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CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. São Paulo: Companhia das Letras, 1988/1991.

1. Delos era uma rocha deserta à deriva no mar como um talo de asfódelo, lugar desprezado até por escravas que quisessem esconder sua vergonha e onde antes só as focas haviam parido, e ali, agarrada sozinha a uma palmeira, a mãe deu à luz Apolo, cujo nascimento tornou tudo ouro, do rio às folhas da oliveira, até as profundezas, ancorando a ilha ao fundo do mar para que nunca mais vagasse.

2. O Olimpo distingue-se de toda outra morada celeste pela presença de três divindades antinaturais, Apolo, Ártemis e Atena, guardiãs imperiosas do único que despojam as forças da natureza de seu véu e têm por elementos não a água ou a terra, mas a superfície esmaltada, o vazio, o contorno nítido e a flecha, deuses de algo autista que avançam envoltos na própria aura, olhando o mundo só para golpeá-lo e de resto contemplando a própria imagem num espelho invisível, serenos e abstraídos enquanto matam os filhos de Níobe sem que se agite uma dobra da túnica de Ártemis.

3. Sentada no colo de Zeus, a menina Ártemis enumerou seus desejos, virgindade eterna, muitos nomes, rivalidade com o irmão, arco e flechas, tocha e túnica curta, caça às feras, um séquito de ninfas, domínio sobre todas as montanhas e dispensa das cidades, tentando em vão agarrar a barba do pai, que riu e concedeu tudo, e partiu para as florestas de Creta e o oceano para escolher suas sessenta ninfas de nove anos.

4. A virgindade perene pedida por Ártemis é o sinal indomável do desapego, oposto à cópula, que é mistura com o mundo, e seu correlato, quando o divino toca o mundo, é o rapto, imagem da relação canônica entre o divino e um mundo amadurecido pelos sacrifícios, em que o contato já não é o da refeição partilhada, mas a invasão súbita e obsessiva que colhe a flor do pensamento.

5. A relação entre homens e deuses passou por dois regimes, a convivialidade e o rapto, aos quais se seguiu o regime moderno da indiferença, que supõe deuses já retirados, e no primeiro deuses e homens se sentavam juntos à mesa, como nas núpcias de Cadmo e Harmonia, reconhecendo-se e às vezes partilhando aventuras, até que veio a fase do Hóspede Desconhecido, inaugurada quando os filhos de Licáon, para testar a divindade de um trabalhador desconhecido que era Zeus, lhe serviram carne de criança misturada às vítimas, levando o deus a derrubar a mesa, que era o plano da eclíptica inclinado para sempre, e a desencadear o dilúvio.

6. Depois desse banquete, Zeus raramente apareceu como Hóspede Desconhecido, papel herdado por outros deuses, e passou a manifestar-se na terra pelo rapto, sinal do poder avassalador e da capacidade residual dos deuses distantes de invadir mentes e corpos mortais, ao mesmo tempo posse e possessão, que, perdida a familiaridade convivial e empobrecido o contato sacrificial, expôs a alma humana a uma violência, perseguição amorosa e aguilhão obsessivo de que é tecida a mitologia.

7. Os doze deuses do Olimpo aceitaram pela primeira vez aparecer inteiramente humanos, renunciando à abstração, às cabeças animais, ao irrepresentável, ao monstruoso e às pedras caídas do céu, assumindo uma pele fresca e polida ou um calor irreal e um corpo de músculos e veias visíveis.

8. Essa mudança trouxe nova exaltação e novo terror, pois o disfarce humano num mundo humano, último e mais ousado depois de todas as metamorfoses, arriscava que a divindade não fosse mais reconhecida em sua plenitude, expondo os deuses à familiaridade excessiva e à provocação, sobretudo os antinaturais, cuja identidade dependia do desapego, já que qualquer pastor podia julgar-se melhor flautista que Apolo, dando origem a um estado novo, o do deus incompreendido, zombado e diminuído, e a uma série de vinganças e castigos.

