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2 Prajapati

CALASSO, Roberto. Ka. São Paulo: Companhia das Letras, 1996/2021.

1. Prajāpati estava só e nem sequer sabia se existia ou não, “por assim dizer”, iva, partícula que atenua sem vincular toda afirmação decisiva, pois havia apenas a mente, manas, que tem a peculiaridade de não saber se existe e, no entanto, precede tudo, e que, antes mesmo de averiguar a própria existência, desejou: contínua, difusa e indefinida, ela ansiou, como atraída por algo exótico, pelo que é definido, separado e dotado de contorno, um Si, ātman, imaginado como algo consistente, e, ao operar, abrasou-se até ver acenderem-se trinta e seis mil fogos e trinta e seis mil taças suspensas sobre eles, todos feitos de mente e com a mente.

2. Deitado de olhos fechados, Prajāpati trazia entre o peito e a cabeça um ardor semelhante a uma água que ferve em silêncio, o tapas, que transformava continuamente a mente, ao mesmo tempo aquilo que transforma e aquilo que se transforma, calor, chama oculta atrás dos ossos, sucessão e dissolução de figuras no escuro e sensação de saber que isso acontecia, num mundo em que tudo se assemelhava e se ligava a outra coisa, exceto a própria sensação da consciência, “onda indistinta” em que fluíam todas as semelhanças, até que, no meio das águas que já eram a mente, surgiu “um vidente único”, o primeiro desnível que contém todos os outros, a consciência e um olho que a observa, origem potencial de olhos que olham olhos ao infinito.

3. As águas desejaram e, solitárias, “arderam o ardor”, formando na onda um invólucro de ouro dentro do qual se formou durante um ano o corpo de Prajāpati, quando “o ano ainda não havia nascido” e o tempo se manifestava como órgão de um ser singular que flutuava sem apoio, até que, passado um ano, emitiu sílabas que se tornaram a terra, o ar e o céu remoto, já ciente de ser o Pai Tempo, destinado a mil anos de vida e capaz de entrever, muito além das cristas das ondas, a tênue linha de uma margem que era a sua morte.

4. Único “autoexistente”, svayaṃbhū, Prajāpati não era por isso menos inerme do que qualquer ser que nasce, desprovido de saber e de qualidades, primeiro ser divino feito por si mesmo, que de início ignorava os metros até sentir ferver alguma parte de si, ver um canto e emiti-lo pela sutura do crânio.

5. Nascido do desejo das águas, Prajāpati gerou “tudo isto”, idaṃ sarvam, sendo o único que não pôde dizer ter um genitor, nem mesmo uma mãe, mas antes muitas mães, porque as águas são um irredutível plural feminino que eram também suas filhas, como se desde o princípio se quisesse deixar claro que em toda relação essencial a geração é recíproca.

6. Diante da mente como fluxo sem margens atravessado por labaredas que se perdem, tornava-se necessário traçar um círculo, uma moldura, um templum, um fundo estável, pratiṣṭhā, sem o qual os filhos vagariam insensatamente, incapazes de calcular e de ver as equivalências, e assim Prajāpati, deitado sobre uma folha de lótus que era ele mesmo, concluiu que as águas, fundamento de tudo e também doutrina, os Vedas, eram difíceis demais para os nascidos e precisavam ser em parte cobertas, mergulhando então em forma de javali para trazer o lodo que estendeu com cuidado amoroso sobre a folha, fixando-o com uma moldura de seixos brancos, guardiões de uma terra esticada como pele de vaca, sobre a qual, exausto, conheceu pela primeira vez o contato com o solo, enquanto a terra pela primeira vez sentia o peso de um corpo.

7. A fina camada de lama seca sobre a folha de lótus bastava para conferir algum sentido de estabilidade, e sobretudo o recinto desenhado pelas pedras brancas, que permitia orientar-se, tranquilizava e convidava a pensar, embora logo abaixo continuassem a fluir as águas, como sempre.

