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ṬŌSĪ, Moḥamad ben Moḥamad Naṣīr al-Dīn; JAMBET, Christian. La convocation d’Alamût: somme de philosphie ismaélienne. Lagrasse Paris: Verdier Unesco, 1996.
I. A Hipótese Dualista
- A observação do bem e do mal no mundo leva certos pensadores a postular dois princípios distintos, um para cada um desses polos, como fazem os zoroastristas ao atribuir a Yazdân o princípio da luz e do bem, e a Ahriman o princípio da trevas e do mal.
- Yazdân — termo persa médio (pahlavi) empregado pelos autores muçulmanos em lugar de Ohrmazd, designando o princípio de luz
- Ahriman — princípio das trevas no zoroastrismo
- Referência: Shahrastânî, Livro das religiões e das seitas, trad. D. Gimaret e G. Monnot, t. I, Lovaina, 1986, p. 643 e p. 636, nota 8
- A corrupção dessa representação dualista revela-se quando se interroga se os dois princípios são iguais em ser, em potência e em compreensão, pois a desigualdade entre eles supõe que um supera o outro, tornando o inferior dependente do superior e dissolvendo assim a própria dualidade que se pretendia afirmar.
- Se um princípio supera o outro em compreensão, aquele que supera será o princípio primeiro, e o superado estará envolto na compreensão do superior
- Desse modo, não haverá dois princípios no sentido em que se pretendia que o bem e o mal o fossem
II. O Verdadeiro Modelo da Procissão
- Todas as coisas têm uma única origem, que é o Imperativo divino, e o bem é concomitante da perfeição enquanto o mal é concomitante da deficiência, de modo que o bem puro reside onde há perfeição absoluta e o mal puro onde há deficiência absoluta.
- Lawâzem-e kamâl — concomitantes da perfeição
- Lawâzem-e noqsân — concomitantes da deficiência
- A primeira Inteligência, sendo mais nobre em substância que o conjunto dos existentes, possui perfeição absoluta e é, portanto, o bem puro
- A Alma universal, inferior à primeira Inteligência em substância e em existência, possui simultaneamente uma face voltada para a perfeição e uma face voltada para a deficiência, sendo portanto lugar de mistura entre bem e mal, enquanto o Corpo universal, residindo na própria deficiência absoluta, é o lugar do mal puro.
- Nasîr Tûsî reduz o bem e o mal a acidentes, privando-os de toda substancialidade
- Os acidentes, concomitantes da perfeição ou da deficiência, são suscetíveis de se misturar — noção de mistura (gumecisn) que é submetida aqui a uma problemática neoplatônica
- O Corpo universal é associado à Natureza, o que nem o mazdaísmo nem o neoplatonismo lhe concederiam — tese mais próxima do maniqueísmo
III. Os Três Mundos e os Três Povos
- Existem três mundos correspondendo a três graus ontológicos — o mundo inteligível do bem puro, o mundo da Alma onde bem e mal se misturam, e o mundo corporal do mal puro —, e a cada um desses mundos corresponde um povo com estatuto próprio.
- Âlam-e aqlânî-ye khayr-e mahz va âlam-e nafsânî-ye khayr o sharr bâ ham âmikhteh va âlam-e jesmânî-ye sharr-e mahz — mundo inteligível do bem puro, mundo da alma onde bem e mal estão misturados, mundo corporal do mal puro
- Ahl-e wahdat — povo da unidade, pertencente ao mundo inteligível
- Ahl-e tarattob — povo da gradação, pertencente ao mundo da Alma
- Ahl-e tazâdd — povo da oposição, pertencente ao mundo corporal
- Aquele que se converte da dispersão múltipla do povo deste mundo baixo para a aliança do povo fiel à religião, e desta aliança alcança a unificação do povo da Ressurreição, não conhecerá relação com o mal nem com seus efeitos, pois suas atividades corporais estarão em relação com efusões espirituais e estas com as luzes inteligíveis.
- Ahl-e shar — povo da religião exotérica, legalitária
- Ahl-e qiyâmat — povo da Ressurreição; a Ressurreição é abolição da religião exotérica e instauração da unidade real do existente
- O estatuto da oposição consiste na manutenção da multiplicidade no seio da população deste mundo
- O estatuto da gradação é a aliança dos povos fiéis à religião positiva
- O estatuto da unidade é a unificação do povo da Ressurreição
IV. O Mal é um Acidente
- O bem emana do Doador do bem por essência, enquanto o mal ocorre por acidente, tal como a espuma que aparece no fluxo da água não provém da fonte nem da substância da própria água, mas é constituída de partículas de terra arrastadas pela corrente.
