4.4 Deus e o crime
BOTTÉRO, Jean. Au commencement étaient les dieux.
Deus e o crime
1. Segundo a Bíblia, o crime é um hábito inveterado do homem, que ritmou e comandou desde o início sua mais antiga história, a era mítica imaginada por várias mitologias antigas, das origens do mundo até o momento em que, por retoques mais ou menos amplos ou brutais, a imagem do universo e do homem chegou ao estado conhecido pela memória universal e passou a funcionar como sempre funcionou desde então.
2. O primeiro Homem, incitado por sua Mulher, enganada pela Serpente, desobedeceu a Deus e comeu o Fruto proibido, insubordinação tida por ato criminoso monstruoso, verdadeira revolta, a julgar pelo castigo terrível e definitivo que acarretou, com a Mulher condenada para sempre às dores do parto e à tirania do Homem e este a subsistir apenas à custa de um trabalho extenuante (Gênesis III).
3. Dos primeiros filhos do casal, expulso para sempre de sua morada beatífica de origem, Caim assassina por ciúme o irmão Abel e é também expulso e condenado a uma vida errante e temerosa (Gênesis IV, 1ss).
4. Entre os descendentes do assassino surge uma espécie de bruto, Lamec, que se gaba de matar um homem por um simples ferimento e uma criança por um arranhão, sete vezes mais sanguinário que seu pai Caim (Gênesis IV, 23s).
5. Ao longo das gerações o crime se difunde por toda parte, a tal ponto que Deus, como que decepcionado, constata a perversidade dos homens estendida a toda a terra, incapazes de ruminar outra coisa senão maus desígnios (Gênesis VI, 6), e resolve aniquilá-los pelo Dilúvio, excetuando apenas o único justo e irrepreensível, Noé, salvo do cataclismo com sua família em sua arca flutuante (Gênesis VI, 15-VIII).
6. Passado o Dilúvio, Cam, segundo filho do herói, ultraja gravemente o pai, segundo as concepções da época, ao contemplá-lo nu, estirado em sua embriaguez, curiosidade malsã que devia constituir por si só um novo crime e um atentado imperdoável, a ponto de Noé amaldiçoar o culpado e fazer dele o pai de gerações de escravos (Gênesis IX, 20s).
7. Os homens, novamente espalhados pela terra, tramam então nada menos que desafiar o próprio Deus, elevando-se a seu nível por meio de uma torre que lhes permitirá subir até os céus, simples começo de suas proezas maléficas, como se nada mais pudesse freá-los na subversão de todos os interditos e no progresso do crime, e Deus, confundindo e multiplicando suas línguas, condena-os a não mais se entenderem, o que os predispõe a agredir-se e matar-se sem fim (Gênesis XI).
8. Essa sucessão arcaica, original e obstinada de crimes passados, prenhe de crimes futuros sem número nem termo, leva Deus, como que desencorajado diante dessa raça malfazeja e perversa, a preparar para si uma comunidade restrita que seria, como Noé em seu tempo, a única justa, inocente e irrepreensível, seu povo particular, que jamais deveria decepcioná-lo, e por isso, no início da era histórica, vai buscar ao longe Abraão e o conduz ao lugar onde quer vê-lo viver e proliferar para tornar-se o pai do povo segundo seu coração (Gênesis XII, 1s).
9. Antes mesmo da inauguração da história, o passado mais antigo do mundo, na perspectiva bíblica, não passa de uma série de catástrofes, comandadas a cada vez por crimes e sua repressão, a reação legítima de Deus diante das celeradezas humanas.
10. As coisas não pararam aí, e o relato bíblico registra ainda, nos tempos históricos, uma nova e interminável série de malfeitos criminosos, ora duramente castigados, ora sem punição discernível, até no próprio povo de Javé, como as abominações de Sodoma e sua destruição (Gênesis XIX), o ciúme de Sara, que obriga Abraão a expulsar Agar, mãe de seu filho Ismael, sob o risco de condená-los à morte pelo afastamento e abandono (Gênesis XXI, 9s), o estupro de Dina por Siquém e a cruel vingança de Simeão e Levi (Gênesis XXXIV), longa litania prolongada até o fim da Bíblia e da qual não escapou nem o rei ideal, o nobre e sedutor Davi, que, depois de ver do alto de seu terraço uma belíssima mulher banhando-se, desejá-la violentamente e engravidá-la, livrou-se hipocritamente do marido mandando colocá-lo no centro de uma batalha sangrenta (II Samuel XI).
11. Tudo se passa como se, desde a primeira revolta criminosa do pai de todos os homens, o Malfeito, levado com demasiada frequência ao superlativo que é o Crime, tivesse entrado na natureza humana, tornando-se conatural e infectando todos os homens, até os do povo escolhido, como observará muito mais tarde Qohélet, filósofo que via as coisas do alto, ao afirmar que Deus fizera o homem reto, mas foram os homens que buscaram toda sorte de perversões (Eclesiastes VII, 29).