9. Teseu é criatura de Apolo, como mostram inúmeros sinais e homenagens em suas aventuras, pois Apolo foi o primeiro matador de monstros e Teseu lhe dedicou o cacho da fronte em Delfos, lançou o touro no templo de Apolo Delfínio, ali voltou com o ramo de oliveira antes de partir para Creta, sacrificou-lhe o touro de Maratona e dançou em Delos, berço do deus, a dança dos grous que encerrava o segredo do labirinto.

10. Apolo nada comenta e a única palavra que dirige a Teseu é a ordem de tomar Afrodite como guia, que envolve em aura erótica todas as suas aventuras, enquanto na expedição a Creta move os fios na sombra, num pacto secreto com Dioniso pela translatio imperii de Creta a Atenas, da passagem dos meandros secretos do labirinto à evidência frontal da acrópole, encoberta pelo melodrama humano de moças sacrificadas, amores, duelos, abandonos e suicídios.

11. A troca de guarda da expedição a Creta implica uma afinidade inconfessada entre Apolo e Dioniso, ambos traídos por mulheres mortais, Ariadne por Teseu e Corônis pelo mortal Ísquis, e ambos recorrendo à mesma assassina, Ártemis, para matá-las, assistindo em silêncio à sua morte, cumplicidade insuperável.

12. Apolo desejou Corônis ao vê-la lavando os pés no lago Bebeis, num choque súbito do qual quis logo se livrar, possuindo-a de modo violento, exaltante e rápido, numa colisão e não numa mistura como as de Dioniso, em que o abraço e o disparo da flecha se sobrepunham, como quando matou ao lançar o disco o amado Jacinto.

13. Grávida de Apolo, Corônis entregou-se ao estrangeiro arcádio Ísquis e o corvo branco encarregado de vigiá-la denunciou-a, tornando-se negro sob o olhar de ódio do deus, que pediu a Ártemis que a matasse, e ela a abateu com muitas outras mulheres, e, quando Corônis revelou ao morrer que o deus matara também o filho, Apolo, incapaz de salvá-la com sua medicina, arrancou da pira, entre as chamas que se abriram, o filho Asclépio, o curador.

14. As histórias de Ariadne e Corônis se respondem, pois não só a assassina foi a mesma, Ártemis, mas talvez também o sedutor, Teseu, que segundo um verso de Hesíodo suprimido por Pisístrato deixou Ariadne por Egle, filha de Panopeu, a quem uma estela de Epidauro chama também Corônis e mãe de Asclépio, nomes que evocam esplendor como o de Ariadne, sendo Panopeu cidade da Fócida com uma praça de dança dos tíades de Dioniso na rota para Delfos, povoada originalmente por flégios, como Corônis era filha de Flégias.

15. Corônis e Egle se geminam entre si e com Ariadne, apontando para um paralelo obscuro entre Dioniso e Apolo, já que Corônis e Egle eram nomes de amas de Dioniso em Naxos e Corônis o de uma moça no navio de Teseu, enquanto kornē designa o bico do corvo, a coroa, a popa do navio, o ápice da festa e o floreio que encerra o livro, e um vaso de Eutímides mostra Teseu raptando Corone, que brinca com seu rabo de cavalo, enquanto Helena e Antíope tentam detê-lo e Pirítoo protege suas costas.

16. Ariadne e Corônis preferiram um estrangeiro a um deus, sendo o Estrangeiro a força que o nome Ísquis designa e Teseu o forte por excelência, e Corônis é a mais irreverente das amadas dos deuses, que, grávida do sêmen puro de Apolo, cedeu à paixão pelas coisas distantes, condenada por Píndaro como loucura de quem despreza o que tem, uma fratura caprichosa na plenitude do céu grego que permite ao esmalte divino respirar com a naturalidade da literatura, livre da coerção do texto sagrado.

17. De Corônis restou um monte de cinzas, e anos depois também Asclépio foi reduzido a cinzas pelo raio de Zeus por ressuscitar um morto, e Apolo, desta única vez, chorou entre os Hiperbóreos lágrimas de âmbar que rolaram no Erídano, onde caíra Faetonte, entre o fedor de seu cadáver e os choupos negros, filhas do sol, que o pranteavam.

