Ordem e desordem das esferas
1. As mentes mais eminentes da época de Basilides, Numênio, Celso e dos dois Julianos (o Caldeu e seu filho, o Teúrgo) eram atormentadas por uma questão que encontrará pouca compreensão, e ainda menos indulgência, entre nós: como a alma desce do céu para encarnar em um invólucro mortal e por que caminho ela retorna à sua pátria celestial? Os escritos herméticos e gnósticos, e depois o neoplatonismo de Plotino a Proclo, compartilham o interesse pelo mistério fundamental do nascimento e seu equivalente inverso: a morte. Pois, se o nascimento é uma “inclinação” ou uma descida à terra, a morte só pode ser seu contrário: uma ascensão seguindo o mesmo caminho, até o lugar de origem da alma indestrutível.
A doutrina varia de acordo com as correntes espirituais e os autores considerados. Para A. J. Festugière, ela tem duas variantes principais: uma variante “demonizada”, que se encontra no hermetismo e no gnosticismo e que pressupõe a aquisição gradual, por parte da alma, de vícios planetários durante sua descida, e sua deposição durante a ascensão; e uma variante “normal”, presente principalmente no neoplatonismo, em que a alma adquire qualidades nas esferas durante a descida, para se despojar delas durante a ascensão.
Em geral, os textos tratam apenas de um único momento do processo de cosmização-descosmização da alma, uma vez que o outro momento apenas inverte o desenrolar do primeiro, sem alterar sua estrutura.
