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mitologia:couliano:psychanodia:demonizacao-dualismo:inferno

2 Inferno Celeste

Demonização e Dualidade

  • A origem da representação do inferno celeste permanece em aberto, com Héraclide do Ponto como autor provável mas sem certezas, e o papel do estoicismo no deslocamento do Hades subterrâneo para o alto ainda suscita suspeitas, sendo Posidônio descartado como autor da doutrina.
    • Héraclide do Ponto é apontado como autor provável da concepção do inferno celeste.
    • O estoicismo é suspeito de ter contribuído para o deslocamento do Hades subterrâneo para as regiões superiores.
    • Posidônio é explicitamente excluído da autoria dessa doutrina.
  • As transformações do inferno celeste permitem distinguir fenomenologicamente dois tipos: um localizado nos céus, consequência da “uranização” da escatologia, e outro situado na terra ou na zona sublunar, resultante da combinação entre imortalidade celeste e desvalorização da existência terrestre.
    • O inferno localizado nos céus deriva da tendência geral de transferir a escatologia para o alto.
    • O inferno na zona sublunar ou terrestre resulta da conjugação entre imortalidade celeste e desvalorização da vida terrena.
  • O dualismo platônico incorpora a ideia da terra como vale de lágrimas, mas essa concepção antecede Platão em Empédocles e Eurípides, e seus três temas constitutivos – mundo sublunar corruptível, corpo como prisão da alma e pecado original – têm origens disputadas entre orfismo e pitagorismo.
    • Empédocles descreve o mundo como terra estranha habitada pelo assassinato, a cólera e múltiplas misérias.
    • Eurípides e Empédocles sustentam que a vida é morte e que a morte abre acesso à vida verdadeira.
    • Os três temas constitutivos são: mundo sublunar sujeito à mudança e à corrupção; corpo como prisão da alma; pecado ou falta que explica a queda do homem.
    • Apenas o terceiro tema – o pecado – é considerado de origem seguramente órfica.
  • A teoria de origem pitagórica da separação entre mundo sublunar e supralunar perdeu todo crédito, sendo atribuída a Aristóteles, embora um acusma pitagórico transmitido por Jâmblico localize as Ilhas dos Bem-aventurados no Sol e na Lua, e os pitagóricos tenham sido associados à crença em um purgatório atmosférico atravessado pelas almas.
    • A separação entre mundo sublunar e supralunar pertence, muito provavelmente, apenas a Aristóteles.
    • O acusma pitagórico transmitido por Jâmblico identifica as Ilhas dos Bem-aventurados com o Sol e a Lua.
    • Os pitagóricos são associados à crença de que o ar é habitado por demônios e de que as almas devem atravessá-lo para atingir a beatitude celeste.
    • Burkert aceita a autenticidade geral do acusma, mas observa que as Ilhas dos Bem-aventurados não fazem parte do Hades pitagórico.
    • A distinção entre zona incorruptível além da Lua e vale de lágrimas aquém dela parece derivar do sistema das esferas homocêntricas e da cosmologia aristotélica.
    • A hipótese de uma tripartição cósmica pitagórica – Hades subterrâneo, purgatório aéreo, Ilhas celestes dos Bem-aventurados – carece de testemunhos suficientes e seguros.
  • A metempsicose, atribuída a Pitágoras pela fonte mais antiga (Xenófanes, segundo Diógenes Laércio), aparece em Píndaro, Empédocles, Heródoto e Platão, é também associada aos órficos e aos egípcios, e pressupõe uma concepção pessimista da vida terrestre que implica o antissomatismo mas não necessariamente o anticosmismo.
    • Xenófanes, em Diógenes Laércio, é a fonte mais antiga a atribuir a metempsicose a Pitágoras.
    • A doutrina aparece em Píndaro, Empédocles, Heródoto e Platão.
    • Burkert sugere que se trata de doutrina do sul da Itália, resultante do retrabalho do orfismo pelo próprio Pitágoras.
    • A metempsicose implica o antissomatismo (corpo como prisão da alma), mas não implica automaticamente o anticosmismo (transformação do mundo natural em puro inferno).
  • No célebre passo platônico sobre o soma-sema, distinguem-se duas doutrinas diferentes – uma órfica (soma-phrourá) e outra pitagórica –, sendo os pitagóricos apontados como verdadeiros autores do jogo de palavras, embora o texto atribua aos órficos seu uso e interpretação.
    • O passo platônico do soma-sema contém alusão a duas doutrinas distintas.
