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3 Aurora

CALASSO, Roberto. Ka. São Paulo: Companhia das Letras, 1996/2021.

1. O Pai viu a aurora e a beleza da Filha que surgia, e na claridade fria foi tomado por uma chama até a ponta das unhas, chama que batia como onda contra as rochas e recuava, querendo agora avançar além, num além que talvez nunca tivesse existido, enquanto o corpo de Uṣas, a Aurora, primeiro branco e depois rosado, se oferecia ao Pai à medida que a luz subia.

2. O desejo do Pai já não era o ardor de que vivia, a fornalha interna que iluminava a caverna da mente, mas um ardor que escapava do corpo e lambia a pele macia de Uṣas, de quem ele se aproximava em silêncio, até perceber que ela tinha pele de antílope e que ele próprio erguia patas de antílope para acariciá-la, numa claridade mais forte que emanava dele e o ofuscava, sem saber se apertava os seios de Uṣas ou o peito macio do animal, envolvendo e penetrando a Filha, como antes ela se aninhara nele, o falo do Pai abrindo pela primeira vez caminho na escuridão da Aurora, enquanto aurora e ardor coincidiam como se interior e exterior fossem o mesmo tecido mal agitado pelo vento e algo começava pela primeira vez a se delinear, perceptíveis apenas a respiração e o movimento quase imperceptível dos corpos soldados.

3. Da sombra destacou-se lentamente um arqueiro escuro, primeiro perfil do obscuro recortado do obscuro por uma lâmina de luz, que, quanto mais tensionava o arco, mais fazia a incandescência invadir os corpos entrelaçados, até que Rudra gritou ao disparar a flecha, Prajāpati retirou-se fulminantemente de Uṣas e a flecha abriu-lhe na virilha uma ferida não maior que um grão de cevada, enquanto o falo espirrava o sêmen sobre a terra, a boca do Pai espumava de raiva e dor e Uṣas, abandonada e prostrada, tremia levemente.

4. Essa foi a cena por trás de todas as cenas, aquela que toda cena varia, repete, deforma, despedaça e recompõe, porque dessa cena auroral descende o mundo, e, embora ao redor houvesse apenas vazio e um sopro de vento, teve espectadores silenciosos e ávidos, trinta e três deuses, ou trezentos e trinta e nove, ou três mil trezentos e trinta e nove, apinhados nas sacadas do céu, que, contrariados por verem Prajāpati fazer algo jamais feito, buscaram quem o punisse e, sem que nenhum deles tivesse poder para golpeá-lo, trocaram olhares de conjurados pensando no mesmo nome não pronunciado, Rudra.

5. Persistia nos deuses um rancor contra Prajāpati, Pai solitário e dolente que precisavam curar continuamente com o sacrifício e a quem sobretudo não perdoavam ter gerado a Morte, pois, embora tivessem sido os primeiros a conquistar o céu e se nutrissem de amṛta, o líquido “não mortal”, sabiam que um dia, por remoto que fosse, a Morte os alcançaria, e por isso temiam piscar, já que tudo o que pisca morre, vigiando de olhos arregalados as pedras duras de seus palácios à espera de um véu de poeira, mensageira da terra e da morte.

6. O escândalo dos deuses diante do olhar trocado entre Prajāpati e Uṣas, que se cobria de um suor rosado, não provinha do fato de ela ser sua filha, já que toda mulher era filha de Prajāpati, mas de ser ele o outro mundo, capaz apenas de gerar, de modo que tocar e penetrar uma de suas criaturas bastaria para subverter e negar a ordem do mundo da qual os deuses se julgavam guardiões, até contra o próprio Pai.

7. O primeiro pensamento dos deuses foi aterrorizar o Pai para impedi-lo a qualquer custo de tocar a Filha, extraindo de si mesmos, como cirurgiões hábeis, as formas mais pavorosas para compor Rudra e forçar Prajāpati a sofrer o horror da existência, pois não lhe era lícito abandonar-se ao engano da paixão depois de tê-los feito nascer junto com a Morte, e quando ressoou o grito lancinante de Rudra, som que fere todos os outros, os deuses se comprazeram na vingança de um golpe que o Pai jamais esqueceria.