8. Enquanto o dorso de Prajāpati aderia à terra, o tempo se expandia nele e, uma a uma, suas articulações se revestiam por dentro e por fora de uma pátina corrosiva, o passado e o futuro.

9. Na solidão, o Progenitor perguntou-se como reproduzir-se, concentrou-se, irradiou calor e abriu a boca, de onde saiu Agni, o Fogo que devora, uma boca aberta que vinha ao encontro de quem a criara e que, numa terra ainda calva em que ervas e árvores habitavam apenas a mente de Prajāpati, só poderia devorar a ele próprio, o que lhe trouxe o primeiro terror, a primeira angústia e a primeira dúvida, levando-o a esfregar as mãos em busca de uma oferenda, primeiro uma matéria mole misturada a pelos, inaceitável, depois uma matéria branca e líquida que, em meio à hesitação, foi devorada por Agni quando se levantou o vento e a luz invadiu o céu.

10. Prajāpati sentia em si um companheiro, um ser “segundo”, dvitīya, a mulher Vāc, a Palavra, que emitiu e que “ascendeu como fluxo contínuo de águas”, coluna líquida sem início nem fim com a qual se uniu e que partiu em três, emitindo no ímpeto amoroso as sílabas a, ka e ho, terra, espaço intermediário e céu, com as quais o descontínuo irrompeu na existência, enquanto das gotas nasciam os Vasu, os Rudra e os Āditya, de modo que o mundo, ainda inexistente, já estava repleto de deuses, trinta e três com o Céu e a Terra, trinta e quatro somando ka, o espaço onde Prajāpati se encontrava, antes que Vāc retornasse silenciosamente à cavidade que desde sempre a acolhia.

11. A decisão de emitir os deuses neste mundo nasceu do fato de os mundos lá no fundo do céu serem acidentados e impraticáveis como um matagal denso, ao passo que a terra tinha a vantagem de ser insignificante, tudo nela ainda por construir, um descampado varrido pelo vento que sibilava na extensão deserta.

12. Mal surgiram, os deuses se dispersaram, talvez em busca do céu, sem se importar com o Progenitor, a quem logo deram as costas, tratando a terra como mera plataforma indiferente e estação de passagem desolada, de modo que Prajāpati restou novamente só, último, retido e aguardado apenas por Mṛtyu, a Morte, que afinal era também uma de suas criaturas.

13. No descampado poeirento, Prajāpati e Morte se encaravam, simétricos e imóveis, à espera do momento certo para se sobrepujarem, enquanto Prajāpati praticava o tapas e cultivava o ardor, e de tempos em tempos, naquele período obscuro de pena silenciosa, erguia os braços e de suas axilas subia um globo de luz que se cravava na abóbada celeste, e assim nasceram os astros.

14. As primeiras equivalências foram as sampad que lampejaram na mente de Prajāpati durante o duelo com Morte, um “cair juntos”, correspondência e cadeia de equivalências surgida enquanto os dois adversários se estudavam imóveis, cada qual cercado por seu exército, frágil e gasto o de Prajāpati, com colheres e espada de madeira, gravetos e tigelas, e o de Morte composto de alaúde, tornozeleiras e pincéis de maquiagem.

15. Na longa espera, Prajāpati percorria a moldura que envolve Morte, que é tudo o que existe, e, adentrando suas volutas, pensava que isto se assemelha àquilo, corresponde àquilo, equivale àquilo, é aquilo, tomado por uma euforia crescente à medida que cordões sutis envolviam elementos cada vez mais distantes e o existente, áspero e insensato, se deixava compreender nas malhas ainda largas de um tecido que não perturbava a respiração cega do todo, até perceber, vendo por trás de cada mancha de vegetação e de cada perfil de rocha um número, uma palavra, uma equivalência, que cada estado da mente era um número e cada número um estado, equivalência primeira de todas, e que as sampad, sem lugar nem corpo que pudesse ser ferido, escapavam a Morte, que podia matá-lo mas não as equivalências, razão pela qual, numa febre de libertação, declarou vencê-la, pois as equivalências existiriam sempre, estivesse ele vivo ou não.