    • Apenas a doutrina soma-phrourá (corpo como prisão) é considerada órfica.
    • Os pitagóricos são apontados como verdadeiros autores da concepção.
  • O “pecado” que causou a queda do homem pertence propriamente à literatura órfica, com alusões em Empédocles e Píndaro, mas o mito do esquartejamento de Dionísio pelos Titãs não é atestado antes do século III, e Dodds demonstrou que Platão conhecia esse mito, sendo os palaioi theologoi te kai manteis de Filolau identificados com os órficos.
    • Empédocles e Píndaro contêm alusões ao pecado, mas sem ligação direta segura com o mito órfico.
    • O mito do esquartejamento de Dionísio pelos Titãs não é atestado em fontes anteriores ao século III.
    • Dodds demonstrou que Platão conhecia esse mito.
    • Os palaioi theologoi te kai manteis de Filolau são identificados com os órficos, que sustentam que a alma é sepultada no corpo como punição por certos pecados.
  • A doutrina da ruptura negativa de uma situação primordial implica necessariamente o dualismo, e a metempsicose torna logicamente o inferno supérfluo – pois a existência terrestre passa a exercer esse papel –, embora em Platão o inferno subterrâneo continue a funcionar como lugar de punição temporária ou permanente dos pecadores e dos condenados.
    • A “queda da alma” é uma das formulações centrais do dualismo platônico.
    • A metempsicose tornaria o inferno logicamente supérfluo, já que a existência terrestre passa a desempenhar seu papel.
    • Em Platão, o inferno subterrâneo mantém sua função como lugar de punição temporária ou permanente.
  • O motivo do inferno celeste está ausente em Platão, mas pode derivar de sua escatologia celeste, reelaborada por Xenócrates, Crântor ou Héraclide do Ponto, sendo este último o que obteve reconhecimento recente depois de longa permanência na sombra dos dois primeiros.
    • Xenócrates e Crântor são indicados como possíveis reelaboradores da escatologia celeste platônica.
    • Héraclide do Ponto, por longo tempo eclipsado pelos dois primeiros, obteve reconhecimento recente.
  • Posidônio de Apameia foi durante muito tempo apontado como propagador do inferno celeste, por sua física estoica ser incompatível com a escatologia subterrânea e por ter combinado dados estoicos com o pitagorismo platonizante e as crenças astrais orientais, mas Jones e sobretudo Boyancé desferiram o golpe fatal a essas especulações.
    • A física estoica é incompatível com a escatologia subterrânea: a alma, sendo sopro ardente, tende naturalmente a se elevar.
    • Posidônio, mestre de Cícero, teria combinado dados estoicos, pitagorismo platonizante e crenças astrais orientais.
    • Cumont formulou as principais teses sobre Posidônio; Reinhardt aceitou algumas; outras foram criticadas.
    • Jones e Boyancé refutaram definitivamente as especulações sobre o mal conhecido Posidônio.
  • Descartada a candidatura de Posidônio, Héraclide do Ponto passa a ocupar o lugar de suposto autor da substituição do inferno subterrâneo pelo inferno celeste, sendo-lhe atribuída a transformação da escatologia platônica.
    • A hipótese dominante hoje substitui Posidônio por Héraclide como responsável pelo inferno celeste.
    • A Héraclide é atribuída especificamente a substituição do inferno subterrâneo pelo inferno celeste.
  • Héraclide do Ponto, nascido em Heracleia Pôntica entre 388 e 373, frequentou a Academia por volta de 364, e após fracassar na sucessão de Espeusipo em 338 retornou à sua cidade, onde tentou sem sucesso ser reconhecido como deus em vida ou após a morte, com as duas lendas transmitidas por Diógenes Laércio destituídas de valor histórico ou mitológico por sua excessiva racionalização.
    • Héraclide teria frequentado a Academia em 364 ou antes.
    • Após perder a sucessão de Espeusipo em 338, retornou a Heracleia Pôntica.
    • Tentou, na tradição dos iatromantes, passar por deus em vida ou ao menos após a morte.
    • As duas lendas transmitidas por Diógenes Laércio são excessivamente racionalizadas e perdem todo valor histórico e mitológico.
  • Um tratado perdido de Héraclide, contendo histórias de catalépticos célebres como Hermótimo de Clazômenas, Epimênides de Creta, Aristeu de Proconeso, Ábaris e Pitágoras, estaria na base da concepção do inferno celeste, sendo o personagem fictício Empédotimo o porta-voz dessas ideias.