8. O obscuro Rudra, ainda retido na plenitude indiferente anterior a toda criação, no ser implícito e fechado em si, aceitou desdobrar-se numa figura voltada para um exterior e para seu eventual genitor, Prajāpati, que abriu os olhos sobre o indistinto reconhecendo nele sua família, a substância da qual algo se destacaria para existir singularmente, e sentiu sair de si a filha Uṣas, espalhando a primeira luz sobre a imensa extensão, descobrindo então o prazer inaudito de quem contempla o que não possui, pois a Filha, estendida sobre o informe, já não era a que habitara nele, mas uma estranha, a primeira estrangeira, enquanto um fogo que cozia e amadurecia seu corpo passava a ondular para fora dele, rumo a ela.

9. Enquanto Prajāpati movia, sem perceber a metamorfose, suas patas de antílope em direção a Uṣas, a plenitude reconheceu ter-se aberto em seu interior uma passagem, o trecho de ar e de vazio entre o corpo do Pai e o da Filha, no qual vibrou a flecha que Rudra dispararia pouco depois, intervalo que foi o tempo, todo o tempo que jamais existiria, toda a história e todas as histórias que envolveriam invisivelmente cada existência, aquilo sem o qual nada poderia dizer que existe, de modo que a flecha, ao punir, reafirmava a brecha aberta na plenitude e transformava o vazio, de uma vez por todas, em ferida.

10. O ímpeto de Prajāpati rumo ao mundo ainda incompleto foi desejo e disparo, um silvo expresso nos verbos visṛj- e sṛj-, em que sṛj- é disparar e esguichar e vi- é expandir-se em todas as direções, e quando Rudra disparou a flecha contra o Pai que esguichava o sêmen para Uṣas também esse primeiro ato se desdobrou, pois nem no primeiro instante algo seria um só, e, enquanto o sêmen se espalhava no vazio, a flecha abria na virilha uma lacuna que significava todas as lacunas, pela qual o mundo recém-existente penetrava em quem o fizera existir, revoltando-se contra o Pai e contagiando-o com seu veneno, de modo que à plenitude que se lançava para fora correspondia um minúsculo vazio formado dentro dela.

11. O Tempo entrou em cena entre o aflorar da intenção e o ato que a seguiu, pois enquanto subsiste apenas a mente a intenção é o ato, mas, assim que algo externo também subsiste, o Tempo se interpõe entre intenção e ato, e então se evade para sempre do universo mental através de uma brecha que permanece aberta como ferida na virilha de Prajāpati.

12. Algo aconteceu porque Rudra, o Arqueiro obscuro, era guardião de uma plenitude à qual nada faltava, mas que ardia e, ardendo, concebeu o risco de carecer de algo sobre o qual lançar-se, já que o ardor facilmente gera a alucinação de que nem tudo está no próprio fogo e de que existe um fora, lá adiante, uma substância branca, a mais bela para queimar, que um dia chamariam soma, objeto desejado, ser frio, externo e inebriante ainda não tocado pelo ardor.

13. Era necessário ferir a plenitude e abrir nela uma passagem de não pertencimento, que depois seria cercada e lentamente cicatrizada pela mesma potência que a produzira e dela nascera, o Tempo, que exige para celebrar-se um único ídolo, a flecha, e essa fenda de vazio na superfície compacta do que é, não mais larga que um grão de cevada, como a ferida jamais fechada na virilha de Prajāpati, bastava, com a imagem de seu futuro fechamento, para fazer conceber um grau ulterior de plenitude diante do qual a original parecia tosca e sufocada, plenitude que se revelaria impossível mas cuja imagem fulgurante barrava todo desejo de retorno à primeira.

14. Quando o ātman, o Si que observa o Eu, decidiu criar algo distinto, uma natureza que obedecesse à natureza, estendeu sobre o mundo um véu de opacidade, grande segredo, risco extremo e novidade invencível de um mundo que não se comunicasse com a mente da qual saíra, mas, antes de abandoná-lo a si mesmo, talvez pela antiga intimidade, talvez pela maravilha diante daquele ser estranho e enfim desconhecido, a mente perseguiu o mundo como se ainda pudesse acariciá-lo, e isso foi o incesto de Prajāpati e Uṣas.