18. A morte pelo fogo atravessa como cicatriz as histórias de Apolo e Dioniso, de Sêmele a Corônis e Asclépio, pois o fogo divino devora quem ultrapassa o limite humano, traindo um deus, ressuscitando um morto ou vendo um deus sem o véu da epifania, limite em cujas bordas os dois deuses jogam, provocando nos homens o desejo de ir além de si mesmos, jogo que às vezes se volta contra eles, como Apolo escondendo suas lágrimas entre os Hiperbóreos e Abáris chegando do Norte montado na flecha do êxtase.

19. As vidas de Teseu e Héracles se entrelaçaram do início ao fim, desde o machado lançado pelo menino Teseu contra Héracles vestido de leão, sinal de hostilidade secreta depois submersa em admiração, passando pelo sonho de emulá-lo, pelo parentesco e por façanhas semelhantes como de mercenários que se encontram onde corre sangue, até a descida de Héracles ao Hades para libertá-lo, mas a distância entre ambos é imensa, como entre os koûroi gregos, tensos no instante anterior ao relaxamento, e as estátuas egípcias, rígidas na busca desesperada de um passado irrecuperável.

20. Héracles segue a roda zodiacal de seus trabalhos até os confins da terra, herói humano demais, cego como todos, sem jamais saber a que serviram seus trabalhos impostos por um rei mesquinho, ao passo que Teseu tem uma base, Atenas, e age por desafio, capricho, curiosidade e prazer, sendo ele quem introduz Héracles em Elêusis, pois no primeiro nível da vida heroica ambos se assemelham ao serem os primeiros, segundo Plutarco, a usar a força não para esmagar, mas como atletas em favor dos homens, cuidando da arte de aplicá-la, como Teseu inventor da luta.

21. Num nível superior, onde homens se chocam com deuses e reina a força divina, o herói precisa da ajuda de uma mulher, e aqui os caminhos se separam para sempre, pois Héracles vê as mulheres como parte do destino que sofre, violando-as, fecundando cinquenta numa noite ou tornando-se escravo de Ônfale, sem jamais se apropriar de sua sabedoria, desconfiado como se pressentisse que um presente feminino o mataria, inimigo irreconciliável da soberania feminina, o único a ficar no navio em Lemnos.

22. Teseu, ao contrário, vai sozinho às Amazonas, rapta sua rainha Antíope, fá-la apaixonar-se, desposa-a e tem com ela Hipólito, e ela morre heroicamente lutando a seu lado contra as próprias companheiras que vinham vingá-la, pois Teseu sabe que a mulher guarda o segredo que lhe falta e a usa até que traia pátria, povo, sexo e segredo, e por isso Héracles, estrangeiro impuro, só foi admitido em Elêusis por garantia de Teseu, segundo o dito “Nada sem Teseu”, iniciador de heróis sem o qual o herói rude jamais alcançaria a completude iniciática.

23. Héracles é contaminado e perseguido pelo sagrado, que o enlouquece e destrói, servindo de pretexto para um longo jogo dos deuses, enquanto Teseu lava as mãos após cada aventura e ousa usar os deuses para seu próprio jogo, sem que isso o torne simples oportunista, pois o fundador de Atenas foi o primeiro a ser ostracizado dela, morrendo no exílio empurrado de um penhasco sem que ninguém o notasse, embora seu jogo continue na cidade que nomeou, a mais sagrada e mais blasfema.

24. Héracles merece a compaixão dos modernos por ser uma das últimas vítimas do Zodíaco, besta de carga que deve arar os doze segmentos do céu, sem alcançar o desapego de si que o moderno exige e Teseu realiza ao misturar obrigação, capricho e desafio, tudo nele sendo obrigação até as queimaduras atrozes que o matam, numa seriedade lastimável em que raramente ri e às vezes suporta o riso alheio.

