimadas.
- Se tentar compreender Deus apenas pela razão, a razão humana seria reduzida a cinzas.
- A luz da razão, comparada à Essência Mais Luminosa, é como comparar o olho da cabeça à nascente da luz solar.
- O termo persa khurshid significa “o raio da khera” — khera em pahlavi significa tanto luz quanto sabedoria.
- Dhat-i anwar pode ser traduzido como “a Essência Mais Luminosa” ou “a Essência do Mais Luminoso”.
- Quando aquilo que deve ser visto se aproxima demais do olho que vê, o olho escurece.
- A escuridão advém não do distanciamento, mas da proximidade extrema.
- A escuridão, se bem compreendida, é a Luz da Essência Divina — uma trevas dentro da qual há a água da vida.
- Segundo o sufismo, a Luz da Essência Divina é negra, e alguns dos versos mais importantes sobre o simbolismo da luz negra aparecem no Gulshan-i Raz.
- Segundo a mitologia, a nascente da vida eterna flui de um lugar escuro — Alexande tentou encontrá-la.
- As religiões do mundo são como nascentes de vida que se originam na escuridão: não há evidência externa de suas origens, exceto que procedem de Deus.
- A escuridão aqui corresponde à realidade interior e oculta antes de se manifestar exteriormente — não é o que está abaixo da luz, mas o mundo não-manifesto acima da luz da existência ordinária.
- A escuridão não é senão a contração da luz da visão — e não há lugar aqui para a opinião ou o discurso racional.
- Nazar aqui significa “discurso racional” ou “opinião”, não visão.
- Que relação há entre o pó e o mundo de pureza? — pois compreender a incapacidade de perceber é ela própria percepção.
- Alam-i pak significa o mundo do Espírito.
- Saber que não se sabe é em si um modo de conhecer — um modo muito importante de conhecer.
- O estado de rosto enegrecido — vergonha diante do ser contingente — jamais se separa de ninguém nas duas moradas.
- Siyah-ruyi — rosto enegrecido — significa em persa estar arrependido, envergonhado, em estado de não ter cumprido o que deveria.
- Mumkin significa ser contingente.
- “E Deus sabe melhor” — Allahu a'lam — é expressão tradicional de humildade que reconhece que o conhecimento perfeito pertence só a Deus.
- Há a escuridão do rosto nas duas moradas, e então surge a Suprema Escuridão — sem mais nem menos.
- A Suprema Escuridão — sawad a'zam — refere-se à Essência Divina.
- O rosto enegrecido ordinário, no sentido de humildade, é a vida do sufi consciente da grandeza da Luz Negra da Essência de Deus.
- Este ponto é muito delicado: uma noite iluminada em meio a um dia escuro.
- O dia simboliza a manifestação e a exterioridade; a noite representa a ausência da exterioridade e a presença da realidade interior.
- O que parece luminoso para outros é trevas para o espiritual; o que parece trevas para outros é luz para ele.
- A pessoa espiritual experimenta à noite a Presença e a Luminosidade Divinas.
- A escuridão aqui é um estágio acima e além da luz manifesta — acima deste luz existe uma trevas que é ainda mais elevada.
- Nesse estágio em que as Luzes da teofania se manifestam, há muito a dizer, mas é melhor permanecer em silêncio.
- Mashhad significa literalmente “lugar de testemunho”; é também usado para divisões de textos islâmicos e para a tumba de santos.
- A cidade de Mashhad no Khurasã, Irã, recebe esse nome porque o oitavo Imame xiita Ali al-Rida está sepultado lá.
Ilustração
- Para ver a nascente da luz solar, seria necessário outro corpo — pois o olho comum não pode olhar diretamente para o sol.
- Chishmah significa nascente ou fonte, relacionado à palavra “olho” em persa.
- Como o olho da cabeça não suporta o brilho do sol, é possível vê-lo refletido na água.
- O olho suporta ver o reflexo, mas não pode olhar diretamente para o sol.
- Como do reflexo emana menos luz, a condição de percepção aumenta.
- A não-existência é o espelho do Absoluto, no qual se manifesta o reflexo do brilho da Verdade.
- O não-ser é concebido como um espelho no qual se reflete a Luz do Ser.
- Quando a não-existência foi posta diante do Ser, um reflexo se produziu nela naquele instante.
- A não-existência é como um espelho que, posto diante do Ser, pode refleti-lo enquanto nada é em si mesma.
- A unidade tornou-se manifesta por meio dessa multiplicidade que a não-existência reflete — contar um repetidamente gera o múltiplo.
- O Ser, refletido no espelho da não-existência, embora Uno em Si mesmo, produz muitos reflexos e, portanto, multiplicidade.
- O número tem apenas um começo, mas nunca tem fim.
- A origem da existência é Una, mas não há limite para as manifestações do Uno.
- A não-existência, por ser pura em si mesma, permitiu que o Tesouro Oculto se tornasse aparente.
- A não-existência é como um espelho puro e simples — safí —, que permite à Realidade Divina, oculta em Si mesma, tornar-se manifesta.
- O segundo hemistíquio refere-se ao hadith do Tesouro Oculto.
- É preciso ler o hadith “Eu era um Tesouro Oculto” para que o Tesouro Oculto seja visto em sua manifestação.
- O hadith do Tesouro Oculto é um hadith qudsi — texto no qual Deus fala na primeira pessoa através do Profeta, mas que não faz parte do Alcorão.
- Existem apenas cerca de cem ahadith qudsiyyah.
- Esse hadith não está nas coleções canônicas — Bukhari, Tirmidhi, Muslim — mas é muito comum entre os sufis e remonta pelo menos a Abu Hamid al-Ghazali.
- O hadith diz: “Eu era um Tesouro Oculto, e amei ser conhecido. Por isso criei o mundo para que fosse conhecido.”
- A palavra usada é ahbabtu — “eu amei” — não “eu quis”; traduzir como “eu quis” ignora a dimensão do amor divino.
- O Conhecimento de Deus está relacionado ao Seu Amor; é o Amor de Deus por ser conhecido que produz a manifestação do mundo.
- Em cada religião surge a pergunta: por que Deus criou o mundo? No hinduísmo a resposta é o Jogo Divino (lila); no islamismo a resposta remete ao Conhecimento Divino combinado com o Amor.
