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QUESTÃO 5

SHABISTARĪ, Maḥmūd. Gulshan-I Rāz: The Rose Garden of Divine Mysteries. 1st ed ed. Albany: State University of New York Press, 2025.

Questão 5:
Quem finalmente tomou consciência (wāqif) do mistério da unidade?
Afinal, o que é que o gnóstico chegou a conhecer?

  • A pergunta sobre quem finalmente se torna consciente do mistério da unidade e o que o gnóstico veio a conhecer encerra múltiplas dimensões — o fim do conhecimento, o alcance do cognoscível e a distância que separa o ser humano do conhecimento autêntico.
    • O termo persa waqif, de origem árabe, é uma palavra técnica do misticismo cujo sentido foi equivocado por estudiosos como A. J. Arberry, em sua tradução do Fihi ma fihi de Rumi
    • A raiz árabe waqafa comporta múltiplos sentidos — parar, permanecer em um lugar, e também tornar-se consciente ou atento a algo
    • Waqf designa uma doação religiosa — a ideia de imobilizar recursos em um único lugar
    • Waqif shudam ki significa “tornei-me ciente de que…” — a mente se detém e contempla uma realidade ao ganhar consciência dela
    • Os derivados de waqafa estendem-se do sentido de doação religiosa ao de parada física (tawaqquf) e ao de aquisição de consciência ou conhecimento (wuquf)
  • Na resposta de Shabistari, o gnóstico que se torna consciente do mistério da Unidade é precisamente aquele que não para nas paradas do caminho espiritual — e o poeta emprega três vezes derivados da mesma raiz árabe waqafa em um único dístico.
    • No primeiro hemistíquio, waqif significa tornar-se consciente; no segundo, o mesmo vocábulo assume o sentido de parar ou deter-se
    • Mawaqif — plural de mawqif — designa as estações da jornada espiritual rumo a Deus
    • O título do célebre tratado de al-Niffari, Kitab al-mawaqif — O Livro dos Lugares de Parada — deriva desse mesmo campo semântico
  • O coração do gnóstico é o conhecedor do Ser, e o Ser Absoluto se manifesta a ele na contemplação — shuhud implica aqui uma união espiritual pela qual o coração contempla o wujud, isto é, Deus como Ser Puro.
  • O gnóstico não reconhece nenhum ser além do Ser real, ou reconhece um ser que perdeu completamente o seu ser — e o vocábulo hasti, equivalente persa de wujud, está etimologicamente aparentado ao inglês “is” e ao alemão ist, pertencendo ao tronco indo-iraniano e indo-europeu da raiz do verbo ser.
    • Mulla Sadra observou que o persa oferece vantagem sobre o árabe na discussão da ontologia — em árabe, o único termo disponível para o ser deriva de wajada, “encontrar”, o que faz do wujud um ato de conhecer, enquanto em persa coexistem hasti e wujud
    • Hast-i haqiqi designa o Ser real, em contraposição a hast-i majazi — o ser metafórico das coisas comuns que os seres humanos associam à existência
    • O segundo hemistíquio do verso indica que é necessário transcender a própria existência para alcançar Deus — dar bakhtan significa perder ou lançar fora a existência metafórica que ocupa o centro do ser
  • A existência ordinária e separativa do ser humano é como espinhos e gravetos sem valor — e por isso deve ser inteiramente descartada, purificando-se a si mesmo e abandonando a existência limitada e separativa.
    • Khar-u khashak — espinhos e gravetos — formam uma expressão proverbial persa para designar algo sem valor
    • Khashak são fragmentos secos de vegetação encontrados no deserto; khar significa espinho
  • É preciso varrer a casa do coração e prepará-la para a estação e o lugar do Amado, assim como se limpa uma casa para receber qualquer hóspede, com ainda mais razão quando o hóspede supremo é Deus.
  • Quando o ego é esvaziado do coração, Deus nele adentra e revela Sua Beleza — o dever do ser humano é limpar a “casa” do coração, e o restante é realizado pelo verdadeiro proprietário dessa morada.
  • Aquele que, por meio das obras supererogatórias, tornou-se amado por Deus, varreu a sua casa com o “la” da negação — e para compreender esse verso é necessário distinguir, na lei islâmica, entre fara'id (atos obrigatórios) e nawafil (atos recomendados ou supererogatórios).
