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Obra dos irmãos Grimm
COMENTÁRIO FOLCLÓRICO
- Frau Katherina Viehmann (1755-1815), esposa de um alfaiate de Niederzwehren, aldeia próxima a Kassel, foi descoberta pelos jovens irmãos Grimm por volta dos cinquenta e cinco anos e revelou-se narradora de excepcional fidelidade mnemônica.
- Wilhelm Grimm descreveu-a no prefácio do segundo volume (1815) como mulher de rosto forte e agradável, com olhar claro e penetrante, provavelmente bela na juventude
- Narrava suas histórias de forma meditada, precisa e vívida, primeiro livremente e depois, quando solicitada, lentamente o suficiente para ser transcrita palavra por palavra
- Jamais alterava qualquer parte em repetições e corrigia seus próprios erros imediatamente ao notá-los
- A ela se devem dezenove dos melhores contos da coleção; alguns anos após conhecer os irmãos, caiu subitamente na pobreza e na doença, morrendo poucos meses depois
- Jacob e Wilhelm coletaram os materiais da obra ao longo de anos junto a pessoas simples das fazendas e aldeias ao redor de Kassel, além de amigos que forneceram histórias diretamente.
- Dorothea Wild, futura esposa de Wilhelm, forneceu mais de uma dúzia de histórias, tendo sido ela e suas cinco irmãs iniciadas na tradição de fadas pela velha ama die alte Marie
- A família Hassenpflug chegou com um conjunto de contos de Hanau; Ludwig Hassenpflug casaria depois com Lotte Grimm
- A família von Haxthausen, residente na Vestfália e composta de oito filhos e seis filhas, contribuiu com numerosos contos após a publicação do primeiro volume
- Os irmãos buscaram materiais também em manuscritos medievais alemães e em Livros Populares e coleções da época de Lutero
- O mérito específico do trabalho de Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) foi o respeito acadêmico pelas fontes, em contraste com os coletores anteriores que manipulavam livremente os materiais folclóricos.
- Entre os românticos da geração precedente, a poesia popular era profundamente venerada: Novalis proclamou o conto de fadas a criação poética primária e mais elevada do homem
- Schiller escreveu que o conto da infância contém significado mais profundo do que a verdade ensinada pela vida
- Sir Walter Scott havia coletado e estudado as baladas da fronteira escocesa; Wordsworth cantou a Ceifeira
- Ninguém antes dos Grimm havia concebido uma abordagem essencialmente etnográfica que aceitasse as irregularidades, a rudeza e a simplicidade da fala popular
- Os irmãos Grimm desenvolveram sua ideia de forma já madura desde jovens, impulsionados pelo contato com manuscritos medievais na biblioteca do professor Friedrich Karl von Savigny e pelo encorajamento de Clemens Brentano e Ludwig Achim von Arnim.
- Brentano e Von Arnim haviam publicado em 1805 o primeiro volume de Des Knaben Wunderhorn, coleção de canção popular no estilo romântico
- Os Grimm auxiliaram nos volumes posteriores do Wunderhorn e simultaneamente decifravano e editavam manuscritos medievais
- A coleção de contos de fadas representava apenas uma fração do projeto imediato e seria como o salão popular de um museu etnológico, enquanto a pesquisa verdadeira avançava nos andares superiores
- A invasão de Kassel pelas tropas de Napoleão em 1806 criou o contexto adverso no qual os irmãos prosseguiram seu trabalho, vendo nos estudos do Antigo Alemão um meio de superar a depressão espiritual e contribuir para um dia melhor.
- Wilhelm registrou que os dias do colapso de todas as instituições existentes permaneceriam para sempre diante de seus olhos
- Pessoas pobres eram conduzidas pelas ruas em direção à morte enquanto língua e costumes estrangeiros dominavam as vias públicas
- Os irmãos permaneceram às suas mesas de trabalho para ressuscitar o presente por meio do passado
- Jacob obteve um pequeno emprego na Secretaria de Guerra graças ao seu francês, foi nomeado auditor do conselho de estado e superintendente da biblioteca privada de Jerônimo Bonaparte, e foi enviado a Paris em duas missões para reclamar acervos bibliográficos confiscados pelos franceses.