- Não há nada semelhante ao “Hadith do Tesouro Oculto” na literatura cristã, judaica ou nas fontes sânscritas.
- A não-existência é um espelho, o mundo é um reflexo, e o homem é como o olho do reflexo, no qual a pessoa está oculta.
- Olhando no espelho, dentro da pupila do olho refletido, vê-se todo o próprio ser.
- Tu és o olho desse reflexo, e Ele é a luz com que vês — quem jamais pôde ver com o olho que vê o visto?
- Deus não é o Objeto da visão; Ele é em sentido mais profundo o Sujeito — a Luz do olho com que se vê.
- Deus é a Luz com que se vê tudo; não é um Objeto exterior a ser visto no sentido ordinário.
- O cosmos tornou-se homem, e o homem tornou-se cosmos — não há explicação mais pura do que esta.
- Insan designa o ser humano no sentido universal — mensch —, não o masculino.
- O verso resume a correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo.
Ilustração
- Quem olha bem para a raiz da questão verá que Deus é simultaneamente o que vê, o que é visto e a visão.
- O hadith sagrado explicitou esse significado: “Por Mim ele ouve e por Mim ele vê.”
- O hadith qudsi diz: “Se Meu servo se aproxima de Mim com obras supererrogatórias, Eu me torno o ouvido com que ele ouve e os olhos com que ele vê.”
- Martin Lings traduziu o hadith: “Meu escravo não cessa de aproximar-se de Mim com devoções de livre vontade até que Eu o ame; e quando o amo, sou a Audição com que ele ouve, e a Vista com que ele vê, e a Mão com que ele age, e o Pé sobre o qual ele caminha.”
- O hadith continua: “Se ele der um passo em direção a Mim, Eu dou cem passos em direção a ele.”
- Os ahadith qudsiyyah são esotéricos — todos de natureza espiritual, tratando da relação com Deus.
- Esse hadith tem status muito especial no islamismo e é extremamente importante para a compreensão do sufismo.
- O Alcorão afirma: “Somos mais próximos a ele do que sua veia jugular” (50:16).
- O mundo inteiro, do começo ao fim, é um espelho — e em cada átomo há cem sóis brilhantes.
- Deus é refletido no espelho da não-existência e Sua Luz brilha como cem sóis no coração de toda criação.
- Quando o átomo foi dividido e o modelo nuclear foi revelado, artigos em persa afirmaram que Shabistari já havia intuído essa verdade, assim como Hatif Isfahani (m. 1783), que disse: “Se dividires o coração de qualquer átomo, encontrarás ali uma luz do Sol.”
- Shabistari e outros sufis tiveram uma intuição sobre a natureza da ordem manifesta que não exigiu os laboratórios de Fermi nem o trabalho de Oppenheimer.
- Se uma única gota de água for dividida, cem mares fluirão dela.
- Qualquer partícula de pó, vista corretamente, revela dentro de si milhares de seres humanos.
- O homem é feito de pó, em que Deus soprou Seu Espírito, e ao pó retorna ao morrer.
- Isso implica a doutrina de que em certo sentido tudo está em tudo — tadakhul (interpenetração) em árabe —, diferente da cosmologia aristotélica de Ibn Sina.
- Nas partes de seu corpo, um mosquito é como um elefante; no céu, uma gota é como o Nilo.
- Há cerca de cinquenta mil combinações de DNA na célula viva mais simples, tanto do mosquito quanto do elefante.
- O cientista Michael Behe, em seu livro Darwin's Black Box, argumentou que, ao contrário do que Darwin afirmou, a vida começa com complexidade, não com simplicidade.
- Há outros modos de alcançar o conhecimento da natureza da realidade além dos métodos da ciência ocidental moderna de Galileu até hoje.
- Do coração de um único grão surgem cem colheitas — um mundo inteiro está contido no coração de um grão de milhete.
- Há vida na asa de um único mosquito, e dentro do ponto do olho há um céu.
- Com toda a pequenez do centro do coração — habbah-yi dil —, esse é o lugar de descida do Senhor dos dois mundos.
- Habbah-yi dil é um espaço vazio no centro do coração, também chamado dihliz em persa.
- Segundo o hadith: “O coração do crente é o Trono do Compassivo” — Qalb al-mu'min arsh al-Rahman.
- No homem estão reunidos os dois mundos — às vezes ele se torna o Diabo, às vezes Adão.
- Deus concedeu ao homem liberdade, que lhe oferece a oportunidade incomparável de ascender ao Divino ou cair em estados infernais.
- No mundo tudo está misturado — o anjo no demônio e o Diabo no anjo.
- Todos os elementos do bem e do mal existem potencialmente dentro do ser humano.
- Todos estão misturados como semente e fruto — do infiel surge o crente, e do crente o infiel.
- Mu'min (crente) e kafir (infiel) formam um dos pares complementares e ao mesmo tempo opostos frequentes no pensamento islâmico, como tashbih e tanzih.
- Tudo isso está reunido no momento presente — todos os períodos do tempo, dias, meses e anos.
- A pós-eternidade — abad — tornou-se a mesma coisa que a pré-eternidade — azal; a descida de Cristo e a criação de Adão.
- Cristo foi chamado o segundo Adão; Adão foi criado do barro em que Deus soprou Seu Espírito.
- Cristo nasceu com o Espírito de Deus — Ruh Allah — e foi em certo sentido um segundo Adão.
- Adão representa azal (pré-eternidade); Cristo representa abad (pós-eternidade); como segundo Adão, abad retorna a azal.
- Esse verso revela o profundo conhecimento de Shabistari em profetologia.
- De cada ponto no raciocínio circular e na regressão infinita surgem mil formas.
- Shabistari refere-se à natureza do raciocínio falso, do qual numerosos erros formais emergem.
- De um único ponto gera-se um círculo — esse ponto é ao mesmo tempo o centro e o ponto móvel da circunferência.
- O único Princípio gera o círculo da existência permanecendo o centro desse círculo.
- Se uma única partícula de pó fosse removida de seu lugar, o mundo inteiro entraria em colapso.
- Ontologicamente, tudo tem seu lugar no Universo; o makan (localização) pode mudar, mas a realidade ontológica não pode ser retirada do Universo.