    • O dhikr — a invocação do Nome de Deus — é uma prática sufista considerada nawafil, não obrigatória do ponto de vista da Sharia, mas eficaz para aproximar o servo de Deus
    • O hadith al-nawafil afirma: “Meu servo não cessa de aproximar-se de mim até que eu me torno o olho com que ele vê, o ouvido com que ele ouve e os pés com que ele caminha”
    • Ibn Arabi distingue um hadith al-fara'id, que inverte a perspectiva: “Meu servo não cessa de aproximar-se de Mim até que ele se torna o olho com que Eu vejo, o ouvido com que Eu ouço e os pés com que Eu caminho”
    • O “la” da negação remete ao la ilaha illa'Llah — metafísica e espiritualmente, o la ilaha varre para o não-ser tudo o que é siwa'Llah, tudo o que é diferente de Deus, de modo que apenas Allah permaneça
  • O servo que alcança a posição louvada — maqam mahmud, mencionada no Corão (17:79) — recebe o sinal de “por Mim ele ouve e por Mim ele vê”, expressão que integra o hadith al-nawafil.
    • A raiz hamd — louvor — gera em árabe diversos nomes próprios e termos, como Ahmad, Muhammad, Hamid, Hamid, Hamidah e Mahmud
    • Maqam mahmud designa um estado espiritual elevadíssimo e uma posição exaltada no Paraíso
  • Enquanto a existência separativa permanecer como marca impressa sobre o gnóstico, o seu conhecimento não atingirá a forma da essência — e Shabistari emprega aqui o vocábulo 'ayn, que possui em árabe setenta e dois significados, entre os quais fonte, olho, essência e origem.
    • 'Ayn corresponde também a uma letra do alfabeto árabe — nenhuma outra palavra árabe concentra tantos significados
    • Surat-i 'ayn refere-se à essência pura das coisas
  • Enquanto os obstáculos não forem removidos do ser interior, a luz da Verdade não penetrará na casa do coração — e é preciso abrir as janelas da alma antes que essa luz possa incidir.
  • Os obstáculos neste mundo são quatro, e as purificações correspondentes são igualmente quatro — taharat designa a purificação ritual islâmica, mas também a purificação em sentido amplo.
    • Mutahhar — puro — deriva da mesma raiz que tahara
  • A primeira purificação consiste em livrar-se de excrementos e impurezas — e essa pureza abrange não apenas o corpo, mas também a alma, o âmbito moral, religioso e psicológico.
    • Anjas é o plural de najis — substâncias impuras segundo a lei islâmica; o contato com elas exige ablução
    • Paki designa a pureza corporal e interior conjuntamente
  • A segunda purificação é do pecado e do mal do Tentador — e o vocábulo waswas, de difícil tradução, remete ao demônio que sussurra aos ouvidos dos seres humanos, conforme o Corão (114:4).
    • Waswas pode significar também escrúpulo excessivo — uma disposição que, embora de origem religiosa, torna-se negativa quando levada ao exagero
    • Sharr-i waswas designa o mal da tentação engendrado pelas forças demoníacas que o Corão identifica como Shaytan
  • A terceira purificação é dos traços negativos de caráter — akhlaq-i dhamimah — que habitam o ser humano como uma fera selvagem que precisa ser domada, embora reapareça sempre em algum outro recanto da alma.
    • O Profeta declarou: “Fui enviado por Deus para aperfeiçoar para vós as makárim — as virtudes — do akhlaq”
    • Khush-akhlaq designa alguém de caráter agradável; bad-akhlaq, alguém de temperamento desagradável e irritadiço
    • Akhlaq-i dhamimah — traços negativos — tem por origem o esquecimento de Deus e inclui a mentira, o engano, a indiferença e a falta de bondade para com os outros
    • Akhlaq-i hamidah — traços positivos — deriva da mesma raiz que hamd e mahmud
    • Inúmeros textos sufis foram escritos sobre o akhlaq-i dhamimah, enfatizando que o conhecimento teórico é insuficiente — é necessário agir
  • A quarta purificação é a do segredo interior — sirr — de toda alteridade, pois é nesse ponto que toda a jornada espiritual atinge o seu fim.