16. Por fim, Mṛtyu retirou-se para a cabana das mulheres, na extremidade ocidental do terreno dos sacrifícios, derrotada e humilhada mas não destruída, enquanto Prajāpati, contemplando a arena vazia e os tufos de erva ressecada nas bordas, compreendia que toda solidão é ilusória e habitada, pois há sempre um intruso, talvez um hóspede, escondido na cabana das mulheres.

17. Os brâmanes da época védica seguiram o exemplo de Prajāpati, que, rivalizando longamente com Morte nos sacrifícios e prestes a abandonar a partida, exausto e inadequado, viu lampejar a sampad, equivalência numérica e geometria impressa na luz, e percebeu que a vasta dispersão do que vive e sobretudo morre podia articular-se em relações que não se deterioram, pois o nexo que a mente vê é visto para sempre e subsiste indelével mesmo quando a mente se arruína com o corpo, de modo que, erguendo um edifício de conexões, acreditaram ter vencido Morte, convenceram-se de que o mal é inexatidão e assim morreram mais tranquilos.

18. Fazer nascer “isto”, idam, e torná-lo “tudo isto”, idaṃ sarvam, incluindo moscas e mutucas, foi para Prajāpati um longo tormento que o invadiu de imensa exaustão, pois a cada ser que aparecia uma de suas articulações se desconectava e a seiva se retirava de seu corpo como água de uma poça sob sol escaldante, até que, vendo pedaços de si espalhados na grama e restando-lhe apenas o coração pulsante e empoeirado, no qual não se reconhecia, gritou como louco pelo Si, ātman, e as Águas, impassíveis, voltaram-se para ele como para um parente desamparado, devolveram-lhe o tronco para que guardasse o coração e ofereceram-lhe a cerimônia sacrificial do agnihotra, que um dia poderia servir-lhe para recompor-se inteiramente.

19. Enquanto os filhos fugiam, Prajāpati entrevira uma cabeleira ruiva ondulante, um ombro branco e um perfil que o encantaram e com os quais desejou unir-se, e, sozinho, quando emitir criaturas parecia a obra mais fútil, pois elas se mostravam apenas para desaparecer numa nuvem de poeira, encheu como um mendigo uma tigela de arroz, cevada, frutas, manteiga e mel e ofereceu-a ao vazio, sussurrando que o que lhe era caro voltasse a ele, enquanto sobre a tigela, numa noite sem vento, tremia a luz de Rohiṇī, a Ruiva, que um dia seria chamada Aldebarã.

20. Uma aflição atormentava o Progenitor, que se perguntava por que os filhos irreverentes o evitavam e os deuses fingiam não conhecê-lo, sem que ninguém pudesse responder, permanecendo nele o sentimento corrosivo de não existir que o acompanhava desde sempre, ele que, tendo dado existência a todas as criaturas convencidas de existir, sentia-se em excesso em relação ao mundo, como o leite derramado ao ser levado de um fogo a outro e depois jogado num formigueiro, sabendo-se supérfluo logo após fazer nascer os seres.

21. Num mundo já denso, Prajāpati, esvaziado e febril, jazia de costas incapaz de levantar-se, com a respiração cada vez mais pesada, despedindo-se um a um, chamando-os pelo nome, dos sete sopros que o haviam animado, consciente de ter “corrido toda a corrida”, sem que ninguém se aproximasse para molhar-lhe os lábios, enquanto os deuses o deixavam agonizar como um velho por quem todos passam sem dar mais atenção do que a um fardo de trapos.

22. De todo o corpo de Prajāpati, a única parte que permaneceu conectada foi a pedra do sacrifício, erguida solitária na desolação, da qual o vento continua a soprar em silêncio pequenos redemoinhos de areia que nunca se esgotam, areia que é aquilo de Prajāpati que se perdeu para sempre.