- Tusi afirma: “O que existe deve ser o que é. O que não está destinado a existir não existe.”
- Todos os seres vagam, mas nem uma única parte deles colocou o pé além do mundo da contingência.
- Deus é o Ser Necessário — wajib — e tudo o mais é contingente — mumkin — conforme formulado por Ibn Sina.
- A determinação aprisionou cada ser — pela particularidade, perdeu-se a esperança do Universal.
- As criaturas estão sempre em movimento e ao mesmo tempo aprisionadas — pois estão constantemente entre o desvelamento e o velamento.
- Khal' significa tirar a própria roupa; labs significa vesti-la.
- As formas são retiradas das criaturas e novas formas lhes são impostas por Deus — mas elas permanecem os mesmos seres contingentes.
- Tudo está em movimento e ao mesmo tempo em constante repouso — nem o começo nem o fim de um ser é manifesto.
- Todas as criaturas têm uma consciência de sua própria essência — e por essa autoconsciência encontraram o caminho ao Limiar Divino.
- O Alcorão afirma: “Não há coisa alguma que não proclame Seu louvor” (17:44).
- Por trás do véu de cada átomo está oculta a Beleza vivificante do Rosto de Deus.
- Para ver essa Beleza, é preciso não apenas afastar o véu das criaturas, mas também penetrar no próprio ser interior.
Princípio
- Ouviu-se apenas uma frase sobre o mundo — é preciso dizer o que se viu realmente dele.
- O que se aprendeu sobre forma e significado? O que é o outro mundo? E o que é este mundo?
- Surat e ma'na designam dois modos diferentes de compreensão em árabe e persa: na filosofia peripatética, surah é o princípio formal que atualiza algo; no sufismo, surah é o aspecto exterior, e ma'na — o significado interior — é o princípio espiritual.
- O que é o Simurgh? O que é o Monte Qaf? O que é o Paraíso? O que é o Inferno? O que é o A'raf?
- Simurgh — al-Anqa em árabe — é geralmente traduzido como “Grifo” em inglês; reside no topo do Monte Qaf, a montanha cósmica da cosmologia islâmica.
- A'raf vem da sura corânica homônima e designa um estado intermediário entre o Céu e o Inferno, frequentemente traduzido como “Purgatório”, embora tecnicamente corresponda ao barzakh.
- Sem fornecer respostas, Shabistari propõe essas questões cosmológicas e escatológicas para despertar a consciência da necessidade de um conhecimento mais profundo.
- Qual é o mundo invisível em que um dia corresponde a um ano aqui?
- O verso alude a passagens corânicas como: “Um dia junto ao teu Senhor é como mil anos do que vós contais” (22:47), e “Sobem até Ele os anjos e o Espírito num dia cuja medida é cinquenta mil anos” (70:4).
- O que foi visto não é o universo inteiro — “Juro pelo que não vedes” (69:39).
- Onde fica Jabulqa? Onde é o mundo da cidade de Jabulsa?
- Os geógrafos gregos dividiram o mundo habitável em sete regiões — climata — do norte ao sul.
- O oitavo clime — iqlim-i hashtum — foi concebido como o mundo intermediário imediatamente acima deste mundo, o mundo imaginal de que Suhrawardi fala e sobre o qual Corbin escreveu.
- Jabulqa é o último estágio da descida do oitavo clime a este mundo — a porta de entrada; por isso o recém-nascido chora ao nascer.
- Jabulsa é a primeira “cidade” visitada ao retornar, isto é, ao morrer.
- Ambas pertencem ao alam al-khayal — o mundo imaginal — no sentido que Suhrawardi, Mulla Sadra e outros sábios islâmicos compreendiam.
- É preciso meditar também nos orientes e nos ocidentes — pois este mundo tem apenas um de cada.
- O Alcorão diz que Deus é “Senhor dos orientes e dos ocidentes” (70:40) — no plural, o que implica a existência de outros mundos.
- A explicação de “o semelhante deles” por Ibn Abbas deve ser ouvida — e então conhecer-se a si mesmo.
- Ibn Abbas, primo do Profeta, comentou o versículo corânico “Deus é quem criou os sete céus, e da terra o semelhante deles” (65:12); quando perguntado o que o Profeta lhe dissera, respondeu: “Se vos dissesse o que o Profeta me disse, me matariam.”
- Estás adormecido e o que vês é imaginação — tudo que vês é um símbolo que procede d'Ele.
- Mithal deve ser traduzido como “símbolo”, não como “exemplo”.
- O ser comum vê símbolos mas não percebe que o que vê não é apenas um fato, mas um símbolo que procede de Deus.
- Na manhã da ressurreição, ao despertar, descobrir-se-á que tudo foi apreensão e pensamento próprio.
- O hadith do Profeta diz: “As pessoas estão adormecidas, e quando morrem, despertam.”
- A vida neste mundo não é completamente irreal — é um nível inferior de realidade, como o sonho.
- Em uma forma do pensamento hindu, os níveis mais profundos da realidade correspondem aos estágios mais profundos do sono — o que não deve ser confundido com a compreensão islâmica ou cristã mainstream do sono.
- Quando a imaginação do olho vesgo se dissipa, a terra e o céu se transformam.
- Quando o Sol do mundo mostrar seu rosto, nada restará da luz de Vênus, da Lua e do Sol.
- “O Sol do mundo” refere-se ao Ser, não ao Sol astronômico.
- Se um único raio desse Sol incidisse sobre uma pedra, ela se tornaria como lã colorida, toda despedaçada.
- Se a Luz da Realidade Divina se tornasse totalmente presente em qualquer coisa, demoliria completamente sua existência aparentemente separada.
- Conhece agora, enquanto ainda podes — quando não puderes mais, de que valerá conhecer?
- O que se diz sobre a história do mundo do coração a quem tem a cabeça abaixada e os pés presos na lama?
- Sar-nashib-u pay dar gil designa quem caiu com a cabeça abaixada e os pés presos na lama.
- O mundo pertence a ti, mas permaneces impotente — alguém já viu alguém mais privado do que tu?
- Como prisioneiros sentados numa única morada, ataste teus próprios pés com a corda da impotência.