    • Os catalépticos mencionados no tratado são Hermótimo de Clazômenas, Epimênides de Creta, Aristeu de Proconeso, Ábaris e Pitágoras.
    • Empédotimo é o personagem fictício por meio do qual Héraclide expõe a doutrina.
  • Entre os testemunhos sobre a doutrina de Empédotimo, apenas dois ou três o designam como autor do motivo do inferno celeste: Filópono associa a Via Láctea à “via das almas que atravessa o Hades nos céus”; Olimpiodoro afirma que o reino de Plutão abrange tudo abaixo da esfera solar; e Bolton atribui a Numênio, via Proclo, a crença de que as almas habitam a Via Láctea.
    • Filópono (ad Arist. Meteor. I 8) registra que Empédotimo chamou a Via Láctea de “via das almas que atravessa o Hades nos céus”.
    • Olimpiodoro (in Plat. Phaed. 238) afirma que, segundo Empédotimo, o reino de Plutão abrange tudo abaixo da esfera do sol.
    • Bolton identifica em Numênio, via Proclo (in Plat. Remp. II 129 Kroll), a atribuição a Héraclide da crença de que as almas habitam a Via Láctea.
  • Proclo narra uma história atribuída a Clearco de Solos sobre a morte aparente de Cleônimo de Atenas, cuja alma, liberada do corpo, contempla os espaços siderais, a terra vista de cima e as almas julgadas, punidas e purificadas pelas Erínias, reencontrando no espaço sideral outro cataléptico siracusano.
    • A alma de Cleônimo contempla a terra de cima e rios que nenhum mortal pode ver.
    • No espaço sideral, Cleônimo encontra um siracusano, também cataléptico.
    • Ambos testemunham almas julgadas, punidas e purificadas sob o controle das Erínias.
    • Ao retornar, combinam reconhecer-se mutuamente em pessoa.
  • Bolton considera esse passo de Proclo um testemunho irrefutável do inferno celeste atribuído a Clearco, contemporâneo de Héraclide e suposto influenciado por ele, mas os elementos aparentemente incompatíveis com o inferno subterrâneo – os rios invisíveis aos mortais e a punição das almas – encontram paralelos exatos nos grandes mitos platônicos da República e do Fédon, sem acrescentar nada de novo.
    • Bolton argumenta que Clearco, como contemporâneo de Héraclide, teria sido influenciado por suas ideias.
    • Os rios “que nenhum mortal pode ver” estão, no texto, situados na terra, não nos céus.
    • O julgamento e a punição das almas reproduzem o esquema do livro X da República, onde Er assiste ao julgamento numa zona entre as “bocas do céu” e as “bocas da terra”.
    • A purificação das almas por calores e frios terríveis, o Prado do Meio e o Lete são elementos platônicos sem novidade.
    • A visão da terra de cima é cópia do passo do Fédon 110b.
  • Em Plutarco, o inferno parece celeste nos relatos de Tespésio-Arideu de Solos e de Timarco de Queroneia, mas subsiste a referência ao Tártaro subterrâneo no De genio Socratis, o que indica que Plutarco não renunciou completamente ao inferno subterrâneo, mesmo tendo operado em geral uma transferência para cima do esquema infernal platônico.
    • Tespésio-Arideu de Solos e Timarco de Queroneia testemunham o destino dos mortos no “Hades no ar”.
    • No De genio Socratis, uma voz misteriosa instrui o jovem cataléptico sobre os malfeitores punidos no Tártaro, que o visionário não pode ver diretamente, seguindo o topos clássico da República.
    • Não há razão para supor que o Tártaro em Plutarco seja diferente do abismo subterrâneo tradicional.
  • Empédotimo, personagem de Héraclide, foi provavelmente o porta-voz da teoria do Hades celeste, mas é improvável que Clearco tenha compartilhado essas ideias, e a fidelidade aos modelos platônicos permanece muito forte nos textos de Cícero, Sêneca e do pseudo-aristotélico De mundo, citados por Bolton, sendo a influência de Héraclide sobre as concepções religiosas de seu tempo e dos séculos seguintes imprecisa e bastante modesta.
    • Clearco provavelmente não compartilhou as ideias de Héraclide sobre o Hades celeste.
    • Cícero, Sêneca e o De mundo pseudo-aristotélico, citados por Bolton, permanecem fiéis aos modelos platônicos.
    • A influência de Héraclide sobre a transformação das concepções religiosas de sua época é imprecisa e modesta.
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