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CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. São Paulo: Companhia das Letras, 1988/1991.

1. Entre os deuses vigora uma contabilidade rigorosa de trocas que se ramifica a cada época, e assim Ártemis, que servira de assassina a Dioniso contra Ariadne, um dia descobriria com espanto precisar do deus impuro e promíscuo para matar por ela, deixando-lhe a escolha da arma.

2. Aura, moça montanhesa veloz como o vento, caçadora de javalis e leões que desprezava Afrodite e queria apenas virgindade e força, sonhou certo dia, dormindo sobre ramos de louro, com um Eros bárbaro oferecendo a Afrodite e Adônis uma leoa capturada com um cinto encantado, na qual ela própria se reconhecia como presa domada, despertando angustiada por se ver pela primeira vez dividida em caçadora e caça e furiosa com Dafne por lhe enviar um sonho de meretriz, antes de esquecê-lo.

3. Num banho de Ártemis nas cascatas do Sangário, Aura, depois de observar com olhar cruel o corpo da senhora, comparou os seios macios e as faces rosadas da deusa ao peito rijo de Atena e ao próprio corpo tenso como corda de arco, sugerindo que Ártemis seria mais apta a sofrer as flechas de Eros e que ninguém a julgaria inviolável, e a deusa, com olhos de brilho assassino, saiu da água e desapareceu em silêncio.

4. Ártemis recorreu a Nêmesis, que, acostumada a vê-la insultada por homens ou mães como Níobe, decidiu não petrificar Aura, sua parente da estirpe dos Titãs, mas privá-la da virgindade pelas mãos de Dioniso, e, com Ártemis de acordo, foi açoitá-la com seu chicote de serpentes, submetendo seu corpo à roda da necessidade.

5. Dioniso vinha de uma aventura inédita com Palene, moça guerreira com quem teve de lutar diante do pai incestuoso e de uma multidão, numa luta longa em que desejava mais tocar do que vencer aquele corpo untado, chegando a ofegar como mortal e a ser derrubado por ela, até que, com o placar empatado, o pai Síton lhe concedeu a vitória e foi transpassado pelo tirso do deus, que ofereceu à moça a arma ensanguentada como presente de amor antes das núpcias.

6. Durante as festas, Dioniso consolou Palene pela morte do pai mostrando-lhe as cabeças roídas de seus vinte pretendentes e sugerindo que seu verdadeiro pai fosse um deus, mas já sentia impaciência diante da amante prestes a tornar-se mais uma seguidora fiel e ansiava por reviver a excitação única de lutar com uma mulher desejada e indomável, por um corpo inalcançável.

7. Sozinho nas montanhas, Dioniso fantasiou uma mulher forte e esquiva capaz de feri-lo, e Eros fez-lhe pressentir num sopro de vento Aura, mais bela e hostil que Palene, cuja coxa branca entreviu na mata deixando-o derretido e impotente como nunca, até que uma hamadríade lhe revelou que só a possuiria na floresta, amarrada de pés e mãos, e sem lhe deixar presentes.

8. Em sonho, Ariadne apareceu a Dioniso para censurar-lhe o hábito de abandonar suas mulheres como a abandonara e de esquecer Palene, julgando Teseu melhor que ele, e ironicamente lhe deu um fuso para presentear a próxima vítima, para que se dissesse que ela dera o fio a Teseu e o fuso a Dioniso.

9. Num dia de calor, Dioniso transformou em vinho a água do riacho onde Aura bebeu, e, enquanto ela dormia entorpecida, escondeu suas armas, amarrou-lhe pés e mãos e a possuiu, lembrando nervosamente a caçadora Nicaia, que matara o pastor Himno por declarar-lhe amor, enquanto a terra celebrava a união e Aura sonhava estar entrelaçada a Afrodite e Adônis, sentindo por suas veias um prazer alheio e curvando a cabeça como a leoa capturada, consentindo na própria ruína, antes que o deus lhe devolvesse as armas, a desamarrasse e partisse.

10. Ao despertar nua e com o cinto desatado, Aura enlouqueceu e desceu ao vale matando pastores, caçadores e vinhateiros seguidores de Dioniso, açoitando e lançando ao rio a estátua de Afrodite, amaldiçoando os deuses, desprezando Ártemis por não protegê-la e desejando arrancar do ventre o sêmen estranho e fazer o amante comer o próprio filho, oferecendo-se em vão a uma leoa que não a julgou presa digna.

