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BOTTÉRO

Jean Bottéro (1914–2007)

Historiador, assiriologista e sacerdote dominicano secularizado, Jean Bottéro foi diretor de estudos de história e arqueologia do Antigo Oriente Próximo na École Pratique des Hautes Études (EPHE, IVª Seção: Ciências Históricas e Filológicas), em Paris. Considerado uma das máximas autoridades mundiais no deciframento e na interpretação das tabuletas em escrita cuneiforme sumérias e acadianas, destacou-se por integrar a filologia semítica comparada à história das mentalidades e à antropologia religiosa, reconstruindo a cosmovisão babilônica sobre os deuses, o destino humano, o mal e as origens da culinária histórica.

1. Obras Monográficas e Tratados Fundamentais

  • BOTTÉRO, Jean. La Religion babylonienne. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1952. (Coleção “Mythes et religions”).
    • Foco: Síntese inaugural sobre a estrutura do panteão mesopotâmico, as práticas cúlticas e o sentimento religioso da Mesopotâmia antiga.
  • BOTTÉRO, Jean. Naissance de Dieu: La Bible et l'historien. Paris: Gallimard, 1986. (Coleção “Folio Histoire”).
    • Foco: Análise histórica e crítica da gênese do monoteísmo bíblico hebraico a partir do substrato mitológico e literário do Oriente Próximo antigo.
  • BOTTÉRO, Jean. Mésopotamie: L'écriture, la raison et les dieux. Paris: Gallimard, 1987. (Coleção “Bibliothèque des histoires”).
    • Foco: Obra seminal que examina a invenção da escrita cuneiforme, a lógica da adivinhação como ciência empírica indutiva e a teologia da criação na civilização babilônica.
  • BOTTÉRO, Jean. Babylone et la Bible: Entretiens avec Hélène Monsacré. Paris: Les Belles Lettres, 1994.
  • BOTTÉRO, Jean. Babylone: À l'aube de notre culture. Paris: Gallimard, 1994. (Coleção “Découvertes Gallimard”).
  • BOTTÉRO, Jean. La Plus Vieille Cuisine du monde: Des banquets mésopotamiens à la table romaine. Paris: Louis Audibert, 2002.
    • Foco: Estudo e reconstituição filológica dos tratados culinários cuneiformes de Yale (c. 1750 a.C.), os mais antigos registros gastronômicos da humanidade.
  • BOTTÉRO, Jean. Au commencement étaient les dieux. Paris: Tallandier, 2004.

2. Edições Críticas, Traduções de Fontes Cuneiformes e Parcerias

  • BOTTÉRO, Jean; KRAMER, Samuel Noah. Lorsque les dieux faisaient l'homme: Mythologie mésopotamienne. Paris: Gallimard, 1989. (Coleção “Bibliothèque des histoires”).
    • Foco: Monumental edição anotada e traduzida diretamente das fontes sumérias e acadianas dos grandes mitos da criação, do dilúvio e do destino (Enuma Elish, Atrahasis, Descida de Ishtar aos Infernos).
  • BOTTÉRO, Jean (Trad. e Coment.). L'Épopée de Gilgamesh: Le grand homme qui ne voulait pas mourir. Paris: Gallimard, 1992. (Coleção “L'aube des peuples”).
    • Foco: Tradução integral e crítica da versão padrão babilônica da epopeia de Gilgamexe atribuída ao escriba Sin-liqe-unninni.
  • BOTTÉRO, Jean; VERNANT, Jean-Pierre; CLARISSE, Denis (Orgs.). Divination et rationalité. Paris: Éditions du Seuil, 1974.
    • Foco: Exame comparativo da adivinhação na Grécia e na Mesopotâmia, destacando o ensaio de Bottéro sobre a consulta oracular e os presságios como método lógico de conhecimento.
  • BOTTÉRO, Jean; HERRENSCHMIDT, Clarisse; VERNANT, Jean-Pierre. L'Orient ancien et nous: L'écriture, la raison, les dieux. Paris: Hachette, 1996.

3. Traduções Principais em Línguas Ibéricas

  • BOTTÉRO, Jean. Nacimiento de Dios: La Biblia y el historiador. Traducción de Antonio Piñero. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1989.
  • BOTTÉRO, Jean. La religión más antigua: Mesopotamia. Traducción de Jorge Viñes. Madrid: Editorial Trotta, 2001.
  • BOTTÉRO, Jean; KRAMER, Samuel Noah. Cuando los dioses hacían de hombres: Mitología mesopotámica. Traducción de Juan Vivanco. Madrid: Ediciones Akal, 2004.
  • BOTTÉRO, Jean. La cocina más antigua del mundo: La gastronomía en la antigua Mesopotamia. Traducción de Joaquín Rovira. Barcelona: Tusquets Editores, 2005.
  • BOTTÉRO, Jean; HERRENSCHMIDT, Clarisse; VERNANT, Jean-Pierre. O Oriente antigo e nós: A escrita, a razão, os deuses. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Discurso Editorial, 1999.
  • BOTTÉRO, Jean. No começo eram os deuses. Tradução de Maria do Rosário Pedreira. Lisboa: Teorema, 2006.

4. Eixos Teóricos e Metodologia Histórica

  • A Razão Adivinatória e o Nascimento da Epistemologia: Bottéro demonstrou que a adivinhação mesopotâmica (especialmente a hepatoscopia, leitura do fígado animal) não operava como magia irracional, mas como um sistema formal de raciocínio dedutivo e empírico. Os babilônios interpretavam os fenômenos naturais como uma linguagem escrita que os deuses traçavam no universo, compilando vastas enciclopédias de causas e efeitos concebidas como precursores da lógica taxonômica.
  • Antropologia da Criação no “Atrahasis”: Esclareceu que, na concepção mesopotâmica, a humanidade não foi criada à imagem e semelhança dos deuses por amor benevolente, mas concebida especificamente para o trabalho penoso (substituindo os deuses menores nas tarefas agrícolas e de escavação dos canais) e para o sustento dos templos por meio dos banquetes sacrificiais.
  • A Consciência Trágica da Mortalidade: Ao analisar a Epopeia de Gilgamexe e o Poema do Justo Sofredor (Ludlul Bel Nemeqi), salientou o pessimismo existencial babilônico, no qual não há recompensa de salvação na vida além-túmulo (o submundo ou Kurnugia é um reino de cinzas e trevas eternas), restando ao homem buscar a sabedoria e a honra na ação concreta terrena.
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