- O homem tornou-se prisioneiro de seu próprio nafs, incapaz de ir além dele.
- Estás sentado como as mulheres no canto do infortúnio — e não te fartas de tua própria ignorância.
- Esse verso deve ser compreendido não literalmente, mas social e historicamente.
- O hadith do Dia do Juízo relata que Deus ordena “Que todos os rijal (literalmente 'homens') se apresentem”, e a primeira a se apresentar é a Virgem Maria — o que demonstra que rijal não se refere ao gênero, mas à qualidade espiritual.
- Zan era usado para designar quem não podia ajudar a si mesmo nem aos outros — referência a uma condição social, não a toda mulher.
- Sir shudan em persa significa “ficar saciado” após comer; aqui, os ignorantes nunca ficam saciados de sua própria ignorância.
- Os heróis do mundo estão mergulhados em sangue — enquanto tu escondes a cabeça e recusas dar um passo fora.
- Aludir ao resultado da batalha espiritual que os homens de Deus travam.
- O que aprendeste da religião dos velhos enfermos que consideras a ignorância aceitável para ti?
- Al-aja'iz significa “velhos enfermos” que não podem pensar nem agir bem.
- As mulheres são como as deficientes em intelecto e religião — por que os homens escolheriam seu caminho?
- Em tempos antigos, poucas mulheres estudavam as ciências e muitas seguiam práticas folclóricas, talismãs e magia.
- O verso não diz que lhes faltava fé — no islamismo, a maioria das mulheres tinha fé muito forte e transmitia o amor a Deus às crianças.
- Esse verso trata do aspecto intelectual da religião — a lei islâmica, a filosofia —, não da fé ou das qualidades espirituais, às quais o poeta se volta no final da obra.
- Não se pode avaliar figuras históricas com base em critérios que se tornaram prevalentes somente depois.
- Se fores um homem real, sai e lança teu olhar — o que quer que aconteça diante de ti, passa por isso.
- Mard aqui significa rajul no sentido já explicado — não designa o masculino, mas quem é ativo no caminho espiritual.
- Não repouses um momento nas etapas do caminho — não pares de acompanhar a caravana.
- Rawahil é o plural de rahil, incluindo os camelos e os viajantes; a caravana para de tempos em tempos, mas o viajante espiritual não deve interromper sua jornada em nenhuma etapa.
- Como Abraão — Khalil-asa —, vai e busca a Verdade; faz a noite passar ao dia e o dia passar à noite.
- Khalil é o título de Abraão — Khalil Allah, Amigo de Deus.
- O Alcorão narra que Abraão não quis aceitar nada até encontrar a Verdade: ao ver uma estrela, a Lua e o Sol, disse “não amo o que se põe” — la uhibb al-afilin — e, tendo passado por esses estágios, chegou a Deus (6:75–79).
- A estrela, a Lua e o Sol maior correspondem aos sentidos, à imaginação e ao intelecto iluminado.
- Passa por tudo isso, ó caminhante do caminho — diz sempre: “Não amo o que se põe” (6:76).
- Abraão não se fixou em nenhuma teofania, confundindo-a com a Origem da teofania.
- Como Moisés filho de Imran, caminha nesse caminho até ouvires: “Verdadeiramente, Eu sou Deus” (28:30).
- O sufismo cresceu a partir do significado interior do Alcorão e do poder da walayah/wilayah que remonta ao Profeta do islamismo.
- Enquanto a montanha da existência permanecer diante de ti, a resposta a “mostra-me” será “não Me verás” (7:143).
- Enquanto se vive num estado separativo de existência, não se pode ter uma visão de Deus.
- A Verdade é como um ímã e tua essência é como limadura de ferro — se a montanha da tua identidade não existisse, o caminho seria muito curto.
- Tu'i — “tu-dade” — designa o nafs, o ego, que impede que a limadura seja atraída pelo ímã.
- Se a teofania atingisse a montanha da existência, a existência se tornaria como pó do caminho.
- Um mendigo pode tornar-se, por uma única atração ao Divino, um rei — em um segundo, daria uma montanha por uma palha seca.
- Segue o Mestre no ascenso celeste — contempla todos os grandes sinais de Deus.
- “O Mestre” refere-se ao Profeta; isra designa a primeira parte de seu ascenso celeste — al-Miraj —, em que, montado no cavalo “mítico” Buraq, foi levado por Gabriel a Jerusalém e daí ascendeu à Presença Divina.
- Sai da casa de Umm-i Hani — recita de modo absoluto o hadith de “quem me viu”.
- Umm-i Hani era irmã de Ali ibn Abi Talib; diz-se que o Profeta partiu de sua casa para o miraj.
- A casa de Umm-i Hani representa esotericamente este mundo limitado.
- O hadith diz: “Eu sou Ahmad sem o m [isto é, Ahad, 'o Uno']; sou árabe sem o ayn [isto é, Rabb, 'o Senhor']; quem me viu, certamente viu a Verdade.”
- Passa pelo [letra] Kaf do canto dos dois mundos e senta-te no [letra] Qaf da proximidade de “a distância de dois arcos” (53:9).
- Kunj (canto) e kawnayn (os dois mundos) começam com a letra Kaf.
- Qaba qawsayn refere-se à estação mais próxima de Deus que o Profeta pôde alcançar no Miraj.
- Deus assim te dará tudo o que desejares e te mostrará as coisas como elas realmente são.
- Referência à oração do Profeta: “Ó Senhor, mostra-nos as coisas como elas realmente são.”
Princípio
- Para quem tem a alma na teofania, o mundo inteiro é o Livro da Verdade Transcendente.
- Esse princípio compara o Alcorão ao cosmos em relação à linguagem da revelação sagrada.
- Al-Quran al-tadwini é o Alcorão escrito; al-Quran al-takwini é o Alcorão cósmico.
- Os acidentes são como as flexões e a substância como as letras — os diferentes estágios são como as pausas nos versículos.
- Na cosmologia tradicional, tudo na natureza consiste em substância e acidentes — arad (acidente) e jawhar (substância) em árabe.
- No texto do Alcorão, ao contrário da maioria dos textos árabes, todas as flexões — i'rab — são escritas para que se saiba exatamente como pronunciar cada letra.