- O volume um dos Contos da Criança e do Lar apareceu no inverno da retirada de Napoleão da Rússia, em 1812
- O bibliotecário Langlès protestou indignado contra a presença de Jacob na Bibliothèque, onde este estudava manuscritos enquanto negociava sua restituição
- Em 1816, após participar do Congresso de Viena como secretário de legação, Jacob foi enviado novamente para reclamar outro tesouro de livros
- Wilhelm era menos vigoroso e positivo que Jacob, mas mais alegre e gentil, tendo sofrido de grave distúrbio cardíaco durante os anos da coleta; os dois viveram juntos a vida inteira, inclusive após o casamento de Wilhelm com Dortchen Wild em 1825.
- Na infância dormiam na mesma cama e trabalhavam na mesma mesa; como estudantes tinham duas camas e mesas no mesmo quarto
- O tio Jacob compartilhou a casa após o casamento, em tal harmonia que se poderia imaginar que as crianças eram propriedade comum
- É difícil dizer, quanto ao trabalho conjunto, onde Jacob terminava e Wilhelm começava
- Os retratos gravados dos irmãos mostram dois jovens de boa aparência, de olhar vivo e traços delicadamente modelados, com diferenças sutis de expressão que refletem seus temperamentos distintos.
- A testa de Wilhelm é maior, o queixo mais afiado, os olhos emanam de sobrancelhas arqueadas e ligeiramente contrariadas
- Jacob observa com maxilar mais firme e postura mais robusta e tranquila; seu cabelo é um pouco mais escuro e menos encaracolado
- As bocas de ambos, bem desenhadas, são idênticas; os dois apresentam as golas suaves e o corte de cabelo ao vento característicos do período
- Na divisão do trabalho sobre os contos, Jacob forneceu principalmente a iniciativa, o rigor acadêmico e o zelo incansável pela coleta, enquanto Wilhelm se encarregou da seleção, composição e aperfeiçoamento dos textos.
- Em 1809 os irmãos consideraram entregar os manuscritos a Brentano, mas Jacob desconfiava do hábito do amigo de reelaborar os materiais tradicionais com fantasia pessoal
- Achim von Arnim auxiliou e aconselhou, e foi ele quem encontrou o impressor Georg Andreas Reimer, em Berlim
- O método de Wilhelm consistia em observar as palavras e modos descritivos preferidos pelo povo e substituir as expressões abstratas ou literais por frases características colhidas nas estradas e nos caminhos
- Jacob inicialmente discordou, mas ao envolver-se cada vez mais nos estudos gramaticais, cedeu gradualmente a Wilhelm toda a responsabilidade sobre os contos
- O primeiro volume foi lançado no Natal, com dedicatória a Bettina, esposa de Achim von Arnim, para o filho dela; apesar de ser proibido em Viena como obra de superstição e de receber poucas e frias resenhas, a obra obteve sucesso imediato.
- Clemens Brentano declarou achar os materiais sem retoques desleixados e frequentemente enfadonhos
- Outros reclamaram da impertinência de certos contos
- Os irmãos Grimm produziram, de maneira imprevista, a obra-prima que todo o movimento romântico alemão pretendia criar
- O segundo volume apareceu em janeiro de 1815, e a obra passou por sucessivas edições ampliadas e melhoradas ao longo de décadas, sendo traduzida para numerosas línguas e difundindo-se até comunidades nativas da África, México e Mares do Sul.
- A segunda edição, de 1819, incluiu introdução de Wilhelm intitulada Sobre a Natureza dos Contos Populares
- Em 1822 surgiu um terceiro volume de comentários com estudo comparativo-histórico aprofundado, revisado em sua edição final em 1856 e inteiramente renovado por Johannes Bolte e Georg Polívka em cinco volumes
- Os irmãos publicaram uma seleção de cinquenta favoritos em 1825; novas melhorias foram registradas nas edições de 1837, 1840, 1843, 1850 e 1857
- Traduções em dinamarquês, sueco e francês vieram quase imediatamente, seguidas pelo holandês, inglês, italiano, espanhol, tcheco, polonês, russo, búlgaro, húngaro, finlandês, estoniano, hebraico, armênio e esperanto
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