25. Os cercopes, ladrões zombeteiros capturados por Héracles e pendurados de cabeça para baixo numa trave sobre seus ombros, viram de perto suas nádegas negras como velho escudo de couro e, lembrando a profecia da mãe sobre o grande Traseiro Negro, riram sem parar, até que o herói, triste por nem os que castigava o levarem a sério, os soltou e riu com eles, ou, segundo outros, os matou.

26. Um acontecimento mítico pode significar uma mudança de paisagem, como em Argos, terra de secas e de pântanos lamacentos sem água corrente limpa, que a recebeu após o caso sangrento das Danaides, cinquenta filhas de Dânao que chegaram do Egito numa galera de cinquenta remos, fugindo por repulsa inata aos homens do casamento forçado com os cinquenta primos, filhos de Egito, e voltando à terra de sua antepassada Io, estrangeiras de pele escura e trajes bárbaros que pediam asilo com ramos de oliveira e ameaçavam enforcar-se nas estátuas dos templos se não o recebessem.

27. Pelasgo, temendo mais a peste de cinquenta enforcadas que a guerra, acolheu as Danaides, hesitante e embaraçado, até que os primos egípcios chegaram para buscá-las e se tentou disfarçar o rapto pirático em casamentos pacíficos, aos quais elas cederam escondendo punhais, e na noite de núpcias quarenta e nove mataram os maridos, exceto Hipermnestra, que deixou fugir Linceu, enquanto as irmãs lançaram as cabeças no pântano de Lerna e amontoaram os corpos às portas de Argos.

28. Purificadas por Atena e Hermes, as Danaides descobriram em torno da árida Argos fontes de água puríssima, sua maior façanha junto com o massacre, e, sem pretendentes que oferecessem presentes, foram dadas pelo pai como prêmio aos vencedores de corridas, quarenta e oito alinhadas como um coro na linha de chegada, no casamento mais rápido da história segundo Píndaro.

29. No Hades as Danaides reaparecem alinhadas despejando água em jarro furado, imagem da infelicidade do inalcançável para muitos, mas que Bachofen leu como paisagem primordial de juncos e pântanos do delta do Nilo, dom da água trazido à terra mais seca do Peloponeso, quase imagem de felicidade, semelhante ao gesto amoroso de Ifimedeia, que derramava água do mar sobre os seios por amor a Poseidon até ser possuída por ele, movimento feliz e atemporal da substância feminina rumo ao outro, satisfeito apenas em sua repetição incessante.

30. Os gregos acolheram o dom da água, mas rejeitaram as Danaides, associando o provérbio de Lerna, lugar de males, ao crime das mulheres de Lemnos, massacres semelhantes de Amazonas em que todos os homens menos um foram degolados, o pior dos crimes segundo Ésquilo, e das quarenta e nove cabeças apodrecidas nasceu a hidra de inúmeras cabeças que só Héracles, descendente de Hipermnestra, poderia matar.

31. Ésquilo escreveu duas trilogias sobre a absolvição, a Oresteia, intacta, em que Atena absolve Orestes do matricídio cometido, e as Danaides, de que resta só As Suplicantes, em que Afrodite absolve Hipermnestra de não ter cometido o crime, absolvições sobre as quais se fundou a Atenas clássica.

32. As duas trilogias eram para Ésquilo espelhos de igual peso, uma absolvendo um homem e outra uma mulher, sendo o verdadeiro crime de Hipermnestra a traição às irmãs, ruptura da Amazona africana com sua tribo, crime fecundo que Atenas compreende e assimila como assimilará Antíope, enxerto amazônico precioso que gera Hipólito e Héracles, inimigo das Amazonas, defendido por Afrodite com o discurso sobre o céu que deseja violar a terra e a chuva que a fecunda, pois a Grécia, terra nupcial atraída pela virgindade divina, temia as Amazonas sem lar nem marido, e Hipermnestra, por traí-las, merecia ser salva.