11. Ártemis apareceu para zombar do passo pesado de grávida de Aura e perguntar pelos presentes de Dioniso, e voltou a escarnecer dela durante o longo parto de gêmeos, enquanto Dioniso, orgulhoso mas temendo que Aura os matasse, chamava Nicaia, a caçadora que ele também enganara com vinho, violara dormindo e abandonara, mãe de sua filha Teletê, “iniciação”, “realização última”.

12. A repetição é para um deus sinal de majestade e selo da necessidade, e Nicaia, outrora assassina de um pastor inofensivo, agora tecendo como mulher pobre, podia consolar-se ao ver outra caçadora em igual destino e reconhecer-se parte de uma ordem divina, cabendo-lhe tornar-se cúmplice do deus para salvar um dos gêmeos de Aura, destinado, como sua filha Teletê, ao mundo dos templos, navios e mercados.

13. Aura ofereceu os recém-nascidos ao vento e a uma leoa para que fossem destruídos, mas uma pantera os lambeu e alimentou enquanto duas serpentes guardavam a gruta, até que ela lançou um dos gêmeos ao ar e o despedaçou, e Ártemis, aterrorizada, salvou o outro, segurando pela primeira vez um bebê nos braços e fugindo para a floresta.

14. Sozinha, Aura lançou arco e aljava no Sangário e mergulhou para morrer, enquanto Ártemis entregou o menino sobrevivente a Dioniso, que levou os dois filhos das moças violadas no sono ao lugar dos mistérios, onde Atena o apertou ao peito virgem e o confiou às Bacantes de Elêusis, sendo chamado Iaco, o novo ser aparecido em Elêusis, cuja visão tornava felizes os afortunados e deixava os outros sem sequer saber o que é felicidade.

15. Encerradas as errâncias e conquistas, Dioniso subiu ao Olimpo levando uma guirlanda em memória de Ariadne e sentou-se à mesa dos Doze ao lado de Apolo.

16. O primeiro amor de Dioniso foi o menino Ampelo, companheiro de brincadeiras e lutas eróticas às margens do Pactolo, por quem o deus sentia ciúme de qualquer sátiro e com quem se banhava e inventava jogos sempre vencidos pelo menino, que o imitava na coroa de serpentes, na túnica malhada e no trato com feras, recebendo dele apenas a advertência de temer os chifres do touro cruel.

17. Depois de ver como presságio um dragão chifrudo imolar um cervo num altar de pedra, sentindo dor e vontade de rir como se o coração se partisse, Dioniso continuou a caçar e a elogiar o mau tocador de flauta Ampelo, que, julgando todas as feras amigas, montou um touro sedento com rédea e chicote de junco, experimentou uma exaltação inédita e foi derrubado quando Selene, ciumenta, enviou um moscardo, morrendo com o pescoço quebrado e arrastado pelo chifre do animal.

18. Dioniso encontrou Ampelo ensanguentado e ainda belo, incapaz de chorar por natureza e de segui-lo ao Hades por ser imortal, prometendo exterminar todos os touros e ouvindo de Eros disfarçado de sátiro que só um novo amor cura a ferida do amor, mas, chorando enfim, revelou que algo mudaria sua natureza e a do mundo.

19. As Horas, consultando na casa de Hélio as tábuas de Harmonia inscritas pela mão primordial de Fanes, interpretaram a quarta, com o Leão, a Virgem e Ganimedes com a taça, como a transformação de Ampelo em videira, que daria alegria ao mundo após fazer chorar o deus que não chorava, e Dioniso, consolado, espremeu os primeiros cachos nascidos do corpo do amado e lambeu dos dedos o vermelho que provava que nem na morte ele perdera sua cor rosada.

20. Nenhum outro deus, nem Atena com sua azeitona sóbria nem Deméter com seu pão nutritivo, possuía algo comparável a esse licor, aquilo de que a vida carecia e esperava: a embriaguez.

21. Dioniso irrompeu em Naxos diante da abandonada Ariadne com Eros e suas Bacantes, vindo da Ática, onde revelara o vinho aos homens e deixara o corpo de outra moça abandonada, Erígone, enforcada numa árvore, cuja história, sem moldura régia nem cadeia de poetas, só seria contada muito depois por dois egípcios da Antiguidade tardia, Eratóstenes e Nono.

22. O segredo do pão revelado por Deméter na Ática foi celebrado no lugar sagrado de Elêusis, ao passo que o do vinho, revelado por Dioniso a gente simples, foi comemorado apenas por uma cerimônia de máscaras, bonecas e balanços, com algo obscuro e uma aura lúdica ao mesmo tempo infantil e sinistra.