- Wâhib al-khayr — Doador do bem; o Imperativo divino é efusão de existência, percebida aqui sob o aspecto da doação generosa infinita
- A noção remete à de Doador das formas (wâhib al-sowar) tal como concebida por Sohravardî, que a identifica a Ohrmazd — cf. L'Archange empourpré, p. 487
- Assim como a espuma pode parecer tão dominante que se imagina não haver mais água, às vezes o mal domina e triunfa de tal modo que se imagina não existir bem algum
- Uma das provas da natureza acidental do mal é que o bem é fraco no início e forte no fim, enquanto o mal é forte no início e fraco no fim, de modo que, ao término do processo, a potência do bem chegada gradualmente à existência atinge sua plenitude e o mal não é mais nada nem se torna mais nada.
V. O Decreto e a Predestinação
- A predestinação é a determinação originária que chegou à primeira Inteligência por meio do Imperativo primordial, e o decreto é a ordenação primordial estabelecida sobre a Tábua originária pelo Imperativo primordial, sendo essa determinação comparável ao ato de quem, ao construir uma casa, lança primeiro os alicerces dos muros e dos cômodos, enquanto o decreto equivale à casa já construída com tudo o que lhe é necessário.
- Qadar taqdir-e awwal — determinação originária, predestinação primeira
- Qazâ taklîf-e awwal — decreto, ordenação primordial
- Dois anjos são delegados ao decreto e à predestinação — chamados o Precedente e o Testemunho —, e incitam todos os existentes a alcançar a perfeição e o fim que é próprio a cada um, sendo o mal que existe entre nós proveniente não do decreto nem da predestinação, mas dos véus da sensibilidade, da imaginação e da estimativa que se erguem diante do olhar do pensamento reflexivo e da visão interior.
- Sâbiq — o Precedente; é o próprio nome da primeira Inteligência
- Shahîd — o Testemunho; parece ser aqui o equivalente de Tâlî, o Seguinte, que designa a Alma universal, a qual contempla o Precedente e ordena assim a construção demiúrgica do universo
- Az ekhtîyar-e nâ haqq-e mâ sharr be-mîyân mî-âyad — o mal provém do livre-arbítrio humano em direção ao injusto; o homem é livre para o mal na medida em que é ignorante
- Como o conhecimento e a visão humanos não podem abarcar os limites das coisas e não é possível escolher livremente o que é justo por opinião e julgamento pessoal, o mal provém do livre-arbítrio que escolhe o injusto, assim como a sujeição é um bem para o discípulo e a liberdade é um bem para o mestre, e quando não nos submetemos à disciplina de um mestre, mas queremos ser o mestre, rejeitamos o bem que nos é próprio e caímos no mal.
- A predestinação vota o ser à Inteligência e à perfeição que o decreto fixou
- Ser livre para o bem é desejar livremente o mestre que tornará o ser semelhante às Inteligências superiores e, em última instância, querer a obediência sem reserva ao Ressuscitador
VI. O Mal Total e o Mal Parcial
- É necessário conhecer a distinção entre o mal total e o mal parcial — sendo o mal parcial, por exemplo, o fogo que se declara na casa de um eremita e queima seu turbante e seu hábito, enquanto o mal total seria o fogo deixar de existir e desaparecer do mundo —, e o mesmo vale para a água que invade e devasta a casa de crianças, enfermos e pobres, sendo o mal total que a água cessasse de existir e desaparecesse do universo.
- Sharr-e kollî va sharr-e jozwî — mal total e mal parcial
- O termo mal não pode convir em verdade à essência atual da água e do fogo, mas somente de modo metafórico, relativo e por acidente
VII. O Mal é Privação do Bem
- Neste mundo é necessária uma causa para o ato de existir, mas não para a inexistência, assim como é necessária uma causa para a riqueza mas não para a pobreza, e uma causa para o dia mas não para a noite, pois o dia tem por causa o sol que brilha desde o alto do céu, ao passo que a noite ocorre pelo simples fato de o sol se ocultar.
- Argumentação neoplatônica — ver Proclus, De Malorum subsistentia, I, 2
- Nasîr Tûsî retoma aqui uma concepção que remonta, no ismaelismo, aos Ikhwân al-Safâ
- Da mesma forma que a ausência do ser é o não-ser, a ausência da riqueza é a pobreza, a ausência do dia é a noite, a ausência do bem é o mal — sendo o mal assim definido como privação e não como entidade positiva.
VIII. A Primeira Ignorância. Oposição e Gradação
- Assim como as inteligências particulares que se ligam aos seres inteligentes são efeitos da primeira Inteligência existenciada pelo Imperativo divino, a ignorância particular que se liga aos ignorantes é um efeito da primeira Ignorância, que surgiu colocando-se em oposição à primeira Inteligência — sendo essa denegação uma realidade satânica que se assemelha à inteligência sem ser a inteligência.