- De Deus emanou cada mundo como uma sura particular do Alcorão — uma é a Sura al-Fatiha, outra a Sura al-Ikhlas (112).
- A Sura al-Fatiha está no início do Alcorão e a Sura al-Ikhlas no final.
- O primeiro sinal de Deus foi o Intelecto Universal, que apareceu como o Ba de Bismillah.
- A primeira letra com que o Alcorão começa é o Ba: Bismillah al-Rahman al-Rahim.
- A primeira coisa que Deus criou foi o Intelecto Universal.
- O segundo foi a Alma Universal no Versículo da Luz (24:35) — que se tornou como uma lâmpada na intensidade de sua luz.
- Na hierarquia cósmica tradicional, a realidade criada mais elevada é o Intelecto Universal e a segunda é a Alma Universal.
- O terceiro sinal foi o Trono do Compassivo; o quarto, o Versículo do Pedestal (2:255).
- Rahman indica referência à Sura al-Rahman (55); ayat al-kursi provém da Sura al-Baqarah, a segunda sura do Alcorão.
- Após isso vêm os corpos celestes, nos quais está contida a sura das Sab' al-Mathani — as Sete Reiteradas.
- Sab' al-mathani é geralmente compreendida como referência à Sura al-Fatiha, que tem sete versículos.
- Observa os corpos dos elementos — cada um é um sinal evidente de Deus.
- Após os elementos vêm os corpos dos três reinos — cujo número de sinais não pode ser limitado.
- Os três reinos — al-mawalid al-thalath — são o mineral, o vegetal e o animal.
- A descida da alma humana veio por último — por isso o Alcorão termina com a Sura al-Nas (114).
- O último ser criado foi o homem; o Alcorão termina com a palavra al-nas, que significa humanidade.
- Lahiji comentou extensamente as implicações dessa seção em seu comentário ao Gulshan-i Raz.
Princípio sobre a Meditação nos Horizontes
- Não te tornes prisioneiro dos elementos e das naturezas — sai e contempla a criação de Deus.
- Arkan é o plural de rukn — colunas e fundações; aqui designa os quatro elementos: fogo, ar, água e terra.
- Taba'i' são as quatro naturezas: úmido, seco, quente e frio.
- Sana'i' — plural de sina'ah — significa a Potência criativa de Deus; um dos Nomes de Deus é al-Sani. Em árabe e persa contemporâneos, a palavra passou a significar também indústrias no sentido moderno.
- Medita sobre a criação dos Céus para que sejas louvado pela Verdade Divina nos sinais.
- Mamduh significa louvado; mamduh-i Haqq implica que quem louva o Senhor torna-se por isso mesmo louvado por Ele.
- Vê um caminho que vai ao próprio Trono Supremo de Deus — como ele se tornou envolvente dos dois mundos.
- Arsh al-Rahman é o Trono do Todo-Misericordioso — e também o coração do homem.
- Segundo o hadith: “O coração do fiel é o Trono do Todo-Misericordioso” — Qalb al-mu'min arsh al-Rahman.
- Por que seu nome se tornou o Trono do Todo-Misericordioso? Que relação tem com o coração humano?
- Nenhuma questão é mais fundamental sobre a relação do anthropos com o cosmos e com o próprio Divino.
- Por que ambos estão sempre em movimento, sem repousar um instante?
- Do arsh al-Rahman se manifesta a existência, cuja substância é o Sopro do Compassivo — nafas al-Rahman.
- Os anjos estão sempre em movimento ao redor do Trono.
- O coração é o centro desse Trono expandido — este é como um ponto enquanto o Trono é como a circunferência.
- O coração bate continuamente; se parar, morremos.
- O coração é central como um ponto no centro de um círculo, enquanto o Trono é a circunferência da realidade microcósmica e macrocósmica.
- Um dia essa verdade se tornará mais ou menos manifesta — de alto a baixo, ó dervixe, tu és o próprio Trono Divino.
- Essa comparação ousada resulta da correspondência entre o coração e o Trono Divino.
- Por meio do Trono os corpos esféricos estão em movimento — por que eles se movem assim?
- Do oriente ao ocidente, como rodas girantes, eles giram continuamente sem comer nem dormir.
- Dulab significa as rodas giratórias de um moinho, que giram continuamente sem interrupção.
- Em um dia e uma noite, essa roda suprema completa uma volta ao redor do mundo.
- Refere-se ao giro diário do mais alto céu astronômico em torno da terra.
- Por meio dela, da mesma forma, as outras esferas estão girando continuamente.
- Aflak é o plural de falak — a órbita de uma região celestial.
- Mas ao contrário do movimento da esfera suprema — charkh-i atlas —, esses oito arcos se movem constantemente.
- Falak al-atlas é a esfera suprema segundo a astronomia tradicional — invisível, separa o mundo da manifestação cósmica da Realidade Divina.
- Hasht-i muqawwas — os oito arcos — refere-se à órbita dos sete planetas mais a esfera das estrelas fixas.
- A eclíptica do Escabelo é a possuidora do Zodíaco — nela não há diferença nem lacunas.
- Dhat al-buruj é a única faixa em torno da parte central do céu na qual estão os signos do Zodíaco.
- Áries, Touro, Gêmeos e Câncer estão suspensos nela como Leão e Virgem.
- Thawr é Touro; hamal é Áries; jawza é Gêmeos; kharchang é Câncer; shir é Leão; khusah é Virgem.
- Depois vêm Libra, Escorpião e Sagitário — e há sinais de Capricórnio, Aquário e Peixes.
- Mizan (a balança) é Libra; aqrab é Escorpião; kaman (o arco) é Sagitário; jadi é Capricórnio; dalw é Aquário; hut (o peixe) é Peixes.
- As estrelas fixas são mil e vinte e quatro, cada uma com sua estação própria no Escabelo.
- Segundo muitas obras tradicionais de astronomia, há 1024 estrelas fixas visíveis a olho nu.
- Astrônomos muçulmanos não levaram em conta as estrelas visíveis apenas do hemisfério sul — mais tarde, ao saber delas, alteraram esse número.
- O sétimo céu é governado por Saturno — Kaywan —, e o sexto é o lugar e posição de Júpiter — Birjis.
- Kaywan é o nome persa de Saturno; birjis é o nome persa de Júpiter — hoje em persa se usam os nomes árabes zuhal e mushtari.