23. Dioniso chegou como Hóspede Desconhecido à casa pobre do velho jardineiro ático Icário, que o acolheu como Abraão acolheu o anjo, guardando na mente um lugar vazio para o hóspede, origem de todos os dons, e, impedindo Erígone de ordenhar a cabra para ele, revelou a Icário o vinho, bebida mais poderosa que o pão por despertar e adormecer e dissolver as dores do coração, incumbindo-o de difundi-lo como Triptólemo difundira o grão.

24. Se Dioniso seduziu Erígone resta incerto, sobrevivendo apenas um verso de Ovídio sobre a tapeçaria em que Aracne, desafiando Atena, representou as vergonhas dos deuses, Europa, Leda, Dânae, Astéria e Erígone enganada por uvas falsas, além da notícia de um filho, Estáfilo, “cacho de uva”, atribuído também a Dioniso e Ariadne.

25. Icário percorreu a Ática em sua carroça difundindo a planta, até que alguns pastores com quem bebia caíram num sono profundo e os outros, suspeitando envenenamento e roubo de ovelhas, o mataram a golpes de foice, pá, machado e pedra, terminando com um espeto de cozinha.

26. Agonizando, Icário lembrou-se de ter matado em fúria uma cabra que comia as folhas das videiras que cultivava com amor, compreendendo então que a cabra era ele mesmo.

27. Icário esfolara a cabra, vestira sua pele e improvisara com outros camponeses uma dança em torno do cadáver, gesto que, sem que ele o soubesse, foi a origem da tragédia e que pressentiu ligado à própria morte, cercado pelos pastores que o golpeavam cada um com uma arma.

28. A aparente contradição sobre a origem da tragédia, entre Eratóstenes, que fala de dança em torno do bode, e Aristóteles, que fala de canto e dança dos bodes, dissolve-se ao reconhecer que para vestir-se de sátiro é preciso antes matar e esfolar o bode, fase decisiva omitida por Aristóteles, de modo que Eratóstenes, que também calculou com precisão a circunferência da terra, definiu com concisão o processo em três fases, matar o bode, esfolá-lo fazendo um odre e dançar ao seu redor pisando o odre vestido com sua pele, reduzindo um processo longo e obscuro a poucos elementos miseráveis capazes de liberar enorme poder.

29. Erígone, a mais pobre e desconhecida das mulheres que subiram ao céu, chamada a errante e a mendiga, foi guiada por seu cão Maera, futuro Sírio, até o poço sob a grande árvore onde jazia o corpo do pai desaparecido havia meses, sepultou-o e enforcou-se na árvore, enquanto o cão velou os dois corpos até morrer de fome.

30. Uma epidemia de suicídios de moças sem motivo aparente tomou Atenas, como os de estudantes na Alemanha de Wedekind, e o oráculo de Apolo prescreveu uma cerimônia em honra da filha do camponês enforcada sobre o poço, centrada num balanço, com bonecas e máscaras penduradas nas árvores a oscilar ao vento.

31. Os assassinos de Icário fugiram para Ceos, devastada pelo calor da canícula de Sírio, e, por ordem de Apolo através de seu filho Aristeu, foram punidos, após o que começou a soprar o meltemi, vento fresco que torna possível a vida na Grécia e retorna todos os anos com a canícula.

32. Pasífae, Ariadne, Fedra e Erígone enforcam-se, mas é Erígone, não princesa, que sobe ao céu como a enforcada na constelação de Virgem, perto de Ariadne esposa de Dioniso, reconduzindo ao balanço, imagem do “balanço de ouro no céu” do Ṛgveda, a curva solsticial em que o sol, no limite de sua oscilação, arrisca perder o controle e volta como a moça ateniense empurrada por um sátiro, retorno que exige mortes, culpadas como as dos assassinos de Icário, mas antes uma vítima perfeitamente inocente, Erígone, cujo balanço se detém no puxão perpendicular da enforcada.

33. A árvore em que Erígone ficou pendurada é imensa e cobre a terra com ramos entre as constelações, e no céu ela segura uma espiga, recusando as uvas que trouxeram a morte ao pai e a ela, segundo as últimas palavras de Icário de que o doce Dioniso é inimigo de Erígone, órfã enforcada que recorda a morte não reabsorvida pela vida, errante no ar com os espíritos dos mortos, as bonecas e as máscaras.

