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Gnosticismo – Couliano Gnoses Dualistas

COULIANO, Ioan P. The tree of gnosis: gnostic mythology from early Christianity to modern nihilism. 1st HarperCollins ed ed. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1992

  • Recorrência do Motivo da Dupla Paternidade na Narrativa Religiosa
    • Sigmund Freud observa a recorrência do motivo da dupla paternidade em religiões e contos de fadas, interpretando-a como uma manifestação do complexo de Édipo, onde o pai real é suprimido em favor da ênfase no Pai divino.
    • Franz Kafka e Elie Wiesel são exemplos de figuras que lutaram com a figura paterna real e divina, respectivamente.
    • O teólogo cristão primitivo Marcion elaborou uma solução singular para esse conflito, distinguindo entre o Demiurgo, pai real da humanidade, e o Deus supremo e desconhecido, Pai de nada.
  • As Fontes para o Estudo de Marcion e do Marcionismo
    • As fontes sobre Marcion são indiretas, compiladas principalmente por Adolf von Harnack em sua obra fundamental.
    • Novas evidências decisivas não foram descobertas desde então.
    • Informações provêm de heresiólogos dos séculos II e III, como Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, Hipólito e Orígenes.
    • No século IV, o Marcionismo desapareceu no Ocidente e foi alvo de apologistas cristãos orientais, sírios e armênios.
    • A obra capital contra Marcion é o tratado polêmico em cinco livros “Contra Marcion”, de Tertuliano de Cartago, escrito após 207-208 d.C.
    • Tertuliano, um retórico, empregou clichés e denúncias, fornecendo informações escassas e deformadas por um forte viés polêmico.
  • A Doutrina de Marcion segundo Tertuliano

    • O ponto de partida de Marcion é a teodiceia, questionando a origem do mal (“unde malum?”).
    • Sua resposta baseia-se na parábola das duas árvores (Lucas 6:43), concluindo que o bem e o mal não têm uma origem comum.
    • Identifica o Deus bíblico (Isaías 45:7) como a “árvore má”, um deus justo, mas não bom.

    O Deus bom é naturalmente desconhecido (naturaliter ignotus).

    • A criação do mundo e da humanidade é de baixa qualidade devido à Matéria e ao Oponente maligno que nela habita.
    • Tertuliano acusa Marcion de postular nove princípios, incluindo o Deus bom, o Espaço e a Matéria celeste para sua morada, o Salvador Cristo, o Demiurgo, seu Espaço, a Matéria mundana, o Oponente maligno e o Messias dos judeus.
    • Cristo, para Marcion, não teve um corpo material real (docetismo fantasiástico), mas sofreu verdadeiramente para redimir a humanidade.
    • A salvação é alcançada através de rigoroso ascetismo, incluindo encratismo (rejeição do matrimônio) e jejuns.
    • A obra de Marcion, “Antíteses”, buscava demonstrar a discordância entre o Novo e o Antigo Testamento.
    • Seu cânon do Novo Testamento incluía apenas o Evangelho de Lucas (purificado) e dez epístolas paulinas, rejeitando o Antigo Testamento e outros textos por considerá-los adulterados.
  • A Interpretação de Adolf von Harnack sobre Marcion
    • Harnack via Marcion como um teólogo bíblico radical e um reformador, um precursor de Lutero.
    • A exegese marcionita iniciava com a discordância entre os Testamentos, fundamentada numa leitura intencional da Epístola aos Gálatas.
    • Paulo era considerado o único apóstolo verdadeiro, superior aos “superapóstolos” de Jerusalém.
    • A antítese paulina entre Fé e Lei tornou-se a base para a oposição entre dois Deuses e dois Mundos.
    • Marcion realizou uma operação filológica e lógica para purificar os textos, eliminando contradições.
    • O Antigo Testamento era um documento histórico sobre o mundo inferior e seu deus criador, um tirano inferior que promulga a lei da vingança.
    • A revelação do Deus bom traz uma “nova aliança”, “nova vida” e novos valores, invertendo os do mundo velho.
    • A antropologia de Marcion é profundamente pessimista: a humanidade, criada pelo Demiurgo a partir de matéria inferior, é a criatura mais infeliz.
    • A revelação do Deus bom é totalmente gratuita e imerecida.
    • Cristo sofreu, morreu e desceu ao inferno, salvando aqueles que, pelo código do Demiurgo, mereciam tormentos, mas não os patriarcas e profetas justos para o Demiurgo.
    • A ética marcionita era heroica, encrática, com hierarquia funcional, ascetismo rigoroso e acesso das mulheres ao magistério.
    • A igreja marcionita foi uma forte concorrente da Católica no século II, declinando no Ocidente no século IV e sendo absorvida pelo Maniqueísmo. No Oriente, sobreviveu em comunidades rurais até o século V.
  • Interpretações Acadêmicas Modernas sobre Marcion
    • A interpretação de Harnack de Marcion como reformador racionalista ainda tem adeptos, sendo radicalizada por R. Joseph Hoffmann.
    • Uma segunda tradição académica, representada por E. C. Blackman, Ugo Bianchi e Barbara Aland, prefere ver Marcion como um gnóstico.
    • Uma terceira direção, seguindo a alegação de Tertuliano, enfatiza influências filosóficas, como o Platonismo Médio (R. M. Grant) ou o Epicurismo (J. G. Gager).
  • A Estrutura do Dualismo Marcionita
    • O sistema de Marcion funda-se na oposição entre o Deus bom e o Demiurgo inferior, justo mas não bom.
    • A introdução da Matéria como um terceiro princípio gera uma contradição.
    • O dualismo é complexo: dois sistemas (mundo superior e inferior) opostos sem conexão, com tensão explosiva interna no mundo inferior entre o Demiurgo e a dupla Diabo-Matéria.
    • Marcion utiliza a exegese inversa da Bíblia, mas aceita a verdade histórica literal do Antigo Testamento.
    • Diferencia-se dos gnósticos por negar qualquer consubstancialidade entre a humanidade e o Deus superior, levando a um pessimismo antropológico radical.
    • O ponto de partida comum com os gnósticos era a inferioridade do Demiurgo, mas Marcion deduziu isso da tradição paulina e de argumentos bíblicos, não da razão filosófica.
  • Revisões Doutrinárias pelos Discípulos de Marcion
    • Discípulos de Marcion tentaram resolver as incoerências e contradições de seu sistema.
    • Megetius propôs três princípios (Deus bom, Demiurgo intermediário e Diabo) correspondendo a cristãos, judeus e pagãos.
    • Outros marcionitas professavam quatro princípios (Deus bom, Demiurgo, Matéria e Mal).
    • Prepon confluiu os dois Messias em um único Cristo, mediador entre o bem e o mal.
    • Apeles, o discípulo mais importante, negou a existência de dois princípios e enfatizou a monarquia de Deus, atribuindo a criação do mundo a um anjo chamado Senhor, que era o deus do Antigo Testamento.
    • Apeles adotou uma doutrina do corpo de Cristo consistindo de elementos estelares puros e seguiu as revelações da profetisa Filumena.
    • Sua pregação foi mais radicalmente antijudaica e menos anticósmica do que a de Marcion.
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