33. À lista dos matadores de monstros, de Apolo a Cadmo, Perseu, Belerofonte, Héracles, Jasão e Teseu, pode-se opor a das mulheres traidoras, Hipermnestra, Hipsípile, Medeia, Ariadne, Antíope, Helena, Antígona, cuja antepassada não é um deus, mas uma sacerdotisa, Io, que traiu sua deusa Hera e ilustra o despertar da mulher do sono feliz da infância para um amor que será delícia e dor de sua vida, deslumbrada pela divindade de Zeus.

34. O gesto heroico da mulher é a traição, de efeito tão grande quanto a morte dos monstros, que deixa ao herói uma impureza e os despojos do inimigo cujo poder aproveita, como a pele do leão de Nemeia ou a cabeça da Górgona, e abre um vazio onde o istmo se torna praticável, os homens comerciam e escrevem poemas lembrando os monstros.

35. Os efeitos da traição feminina são mais sutis, mas igualmente devastadores e civilizadores, pois Helena provoca a guerra que extingue a raça dos heróis e inaugura uma era em que eles só serão lembrados em versos, e a traidora suprime as próprias raízes, desligando sua vida do contexto natural, como Ariadne arruinando Creta, Antíope combatendo suas súditas, Medeia trocando a terra da magia pela da lei e Antígona traindo a lei da cidade por piedade a um morto, numa negação em espiral que não é colisão frontal de forças, mas afastamento, oposição e apagamento de si, jogo que exalta e destrói.

36. A morte dos monstros e a traição feminina são dois modos da negação, o primeiro limpando o espaço denso de cabeças e tentáculos para deixar um vazio evocativo, o segundo reorganizando os elementos e invertendo a influência das peças no tabuleiro, de modo que brancas atacam brancas e pretas atacam pretas, inversão de papéis sempre operada por uma mulher, que completa a obra do herói obstinado, preso a um único caminho, levando-a à conclusão de acordo com ele, pois faz parte de sua obra civilizadora suprimir-se, já que o herói é monstruoso e, logo depois dos monstros, morrem os heróis.

37. Com os heróis o homem dá o primeiro passo além do necessário, rumo ao risco, ao desafio, à astúcia, ao engano e à arte, e abre-se um novo mundo amoroso, em que a mulher iniciadora ajuda o herói a matar monstros e conquistar talismãs, mas também um novo amor, entre homem e homem, como os de Héracles e Iolau, Teseu e Pirítoo, Aquiles e Pátroclo, Orestes e Pílades, a “sagrada comunhão das coxas” de Ésquilo.

38. O amor entre homens surge com os heróis já em sua expressão perfeita, pois só eles superaram o obstáculo da rígida assimetria entre amante e amado, que condenava as relações a serem breves e sufocadas por regras cruéis, como a proibição de prazer ao amado e de o amante olhá-lo nos olhos, criando relações duradouras até a morte, indiferentes aos pelos e à pele endurecida, e alcançando o estado mais desejado e mais vão do desejo grego, a dissolução da distinção entre amante e amado, refletidos um no outro como num espelho.

39. Apolo foi o modelo do herói ao matar Píton e ao amar Jacinto e Ciparisso, mas um episódio de sua vida sugere algo ainda mais arcano, sua servidão a Admeto, rei de Feras na Tessália, belo, rico em rebanhos, amante de banquetes e hospitaleiro, por amor de quem o mais orgulhoso dos deuses se fez pastor assalariado, descuidando dos cabelos e trocando a lira por uma flauta de junco.

40. Por amor a Admeto, Ártemis corou de vergonha pelo irmão, Alceste aceitou morrer em seu lugar e Apolo embriagou as Moiras, filhas de Ananke, a Necessidade, a única potência sem altares nem estátuas, indiferente aos sacrifícios, cujas filhas só podem ser enganadas pela embriaguez, façanha raríssima que Apolo realizou para adiar a morte do amado.