- O quinto céu é o lugar de Marte — Mirrikh —, o quarto o Sol, que embellece o mundo.
- O terceiro é Vênus e o segundo o lugar de Mercúrio — a Lua então entrou no círculo do mundo.
- Cada planeta tem um manzil ou casa dentro dos doze signos do Zodíaco.
- Os sete planetas mencionados são os visíveis a olho nu — os únicos conhecidos antes da descoberta dos demais com o telescópio.
- Planeta significa “errante” em grego — sargardhan em persa; esses corpos têm movimento próprio além do movimento diurno.
- Os sete corpos celestes correspondiam a sete níveis do ser, sete profetas e sete estágios de perfeição.
- No miraj, o Profeta ascendeu pelos sete céus e encontrou sete profetas, cada um correspondendo a um céu.
- Cristo estava no quarto céu — o céu do Sol, no centro das sete esferas planetárias — sendo assim, metafisicamente, uma figura “solar”.
- A casa de Saturno é em Capricórnio e Aquário; Júpiter cresceu e minguou em Sagitário e Peixes.
- O lugar de Marte é em Áries e Escorpião; em Leão está o lugar de repouso do Sol.
- Vênus fez de Touro e Libra sua morada — Mercúrio ficou em Gêmeos e Virgem.
- A Lua viu Câncer como seu semelhante — quando a cauda tornou-se como a cabeça, um nó foi escolhido.
- Essa seção contém referência ao domicílio de cada planeta nos doze signos do Zodíaco.
- Titus Burckhardt escreveu sobre as 28 mansões da Lua em relação às 28 letras do alfabeto árabe em seu Clé spirituelle de l'astrologie musulmane d'après Mohyddîn ibn Arabi, traduzido para o inglês como Mystical Astrology According to Ibn Arabi.
- A Lua tem vinte e oito estações — e então fica de frente para o Sol.
- O mês lunar tem vinte e oito mansões — manazil — que correspondem às vinte e oito letras do alfabeto árabe.
- Em árabe há huruf shamsiyyah (letras solares) e huruf qamariyyah (letras lunares) — catorze de cada, representando respectivamente realidades manifestas e realidades ocultas, segundo Ibn Arabi.
- Depois a Lua torna-se como um velho galho fino de palmeira — por determinação do Mais Poderoso, o Onisciente.
- O verso refere-se ao Alcorão 36:39: “E para a lua estabelecemos mansões, até que retorna como um velho cacho de palmeira.”
- Se meditares, ó homem perfeito, certamente dirás: “Isso não é falso.”
- Uma vez meditada a ordem dos céus, compreende-se que não foi criada em vão.
- O Alcorão diz: “Senhor nosso, não criaste isso em vão” (3:191).
- A Palavra de Deus fala precisamente disso — pois ver as coisas como falsas é “a conjetura daqueles que não creem.”
- Referência ao Alcorão 38:27: “E não criamos o Céu e a terra e o que há entre eles em vão — essa é a conjetura dos que não creem.”
- A existência de um mosquito revela sabedoria — que não existe nem mesmo em Marte e Mercúrio.
- Há outra versão do primeiro hemistíquio, preferida por Nurbakhsh, que usa hikmat-i tamm (sabedoria perfeita).
- Mas quem olha com cuidado para a raiz desta questão verá que os céus estão sob a ordem do Compelidor — al-Jabbar.
- Um dos Nomes de Deus é al-Jabbar, o Compelidor, cuja Vontade é absoluta.
- O astrônomo, por carecer de fé, diz que o efeito provém de uma configuração estranha.
- Shabistari não implica que todos os astrônomos careciam de fé — basta ler al-Biruni para ver que esse verso não se aplica a todos.
- Ele não vê que essa esfera girante está sob o comando e a ordem da Verdade.
Ilustração
- Os céus rotativos — aflak-i dawwar — que giram dia e noite são como a roda do oleiro.
- Fakhkhar, em árabe, significa oleiro; outra acepção é “alguém muito gabola”.
- Deus moldou o corpo de Adão com argila — e nesse sentido o oleiro emula o Ato criativo de Deus.
- O poeta Khayyam usa esse simbolismo para expressar o aspecto fugaz do mundo — os potes se fazem e se quebram, voltando ao pó.
- Dele, a cada instante, o Conhecedor, o Juiz — dana-yi dawar — faz outro pote com água e argila.
- “Dele” refere-se à roda dos céus e, por extensão, à criação de Deus.
- Dana significa conhecedor e dawar significa juiz — aqui, Nomes Divinos escritos com maiúsculas.
- Tudo que existe no tempo e no espaço provém de um único Mestre — Ustad — e de uma única oficina — karkhanah.
- O Universo inteiro é como a oficina de um único Mestre Oleiro.
- Os planetas, se possuem perfeição, por que a cada momento estão em crescimento e declínio?
- Naqs-u wabal pode ser traduzido como “crescimento e declínio” ou como “cintilação”; naqs significa “diminuição da luz” e wabal o inverso.
- Todos estão em lugar, movimento, cor e formas — por que afinal têm estados tão diferentes?
- Por que ora estão no perigeu, ora no apogeu? Por que ora estão sozinhos, ora em pares?
- O perigeu é o ponto mais baixo da curva; o apogeu é o ponto mais alto da trajetória de um corpo celeste.
- De onde então o coração da roda se tornou pleno de fogo? Do intenso desejo — shawq — de quem está em turbulência?
- Os céus buscam o Divino, e esse shawq por Deus é o que os faz mover.
- Todas as estrelas giram ao redor d'Ele como caminhantes — às vezes elevadas, às vezes caídas.
- Os elementos — água, ar, fogo e terra — cada um tomou seu lugar sob os céus.
- A região subluna é composta dos quatro elementos, sempre em transformação — por isso há geração e corrupção abaixo do nível da Lua.
- Acima da Lua, segundo a cosmologia tradicional, os céus são compostos da quintessência — athir em árabe e persa, ou éter no sentido grego —, que é incorruptível.
- De necessidade, cada um está em seu próprio centro — não colocará o pé um ínfimo passo adiante ou atrás.
- Segundo a cosmologia tradicional, cada elemento tem seu al-hayyiz al-tabi'i — lugar natural.
