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Gnosticismo – Couliano Gnoses Dualistas

A intenção aqui não é resumir o debate em torno do niilismo, um conceito que apareceu em 1799 e continua a ser uma opção muito viva. Bastará esboçar em poucas linhas a essência deste “inquietante hóspede” (Nietzsche) que veio bater à porta de nossa civilização no surgimento da era moderna. Deve-se abordar a obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (morto em 1900) a fim de buscar um veredito sobre a “morte de Deus”.

Nietzsche, como precursor da nova era, sente e proclama que a transcendência da fé cristã-platônica que dominou a civilização ocidental por mais de dois mil anos tornou-se vazia, esgotou sua força vital e criatividade. Obviamente isso significa a liberação da humanidade da transcendência, no entanto o que permanece sem transcendência é o nada (das Nichts, ou o nihil dos Cátaros) e a liberação torna-se “liberação para o nada” (Befreiung in das Nichts). Sob estas circunstâncias, há duas alternativas: ou encontrar um substituto ou Ersatz para a transcendência – e este substituto é a crença da Ilustração na Razão (Vernunftiglauben), que não é um “valor sólido” por ser desprovida de qualquer justificação metafísica – ou aceitar o niilismo como uma força ativa e tornar-se seu instrumento. Isto é definido por Nietzsche, com um trocadilho intraduzível, como um “desconstruir”: “man legt Hand an, man richtet zugrunde”. O verbo richten significa “construir”, zugrunde significa “até o chão”, e sua combinação, “demolir, desconstruir, construir até o chão”.

Se o niilismo é o estado que decorre da “desconstrução” da transcendência e a atitude que persegue a transcendência para “construí-la até o chão”, então estamos autorizados a notar que o Gnosticismo é o inverso do niilismo, por ser o campeão da transcendência. Tornou-se aparente que uma das características mais relevantes do Gnosticismo e de todas as outras tendências do dualismo ocidental é a afirmação extrema e extremista da transcendência às custas do mundo físico. Se se persistir em chamar estas tendências de niilistas, então deve-se definir seu niilismo como o mais poderoso niilismo metafísico na história das ideias ocidentais. O niilismo moderno, em contraste, é antimetafísico.

Aqui, no entanto, intervém uma circunstância que faz os dois – Gnosticismo e niilismo moderno – assemelharem-se muito: o fato de que, para propósitos que são inversos um do outro, os dois ativamente “constroem até o chão” a mesma transcendência, a saber, a judaico-platônica como incorporada em quase dois milênios de Cristianismo. Para o dualismo ocidental, esta é a falsa transcendência que deve ser desmascarada e demolida a fim de proclamar a verdadeira transcendência; para o niilismo moderno, esta transcendência é igualmente falsa, porque é uma construção mental que nos protegeu do fato duro do niilismo por bem mais de dois milênios; ela também deve ser desmascarada e “construída até o chão”. Isto explica muitos traços que as duas formas inversas de niilismo – a metafísica e a antimetafísica – compartilham, o mais conspicuo sendo seu constante ataque às Escrituras Cristãs, a incorporação, para ambos, de uma transcendência falaciosa.

Consequentemente, no surgimento da era moderna, o sistema de exegese bíblica inversa foi mais uma vez ativado e continua a produzir soluções de acordo com as mesmas regras do jogo (ver Árvore da Gnose), quase como se não houvesse interrupção entre os antigos gnósticos e o Romantismo. Isto explica as impressionantes analogias entre as mitologias dualistas e as narrativas míticas românticas. De um ponto de vista sistêmico, pode-se acrescentar que o jogo do niilismo moderno começa a partir de uma regra que é o extremo oposto da regra que produz cenários dualistas, mas atinge conclusões que são formalmente idênticas na medida em que reconhece a necessidade de aniquilar o conceito (cristão) atual de “valor”. Assim, os dois sistemas diferem por sua primeira e principal opção – afirmar versus negar a transcendência; no entanto, a primeira alternativa é mais complexa, na medida em que a afirmação da transcendência anda junto com uma negação do conceito comum de transcendência, a cristã (judaico-platônica).

Se o sistema do niilismo moderno começa com um poderoso substituto para a transcendência, que é a crença na Razão, descobre mais cedo ou mais tarde que não há valor se não houver um metassistema no qual o valor é definido. Esta é a experiência dos filósofos existencialistas e é novamente o equivalente espelhado da experiência dualista, na medida em que ambos reconhecem a necessidade de transcendência; mas o dualismo a afirma e o existencialismo queixa-se de sua completa ausência. Um escritor como Albert Camus faria uso constante de metáforas dualistas gnósticas nos títulos de suas principais obras: Exílio e Reino, O Estrangeiro, A Queda.

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