41. Apolo tem uma antiga rixa com a morte, pois, após Zeus fulminar Asclépio por ressuscitar um morto, matou os Ciclopes forjadores do raio e foi condenado, a pedido de Leto, não ao Tártaro, mas à servidão junto a Admeto, invertendo o padrão de seus amores, já que Jacinto e Ciparisso morreram por sua causa, enquanto por Admeto arriscou o equivalente divino da morte, o exílio, e, gesto talvez mais extraordinário, aceitou ser pago pelo amado como um prostituto sem direitos, primeiro exemplo de felicidade na escravidão, tanto mais assombroso por ser Apolo.

42. Apolo, amante por excelência, levou o amor a um extremo inalcançável para qualquer humano, confundindo os papéis de amante e amado e tornando-se prostituto do amado, figura que ninguém na Grécia ousou defender, e, como servo, tentando recuar as fronteiras da morte, algo em que nem Zeus ousara interferir, nem mesmo por seu filho Sarpédon.

43. Admeto, sabendo por Apolo que sua morte seria adiada se outro morresse em seu lugar, pediu esse sacrifício a amigos, parentes e aos velhos pais, que recusaram, até que Alceste aceitou, elevando a philía, julgada exclusivamente masculina, a um plano superior, a ponto de Platão considerar Orfeu covarde diante dela, exemplo feminino único e tremendo que levou os deuses a permitir que Héracles a resgatasse à beira do lago dos mortos, de modo que Admeto foi salvo três vezes, por um deus, uma mulher e um herói, apenas por ser hospitaleiro.

44. Nesta história esquiva e sobrenatural, o ponto de máxima impenetrabilidade é o objeto do amor, Admeto, pois, enquanto Alceste morre em cena como heroína ibseniana e os textos falam da paixão de Apolo sem ligá-la à servidão, de Admeto só se sabe que insultou o pai por recusar morrer por ele e que era hospitaleiro.

45. Deslumbrados por Alceste e Apolo, que o amaram até a anulação de si, poderíamos deixar Admeto na sombra, mas examinando a paisagem e os nomes descobre-se que ele pertence à sombra por direito.

46. A Tessália, antigo lago cercado de montanhas altíssimas, terra fértil e áspera de águas profundas, cavalos, bois e feiticeiras, é presidida não pela transparente Atena, mas por Feraia, grande deusa noturna com uma tocha em cada mão, nome local de Hécate, terra onde o divino está próximo do anonimato primordial, os olímpicos relutam em descer e os deuses irrompem selvagens como o cavalo Cifeu saído da rocha, onde os cavalos brancos e negros são os mortos e onde a deusa, Brimó, a forte, se une a Hermes filho de Ísquis, o forte, enquanto a força está também no nome de Alceste e Feraia é dita filha de Admeto, sugerindo que Alceste e Admeto foram soberanos do mundo subterrâneo antes de reis provincianos.

47. A paisagem revela seu segredo, a Tessália como luxuriante país dos mortos onde Apolo serve por um grande ano de nove anos, ciclo temporal no Hades escolhido por Zeus como alternativa ao Tártaro, e Admeto, o “indomável”, é o senhor dos mortos, o mais hospitaleiro, cuja estalagem nunca fecha, dono dos rebanhos mais numerosos, que ao pedir que outros morram em seu lugar faz apenas o que sempre faz, acolhendo, separando e espalhando os mortos por seus domínios.

48. O amor de Apolo revela-se ainda mais extremo ao tentar salvar da morte o próprio rei dos mortos, e o de Apolo e Alceste mostra-se provocador como amor pela sombra que tudo arrebata, revelando por Alceste o que a kórē raptada entre narcisos nunca disse, que o deus do invisível não é apenas raptor, mas também amante.

49. Os textos calam sobre a servidão de Apolo porque tocariam segredos, ao contrário da ironia dos poetas sobre Héracles e Ônfale, restando apenas o exemplo de um amor que compensa toda vergonha e sofrimento, e por trás disso, além do sofrimento servil escandaloso do deus puro exilado do céu, está a antiga profecia de Prometeu de que Zeus seria destronado por seu filho mais luminoso.