- Jahl-e awwal — ignorância primordial; é o princípio de todos os semblantes, das realidades imaginárias agradáveis aos Gens da oposição
- Como esses semblantes não são nada de real, o esquema da procissão que faz da primeira Inteligência o único primeiro instaurado pelo Imperativo é preservado
- Permanece um sutil dualismo nessa oposição originária entre Ignorância e Inteligência, de sabor maniqueísta
- Por essa razão existe nas almas oposição e gradação — há a alma que avança na via da perfeição e pertence à categoria da gradação, tornando-se, quando passa da potência ao ato, a melhor das criaturas; há a alma que pertence à categoria da oposição e cai em tal estado de deficiência que, quando passa da potência ao ato, torna-se a pior das criaturas; e há enfim a alma que pertence à categoria mediana, voltando uma face para o bem e outra para o mal.
- Assim como existe entre as almas gradação e oposição, existe no seio das matérias corporais oposição e gradação, tendendo uma parte dessas matérias ao ponto mais elevado, outra ao ponto mais baixo e outra ao meio, segundo o princípio de que toda coisa retorna à sua origem — havendo matéria pura e alma pura, sendo a matéria pura o receptáculo da alma pura que é sua regente, e havendo matéria má e alma má, sendo a matéria má o receptáculo da alma má que é sua regente, e havendo ainda uma matéria mediana entre o puro e o impuro com a alma correspondente.
- A doutrina das três matérias corresponde às três categorias de corpos e de almas, exprimindo um esquema triádico — Bem, mistura, Mal — que, por sua vez, reabilita o esquema dualista
- Quando se pergunta como as almas más exteriorizam o mal fora de sua substância e por que os Portadores do Real ordenam a guerra contra elas e submetem as almas más ao bem, a resposta é que, neste mundo inferior que é o mundo onde existem apenas semblantes, os bons e os maus têm ambos a mesma forma e aparência, e os Portadores do Real trouxeram a ordem divina que quer que bons e maus coexistam entre as criaturas deste mundo até que os bons sejam separados dos maus.
- Jihâd — esforço no caminho de Deus; tem por fim a separação do que entra em confusão no mundo do semblante, da mistura entre luz e trevas; ver Ch. Jambet, Les ressources du shî'isme iranien et la paix, in Les Enjeux de la paix, dir. Pierre Chaunu, Paris, 1995, p. 229-248; ver também H. Corbin, L'idée du paraclet en philosophie iranienne, in Face de Dieu, Face de l'Homme, p. 347
- Khuliqa al-mu'min min nûr al-haqq wa idhâ amara al-haqq bi-hi 'arafa-hu — O crente foi criado da luz do Real e quando o Real o prova, ele O reconhece (Corão citado)
- Os maus serão separados dos bons em virtude do versículo corano: Eles os negaram por injustiça e arrogância e, no entanto, suas almas estavam certas (Corão 27:14)
- A fim de que, depois dos Enviados, os homens não tenham nenhum argumento a opor a Deus (Corão 4:165)
- Convoca ao caminho de teu Senhor, pela sabedoria e uma bela exortação (Corão 16:125)
- Contesta-os da mais bela maneira (Corão 16:125)
- A Convocação e a incumbência que os Portadores do Real impõem são destinadas aos puros, que em um primeiro momento decaem de sua constituição originária neste mundo por causa de aquisições irracionais e do cumprimento da iniquidade e das faltas, mas que, graças a essa Convocação e a essa incumbência — comparadas à natureza de um elixir que produz seus efeitos sobre um pedaço de cobre tornando-o ouro puro —, abandonam as aquisições irracionais e retornam à sua constituição originária.
- Fitrat — constituição originária do homem; não é nada mais do que sua criação segundo o Imperativo, seu ser à imagem do Imperativo; é a verdadeira religião (dîn) conforme à haqîqat, transmitida pela luz do Imã ao Profeta — cf. Kalâm-e Pîr, ed. Ivanow, p. 104 do texto persa
- O que advém aos maus da Convocação e dessa incumbência consiste no que diz o versículo corano: Não há Convocação para ele neste mundo, nem tampouco no outro (Corão 40:43)
- Diante da objeção de que o ato humano é limitado e que seria injusto receber por ele uma punição ilimitada da Senhoria eterna, a resposta é que uma falta limitada não é punida pela Senhoria eterna com um castigo ilimitado, mas que, assim como as almas puras recebem a recompensa de sua natureza realizada e permanecem eternamente na alegria, no bem-aventurança e no prazer sem fim, as almas dos maus recebem seu castigo por sua natureza realizada e permanecem eternamente numa imensa infelicidade.
- Por meio das provas e argumentos precedentes estabelece-se que o mal não existe na Instauração primordial e que o bem e o mal não possuem dois princípios, sendo uma enorme absurdidade e uma impiedade evidente afirmar que Yazdân é o princípio da luz e do bem e Ahriman o princípio das trevas e do mal, pois toda vez que se introduz essa oposição, os dois se tornam como dois adversários que precisam de um juiz acima deles.
- Yazdân — princípio da luz no dualismo zoroastrista, retomado criticamente
- Ahriman — princípio das trevas no dualismo zoroastrista, retomado criticamente
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