23. Expandido e desarticulado no mundo, Prajāpati apareceu, de um lado, como uma panela fria e vazia, e aquilo era Prajāpati.

24. Quando Prajāpati se esgotou, viu-se um cavalo branco com o focinho inclinado para o solo, que não o ergueu durante um ano, e de sua cabeça, aśva, cresceu lentamente uma figueira, aśvattha, de modo que o cavalo branco e a figueira eram Prajāpati.

25. Evidentes demais para compreender o Pai, os deuses apenas existiam, diziam a verdade e não eram suficientemente complexos para conhecer a morte que “não morre porque está dentro do imortal” nem para captar o fio suspenso ao asat, a negação do que é, até que Varuṇa, o mais solitário e melancólico dos filhos, de olhar cinzento e remoto, em vez de fugir apresentou-se ao Pai pedindo para ser seu discípulo e obter a soberania, diante do velho seco que falava sozinho e com os animais e que riu dessa palavra, alegando conhecer apenas o que para todos era vão, e após cem anos de ensinamento, a idade mais feliz para ambos, Varuṇa voltou aos irmãos, que se levantaram atemorizados, e declarou que a soberania vista nele estava também neles, com a única diferença de que eles não a conheciam.

26. Os números de Prajāpati foram treze, dezessete e trinta e quatro, os dois primeiros números do excedente sobre um todo, o doze e o dezesseis, nos quais ele se refugiava e que todos evitavam cuidadosamente, sem sequer perguntar por quê, para não encontrá-lo, enquanto o trinta e quatro o situava antes e depois dos trinta e três deuses, sempre um pouco à parte, sombra que precede o corpo, origem que os deuses não gostavam de lembrar, eles que, levados pelo sacrifício e embriagados, conquistaram o céu como se lhes pertencesse desde sempre, sem olhar para a terra onde ficara Prajāpati, pastor abandonado pelo rebanho.

27. Diferentemente dos deuses, que têm perfis e histórias, ainda que múltiplos, sobrepostos e intercambiáveis, mas sempre nomes e formas, Prajāpati manteve um vínculo com o que não tem nome, forma nem identidade, chamado apenas Senhor das Criaturas, nome já definido demais, por trás do qual se ocultava o nome secreto Ka, Quem?, com que o invocavam, estando para os deuses como o K. de O Processo ou de O Castelo de Kafka está para os personagens de Tolstói ou de Balzac, com histórias que permaneceram sempre as de um desconhecido estranho a deuses e homens e origem de ambos.

28. Ninguém foi mais incerto quanto à própria identidade do que Prajāpati, aquele que dava os nomes e tinha um nome rachado pela interrogação e pelo indefinido, Ka, chamado anirukta, aparimita, atirikta, “inexprimível”, “ilimitado”, “sobreabundante”, cujas margens recuavam sempre até se perderem mesmo para os que melhor o conheciam, razão talvez pela qual nenhum dos filhos pensou em moldar-lhe um retrato, celebrando-o com um murmúrio indistinto ou adorando-o em silêncio, pois o silêncio pertence a Prajāpati.

29. Prajāpati foi a mente enquanto poder de transformação e de autotransformação, e nada mais do existente pode ser declarado com igual precisão sobreabundante, ilimitado e inexprimível, pois tudo o que existe esteve antes dentro dele e permanece a ele vinculado, ainda que o vínculo possa não ser reconhecido, cravado na mente dos seres como uma lasca que ninguém consegue arrancar.