50. Apolo joga nas fronteiras da morte sob a vigilância de Zeus, que sabe que, se ignorado, esse jogo traria o advento de uma nova era e o colapso da ordem olímpica, pois Apolo está para Zeus como Zeus esteve para Cronos e o lugar onde seus poderes colidem é a morte, e mesmo sob o sol dos mortos, entre os rebanhos da Tessália, Apolo desafia o pai ao arrebatar por um momento o amado indomável ao dia que lhe faz violência, disputa nunca nomeada e jamais resolvida.

51. A assimetria do amor ateniense entre homem e rapaz, minuciosamente descrita por Platão, concentra toda a metafísica do amor no gesto com que o amado concede sua graça, cháris, ao amante, centro do drama erótico que os bárbaros condenam, que espartanos e beócios convertem em obrigação e que os atenienses, mais complexos, tornam incerto, buscando conquistar a graça sem jamais ter certeza dela pela palavra.

52. Como guerreiros que sitiam uma fortaleza, o amante ateniense cerca o amado de argumentos como soldados, palavras que não são galanterias, mas os primeiros clarões do que se chamaria metafísica, pois para os grandes atenienses o pensamento nasce literalmente do diálogo erótico e o vínculo entre o corpo a conquistar e o voo metafísico é a própria imagem de Eros, excluindo dessa guerra suprema os bárbaros e os gregos sem talento verbal.

53. Atenas inventou para o amante uma duplicidade perfeita que o exalta e torna sua empresa incerta, pois por um lado tudo lhe é permitido, até o perjúrio e as noites à porta do amado, e por outro tudo lhe é dificultado pelo pedagogo vigilante e pelos amigos zombeteiros do rapaz, de modo que a troca de graças, em que o amante insufla inteligência e virtude no amado que se submete para adquirir educação e conhecimento, só se dá num ponto de encontro fugaz e paradoxal, tornando a vida do amante o papel mais precário, arriscado e provocador inventado pelos atenienses.

54. As mulheres de Lemnos, após massacrar os homens, foram punidas com uma vingança divina única, começar a feder, revelando o ressentimento grego contra as mulheres, vistas como perfume forte demais que se degrada em fedor sufocante e feitiçaria estupefaciente a sacudir de si, numa sensibilidade que une horror à mulher sem maquiagem e suspeita da maquiagem como arma de engano irresistível, preferindo o suor e a poeira do ginásio ao estojo de maquiagem feminino.

55. Nessas reações à mulher percebe-se, como num reflexo nervoso, algo remoto que remete ao terror da invasão das Amazonas e ao crime abominável das mulheres de Lemnos.

56. O aspecto indizível de Eros para os gregos era a passividade no coito, e as regras que separavam o amado do prostituto masculino refletiam não apenas a indignidade de assumir o papel feminino, mas a suspeita sobre o próprio prazer da mulher, prazer da passividade que talvez escondesse uma malignidade profunda e um poder zombeteiro fora do controle masculino, provocando a raiva grega contra a grosseria fisiológica de seres esteticamente inferiores, questão sobre a qual os atenienses foram evasivos enquanto falavam sem cessar do amor pelos rapazes.

57. Sobre o que as mulheres faziam a sós reinava um silêncio reverente e sinistro, e nem a palavra para o amor entre mulheres os escritores ousavam usar, enquanto os tradutores modernos falam patéticamente em lesbianismo, termo sem sentido para os gregos, para quem lesbiázein significava lamber os órgãos sexuais e tribádes, as “fricionadoras”, designava as mulheres que se uniam a outras.

58. Mais do que o amor entre mulheres, escandalizava os gregos a suspeita de uma autossuficiência erótica feminina indecifrável, comprovada pelos ritos e mistérios vedados aos homens, e sobretudo a suspeita sobre o prazer feminino no coito, verdade que só Tirésias vislumbrou e pela qual foi cegado.

59. Consultado por Zeus e Hera sobre quem tem mais prazer no sexo, Tirésias respondeu que a mulher goza nove partes em dez, e Hera o cegou não por recusar a superioridade, mas porque ele violara um segredo que os sábios devem guardar, mexerico que no entanto circulou por séculos, ainda que distorcido, confirmando o temor antigo de que a mulher, fechada no gineceu, soubesse muito mais que seu senhor sempre a vagar por ginásios e pórticos.