    • Sirr em árabe e persa não precisa remeter a algo divino, mas no sufismo designa habitualmente o Segredo Divino — o sufismo é chamado maktab al-asrar, a Escola dos Segredos Divinos
    • O coração — qalb — possui diferentes níveis de interioridade, designados por termos como fu'ad, sirr e sirr al-sirr; lubb al-lubab em árabe designa o núcleo mais profundo do coração
    • Apenas Deus deve estar presente no centro do coração — toda alteridade deve ser expurgada desse espaço interior
    • Hafiz disse: “Há apenas o alef da estatura do Amigo — isto é, de Allah — na tábua do meu coração. O que posso fazer quando o Mestre apenas isso me ensinou?”
  • A realização espiritual não se reduz à leitura de livros ou ao domínio de ideias metafísicas e cosmológicas — ela exige, acima de tudo, a purificação do ser como via de acesso à Verdade.
    • Intelectuais que vivem permanentemente no plano mental podem conhecer bem Ibn Sina ou Ibn Arabi e mesmo assim não integrar esse conhecimento ao restante de seu ser por negligenciarem a prática espiritual
    • Do ponto de vista sufista, dizer “leio os Fusus de Ibn Arabi de olhos fechados e não preciso de mais nada” equivale a ter um gravador que repete as palavras — o conhecimento doutrinal é apenas metade do caminho
    • A outra metade consiste em tornar-se aquilo que se conheceu teoricamente — assim como um muçulmano que conhece as orações diárias de cor mas não as realiza não seria considerado um bom muçulmano, o mesmo vale para o esoterismo
    • O Gulshan-i Raz, após discutir a metafísica pura, passa a indicar o que fazer — e essa é a lição central para todos os que se interessam seriamente pela espiritualidade
  • Quem realiza as quatro purificações torna-se, sem dúvida, digno das súplicas divinas — munajat, palavra de origem árabe derivada de najwa, designa um discurso íntimo com Deus, marcado pela proximidade ao Ser Divino.
    • O texto de referência mais célebre para o uso desse termo no mundo persa é o Munajat de Khwajah Abd Allah Ansari, obra-prima da literatura sufista escrita no século V islâmico em Herat
    • Du'a é a oração pessoal após a oração canônica — também chamada munajat em certos contextos
    • Najwa em árabe designa um discurso próximo, no qual o participante se encontra em estreita intimidade com o Ser Divino
  • Enquanto o ser não se perder completamente, suas orações jamais serão orações verdadeiras — e o verso se dirige a todos os muçulmanos, lembrando que o ato de elevar as mãos no início da salat simboliza o abandono total do mundo.
    • Dar nabazi em persa deriva de bakhtan — perder, inclusive em jogos ou disputas
    • Khud significa o eu individual, embora em certos contextos possa também designar o Eu Divino; khuda — Deus em persa — é etimologicamente aparentado ao inglês God, ao alemão Gott e ao persa khud (si mesmo)
    • Muitos que realizam as orações canônicas tornam-se como papagaios repetindo palavras — estar presente diante de Deus exige transcender a si mesmo, o que torna difícil permanecer presente até mesmo na oração diária
  • Uma vez que a essência do ser se purifica de toda imperfeição, a oração se torna qurrat al-'ayn — o frescor dos olhos — expressão que designa as lágrimas frias que brotam do olho quando se chora de alegria.
    • As lágrimas de tristeza são quentes; as lágrimas de alegria são frias — e esse fenômeno fisiológico revela por si só a insuficiência da explicação puramente materialista, que atribui apenas a causas materiais as mudanças físicas
    • Em árabe e persa, qurrat al-'ayn implica felicidade e algo precioso; a expressão mais próxima em inglês seria “a luz dos olhos”
    • Distintas culturas choram de formas diferentes — os persas choram abundantemente nos ritos religiosos do Muharram associados ao martírio do Imame Husayn; os egípcios menos; os japoneses raramente
  • Quando o ser atinge esse estado, nenhuma distinção permanece entre o conhecido e o conhecedor — ma'ruf e arif se fundem em uma única realidade.
    • Esse verso expressa a ideia filosófica islâmica do ittihad al-'aqil wa'l-ma'qul — a unificação do intelecto e do inteligível — tema amplamente desenvolvido por Mulla Sadra
    • Os sufis expressam essa mesma ideia como a unidade entre o conhecedor e o conhecido — arif e ma'ruf
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