15. O Pai agonizava prostrado, de novo homem e não mais antílope, com um fio de sangue riscando-lhe a coxa, enquanto o Arqueiro obscuro lhe exigia nomes, recebendo entre estertores e baba sanguinolenta os de Bhava, Existência, Sarva, Tudo, Paśupati, Ugradeva, Mahādeva, Vāstoṣpati, Īśāna, Aśani e por fim Kumāra, Menino, e declarando que a cada nome uma escama do mal se desprendia dele, palavras que fizeram Prajāpati, antes estupefato com a ferocidade de quem o trespassara no instante do supremo prazer e da suprema inermidade, reconhecer-se no Arqueiro, pois só ele tivera o mal, inclusive o Mal da Morte, ao lado como um irmão desde o primeiro instante, e então, entregue à espera do fim, viu os deuses que haviam instigado Rudra, agora curvados e servis, passarem da ira à devoção e examinarem com zelo a flecha de três nós, sorrindo por dentro com escárnio ao pensar que sempre teriam medo de que ele morresse e sempre tentariam matá-lo, enquanto mais adiante seu sêmen formara num declive um lago cercado por um anel de chamas de onde surgiriam outros deuses, cujas brasas ele saudou com afeto como a hoste dos belíssimos cantores Aṅgiras, no momento em que dedos hábeis e o frio de uma lâmina, sem extrair a flecha, lhe recortavam um minúsculo pedaço de carne junto com a ponta metálica.

16. Onde a vida se faz sentir mais agudamente, ali está Rudra, como disse uma dançarina ocidental e como pensavam os deuses que o temiam, vendo-o chegar do norte, estrangeiro sombrio envolto em panos escuros e com brasas nos olhos, e que, hipócritas e astutos, o homenageavam e evitavam, nunca o nomeando e preferindo o adjetivo “rúdrico”, nunca o convidando aos sacrifícios, de que é feita a vida, por temerem que em sua presença algo irreparável acontecesse e o fogo os queimasse a todos, eles que, sendo a própria intensidade, conheciam seus riscos e fugiam de tudo que fizesse tremer demais a gaiola do mundo, ao passo que nos videntes a presença de Rudra despertava a suspeita mais grave, a insuficiência do sacrifício para acolher a totalidade do real, e ao mesmo tempo o chamavam “rei do sacrifício”, talvez por suspeitarem que fora dos ritos, metros e tempos prescritos outro sacrifício, mudo e ininterrupto, se cumpria nas veias do que é em nome de Rudra, indistinguível da exuberância e do massacre.

17. A obsessão pela aurora, quase como se nada mais tivesse sido visto, contrasta com a brevidade das auroras na Índia, onde a diferença entre o dia mais curto e o mais longo é de apenas quatro horas, talvez lembrança de auroras de uma pátria nórdica de onde um dia desceram, e no Ṛg Veda Uṣas é presença difusa, nomeada trezentas vezes e destinatária de vinte hinos, para alguns entre os mais antigos e para outros entre os mais belos, que sequer acompanhavam oferendas, pois a ela não cabia nenhuma oblação material, de modo que a palavra poética se enrolava em torno dela como em torno de si mesma, e toda oblação aos outros deuses só era eficaz se Uṣas a testemunhasse, ela que, destinatária apenas de palavras, era o pressuposto de toda oferenda, a fulguração da consciência que sobrevém quando ela avança e se descobre.

18. “Verdadeira com os verdadeiros, grande com os grandes, deusa com os deuses, adorável com os adoráveis”, Uṣas mostrava-se de longe, ereta, “sinal luminoso do imortal”, gotejante, num carro puxado por cavalos rosados e carregado de honorários rituais, maquiada sempre com o mesmo cosmético como as mulheres que vão a um encontro, banhando-se de pé para ser vista, branca e incandescente nascida do negro, zumbindo como uma mosca em torno dos homens para despertá-los, sendo o despertar seu “belo mérito” e sua revelação inapreensível, tão inapreensível quanto os dons que recebia, apenas palavras escandidas por metros, jamais animais abatidos ou libações.

19. O prefixo peculiar de Uṣas é prati-, o “vir ao encontro”, o avançar face a face desde as últimas distâncias, e os cantores não se cansavam de falar de seu peito, descrevendo-a como jovem e impudica que avança e cujo primeiro gesto é descobrir o peito como mulher leviana, ou convidando-a, ao resplandecer no oriente, a descobri-lo, e, quando ela ainda não o fizera, registrando o gesto como um analista que anota o que sempre acontece.