- A terra cai porque seu lugar natural é o mais baixo; o fogo sobe porque seu lugar é imediatamente abaixo da esfera da Lua.
- A única criatura com liberdade de sair de seu lugar é o ser humano — as sociedades tradicionais buscaram trazer essa ordem natural para a vida humana.
- As quatro naturezas, opostas em natureza e centros, uniram-se — alguém já viu tal coisa?
- As quatro naturezas — al-taba'i' al-arba'ah — são quente e frio, úmido e seco, em pares opostos.
- Cada elemento tem duas dessas naturezas: a água é fria e úmida; a terra é seca e fria; o ar é quente e frio; o fogo é seco e quente.
- Há algo como um milagre no modo como os opostos trabalham juntos no mundo e em nossos corpos.
- Nicolau de Cusa, o grande metafísico italiano, afirma que Deus Mesmo é coincidentia oppositorum — e o Gulshan-i Raz dá a resposta a esse enigma.
- Cada um é diferente em sua essência e forma, mas por força do princípio da necessidade tornaram-se uma coisa.
- Hukm-i darurat refere-se ao fato de que Deus quis que essa combinação ocorresse — a jam' al-addad, a coincidência dos opostos.
- Os Três Reinos surgiram deles — o mineral, depois o vegetal, depois o animal.
- Os três reinos são compostos dos mesmos quatro elementos e naturezas.
- A matéria prima — hayula — foi colocada no meio, e Ele Mesmo é livre de forma, de modo sufi.
- Hayula vem do grego hylé — a materia prima ou hylé aristotélica, que entrou no árabe e no persa.
- A doutrina do hilomorfismo — forma e matéria — é talvez a intuição mais profunda da filosofia aristotélica.
- Ibn Sina, Ibn Rushd e al-Ghazali usam surah no sentido aristotélico — o que atualiza algo; os sufis usam surah no sentido oposto: a forma exterior, enquanto o princípio interior é o ma'na.
- Mawlana Rumi fala constantemente sobre essa dicotomia entre surah e ma'na.
- Sufiyyanah significa “à maneira sufi” ou “como dizem os sufis.”
- Tudo no Universo, em resultado do Comando, da Ordem e da Justiça do Juiz Justo, permanece em perfeita rendição e foi dominado por Ele.
- Dawar — o Juiz — é um dos Nomes de Deus.
- Bi jan istadah significa literalmente “de pé com a própria vida à disposição” — plenamente rendido à Vontade de Deus.
- O reino mineral, pela Dominação de Deus — Qahr —, caiu por terra; o reino vegetal, pelo amor — mihr — de Deus, ficou de pé.
- Qahr significa Poder Divino, Dominação, vitória — a palavra árabe Qahirah (Cairo) deriva daí.
- As árvores se erguem verticalmente pela força do mihr — o amor de Deus.
- A regeneração do reino animal, com base na verdade e na sinceridade, busca preservar gênero, espécie e indivíduos.
- Todas as criaturas confessaram a regra do Juiz Supremo — dia e noite, buscando o que lhes é devido.
- Talab-kar significa quem espera algo que lhe é devido; aqui, as criaturas anseiam receber algo de Deus, a quem “se deve” algo por virtude de tê-las criado.
Princípio sobre a Meditação nas Almas
- Há dois modos de discutir a metafísica pura: a Realidade Divina como o Outro transcendente, ou como o Eu, o Sujeito puro.
- A escola de Shankara identifica a Realidade com o Eu — Atman — e Atman é Brahman.
- O Gulshan-i Raz é um dos poucos textos do sufismo que enfatiza a perspectiva da realidade do Eu Supremo.
- A seção baseia-se no versículo corânico 41:53: “Mostraremos a eles Nossos sinais nos horizontes e em si mesmos, até que lhes fique claro que é a verdade.”
- Afaq é o plural de ufuq — horizonte, o mundo exterior; anfus é o plural de nafs — alma, ser interior, microcosmo humano.
- Olha bem por um momento para tuas próprias raízes — pois a mãe tornou-se também pai e mãe.
- Asl em árabe significa raiz, princípio e fonte.
- O segundo hemistíquio é enigmático: a interpretação mais geralmente aceita, discutida por Lahiji e outros comentadores, é a de que o verso se refere ao Intelecto Universal.
- O Intelecto Universal — aql-i kulli — é em certo sentido tanto o pai quanto a mãe da Alma Universal.
- Vê o mundo do começo ao fim em ti mesmo — o que vier ao final, vê-o antes.
- Sar bi sar significa “de uma extremidade à outra” ou “do começo ao fim”.
- O verso eleva o status do ser humano: o Universo inteiro está contido dentro de nós.
- O papel do homem apareceu ao final — e os dois mundos tornaram-se dependentes dele.
- No islamismo, o homem foi criado na sexta-feira, depois de todas as outras criaturas.
- Na visão científica moderna, somos a última espécie a aparecer na Terra.
- A palavra tufayl (dependente) relaciona-se a tifl — criança que depende da mãe.
- Não houve novas espécies após o homem porque ele contém em si todas as possibilidades cósmicas.
- Não é que a causa final venha ao final e se torne manifesta em sua essência?
- Nas quatro causas aristotélicas — aceitas por Ibn Sina —, a causa material é a madeira, a eficiente o carpinteiro, a formal a forma da cadeira, e a final sua raison d'être.
- A causa final sempre aparece externamente ao final, mas está presente no mundo arquetípico desde o início.
- As pessoas perdidas nas trevas — zalumi — e na ignorância — jahuli — são opostas à luz, mas são elas mesmas o próprio locus de manifestação.
- Zulm em árabe e persa pode significar opressão e injustiça, mas também escuridão.
- O ser de uma pessoa ignorante não é ignorância — é ser que pertence a Deus.
- O Diabo pode criar ilusão, mas não pode existenciar criaturas; kun — “Sê!” — pertence a Deus sozinho.
- Zalum e jahul são duas palavras do Alcorão (33:72) que caracterizam quem se afastou de Deus.
- Como o verso de um espelho é opaco, ele consegue mostrar o rosto de alguém em sua outra face.
- Se o verso do espelho não fosse opaco, não seria espelho.