34. Erígone é uma Ísis invertida pela lei mística, impotência total da órfã errante oposta à rainha celeste, embora também Ísis tenha mendigado em busca de Osíris, e no céu ambas se reúnem em Virgem, reconhecendo em Sírio o cão que as ajudou, Anúbis ou Maera, ambas tendo cortado uma mecha de cabelo em luto, mechas sobrepostas na Cabeleira de Berenice, perto de Virgem, enquanto Nono usa a mesma palavra para mecha e cacho de uva, sinal de que Dioniso não deixou Erígone escapar nem no céu, presente no dom do luto.

35. Nas Antestérias, Dioniso chegava a Atenas com os espíritos dos mortos e partia com eles, abriam-se os jarros de vinho novo levado ao seu santuário nos Pântanos, aberto um único dia impuro do ano com os demais templos fechados, e no concurso de bebida as pessoas bebiam em silêncio ritual, cada uma com seu jarro, em memória de Orestes, o matricida acolhido em Atenas sem ser recebido nem expulso, num dia em que vinho e sangue corriam juntos, os mortos mascarados mendigavam como Erígone e, à noite, após o juramento das damas de honra, Dioniso, marinheiro chegado ao Pireu num navio arrastado até a cidade, possuía a Basilinna no leito do rei-arconte.

36. Dioniso chega inesperadamente e possui, como mostrou o escândalo da Basilinna filha da hetera estrangeira Neera, que vendera o próprio corpo e o da filha antes que o marido proxeneta a casasse com um ateniense de antiga família, futuro rei-arconte, de modo que o deus foi acolhido por uma moça habituada a clientes e rufiões.

37. Invocado pelas mulheres de Argos como touro surgido do mar, Dioniso é o deus mais à vontade com as mulheres, acusado de revelar os mistérios para seduzir as mulheres alheias, presenteado com um peplo feminino pelas Cárites, sedutor contínuo que não se lança sobre elas como predador, mas reúne suas forças vitais, soberano de todo o úmido e ele próprio líquido, louco pelas mulheres segundo Nono, “aquele que toca a vulva” segundo a malícia de Clemente de Alexandria, senhor do sexo feminino para os siciônios, único deus que não precisa provar sua virilidade, nem na guerra, em que seu exército parece um bando ruidoso de moças.

38. O falo de Dioniso é mais alucinógeno que coercitivo, próximo de um fungo ou parasita, da erva tóxica escondida no tirso, sem a fidelidade da colheita do agricultor, crescendo não nos sulcos arados, mas na mata mais indomável, ponta metálica sob folhas inofensivas que não embriaga para promover o crescimento, mas é sustentada pelo crescimento como o vinho pela haste da taça, deus que solta e desata, inimigo das tecelãs, que no entanto um dia abandonam os teares para segui-lo, rio ouvido ao longe que um dia transborda e inunda tudo, como se a delimitação sóbria da existência fosse apenas um breve parêntese.

39. Poetas e mitógrafos narraram por séculos as variações da deusa vista no banho, Ártemis por Actéon, Atena por Tirésias, Perséfone por Zeus, mas só Nono, um século depois de Constantino, revelou o que precedia o banho, não apenas o calor do meio-dia, mas, no caso de Sêmele, a necessidade de lavar torrentes de sangue.

40. Conduzindo suas mulas por Tebas, a princesa Sêmele lembrou-se de um sonho em que um raio incendiava uma grande árvore sem tocar seu fruto verde, arrebatado por uma ave e costurado numa coxa masculina que, ao romper-se, fazia surgir uma figura com corpo de homem e cabeça de touro, sabendo ela que era a árvore.

41. Consultado por Cadmo, Tirésias prescreveu, como Sêmele previra, um sacrifício, o de um touro imolado por suas próprias mãos, cujo jorro de sangue encharcou seu ventre, cabelos e túnica, levando-a a correr entre os juncos até o rio Asopo, onde, nadando contra a corrente como desde a infância, esqueceu o sangue e o terror da noite.

42. Ferido de amor, Zeus contemplou do alto Sêmele nadando, esquecendo a terra para percorrer com os olhos sua pele molhada e seus seios que cravavam dardos na ferida aberta por Eros, julgando por um instante rever Europa, irmã de Cadmo, de quem ela partilhava o esplendor, e esperando impaciente a noite para ir ao seu leito.

43. À noite, Zeus deitou-se no leito de Sêmele sucessivamente como touro de membros humanos, pantera, jovem coroado de pâmpanos e enfim serpente, a forma mais perfeita, prolongando a união como ensaio da vida do deus a ser gerado, envolvendo seus seios com escamas, aspergindo-a de mel e embriagando-a com néctar enquanto brotavam videiras no leito e soavam tambores na escuridão, e a terra riu quando Dioniso foi concebido ao grito com que seria invocado por séculos: “Evoé!”

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