20. O despertar é uma visão que avança, a primeira imagem que adere à mente e a enche de uma plenitude e de um sabor antes ignorados, e Uṣas acolhe a pūrváhūti, o “primeiro chamado” ritual, que é também o “primeiro pensamento”, pūrvácitti, numa disputa para ser os primeiros a pensar nela, sendo a graça ser pensado primeiro por ela, deusa sujeito e objeto, cópula perene, que por ser a primeira é a única, de quem as outras brotam e a quem retornam, mas também imediatamente múltipla, cercada de êmulas e cópias, aparecendo dia após dia com nomes diferentes, inseparável das inúmeras Auroras de nomes felizes que a refletem e dispersam até que já não se saiba qual é Uṣas.

21. Das treze vezes em que o Ṛg Veda fala de uma deusa chamada svásṛ, “irmã”, onze se referem a Uṣas, íntima de todos e dotada de um parentesco sem igual entre os seres divinos, a quem se atribuíram muitos amantes, frequentemente seus irmãos, Agni, Pūṣan, Sūrya ou os Aśvin, caso único entre as deusas, e foi a ela que o jovem Śunaḥśepa, vendido pelo pai por cem vacas para ser sacrificado no lugar de outro e amarrado ao poste sacrificial, invocou por sugestão dos Aśvin com um hino caro que repetira tantas vezes pensando na amante sempre desejada sem esperança, perguntando que mortal poderia possuir a imortal que ama como quer e a quem escolheria, e a cada estrofe as cordas que o prendiam se soltaram.

22. Uṣas e Sandhyā, as duas donzelas fatais, foram Aurora e Crepúsculo, de beleza superior a qualquer outra porque aqueles dois momentos, o desprender-se e o desvanecer da luz, o entrar no manifesto e o retirar-se dele, eram a própria articulação, a “conexão”, bandhu, não a usual entre seres afins ou formas igualmente visíveis, mas a conexão entre manifesto e imanifesto, entre dois mundos que poderiam permanecer separados para sempre e que ali se encontravam e afloravam juntos no corpo de duas jovens que olham para trás e fogem, conexão que tendia a tornar-se conjunção, já que tudo aspirava a unir-se a elas, sendo a conjunção imagem da conexão e não o contrário, e elas imagem da conexão suprema, na qual a primeira partícula do invisível a penetrar foi o tempo.

23. A cada manhã, às primeiras luzes, evocava-se Uṣas encadeando seus dezesseis epítetos e variando em muitos metros seus dons e a prodigalidade imensa que dela se esperava, pois as palavras deviam despertá-la para que ela despertasse os homens, já que todo ato só encontrava sentido se precedido pelo despertar que fixa a mente no que é, mas acumulava-se surdamente também rancor contra a jovem de cabeleira ruiva que os roçava e abandonava, lembrada a cada piscar de olhos como jogador zombeteiro que sempre vence e desaparece com a aposta, a vida, ou como espiã de Varuṇa, para quem estão contados os piscares dos homens, enquanto os deuses não piscam, o que bastava para selar a condenação dos homens que não querem morrer, que um dia seriam vingados da donzela fatal de cabelos ruivos, vingança que aconteceu uma vez e nunca deixou de acontecer, até Gilda e além.

24. Indra conhecia o esconderijo das Vacas, das Auroras e das Águas e, agachado em emboscada na escuridão densa, deixou apenas que o carro rutilante de Uṣas se delineasse para atacá-lo com uma arma mortal desproporcional ao adversário, um carro ágil e marfíneo em contraponto aos ornamentos da deusa, que já fugia com gritos agudos de terror, numa cena entre comédia e drama em que Indra, torvo, se encarniçava contra o carro vazio, quebrando o jugo e a lança como guerreiro louco ulcerado por uma dor desconhecida e ao mesmo tempo desajeitado na fúria de seus gestos contra aquele objeto suntuoso e delicado.

25. Nada havia de que se orgulhar na fuga de Uṣas, aterrorizada e trêmula, tropeçando nas vestes bordadas enquanto o raio de Indra despedaçava seu carro, nem na multidão de homens que o incitava com murmúrio carola, risível e funesta, pois essa foi a façanha originária de todo zelo moral, depois selada no Alto Irã, berço dos Ārya, na língua avéstica, onde pela primeira vez se tentou partir o cosmo em Criação Boa e Criação Má e onde a belíssima e insensata Uṣas foi transformada no demônio maligno Bušyanstā, aquela que diz aos homens “ainda não, ainda não”, e embora por séculos enxames de poetas evocassem a Aurora “de dedos róseos”, esqueceram que ela sofrera a perseguição de deuses e homens e fora a primeira a encontrar o destino desde então sugerido para as belas, ser espancada e expulsa.