30. Embora Prajāpati preferisse contar a si mesmo que os deuses o haviam abandonado de imediato, houve um momento em que alguns lhe fizeram a pergunta que ele menos queria ouvir, por que, logo após criá-los, criara a Morte, e ele, esquivando-se do cerne da questão, mandou que compusessem os metros e se envolvessem neles para livrar-se do mal que é a Morte, atribuindo a gāyatrī aos Vasu, a triṣṭubh aos Rudra e a jagatī aos Āditya, de modo que todos passaram a falar de problemas de composição como se tudo fosse questão de alternância métrica, vestindo os metros como trajes suntuosos para ocultar os contornos do corpo e esconder-se da Morte, embriagados pela sensação de bastar a si mesmos, esquecidos do Pai e da pergunta sem resposta, enquanto a Morte continuava a ver seus corpos como se imersos num líquido transparente.

31. Os filhos de Prajāpati, que não haviam querido conhecê-lo, passaram a sentir sua ausência, herdeiros de um todo fragmentado e esquivo do qual apenas a morte, onipresente em cada instante do ano, era parte tangível, e após tentarem em vão o agnihotra, os sacrifícios de lua nova e cheia, as oferendas às estações e os sacrifícios de animais e do soma, calculando gestos e palavras, lembraram-se de que Prajāpati, agonizante, pedira ajuda a Agni, o primogênito, e, cheios de vergonha, desceram até ele usando Agni como intermediário.

32. Irreconhecível e coberto de vegetação, o Pai declarou que os deuses não sabiam recompô-lo em todas as suas formas, fazendo-o sempre em excesso ou em falta, e por isso não se tornariam imortais, e, após um silêncio angustiante, com voz calma e sóbria de geômetra douto, prescreveu trezentas e sessenta pedras de cercado e dez mil e oitocentos tijolos, tantos quantas as horas do ano, cada um com um nome, dispostos em cinco camadas e acrescidos até onze mil quinhentos e cinquenta e seis, enunciando assim como devia ser edificado o altar do fogo.

33. Deuses e depois homens compreenderam que, para viver, era preciso antes de tudo recompor Prajāpati e recompor-se, reconstruindo peça por peça o próprio corpo e a própria mente, pois, sendo eles poeira de seus ossos, não podiam pretender não estar dispersos e desarticulados, e somente uma paciente obra de costura, tecelagem e entrelaçamento lhes daria uma mente, isto é, um poder de atenção e não um turbilhão cego, e um corpo, não membros secos de seiva, obra preparatória que seria a própria obra e que exigia o tempo inteiro, cada um dos trezentos e sessenta dias e cada uma das dez mil e oitocentas horas do ano, entendidas como muhūrta de quarenta e oito minutos, consumindo toda a vida na preparação da vida e recomeçando ao fim de cada ciclo, num descampado vazio onde um graveto traça sinais no chão.

34. Tratava-se de construir uma imensa ave de rapina de tijolos, águia ou falcão, para conquistar o céu, e aqui ajudou a falsa etimologia, amiga do pensamento, que ligava citi, tijolo, a cit-, “pensar intensamente”, de modo que cada tijolo esquadrado e cozido era um pensamento cuja consistência era a espessura da atenção, pensamento com perfil de pedra que não desaparecia no redemoinho da mente e servia de apoio ao seguinte, erguendo lentamente uma parede sulcada de juntas que era ao mesmo tempo a mente e o corpo refeitos, de asas abertas.

35. Vivendo na opacidade e na desconexão, com o que ocorre na caixa óssea da cabeça sem deixar vestígio na matéria dura e angulosa em que se move, envolto numa irrealidade que parece o estado normal do ser, o homem encontra ainda assim, nessa planície surda, pontos que vibram como nervos, sons que se destacam como se tivessem significado e emoções de reconhecimento, porque habita o corpo despedaçado de Prajāpati, minúsculo demais para entrever sem imensa navegação a falésia branca que é a outra borda de uma de suas juntas partidas, e, recusando resignar-se, os antigos guerreiros violentos, incapazes de romper a opacidade por qualquer conquista, concentraram toda a sua fúria numa única ação paciente e extenuante, longa como o próprio tempo, a construção do altar do fogo.