60. A pergunta sobre quem leva o prêmio erótico, os rapazes ou as mulheres, foi sempre um espinho para os gregos, a ponto de se dizer que Orfeu foi despedaçado por proclamar a superioridade dos rapazes, e no Pseudo-Luciano ela ainda é debatida, respondida por Licino com a história de seus amigos Cáricles, o coríntio maquiado cercado de mulheres, e Calicrátides, o ateniense rodeado de rapazes imberbes, que passaram dias discutindo a questão.

61. Para Calicrátides as mulheres eram um abismo e para Cáricles os rapazes nada eram, e em Cnido, ao visitar o santuário da Afrodite de Praxíteles, perfumado de aura, cheio de mirtos e de plantas de Dioniso, os três amigos se extasiaram diante da estátua nua de mármore, Cáricles beijando-a pela visão frontal e Calicrátides gritando de admiração diante das nádegas, até as lágrimas de Cáricles.

62. Contemplando em silêncio o corpo de mármore, os três notaram atrás de uma coxa uma mancha que Licino atribuiu a um defeito do mármore habilmente escondido por Praxíteles, mas a guardiã do templo revelou que sua história era outra.

63. A guardiã contou que um jovem de família ilustre, apaixonado pela deusa, passava os dias diante da estátua e, escondido uma noite no templo, uniu-se a ela, deixando a mancha como prova da indignidade sofrida pela imagem, desaparecendo depois, talvez afogado no mar, história que Cáricles tomou como prova do amor às mulheres até de pedra e Calicrátides como prova a seu favor, já que o jovem a abraçara por trás como a um rapaz, retomando a disputa enquanto chegavam os fiéis.

64. A moral clássica desenvolveu-se em grande parte em torno do amor pelos rapazes, exaltando a aretḗ, excelência e virtude de sentido sempre moral, e minimizando o evidente prazer, sendo a última imagem da aretḗ grega o campo de Queroneia coberto de jovens tebanos mortos aos pares, casais de amantes que combateram juntos contra os macedônios na última resistência da Grécia, transformada depois por Filipe e Alexandre num museu.

65. Nada de belo chega ao homem senão pelas Cárites, que caíram do céu em Orcômeno como três pedras brutas, indomáveis como tudo o que vem do céu, e que o homem deve conquistar para que seu canto tenha o sopro delas, passagem das Cárites à cháris, que segundo Plutarco designava o consentimento espontâneo da mulher ao homem, de modo que a graça inconquistável só se entrega a quem a sitia eroticamente, sabendo que não entrará na cidadela se ela não se abrir graciosamente.

66. A relação entre amante e amado era altamente formalizada e ritualizada, como em Creta, onde o amante anunciado e aprovado pelos pais raptava o rapaz para viver dois meses no campo, devolvendo-o com armadura, boi e taça, ou em Atenas, onde o rito se tornou padrão de comportamento reconhecível como passos de dança, com amantes rondando os ginásios, olhando os rapazes nus como sacerdotes que avaliam vítimas, espreitando o orvalho que florescia em seus sexos ao meio-dia, num lugar encharcado de prazer que não podia ser nomeado por ser comum, enquanto a busca visava uma excelência e uma glória exclusivas de um ateniense escolhido, o futuro amado.

67. A recusa em admitir o prazer persistia até a intimidade, em que o rapaz não partilhava o prazer do homem, mas contemplava sóbrio sua embriaguez, ereto e indiferente enquanto o amante se curvava sobre ele, como nos vasos que mostram o contato entre as coxas e não a penetração, até que a primeira barba, chamada Harmódio e Aristogíton por libertar da tirania erótica, encerrava seu tempo de amado e, após breve pausa, ele voltava à tempestade como amante, descobrindo enfim o que é ser possuído pelo amor, pois só o amante, diz Platão, é éntheos, cheio de deus.

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