26. O conflito entre Indra e Uṣas permaneceu enigmático para os estudiosos, que o viram como mito estranho de motivo nunca indicado, segundo Geldner, ou como elemento mítico que surge apenas fora dos hinos a Uṣas, de modo abrupto e imprevisível como um bloco errático, segundo Renou, restando sem resposta por que Indra, o libertador, se lançaria contra aquela que libertara e que mérito ganharia diante dos homens com ato tão vil e incongruente, sinal de uma história obscura no fundo, jamais contada, obscura como a Aurora, cujo rosto obscuro Ananda K. Coomaraswamy interrogou à maneira dos ṛṣi, com uma resposta necessariamente obscura e imperceptível como um piscar de olhos.

27. Respingada do sangue e do sêmen do Pai, Uṣas, mal se separou dele, fugiu para o sul “como uma rejeitada”, correndo e soluçando que de nada haviam servido suas seduções, palavras a que ninguém deu atenção, pois os olhos dos deuses estavam fixos no Arqueiro e no Pai agonizante prestes a falar-se, e ela já não era a Aurora dos cantos exaltados de cada manhã, mas apenas um antílope que se afastava no mato à espera de um caçador que a trespassasse.

28. O antílope foi o primeiro ser ferido quando a flecha de Rudra se cravou na virilha de Prajāpati e, por isso, o primeiro ser caçado e sacrificado, havendo um saber dos deuses e um saber dos sacrificantes, um saber do Arqueiro e um saber das testemunhas, até que a roda do tempo girou o bastante para fazer falar o último saber, antes mudo, o da vítima, alvo que permanecera ereto e solitário, e o Bodhisattva foi a vítima que se desamarrou do poste sacrificial e correu rumo ao despertar, alvo que já não verte sangue, meta de Siddhārtha, “Aquele que alcançou a meta”.

29. Onde circula livremente o antílope negro é a terra apta ao sacrifício e fora dela está a terra dos bárbaros, segundo as Leis de Manu, pois o antílope, presa por excelência do caçador e do predador, tornou-se o primeiro ser em relação ao qual os homens sentiram culpa quando, após se terem considerado longamente antílopes, decidiram multiplicar seus poderes imitando os predadores de quem sempre fugiram e matando antílopes, isto é, matando a si mesmos como um dia haviam sido, culpa cujo reconhecimento funda toda a construção do sacrifício védico, dedicado ao antílope não menos que aos deuses, animal considerado não sacrificável mas sem o qual o sacrifício perdia sentido, já que não havia sacrifício sem uma pele de antílope negro estendida no chão do lado do pelo, cujos pelos negros eram os metros védicos, e os iniciandos, dīkṣita, cingiam os quadris com essa pele para recordar e absorver pelos poros a substância do ser cuja corrida e fuga desenhavam as bordas da terra onde se instaurou o sacrifício, a civilização, cercada por todos os lados pela terra ignota e selvagem.

30. Um dia Uṣas tornou-se o Buda, e os poderes do mundo, o desejo e a ferida, detêm-se onde do antílope resta apenas uma pegada, como recordou o Buda ao chegar a Sārnāth, atraído por um episódio de uma vida anterior em que o rei de Vārāṇasī caçava antílopes em seu parque, muitas morrendo em fossos devoradas por abutres e chacais, até que o rei dos cervos pactuou entregar-lhe diariamente uma antílope sorteada, e quando a sorte caiu sobre uma prenhe que ninguém aceitou substituir, o Bodhisattva, então antílope, ofereceu-se em seu lugar aos cozinheiros, a faca caiu das mãos do cozinheiro e o rei libertou todas as antílopes, passando o Parque das Antílopes a chamar-se Graça-feita-às-antílopes.