36. Compor dez mil e oitocentos tijolos exige partir das margens, da moldura do mundo e dos significados, do ponto onde naturalmente se está, com um início de aspecto incongruente e obsessivo, algumas pedras aproximadas num descampado vazio, mas uma moldura que se define evoca um centro, o fogo da mente, invisível até o último passo, situado no centro do tempo, do espaço entre os tijolos e do pensamento intenso que os compunha e que eram eles mesmos, centro a partir do qual se agiria sobre tudo, até o tijolo mais distante, a ponta da asa da águia e o dia mais remoto, embora jamais se possa saber se assim foi, porque ao chegar ali o tempo se esgotava, o ano se extinguia e era preciso recomeçar em outro descampado, com outros gravetos e outros tijolos.

37. Todos os sacrifícios são insuficientes para tornar-se imortal, exceto a construção do altar do fogo, porque os demais usam elementos demais ou de menos e não possuem o número justo, que corresponde à totalidade do tempo, os dez mil e oitocentos tijolos, tantos quantas as horas do ano, que é Prajāpati.

38. A confiança, śraddhā, no número e na construção faz parecer de longe pedreiros dementes e de perto um desafio a encontrar sentido, e nela se inscreve o momento em que se espalha areia sobre o altar, parte perdida, inumerável e imensa de Prajāpati, que é o brahman inteiro, poeira que, única habitante dos céus, recorda quanto se perdeu quando ele se desarticulou.

39. Cultores do distinto e do articulado, mas feridos nos ossos pelo infinito, os construtores do altar precisam circunscrevê-lo como a pele circunscreve um tecido de matéria em que se perderiam e que contém também a morte, único modo de viver, sem a ingenuidade de julgar firme uma construção que é a coisa mais sutil e frágil, o sacrifício e seu lugar, que só subsiste envolto na nuvem do incomensurável e hospedando-o em si, o maior cravado e abraçado no menor, razão da areia, do silêncio que escande os atos e do murmúrio que às vezes os acompanha, mensageiros amorfos e inesgotáveis do incomensurável e alusão ao que de Prajāpati jamais será reconstituído.

40. No início Prajāpati não sabia quem era, e somente depois que os deuses saíram dele e se apossaram das qualidades, dos perfis e das formas que ele lhes distribuiu sem excluir nenhuma, nem a soberania nem o esplendor, a interrogação se manifestou, quando Indra, recém-vencedor de Vṛtra, ainda abalado pelo terror mas ciente de ser soberano dos deuses, pediu para ser o que ele era, grande, e Prajāpati respondeu perguntando quem, ka, seria ele então, ao que Indra replicou que era justamente aquilo que dissera, e naquele instante Prajāpati tornou-se Ka e compreendeu a fundo que jamais conheceria as alegrias do limite nem o repouso num nome transparente, permanecendo, mesmo recomposto nos dez mil e oitocentos tijolos do altar, uma forma atravessada pelo informe, ao menos nos seixos porosos, svayamātṛṇṇa, ávidos de vazio, postos no centro do altar para permitir-lhe respirar.

41. Lugar da germinação obscura de tudo, Prajāpati não podia ter uma identidade assimilável às dos que dele saíram para a existência, mas com o tempo pôs-se em fila ao lado deles, um deus como tantos, destinatário de vítimas e oblações, observando a vida com tranquilidade, sem o encargo de fazê-la existir, aliviado por confundir-se com os outros deuses e afeito à última posição, ainda dolorido em todas as juntas ao roçar de um desejo já quase só lembrança, migrado para os inúmeros outros, e assim aguardou ser esquecido, o que começou de modo imperceptível com seu nome ausente de longas fórmulas e listas de deuses, gestos omitidos e oblações negligenciadas, sem que na multidão celeste ninguém notasse por longo tempo sua falta, já que nenhuma função cessara, até que alguém, à noite, cercado de sombras, começou a contar a lenda dos primórdios e de novo se delineou, apenas nas palavras, uma figura inapreensível, indistinta e sem rosto, sem nome, chamada apenas Prajāpati, Progenitor.

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