- Neste mundo, essa escuridão é necessária — sem ela, o bem não poderia ser refletido.
- No mundo só se discernem qualidades pelo contraste com seus opostos.
- O raio do Sol, vindo do quarto céu, não se reflete senão sobre a terra.
- O Sol está no quarto céu segundo a astronomia tradicional.
- A terra é opacidade, escuridão, mas reflete a luz — é necessária para que se experiencie a luz solar.
- Tu eras um reflexo do que os anjos adoram — por isso tu te tornaste o ser diante do qual os anjos se prostraram.
- O Alcorão (2:34) relata que Deus ordenou a todos os anjos que se prostrassem diante de Adão; todos o fizeram, exceto Iblis.
- Cada anjo representa apenas um aspecto das Qualidades de Deus; quando Deus criou Adão, fez dele o espelho de todos os Seus Nomes e Qualidades.
- “O primeiro a usar raciocínio analógico foi o Diabo” — awwalu man qasa al-Shaytanu.
- De cada corpo há em ti uma alma — e desse corpo uma corda foi atada a ti.
- “De cada corpo há em ti uma alma” significa que tu contém a realidade interior de todas as coisas.
- “Uma corda foi atada a ti” significa que todas as criaturas estão ligadas a ti — és conectado a todo o cosmos.
- Por isso todas obedeceram à tua ordem — pois a alma de cada uma delas está oculta em ti.
- O Alcorão afirma que Deus deu ao homem o poder de dominação sobre as criaturas.
- Tu és o miolo — maghz — do Universo — por isso estás no meio de tudo — conhece-te a ti mesmo, pois és a vida do mundo.
- Maghz significa literalmente tutano ou miolo; o homem é a essência do Universo.
- “Conhece-te a ti mesmo” é a repetição do célebre dito socrático.
- Jan é uma palavra persa muito rica — pode significar vida, alma, espírito e querido; existe também em urdu, em quase todas as línguas indianas e no turco.
- O quarto norte da Terra tornou-se tua morada — porque teu coração está localizado no lado esquerdo do teu corpo.
- Rub'-i shimali designa o quarto norte da Terra, onde se encontrava a maioria dos assentamentos humanos no tempo de Shabistari.
- Shimal em árabe significa tanto norte quanto esquerda — indicação da orientação primordial do homem tradicional: de frente para o leste, a mão esquerda aponta para o norte.
- René Guénon discutiu em sua obra as duas orientações fundamentais das sociedades tradicionais.
- O mundo do intelecto e da alma são teu capital — a Terra e os Céus são tua veste.
- Vê essa não-existência que é idêntica à existência — vê a altura que é a essência da baixeza.
- Por natureza, teu poder é de dez mil — mas tua vontade está além de qualquer contagem e número.
- Entre elas, cada uma ficou constrangida por meios — membros, órgãos, artérias e veias.
- Imersos nessa questão, os filósofos caíram no espanto e ficaram perplexos na dissecação do corpo humano.
- Ninguém encontrou um caminho de compreensão nessa questão — cada um admitiu sua incapacidade.
- Em relação à Verdade, cada um tem uma alegria e uma parte particulares — o retorno e a origem de cada pessoa passam por um Nome Divino.
- Ibn Arabi explica essa doutrina: procedemos de um Nome Divino particular e a ele retornamos.
- Todas as criaturas subsistem por meio desse Nome Divino — e estão o tempo todo em invocação — tasbih — desse Nome.
- A própria substância da existência é dhikr Allah — a rememoração de Deus.
- Cada ser tem uma fonte — masdar — na Origem — mabda' — e no momento do retorno essa fonte se torna como uma porta para ele.
- Como se Deus fosse “uma Casa” e cada ser deixasse essa Casa por uma das portas para vir a este mundo — e no retorno vai pela mesma porta de volta.
- Pela porta pela qual veio ele retornou — embora em ganhar a vida tenha se perdido.
- Dar bi-dar shudan significa perder os próprios rumos, estar num estado de perda do lar e de tudo o que nele está contido.
- A razão pela qual podes conhecer todos os Nomes de Deus é que és a imagem do Nomeado.
- Se o Divino não estivesse já na profundeza do nosso ser, não poderíamos invocá-lo.
- Quanto mais nos conhecemos a nós mesmos, mais nos tornamos familiarizados com Deus.
- A manifestação do poder, do conhecimento e da vontade depende de ti — ó servo de Deus possuidor da felicidade.
- Sa'adat — felicidade — resulta de ter todas as Qualidades Divinas refletidas em nós.
- Sendo o que ouve, o que vê, o que vive, o possuidor da fala — persistes não a partir de ti mesmo, mas de “Lá”.
- Ouvir, Ver, Vida e Fala são todas Qualidades Divinas.
- Que maravilha — zahí — que o começo tenha vindo exatamente como o fim; que maravilha que o interior tenha vindo exatamente como o exterior.
- Zahí significa algo como “quão glorioso” ou “quão maravilhoso”.
- “O começo é exatamente como o fim” pode referir-se ao homem, à haqiqah muhammadiyyah — a Realidade Muhammadiana — como “a primeira coisa que Deus criou”, ou ao fato de que onde chegamos ao final é onde viemos; começo e fim estão no mesmo lugar.
- “O interior é exatamente como o exterior” pode referir-se a Deus — “Ele é o Primeiro e o Último e o Exterior e o Interior” (57:3) — ou ao homem perfeito, cuja realidade interior se manifesta totalmente em sua realidade exterior.
- Dia e noite estás em dúvida sobre ti mesmo — é melhor então que não te conheças.
- O verso é uma crítica cáustica: quem não se conhece a si mesmo está sempre em dúvida.
- Como o fim da meditação — tafakkur — é o espanto — tahammur —, aqui o debate sobre a meditação chega ao fim.
- Hayrah e tahammur — espanto, perplexidade — são importantes termos sufis.
- Há um hadith atribuído ao Profeta: “Ó Senhor, aumenta nosso espanto em Ti” — Ya rabb zidna tahammyuran fik.
- O espanto é uma forma de alcançar o conhecimento — mas um espanto que vai além do próprio conhecimento ordinário.
islamismo/shabistari/roseiral/2.txt · Last modified: by 127.0.0.1