31. Se o Buda é aquele que conduz ao despertar, seu antecedente védico foi a jovem que avançava visível de longe “como moça sem irmão que vai ao encontro dos homens”, Uṣas, soberana do despertar, pois bodhi, o “despertar” revelado ao Buda, que os medrosos traduzem por “iluminação”, antes de substantivo foi um imperativo, “desperta!”, nos lábios de Uṣas, mas havia nela uma duplicidade que encantava e angustiava os homens e que o Buda quis apagar, sendo essa, e não o despertar, a novidade de sua doutrina, visto que o “despertando” dos hinos se diz alternadamente bodháyantī e jaráyantī, e neste último se aninha também o sentido de “fazendo envelhecer”, de modo que com o despertar, que faz existir, impõe-se o tempo, que faz desaparecer, as duas potências impalpáveis anteriores a todas as outras aparecendo juntas a cada manhã na figura da mais bela de todas, seguida por um cortejo interminável de cópias igualmente belas e contemplada por inúmeros rostos, os mortos e os não nascidos, os mortais que viram brilhar a primeira Aurora e os que a verão nos tempos futuros.

32. Horrorizada, Uṣas corria para o sul sem que ninguém se ocupasse dela, antílope que voltava a esconder-se na floresta sabendo que também a floresta ainda fazia parte da cena, e enquanto corria tomou forma nela o desafio de sair da cena e descobrir o lugar inalcançável pela flecha de Rudra e pelo abraço de Prajāpati, e sem que ninguém a visse, chegada à linha do horizonte, prosseguiu pelo céu, correndo longamente pelas pradarias tenebrosas, reconhecendo ao lado rios e animais, passando pelas Kṛttikā, as Plêiades úmidas e fulgentes, já sabendo que pararia mais além, na luz de Aldebarã, Rohiṇī, também ela antílope e aurora, a Ruiva que reencontrava a Ruiva.

33. O repertório dos gestos é limitado e os significados inesgotáveis, por isso as mesmas histórias se repetem e variam para que a cada vez se descubra, numa lenta rotação, uma nova terra e um novo céu dos significados, rotação observada antes de tudo no céu, onde Órion outrora surgia na aurora do equinócio de primavera, início de todo início, brilhando e logo submergindo na luz do sol, até que os videntes perceberam seu lento deslocamento ao longo dos séculos e a aproximação de Aldebarã em seu lugar, reconhecendo a precessão dos equinócios muito antes que Hiparco a nomeasse e a entregasse à ciência, e nela reencontrando os atores do drama numa precessão das culpas, que no início estava em Prajāpati, Órion, chamado o Antílope, Mṛga, e no fim, com o deslocamento do ponto equinocial, recaiu sobre o próprio caçador, o Arqueiro Rudra, Sírio, embora agora a flecha fosse disparada não por um deus em vigília perfeita, mas por um homem, Pāṇḍu, rei caçador que por erro e inconsciência trespassou dois antílopes acasalados que eram um brâmane e sua esposa.

34. Há no céu uma porção chamada Lugar do Caçador, delimitada por Sírio e pelas Plêiades, por Betelgeuse e por Aldebarã, com Órion resplandecendo no meio, na zona entre Gêmeos e Touro à margem da Via Láctea, onde povos de lugares remotos como a Grécia e a Guiana viram o terreno de uma caçada e a pista de uma corrida desesperada, com ossos luzentes e farrapos de carne às margens, um antílope ou uma jovem em fuga, ou um homem imponente trespassado por uma jovem caçadora, Ártemis, com a flecha sempre disparada do ponto onde está Sírio e sempre cravada em Órion, também ele grande caçador, atingido por engano ou por cálculo insondável.

35. Entre os nomes encantatórios de Aldebarã e Betelgeuse estende-se o Lugar do Caçador, onde uma história sangrenta e convulsa se fixou no céu para lembrar que jamais deixará de acontecer, mas em seus confins esses nomes se dissolvem na mente e a dissolvem como fragrância do som, e, se em cada palavra se oculta o assassinato da coisa, que desde sempre espera reparação, deles emana uma substância macia e irradiante que em vão se buscaria entre as coisas que existem e na qual talvez esteja o indício de uma reparação.

36. Quando Uṣas reencontrou seu lugar no céu e seu corpo úmido se sobrepôs ao de Rohiṇī, a cena primordial fixou-se de novo onde ocorrera, imóvel no fundo da noite, com a luz imensa de Órion adiante, em que Uṣas reconheceu a cabeça de Prajāpati, a flecha de três nós cintilando abaixo, cravada nas três estrelas do cinturão de Órion, e mais além a luz ferina de Sírio, o Arqueiro, recompondo o triângulo do desejo e do castigo.

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