12. O vocábulo e a ideia dominantes na Bíblia não são, porém, os de crime, mas os de pecado, de alcance completamente diferente, como se, para além do horror, da selvageria, da violência, do excesso e da vergonha de cada crime relatado, a verdadeira razão de sua reprovação fosse seu caráter de pecado, recusa de obedecer a Deus, rebelião contra sua vontade e portanto contra sua pessoa, de modo que a gravidade do crime se mede não por seu caráter ignóbil, insuportável e atroz como espetáculo condenável, mas pelo lado de Deus, a quem a criatura simples e miserável resiste, contra quem se insurge e a quem desafia, sendo a ação criminosa condenada primeiro por Deus enquanto rebelião e pecado, como mostra o enviado de Javé, intransigente defensor da fidelidade a ele, que censura violentamente Davi, rei embora, consumados o adultério e o assassinato do marido, perguntando-lhe por que, desprezando Deus, cometera o que para Ele é um crime (II Samuel XII, 9s).
13. A razão está em que a religião de Israel, da qual a Bíblia é ao mesmo tempo a carta de fundação e o dossiê histórico, via a questão sob um ângulo bastante particular.
14. Os israelitas eram semitas e pertenciam portanto a um grupo cultural determinado, um dos mais antigos conhecidos, atestado na Mesopotâmia o mais tardar desde o início do III milênio por uma língua própria que revela necessariamente uma cultura própria, e, do ponto de vista religioso, o que se sabe deles sugere que tinham uma ideia bastante elevada da natureza e do papel desse mundo sobrenatural que toda religião, de um modo ou de outro, sobrepõe ao nível visível e palpável para fornecer a razão de ser da existência humana e de seus grandes movimentos.
15. Na Mesopotâmia, via-se nesse mundo sobrenatural a projeção engrandecida da classe política, que ali sempre tivera forma estritamente monárquica, de modo que os deuses haviam criado os homens para desempenhar diante deles o papel dos súditos diante do rei, provendo com seu trabalho todas as suas necessidades, análogas às humanas, como comida e bebida, vestes e adornos, edifícios de morada e uma existência agradável e festiva, assegurada a suas estátuas e imagens nos templos, essência do culto que lhes era prestado e única exigência dos deuses, que, por outro lado, desempenhavam diante dos homens o papel do soberano e de seus auxiliares diante dos súditos, emanando de sua vontade toda obrigação ou proibição, cuja infração tornava o transgressor passível de um castigo sob a forma dos aborrecimentos, males e desgraças que de repente e inexplicavelmente vêm escurecer ou transtornar a existência e que encontravam aí sua justificação.
16. Da primeira religiosidade dos israelitas, surgidos apenas por volta de meados do II milênio a.C., tem-se uma ideia bastante vaga, e, à sua maneira mais modesta e menos sistematizada, dada sua condição de nômades bastante rústicos, eles provavelmente evocavam vagamente e em pequeno formato o amplo e multicolorido afresco do panteão e do sistema mesopotâmicos.
17. No início do século XIII a.C., um deles, conhecido como Moisés, quis ao mesmo tempo dar-lhes uma terra própria, a chamada Palestina, e ligar esse novo destino nacional a uma forma religiosa inédita elaborada em sua alma aberta e ardente, preconizando, num mundo universalmente politeísta, não se ocupar dos outros deuses, mas apegar-se a um só, chamado Javé, e permanecer-lhe para sempre exclusivamente fiel, cabendo a Ele proteger seu povo ainda débil e assegurar o êxito de suas ambições territoriais e políticas, deus reservado aos israelitas que, para mantê-lo ainda mais apartado das inúmeras divindades veneradas pelos povos, não devia ser figurado nem representado por imagens ou estátuas, bastando saber que existia e ajudaria seu povo, e recorrendo a uma antiga formalidade usual entre os semitas, Moisés imaginou e realizou entre Javé e o povo um verdadeiro pacto de Aliança, pelo qual o povo se comprometia a permanecer exclusivamente apegado a seu deus e este a sustentá-lo contra tudo e contra todos.
18. Nova e admirável invenção de Moisés, em resoluta contracorrente de tudo o que se fazia em toda parte, mesopotâmicos e outros semitas inclusive, o apego do povo a seu deus não se manifestaria por um serviço de bens e gêneros materiais, como templos magníficos, vestes e adornos preciosos e oferendas diárias de alimentos e outros subsídios, mas apenas pela conduta, pela obediência total a uma espécie de código moral como o conservado na Bíblia sob o nome de Decálogo, que proclama Javé como único Deus, proíbe outros deuses, a fabricação de ídolos e a prostração diante deles, porque Javé é um deus exclusivo, proíbe invocar seu nome para uma mentira, manda santificar o dia de repouso, o sétimo, reservado a Javé depois de seis dias de trabalho, honrar pai e mãe, e proíbe matar, cometer adultério, roubar, dar falso testemunho e cobiçar a casa, a mulher, o servo ou qualquer bem do semelhante (Êxodo XX, 2-17).
19. Essa polarização ética de toda a atividade religiosa desenvolveu um sentimento agudo das obrigações de cada um e de seu alcance, e, numa época em que o mundo, e muito menos esse povo singular, ainda estava longe de ser desencantado, em que a religião recobria todo o campo da atividade humana e em que o sobrenatural era sentido como profundamente mesclado à história do povo, toda infração ao código moral e às suas implicações de detalhe foi avaliada e julgada desde logo pelo critério fundamental que a ligava à vontade de Deus e às obrigações decorrentes da Aliança e de seu pacto fundador, sendo regular e conforme ao que Deus esperava de seu povo quando conforme a essa vontade e a esse código, e constituindo antes de tudo um pecado, em qualquer domínio da conduta, quando não conforme, o que a tornava objeto primeiro de reprovação e condenação.
20. A prioridade desse critério e dessa proscrição foi consideravelmente reforçada ao longo dos séculos na consciência dos israelitas pela evolução de seu próprio destino e pela explicação que dele davam os fiéis extremados de Javé, os chamados profetas, por vocação ferozes defensores do integrismo religioso, pois o povo de Israel, depois de um momento de glória, dilacerado por terríveis dissensões internas e tristes fracassos políticos, via-se ainda vítima regular e impotente das implacáveis invasões conquistadoras dos formidáveis mesopotâmicos, e os profetas repetiam que isso era apenas o castigo prometido por Javé às incessantes e humanamente inevitáveis transgressões acumuladas pelos israelitas contra seu Deus, de modo que o egoísmo e a rapacidade de uns contra os outros, a preferência pelos prazeres mais baixos, as maldades e atentados cada vez mais enormes, a perversão do espírito para justificar a má conduta, o orgulho e a vaidade, a desonestidade, as injustiças e outros crimes eram condenados antes de tudo por Deus, como insultos e pecados contra Ele.
21. O discurso profético lança maldições contra os que juntam casa a casa e anexam campo a campo até faltar espaço e ficarem sozinhos no meio do país, contra os que se levantam cedo para correr atrás de bebidas fortes e se demoram ao crepúsculo aquecidos pelo vinho entre liras, harpas, tamborins, flautas e libações de suas comilanças, contra os que arrastam o Crime e o malfeito como com cordas de bois e cabos de carro, contra os que chamam bem ao mal e mal ao bem, disfarçando trevas em luz e luz em trevas, amargor em doçura e doçura em amargor, contra os sábios a seus próprios olhos e prudentes segundo si mesmos, e contra os campeões em entornar vinho e os valentões em misturar bebidas, que absolvem o criminoso por uma gratificação e negam seu direito ao inocente (Isaías V, 8s).
22. Esse era o tom do discurso profético, capaz de ocupar todo o campo da consciência implantando nele a ideia central do pecado, de modo que, quaisquer que fossem os efeitos propriamente judiciais dos delitos e crimes da alçada do poder civil, assunto pouco abordado pela Bíblia, a conduta passou a ter um único juiz que contava, supremo e sem recurso, o próprio Deus, e o peso, o perigo, a nocividade e a abominação dos malfeitos e crimes cediam lugar à sua ignomínia essencial, a recusa de obedecer-Lhe, que O obrigava, por ser absolutamente justo, a vingar-se infalivelmente, infligindo Ele próprio a seus autores o castigo merecido, a desgraça.
23. As coisas chegaram a tal ponto que um verdadeiro crime, aos olhos modernos, podia ser tido por ação admirável e heroica quando ordenado por Deus, como na história do sacrifício do filho exigido de Abraão, a quem Deus, para pô-lo à prova, ordenou que tomasse o filho único e amado e o oferecesse em holocausto na montanha indicada (Gênesis XXII, 1s), pois, embora Deus quisesse apenas testar a obediência e a devoção de Abraão, este partiu imediatamente, sem pestanejar, para executar essa ordem atroz, e, se seu braço foi detido no momento em que erguia a faca para matar o filho, nem por isso deixou de obedecer na hora, sem uma palavra e sem hesitação, a uma ordem objetivamente criminosa.
24. Tudo se passa como se na Bíblia, de ponta a ponta, a única unidade de peso na balança das ações humanas fosse não o sentimento do Direito, escrito ou não escrito, mas a Vontade de Deus, e como se o crime, por mais horrível, desumano, odioso ou atroz que fosse, tivesse adquirido e conservado seu significado fundamental de ato a condenar e evitar sobretudo por sua qualidade de pecado.
25. Incorporada em sua mensagem pelo cristianismo, na própria raiz da civilização ocidental, essa convicção pesou muito na formação da consciência e nesse extraordinário senso do pecado que a invadiu, desviando-se com demasiada frequência para um certo juridismo muito distante da religiosidade autêntica.
